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10 mitos da indústria musical no Brasil

Músicos, produtores e empresários discutem sobre os mitos da nossa indústria

por Marcos Lauro em 19/01/2016

Com apoio de Maestro Billy

A indústria musical passa por constantes mudanças. E se dá melhor quem consegue se adaptar e não apenas seguir velhos clichês. Será mesmo que o seu grupo precisa estar na TV para fazer sucesso? Qual é o papel das gravadoras, atualmente, na carreira de uma banda? O sucesso ainda se mede pela vendagem de discos? Pedimos para especialistas em música comentarem sobre os mitos que pairam sobre as cabeças de artistas, produtores e todos aqueles que fazem música. Leia os mitos e as respostas de gente como Zeca Baleiro, Arnaldo Saccomani, Rick Bonadio e Carlos Eduardo Miranda, abaixo.

1 - Um contrato com uma gravadora vai te fazer um sucesso.

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Bom, esse mito tem lastro, afinal já houve um tempo em que o disco era meio que um passaporte para o "sucesso popular". Mas, naturalmente, havia superapostas que não vingavam e desacreditados que surpreendiam, aqui e acolá. De todo modo, há muito tempo, desde o início do declínio da indústria do disco, que esse mito se desfez. Hoje, gravar um disco já não tem o glamour de outrora, em parte porque a tecnologia democratizou o processo de confecção do disco (o que foi bom pros músicos). Mas com a superprodução, diluída e pulverizada, o disco (e o contrato com uma gravadora, hoje raríssimo) perdeu o charme. Meu selo nunca deu garantia de sucesso a ninguém [risos]. Nem poderia. É um projeto apaixonado, que viabiliza projetos com os quais me envolvo afetivamente. Nos dias de hoje, já é bastante. E ainda assim, é muito pouco.
Zeca Baleiro, músico e proprietário do selo Saravá Discos

2 - “Windowing” é efetivo.
Windowing é uma estratégia – de segurar o lançamento em streaming ou digital para privilegiar o formato físico – que funcionou em épocas de controle de informação (com poucos canais de mídia, que se restringia a algumas estações de rádio, um punhado de jornais e um número absolutamente menor de detentores de transmissão de vídeo) e um mercado mais controlado. Num passado pré-mundo digital funcionava, pois o “funil” era muito pequeno e para qualquer um ser produzido e lançado era necessário muito investimento financeiro e equipes gigantescas. Eles faziam isso pra “esquentar” o mercado durante essa “janela”. A ordem se inverteu por completo. Hoje o windowing (que nome terrível, aliás) existe, mas ao contrário. Há muito mais sentido em lançar primeiro a música no mercado digital e esperar um tempo para colher os frutos. A primeira coisa que um veículo de mídia (há exceções para os poucos que realmente fazem curadoria) vai checar é a “popularidade” ou “plays” ou “engajamento” para então ver que tipo de envolvimento será feito com o lançamento. A maravilha disso é tirar o domínio criativo e artístico da mão de quem quer controlar o que deverá ser ouvido e passar esse controle definitivamente ao público. Muitos artistas e novos executivos da música já perceberam isso e seguem essa cartilha. Exemplos não faltam. Veja Valesca Popozuda (“Beijinho No Ombro”) ou Racionais MCs (Cores E Valores), que são artistas que subverteram a ordem do negócio junto com seus executivos e parceiros atentos a esse momento. Alguém precisa avisar aos conservadores que essa “janela” está quebrada. O conceito clássico de “windowing” precisa ser enterrado, pois é – e sempre foi – prejudicial à música. Não deveria existir racionamento de música em tempos de compartilhamento. E não acho isso por idealismo social, é por puro negócio mesmo. Todos saem ganhando com seus objetivos, principalmente financeiros.
Arthur Fitzgibbon, manager da distribuidora ONErpm no Brasil

3 - Streaming é ruim para a música.
Desde sua fundação, em 2008, o Spotify gerou mais de US$ 3 bilhões em royalties para artistas, gravadoras, compositores e editoras musicais. Neste mesmo período, nosso maior concorrente – a pirataria – foi responsável por uma receita nula aos detentores de direitos. Atualmente, o Spotify, sozinho, possui mais de 75 milhões de usuários e é assim que conseguimos gerar uma renda significativa, usada para pagar a indústria, por meio de publicidade, assinaturas e merchandising. Acreditamos que a maneira mais eficiente de afastar os fãs de música da pirataria é dar o que eles querem – um acervo enorme, cada vez mais completo e de ótima qualidade na palma da mão. No mundo, a música digital já superou os outros formatos em termos de receita e, no Brasil, seguimos para o mesmo caminho. O crescimento da música digital é liderado pelo streaming, que em 2014 cresceu 29% em todo o mundo e 53% no Brasil.
Roberta Pate, responsável pela relação com artistas e gravadoras do Spotify Brasil

4 - Sua música tocar num programa de TV te fará famoso instantaneamente.

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Acho que novela ajuda – e muito. Mas se a canção não for top, não adianta nada... E tem de ser tema de um personagem que o povo goste.
Arnaldo Saccomani, produtor musical

5 - Fazer shows em lugares conhecidos te abre as portas pra mais lugares conhecidos.
A banda ou o artista tem que ser autênticos e identificar os locais onde seu público está. Nem sempre ele está no maior festival de música ou na maior casa noturna. Não estar nos principais festivais não significa não estar no topo da sua carreira ou ter o maior número de fãs – muitas vezes o maior palco não é o melhor. No Planeta Atlântida, o Palco Meca reflete exatamente este mito. A essência do Meca é formada por bandas mais alternativas ao pop e, neste ano, o palco vai receber Racionais, que tem seu público fiel, e Donavon Frankenreiter, que já passou por muitos festivais e se apresenta em praias ou lugares com menos recursos. Independentemente do festival ou do palco, o artista tem que saber e sentir qual é o seu lugar.
Rodrigo Mathias, gerente executivo do festival Planeta Atlântida

6 - Você terá uma carreira se aparecer em um concurso de cantores na TV.

10mitos-rick-bonadio

Os programas de TV com cantores e competições de novos talentos são uma grande oportunidade pra quem quer aparecer na música, mas eles não garantem que o candidato, mesmo ganhando, será sucesso. Isso está acontecendo no mundo todo: muitos programas e poucos grandes sucessos depois da final. Uma das razões é que a TV precisa de audiência e, nessa briga acirrada, acaba não mostrando o que o candidato tem realmente de melhor na sua essência artística. A parte emocional da competição também faz com que potenciais talentos não se saiam bem na hora da apresentação, diferente de quem está num palco com seu público ou no estúdio gravando suas músicas. A questão do planejamento do lançamento também tem pesado contra. Os artistas ganham o programa, mas as emissoras e gravadoras demoram muito pra lançar seus álbuns e, muitas vezes, quando ele finalmente acontece, o público já perdeu o interesse ou nem lembra quem era mesmo o ganhador do tal programa.
Rick Bonadio, produtor musical

7 - Se você marca um show, a galera vem.

10mitos-miranda

O artista tem que ir onde o público está. Sobraram dois lugares pro artista hoje: rua e internet. E tem que tirar proveito dos dois. Tem que se mexer. Precisa de estratégia, planejamento, conhecimento do caminho, da cena, do lugar de acordo com o tipo de som que o artista faz. Tem que procurar a sua turma. A história da arte acontece em turma. Quem ignora isso fica sozinho e sem apoio. Já é difícil pra quem está na cena! O maior erro é quem diz que não toca sem cachê. Na real, um artista toca pela experiência, pela visibilidade... Um festival que chama e dá uma ajuda de custo, por exemplo, [o artista] tem que aceitar. É uma aposta na carreira dele. Imagina o cara de uma casa noturna botar ele lá se não tem público. Tem banda que reclama que tem que vender [cota de] 20 ingressos e tal... Mas se um artista não tem 20 pessoas pra levar num show, tem que tocar na esquina, sei lá... O artista tem que se entender como empresário. Rolou uma discussão há algum tempo que era “artista = pedreiro". Mas eu acho mais: "artista = padeiro". Tem que comprar a farinha, contratar os funcionários, montar a loja, fazer pão todo dia... O investimento dele não é só comprar equipamento e estudar. É achar uma maneira de o público vê-lo. Se tiver que vender um carro pra fazer show, vende. O risco é dele e ninguém vai querer assumir. Procurar a turma é fundamental. O show é inevitável, mas não é só isso.
Carlos Eduardo Miranda, produtor musical

8 - Vendas de álbum valem alguma coisa.
As vendas de um álbum podem até significar o sucesso ou o fracasso de uma banda. Mas o que varia é se este sucesso será duradouro ou não. Isso dependerá do “tipo” de sucesso. Tem banda que consegue tornar uma música muito conhecida e, consequentemente, vende muitas cópias de somente um álbum. Nos tempos atuais, com as plataformas de streaming, isso tem acontecido cada vez menos. Os usuários, em sua maioria, se satisfazem escutando somente a música que desejam.
Henrique Portugal, músico, tecladista do Skank

9 - Ou você está na batalha ou você é um sucesso.
Trabalhar com música tem suas maravilhas e bênçãos, mas tem seus ossos. Você pode ter muito sucesso, grana ou então nenhuma fama e ter que explicar toda a semana pra sua mãe o que você faz e ver no rosto dela que ela não entendeu! Certa vez, ainda jovenzinho, olhei para um amigo que toca baixo de pau e perguntei: “Como você consegue carregar esse instrumento?”. Sem pestanejar ele respondeu: “Isso é parte de minha vocação!”. Me calei. Sim, você não pode nunca depender de ar condicionado e conforto para ser um profissional. Definitivamente não seria profissional. Ver até mesmo o triunfo público de “nulidades” pode ser duro para o músico, DJ, compositor, engenheiro de áudio competente e estudado. Mas digo a você que fama não é profissão, é status. E, na maioria das vezes, um prêmio a mediocridade. Os melhores músicos, produtores, engenheiros de áudio, professores que conheço não têm fama alguma, mas são pessoas realizadas materialmente e profissionalmente. Eu fui aluno do saudoso e grande mestre do violão erudito Henrique Pinto, que formou gerações e viveu bem, uma vida boa e confortável. Mas nunca o vi na novela da Globo ou no Fantástico! Os exemplos são muitos. Mesmo eu, que criei e formei meus filhos como dono de estúdio, engenheiro de áudio e produtor musical. Nem minha mulher conseguiu reclamar. Mas minha mãe…
Betho Ieesus, engenheiro de áudio e produtor musical no Sun Trip Estúdio

10 - Só a música é o que importa.
A música, há algum tempo, deixou de ser o ponto mais importante do processo. Com a profissionalização e a massificação do pop, tudo que vai além da música é usado à exaustão pra chamar a atenção do público. Seja o visual, o figurino, as causas, o discurso... tudo isso conta para o sucesso ou não de um artista. Um dos exemplos mais claros pode ser a trajetória do DJ, como profissional, com o passar dos anos. Até meados dos anos 1980, as pessoas iam até uma casa noturna (ou “boate”, “discoteca”, termos da época) por causa do DJ. Porque aquele determinado DJ recebia discos exclusivos de fora do Brasil ou então produzia os seus próprios remixes. E aquilo tornava a noite diferente. As pessoas procuravam a música exclusiva, aquele som que elas só conseguiriam ouvir com aquele DJ. Hoje é muito diferente. O DJ ainda é um astro, mas perdeu a exclusividade. O remix que ele toca hoje, amanhã já estará em outra pista, com outro DJ. Somente em nichos muito direcionados, como o drum ‘n’ bass, você encontra DJs que ainda têm seus materiais exclusivos. Todo o restante foi pulverizado. Arrisco dizer que a personalidade de uma banda ou artista vale mais do que sua música. O público, de alguma maneira subjetiva que ainda não conseguiu ser explicada de uma forma convincente, consegue sacar quem é de verdade e quem é de mentira, quem é artista e quem foi treinado para ser artista. E o público não perdoa.
Marcos Lauro, editor da Billboard Brasil

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
2
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
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10 mitos da indústria musical no Brasil

Músicos, produtores e empresários discutem sobre os mitos da nossa indústria

por Marcos Lauro em 19/01/2016

Com apoio de Maestro Billy

A indústria musical passa por constantes mudanças. E se dá melhor quem consegue se adaptar e não apenas seguir velhos clichês. Será mesmo que o seu grupo precisa estar na TV para fazer sucesso? Qual é o papel das gravadoras, atualmente, na carreira de uma banda? O sucesso ainda se mede pela vendagem de discos? Pedimos para especialistas em música comentarem sobre os mitos que pairam sobre as cabeças de artistas, produtores e todos aqueles que fazem música. Leia os mitos e as respostas de gente como Zeca Baleiro, Arnaldo Saccomani, Rick Bonadio e Carlos Eduardo Miranda, abaixo.

1 - Um contrato com uma gravadora vai te fazer um sucesso.

10mitos-zeca-baleiro

Bom, esse mito tem lastro, afinal já houve um tempo em que o disco era meio que um passaporte para o "sucesso popular". Mas, naturalmente, havia superapostas que não vingavam e desacreditados que surpreendiam, aqui e acolá. De todo modo, há muito tempo, desde o início do declínio da indústria do disco, que esse mito se desfez. Hoje, gravar um disco já não tem o glamour de outrora, em parte porque a tecnologia democratizou o processo de confecção do disco (o que foi bom pros músicos). Mas com a superprodução, diluída e pulverizada, o disco (e o contrato com uma gravadora, hoje raríssimo) perdeu o charme. Meu selo nunca deu garantia de sucesso a ninguém [risos]. Nem poderia. É um projeto apaixonado, que viabiliza projetos com os quais me envolvo afetivamente. Nos dias de hoje, já é bastante. E ainda assim, é muito pouco.
Zeca Baleiro, músico e proprietário do selo Saravá Discos

2 - “Windowing” é efetivo.
Windowing é uma estratégia – de segurar o lançamento em streaming ou digital para privilegiar o formato físico – que funcionou em épocas de controle de informação (com poucos canais de mídia, que se restringia a algumas estações de rádio, um punhado de jornais e um número absolutamente menor de detentores de transmissão de vídeo) e um mercado mais controlado. Num passado pré-mundo digital funcionava, pois o “funil” era muito pequeno e para qualquer um ser produzido e lançado era necessário muito investimento financeiro e equipes gigantescas. Eles faziam isso pra “esquentar” o mercado durante essa “janela”. A ordem se inverteu por completo. Hoje o windowing (que nome terrível, aliás) existe, mas ao contrário. Há muito mais sentido em lançar primeiro a música no mercado digital e esperar um tempo para colher os frutos. A primeira coisa que um veículo de mídia (há exceções para os poucos que realmente fazem curadoria) vai checar é a “popularidade” ou “plays” ou “engajamento” para então ver que tipo de envolvimento será feito com o lançamento. A maravilha disso é tirar o domínio criativo e artístico da mão de quem quer controlar o que deverá ser ouvido e passar esse controle definitivamente ao público. Muitos artistas e novos executivos da música já perceberam isso e seguem essa cartilha. Exemplos não faltam. Veja Valesca Popozuda (“Beijinho No Ombro”) ou Racionais MCs (Cores E Valores), que são artistas que subverteram a ordem do negócio junto com seus executivos e parceiros atentos a esse momento. Alguém precisa avisar aos conservadores que essa “janela” está quebrada. O conceito clássico de “windowing” precisa ser enterrado, pois é – e sempre foi – prejudicial à música. Não deveria existir racionamento de música em tempos de compartilhamento. E não acho isso por idealismo social, é por puro negócio mesmo. Todos saem ganhando com seus objetivos, principalmente financeiros.
Arthur Fitzgibbon, manager da distribuidora ONErpm no Brasil

3 - Streaming é ruim para a música.
Desde sua fundação, em 2008, o Spotify gerou mais de US$ 3 bilhões em royalties para artistas, gravadoras, compositores e editoras musicais. Neste mesmo período, nosso maior concorrente – a pirataria – foi responsável por uma receita nula aos detentores de direitos. Atualmente, o Spotify, sozinho, possui mais de 75 milhões de usuários e é assim que conseguimos gerar uma renda significativa, usada para pagar a indústria, por meio de publicidade, assinaturas e merchandising. Acreditamos que a maneira mais eficiente de afastar os fãs de música da pirataria é dar o que eles querem – um acervo enorme, cada vez mais completo e de ótima qualidade na palma da mão. No mundo, a música digital já superou os outros formatos em termos de receita e, no Brasil, seguimos para o mesmo caminho. O crescimento da música digital é liderado pelo streaming, que em 2014 cresceu 29% em todo o mundo e 53% no Brasil.
Roberta Pate, responsável pela relação com artistas e gravadoras do Spotify Brasil

4 - Sua música tocar num programa de TV te fará famoso instantaneamente.

10mitos-saccomani

Acho que novela ajuda – e muito. Mas se a canção não for top, não adianta nada... E tem de ser tema de um personagem que o povo goste.
Arnaldo Saccomani, produtor musical

5 - Fazer shows em lugares conhecidos te abre as portas pra mais lugares conhecidos.
A banda ou o artista tem que ser autênticos e identificar os locais onde seu público está. Nem sempre ele está no maior festival de música ou na maior casa noturna. Não estar nos principais festivais não significa não estar no topo da sua carreira ou ter o maior número de fãs – muitas vezes o maior palco não é o melhor. No Planeta Atlântida, o Palco Meca reflete exatamente este mito. A essência do Meca é formada por bandas mais alternativas ao pop e, neste ano, o palco vai receber Racionais, que tem seu público fiel, e Donavon Frankenreiter, que já passou por muitos festivais e se apresenta em praias ou lugares com menos recursos. Independentemente do festival ou do palco, o artista tem que saber e sentir qual é o seu lugar.
Rodrigo Mathias, gerente executivo do festival Planeta Atlântida

6 - Você terá uma carreira se aparecer em um concurso de cantores na TV.

10mitos-rick-bonadio

Os programas de TV com cantores e competições de novos talentos são uma grande oportunidade pra quem quer aparecer na música, mas eles não garantem que o candidato, mesmo ganhando, será sucesso. Isso está acontecendo no mundo todo: muitos programas e poucos grandes sucessos depois da final. Uma das razões é que a TV precisa de audiência e, nessa briga acirrada, acaba não mostrando o que o candidato tem realmente de melhor na sua essência artística. A parte emocional da competição também faz com que potenciais talentos não se saiam bem na hora da apresentação, diferente de quem está num palco com seu público ou no estúdio gravando suas músicas. A questão do planejamento do lançamento também tem pesado contra. Os artistas ganham o programa, mas as emissoras e gravadoras demoram muito pra lançar seus álbuns e, muitas vezes, quando ele finalmente acontece, o público já perdeu o interesse ou nem lembra quem era mesmo o ganhador do tal programa.
Rick Bonadio, produtor musical

7 - Se você marca um show, a galera vem.

10mitos-miranda

O artista tem que ir onde o público está. Sobraram dois lugares pro artista hoje: rua e internet. E tem que tirar proveito dos dois. Tem que se mexer. Precisa de estratégia, planejamento, conhecimento do caminho, da cena, do lugar de acordo com o tipo de som que o artista faz. Tem que procurar a sua turma. A história da arte acontece em turma. Quem ignora isso fica sozinho e sem apoio. Já é difícil pra quem está na cena! O maior erro é quem diz que não toca sem cachê. Na real, um artista toca pela experiência, pela visibilidade... Um festival que chama e dá uma ajuda de custo, por exemplo, [o artista] tem que aceitar. É uma aposta na carreira dele. Imagina o cara de uma casa noturna botar ele lá se não tem público. Tem banda que reclama que tem que vender [cota de] 20 ingressos e tal... Mas se um artista não tem 20 pessoas pra levar num show, tem que tocar na esquina, sei lá... O artista tem que se entender como empresário. Rolou uma discussão há algum tempo que era “artista = pedreiro". Mas eu acho mais: "artista = padeiro". Tem que comprar a farinha, contratar os funcionários, montar a loja, fazer pão todo dia... O investimento dele não é só comprar equipamento e estudar. É achar uma maneira de o público vê-lo. Se tiver que vender um carro pra fazer show, vende. O risco é dele e ninguém vai querer assumir. Procurar a turma é fundamental. O show é inevitável, mas não é só isso.
Carlos Eduardo Miranda, produtor musical

