NOTÍCIAS

30 sons para encontrar Belchior

Em vez de procurar por um artista que não quer ser achado, ouça uma playlist em comemoração aos seus 70 anos

Aos 70 anos, Belchior mantém-se um mistério. Não por seu suposto sumiço, assunto infelizmente recorrente, mas por ter concretizado, nos anos 1970, uma das obras mais contestadoras e agitadas da música popular brasileira. O cearense, que não grava um álbum de estúdio desde 1999, teve uma carreira instável e conturbada se comparada a alguns de seus pares, mas é, até hoje, referência como voz da juventude inquieta que procura se estabelecer no mundo moderno, sem saber como lidar com questões financeiras, inquietações amorosas e conservadorismo social, por exemplo.

Alucinação, seu segundo álbum, de 1976, é daqueles discos completos: de “Apenas um Rapaz Latino Americano”, primeira e principal hit do disco, a “Antes do Fim”, Belchior usa experiências extremamente pessoais, como capítulos difíceis de sua vida, a mudança do Ceará para o Sudeste e algumas desilusões amorosas, para abordar assuntos globais e atuais para a época (talvez até para hoje), como o conflito entre gerações, a dificuldade de se estabelecer como artista, os problemas sociais do país, o autoritarismo da Ditadura Militar e as dúvidas que todo jovem adulto tem ao se colocar de frente para o mundo.

Coadjuvante em meio aos vários sucessos do disco, "Alucinação” tem razão para ser a faixa-título. Não tão pessimista como "À Palo Seco" e nem otimista como "Sujeito de Sorte", "meu delírio é a experiência com coisas reais" é frustrante e mágico ao mesmo tempo. Em 1976, o cearense falava de pessoas cinzas normais, humilhados no parque e um rapaz delicado e alegre que dança e requebra (“é demais!”). Faz 30 anos, mas poderia ter sido escrito hoje.

BELCHIOR E OUTROS ARTISTAS DESAPARECIDOS

No mesmo ano, Elis Regina lançou seu também mais aclamado álbum, Falso Brilhante. Baseado em um espetáculo que ela interpretava no teatro desde 1975, o disco abre com duas músicas do compositor (ambas de Alucinação): “Como Nossos Pais”, até hoje um dos maiores sucessos da gaúcha (e das rodas de violão em faculdades de humanas) e “Velha Roupa Colorida”, que, nas mãos de Mazzola e do então marido e produtor César Camargo Mariano, tornou-se um rock dos anos 50. Ambas tratavam da dificuldade da juventude brasileira dos anos 1960 e 1970, que crescia em um país autoritário. Nas letras, o cearense nega o passado e diz que o “novo sempre vem”.

Entre os hits, no entanto, há algumas pérolas do compositor desconhecidas pelo grande público, caso da animada “Bel-Prazer”, do forrózinho “Baihuno” e da belíssima “Aguapé”, uma das parcerias com Fagner, que tem seu ápice em “Mucuripe”, regravada por diversos artistas, como Roberto Carlos e Elba Ramalho.

Belchior, inclusive, é um artista com grandes versões nas vozes de outros intérpretes (algumas deles melhores do que as originais), como “Paralelas”, que Erasmo Carlos gravou no fantástico Banda dos Contentes (1976), “Galos, Noites E Quintais”, em grande interpretação de Jair Rodrigues, e a versão urbana que Toquinho fez de “Pequeno Perfil De Um Cidadão Comum”, parceria dos dois.

Pare de procurar um homem que não quer ser achado. Em vez disso, ouça a playlist abaixo para encontrar um dos maiores compositores da história do país, na voz dele e de outros:

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
2
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

30 sons para encontrar Belchior

Em vez de procurar por um artista que não quer ser achado, ouça uma playlist em comemoração aos seus 70 anos

por Lucas Borges Teixeira em 26/10/2016

Aos 70 anos, Belchior mantém-se um mistério. Não por seu suposto sumiço, assunto infelizmente recorrente, mas por ter concretizado, nos anos 1970, uma das obras mais contestadoras e agitadas da música popular brasileira. O cearense, que não grava um álbum de estúdio desde 1999, teve uma carreira instável e conturbada se comparada a alguns de seus pares, mas é, até hoje, referência como voz da juventude inquieta que procura se estabelecer no mundo moderno, sem saber como lidar com questões financeiras, inquietações amorosas e conservadorismo social, por exemplo.

Alucinação, seu segundo álbum, de 1976, é daqueles discos completos: de “Apenas um Rapaz Latino Americano”, primeira e principal hit do disco, a “Antes do Fim”, Belchior usa experiências extremamente pessoais, como capítulos difíceis de sua vida, a mudança do Ceará para o Sudeste e algumas desilusões amorosas, para abordar assuntos globais e atuais para a época (talvez até para hoje), como o conflito entre gerações, a dificuldade de se estabelecer como artista, os problemas sociais do país, o autoritarismo da Ditadura Militar e as dúvidas que todo jovem adulto tem ao se colocar de frente para o mundo.

Coadjuvante em meio aos vários sucessos do disco, "Alucinação” tem razão para ser a faixa-título. Não tão pessimista como "À Palo Seco" e nem otimista como "Sujeito de Sorte", "meu delírio é a experiência com coisas reais" é frustrante e mágico ao mesmo tempo. Em 1976, o cearense falava de pessoas cinzas normais, humilhados no parque e um rapaz delicado e alegre que dança e requebra (“é demais!”). Faz 30 anos, mas poderia ter sido escrito hoje.

BELCHIOR E OUTROS ARTISTAS DESAPARECIDOS

No mesmo ano, Elis Regina lançou seu também mais aclamado álbum, Falso Brilhante. Baseado em um espetáculo que ela interpretava no teatro desde 1975, o disco abre com duas músicas do compositor (ambas de Alucinação): “Como Nossos Pais”, até hoje um dos maiores sucessos da gaúcha (e das rodas de violão em faculdades de humanas) e “Velha Roupa Colorida”, que, nas mãos de Mazzola e do então marido e produtor César Camargo Mariano, tornou-se um rock dos anos 50. Ambas tratavam da dificuldade da juventude brasileira dos anos 1960 e 1970, que crescia em um país autoritário. Nas letras, o cearense nega o passado e diz que o “novo sempre vem”.

Entre os hits, no entanto, há algumas pérolas do compositor desconhecidas pelo grande público, caso da animada “Bel-Prazer”, do forrózinho “Baihuno” e da belíssima “Aguapé”, uma das parcerias com Fagner, que tem seu ápice em “Mucuripe”, regravada por diversos artistas, como Roberto Carlos e Elba Ramalho.

Belchior, inclusive, é um artista com grandes versões nas vozes de outros intérpretes (algumas deles melhores do que as originais), como “Paralelas”, que Erasmo Carlos gravou no fantástico Banda dos Contentes (1976), “Galos, Noites E Quintais”, em grande interpretação de Jair Rodrigues, e a versão urbana que Toquinho fez de “Pequeno Perfil De Um Cidadão Comum”, parceria dos dois.

Pare de procurar um homem que não quer ser achado. Em vez disso, ouça a playlist abaixo para encontrar um dos maiores compositores da história do país, na voz dele e de outros: