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Alexandre Faria sobre Drake e Adele no Brasil: “É uma queda de braço difícil”

Novo diretor da Live Nation conta sobre sua história e o desafio de liderar a maior empresa de entretenimento do mundo aqui no Brasil

por Marcos Lauro em 21/09/2017

Diretor e Vice-Presidente Sênior de Aquisição de Talentos. Para um leigo, o nome do cargo pode não ser tão claro. Mas o fato é que Alexandre Faria é o novo todo-poderoso da Live Nation no Brasil. Com passagens pela Mercury e T4F, a partir de agora ele é o responsável pelo artístico da líder mundial de entretenimento e vai atuar nas grandes turnês que passarem pela América do Sul.

A Live Nation já atua no Brasil há algum tempo, mas, até então, sem escritório no Brasil, fazia seus shows em parceria com outras grandes produtoras, como a própria T4F – de onde Alexandre veio. “Para os shows de 2018, a Live Nation começa a andar com suas próprias pernas”, afirma Alexandre.

Claro que tentamos arrancar algum nome de 2018, missão difícil. “Confidencial”. Mas conversamos com Alexandre sobre sua trajetória, a missão da Live Nation no Brasil, as experiências com os simpáticos Eddie Vedder e Chris Martin e ainda a dificuldade para se trazer artistas que estão no topo para o Brasil.

Você assume a Live Nation já com vários shows marcados. Como está sendo essa transição?
Existia uma relação entre a Live Nation e a T4F que terminou em março desse ano, com o show do Justin Bieber. A partir daí, ela passou a fazer shows com diferentes produtores. Teve Sting, Ariana Grande, tem Coldplay, U2, Bruno Mars e John Mayer. E Depeche Mode em 2018. E a partir daí ela começa a andar com suas próprias pernas aqui no Brasil.

Você trabalha desde quando com entretenimento? Conta pra gente um pouco da sua trajetória.
Eu comecei em 1992, 1993, fazendo festas e pequenos eventos. Na universidade, montei uma empresa com dois sócios, mas ainda pra eventos pequenos. A coisa foi crescendo e começamos a atender o Barra Shopping e a empresariar alguns artistas brasileiros, como Leo Jaime. Também rolaram os primeiros shows internacionais em 1994, 1995, mas os que cabiam no nosso bolso. Teve The Wailers, Suicidal Tendencies, Agent Orange, TSOL e a turnê do Sepultura, do álbum Roots. Em 1997 foi um ano bem difícil pro mercado e eu tava cansado de tanta responsabilidade, quis dar uma mudada e comecei a fazer shows com uma banda chamada Nativus [que se tornou Natiruts e permanece com esse nome até hoje]. Eles tinham dois empresários em Brasília e nós assumimos algumas datas deles em São Paulo, Rio e Espírito Santo. Shows pra mil pessoas, em média. As duas músicas deles [“Beija-Flor” e “Liberdade Pra Dentro da Cabeça”] estouraram de uma maneira absurda e passamos a fazer shows pra oito mil pessoas, minha vida deu uma guinada. Mas, mesmo assim, eu ainda era o empresário, estava à frente dos riscos... não era isso que eu queria. Em 1999 eu conversei com a Mercury e vim pra São Paulo. Fiquei pouco tempo lá, em 2000 eu fui pra CIE cuidar da turnê da Marina Lima e de alguns shows internacionais. Em 2007 eu me tornei diretor e a CIE já tinha virado a T4F... fizemos U2, Madonna, Metallica, Pearl Jam, Foo Fighters... tudo isso. Em 2011 eu assumi a promoção dos shows da T4F em toda a América Latina. E agora eu aceitei o desafio de iniciar a operação da Live Nation na América do Sul.

E como foi o seu começo? Isso era o que você queria ou foi acontecendo naturalmente?
A música sempre esteve presente em casa. Minha mãe se casou muito jovem, com 17, e eu nasci quando ela tinha 18 anos. Ela tocava piano com o Roupa Nova, na primeira formação. E meu pai é economista. Então a música e os negócios se somaram em casa [risos]. Meu pai me mostrava os discos do Pink Floyd, The Who, Elis Regina, Raul Seixas... muita música. E eu comecei a gostar. Quando eu tinha 11 anos eu já ia em loja de discos pra garimpar, descobrir novidades. Aquilo me fascinava muito. Então, desde muito jovem essa coisa de estar próximo da música está na minha história de uma forma muito intensa.

Mas até aí você poderia ter se tornado um músico também, em vez de um cara dos negócios...
Ah, eu não virei músico porque eu não era bom [risos]. Minha mãe é professora de piano, fiz cinco anos de piano clássico. É um sacrifício. Quando eu vejo uma pessoa tocando e lendo partitura, eu valorizo. Piano é o mestre dos instrumentos... cê nem conhece a música, mas lê a partitura e toca, é um processo matemático. Eu admiro, mas não tive esse dom. Não tive a disciplina de aprender. E peguei um atalho, fui aprender violão [risos].

Mas também era muita responsabilidade gerenciar tudo isso...
Mas eu não sei se tinha toda essa responsabilidade. A gente com 20 anos é impetuoso, pensa que pode tudo, que vai dar certo. Hoje, aos 44 anos, eu vejo que fui irresponsável também [risos]. Eu fazia tudo certinho e tal, mas a palavra “responsável” não cabe não [risos].

E você fazia produção nos shows também, aquela correria de backstage?
Curioso, porque eu sempre cuidei da parte da captação dos artistas. Tinha um administrador financeiro, um comercial e produção. Eu focava sempre na parte da contratação do artista e do gerenciamento da turnê. É uma parte do trabalho que eu continuo próximo até hoje, de alguma maneira.

E como você explica tantos festivais que foram grandes e hoje não existem mais? Por exemplo: Close-UP Planet, TIM Festival, Planeta Terra...?
Eu não sei se acredito em festival que leva o nome de marca. Acho que isso define. O festival que é guiado por um patrocinador não é feito pra longo prazo. A estratégia da marca muda! E um festival tem que ser maior do que uma estratégia de uma marca. Claro que os festivais precisam muito dos patrocinadores e a relação tem que ser sadia. Mas os eventos precisam ter sua alma e o patrocinador tem que fazer parte dessa alma, não o contrário.

No caso do Planeta Terra, que você acompanhou de perto, acabou por isso?
O festival é impactado pela crise do negócio não ligado ao festival, mas ligado ao patrocinador. E o Terra também sofria por ser ligado a um portal de internet, que fazia com que os veículos não cobrissem da forma como deveriam. Isso atrapalhada. Em 2013, por exemplo, a gente teve Blur, Lana del Rey, Travis, Beck, The Roots e nomes nacionais... foi super legal. Mas sofreu com a falta de cobertura jornalística.

E partindo pra fase atual, já na Live Nation, como você define a sua função?
A minha posição agora é de cuidar da companhia como um todo, não só da área artística. A função primordial é fazer com que o negócio da Live Nation cresça na América do Sul. Vamos trabalhar com turnês e eventos.

A gente vive um momento em que as pessoas ouvem de tudo. Como é isso pra você na hora de montar um lineup?
Posso falar do Lollapalooza, que eu vivi intensamente de 2013 a 2017 e acredito muito no formato. O Lolla tem quatro pilares: o rock (com as suas variáveis), o hip hop, o pop e o eletrônico. Eu acredito no sucesso de um evento que consiga combinar estilos musicais. É óbvio que o blues é um estilo mais envelhecido e deve estar em lugares menores, mais confortáveis... o Lolla é pra um público mais jovem. De 16 a 25, 26 anos.

E o Lolla ainda dá uma chancela trazer novos nomes...
Sim. Até porque o cara que foi mainstream nos anos 1990 pode não dialogar mais com o público jovem... então não adianta trazer. Só se ele se renovou, se permaneceu na cena. A pessoa quando vai num Lolla, vai com espírito aberto, de descoberta. E ela vê que a música está andando pra frente. E essa é a missão também. A pessoa que está sentada numa cadeira como a minha tem a missão de renovar, tentar mostrar que a música não está na mesmice. “Pô, mas o The Weeknd é pop?”. Sim, mas dialoga com o hip hop, é moderno... é tudo misturado. É hip hop eletrônico! O que é Florence and the Machine? Indie? Pop? As barreiras caem... ela é maravilhosa ao vivo, acertou em cheio no último disco.

Isso dificulta ou facilita o seu trabalho?
Ah, facilita! Cê aproxima os mundos, baixa preconceito. No Lolla desse ano, a gente colocou numa mesma noite o The XX, Metallica e Rancid. Enquanto o Metallica tá tocando, tá tocando o Martin Garrix! É muito legal esse espírito de paz e convivência harmoniosa.

Nesse ano rolou a “polêmica” do Metallica no Lolla. Muita gente disse que isso traiu a essência do festival. E foi o maior público... eu mesmo vi muita gente de camiseta preta chegando só pra hora do show. Como foi isso pra você?
Acompanhei isso, claro. Acho que faz parte do processo a gente dar essas chacoalhadas. A gente nunca vai ser unanimidade, sempre vai faltar um artista. E os objetivos do festival já foram alcançados, as pessoas sabem o que é o Lollapalooza.

Pela Live Nation, tem grandes shows vindo por ai...
Sim, tem o U2 que vai quebrar recorde no Morumbi. Primeiro artista a fazer quatro shows no Morumbi!

E você consegue explicar como um show desse, que não é barato, lota quatro noites num momento de crise?
Eu não tenho a verdade absoluta, mas teorias. A indústria do entretenimento caminha bem na crise, ela funciona como uma gangorra em relação à indústria do turismo. Na crise, a pessoa joga pra frente a compra de um carro mais caro, um apartamento, uma viagem mais cara... mas ela tem que viver. Ela vai a um restaurante, vai a um show. Se você coloca no papel os custos de um show e de uma viagem, a diferença, claro, é muito grande. E as pessoas precisam espairecer, elas precisam viver.

Até que ponto quatro noites pro U2 são uma surpresa pra você?
Olha, em relação ao U2 eu sempre acredito. Trabalhei na turnê 360º, agora estamos nessa do Joshua Tree. Eu vi a velocidade de vendas lá no 360º e agora foi tão bem quanto. O U2 tem um grande histórico de grandes shows no Brasil, não é surpresa.

E de um lado mais pop, tem o Bruno Mars vindo também.
O dele ainda não está esgotado, mas é um nome com grandes números também. Nos Estados Unidos, ele abriu as vendas da turnê inteira no mesmo dia e vendeu um milhão de tickets num dia. Ele vem se provando um blockbuster.

O que tem no radar para 2018? Tem nomes, como Drake, que são muito pedidos pelos fãs.
Já estamos a todo vapor! O Drake está no radar, mas não tem nada avançado. A gente tem um problema em relação ao hip hop: o jovem norte-americano está consumindo muito intensamente e o patamar desses artistas nos Estados Unidos inviabiliza a vinda. A não ser que eles passem a encarar a América do Sul como um investimento. “Vou deixar de cobrar os meus três X pra cobrar meio X e ir pro Brasil!”. Não são todos os artistas que têm essa visão de investimento, principalmente no hip hop que é o mundo da ostentação. Não é fácil convencer. O Drake foi fazer Londres e as pessoas não acreditavam muito. Ele foi e fez oito shows na O2 Arena. Oito! Eu estive com o agente do Drake e ele me disse: “O Drake sempre teve que se provar na vida”. O Drake fazia Nickelodeon e hoje é do rap. Ele não é o JAY-Z, que vem do Brooklyn. Não é o Snoop Dog, que vem de Los Angeles. É um cara que vem do Canadá. E vem se provando, cada vez mais. Vi um show da turnê anterior dele e não gostei, muita pirotecnia. Vi um show dessa turnê atual e o cara se transformou, show com banda... incrível.

E o hip hop está num momento de dominação. Como funciona uma negociação desse tipo?
É uma queda de braço. Porque o cara tem que diminuir o cachê pra vir pra cá, mas, ao mesmo tempo, ele tem que monetizar ao máximo esse momento. Geralmente, quando procuramos um artista assim, ele quer cobrar quatro vezes mais o que ele vale e inviabiliza. Tô falando de Future, Travis Scott, Big Sean... todos eles. O Drake já é outro patamar, é até esperado que ele cobre isso. Junto com a Adele, o Drake é o maior vendedor de tickets no mundo.