8 - Vendas de álbum valem alguma coisa.
As vendas de um álbum podem até significar o sucesso ou o fracasso de uma banda. Mas o que varia é se este sucesso será duradouro ou não. Isso dependerá do “tipo” de sucesso. Tem banda que consegue tornar uma música muito conhecida e, consequentemente, vende muitas cópias de somente um álbum. Nos tempos atuais, com as plataformas de streaming, isso tem acontecido cada vez menos. Os usuários, em sua maioria, se satisfazem escutando somente a música que desejam.
Henrique Portugal, músico, tecladista do Skank

9 - Ou você está na batalha ou você é um sucesso.
Trabalhar com música tem suas maravilhas e bênçãos, mas tem seus ossos. Você pode ter muito sucesso, grana ou então nenhuma fama e ter que explicar toda a semana pra sua mãe o que você faz e ver no rosto dela que ela não entendeu! Certa vez, ainda jovenzinho, olhei para um amigo que toca baixo de pau e perguntei: “Como você consegue carregar esse instrumento?”. Sem pestanejar ele respondeu: “Isso é parte de minha vocação!”. Me calei. Sim, você não pode nunca depender de ar condicionado e conforto para ser um profissional. Definitivamente não seria profissional. Ver até mesmo o triunfo público de “nulidades” pode ser duro para o músico, DJ, compositor, engenheiro de áudio competente e estudado. Mas digo a você que fama não é profissão, é status. E, na maioria das vezes, um prêmio a mediocridade. Os melhores músicos, produtores, engenheiros de áudio, professores que conheço não têm fama alguma, mas são pessoas realizadas materialmente e profissionalmente. Eu fui aluno do saudoso e grande mestre do violão erudito Henrique Pinto, que formou gerações e viveu bem, uma vida boa e confortável. Mas nunca o vi na novela da Globo ou no Fantástico! Os exemplos são muitos. Mesmo eu, que criei e formei meus filhos como dono de estúdio, engenheiro de áudio e produtor musical. Nem minha mulher conseguiu reclamar. Mas minha mãe…
Betho Ieesus, engenheiro de áudio e produtor musical no Sun Trip Estúdio

10 - Só a música é o que importa.
A música, há algum tempo, deixou de ser o ponto mais importante do processo. Com a profissionalização e a massificação do pop, tudo que vai além da música é usado à exaustão pra chamar a atenção do público. Seja o visual, o figurino, as causas, o discurso... tudo isso conta para o sucesso ou não de um artista. Um dos exemplos mais claros pode ser a trajetória do DJ, como profissional, com o passar dos anos. Até meados dos anos 1980, as pessoas iam até uma casa noturna (ou “boate”, “discoteca”, termos da época) por causa do DJ. Porque aquele determinado DJ recebia discos exclusivos de fora do Brasil ou então produzia os seus próprios remixes. E aquilo tornava a noite diferente. As pessoas procuravam a música exclusiva, aquele som que elas só conseguiriam ouvir com aquele DJ. Hoje é muito diferente. O DJ ainda é um astro, mas perdeu a exclusividade. O remix que ele toca hoje, amanhã já estará em outra pista, com outro DJ. Somente em nichos muito direcionados, como o drum ‘n’ bass, você encontra DJs que ainda têm seus materiais exclusivos. Todo o restante foi pulverizado. Arrisco dizer que a personalidade de uma banda ou artista vale mais do que sua música. O público, de alguma maneira subjetiva que ainda não conseguiu ser explicada de uma forma convincente, consegue sacar quem é de verdade e quem é de mentira, quem é artista e quem foi treinado para ser artista. E o público não perdoa.
Marcos Lauro, editor da Billboard Brasil