Cê falou em Adele... ela quase veio. O que rolou?
Ela tinha um período pra América do Sul em março de 2017. Mas ela acabou fazendo Austrália. Porque muitas vezes a gente compete também com outros territórios, foi uma opção da produção dela. E tinha aquele lance do zika vírus aqui no Brasil... isso atrapalhou. A Adele nunca tinha sido testada fisicamente numa turnê desse tamanho e ela pensou que não fosse aguentar no meio do negócio. Eu já estive em turnê com vários artistas e eles chegam num estágio de cansaço muito grande. Você não lembra o número do quarto do hotel nem a cidade... cê não sabe onde você está. Avião-show-avião-show...

Mas voltando para 2018, queremos nomes.
Confidenciais [risos].

E como está o planejamento?
Eu estou esquentando a cadeira ainda. Mas tem grandes turnês vindo por aí, estamos desenhando os próximos passos.

E esse fenômeno latino, vocês consideram trabalhar?
É uma novidade pra gente. Eu sempre estive muito próximo dos artistas latinos. Já fiz três ou quatro turnês do Maná e do Alejandro Sanz e sempre foram muito bem. Eu vejo os artistas de reggaeton com boa execução de rádio, mas precisam se provar ainda enquanto talento de show ao vivo. Não sei o quanto esse sucesso se reverte com venda de ingresso aqui.

O Maluma já veio, mas não pra shows solo.
Fiz a Demi Lovato lá no Festival Villa Mix e posso garantir que as pessoas não estavam ali pelo Maluma. Mas estamos atentos.

E tem os brasileiros entrando na onda, como a Anitta...
Anitta é um talento. Eu acho que ela tem tudo pra ser a brasileira mais bem posicionada no exterior, assim como a Shakira foi a colombiana mais conhecida lá fora.

E pessoalmente, você tem contato com os artistas que você traz?
As coisas têm que acontecer de maneira natural. Se ele estiver aberto pra isso, vou conhecer, agradecer pela vinda, essas coisas.

Dos que você conheceu, qual mais impressionou?
Eddie Vedder. O discurso condiz com o que ele é de verdade. Ele é preocupado com as coisas. Na última turnê no Brasil, ele quis saber o que tinha acontecido em Mariana, Minas Gerais, o que tinha sido afetado [pela tragédia provocada pela mineradora Samarco]. Ele doou uma parte do cachê pras vítimas. Ele é aquilo de verdade. O Chris Martin também é sempre muito descontraído, é um meninão, incrível. O cara é leve, uma figura tranquila. Cê não sente o peso do sucesso nele, sabe? Não tem máscara, sisudez... ele faz o que gosta.

Isso acaba ajudando no processo também?
Vou te dizer: As coisas, pro Coldplay, dão certo sempre! Tem uma aura ali de positividade ali... sabe uma figura iluminada? É impressionante.

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Novo diretor da Live Nation conta sobre sua história e o desafio de liderar a maior empresa de entretenimento do mundo aqui no Brasil

por Marcos Lauro em 21/09/2017

Diretor e Vice-Presidente Sênior de Aquisição de Talentos. Para um leigo, o nome do cargo pode não ser tão claro. Mas o fato é que Alexandre Faria é o novo todo-poderoso da Live Nation no Brasil. Com passagens pela Mercury e T4F, a partir de agora ele é o responsável pelo artístico da líder mundial de entretenimento e vai atuar nas grandes turnês que passarem pela América do Sul.

A Live Nation já atua no Brasil há algum tempo, mas, até então, sem escritório no Brasil, fazia seus shows em parceria com outras grandes produtoras, como a própria T4F – de onde Alexandre veio. “Para os shows de 2018, a Live Nation começa a andar com suas próprias pernas”, afirma Alexandre.

Claro que tentamos arrancar algum nome de 2018, missão difícil. “Confidencial”. Mas conversamos com Alexandre sobre sua trajetória, a missão da Live Nation no Brasil, as experiências com os simpáticos Eddie Vedder e Chris Martin e ainda a dificuldade para se trazer artistas que estão no topo para o Brasil.

Você assume a Live Nation já com vários shows marcados. Como está sendo essa transição?
Existia uma relação entre a Live Nation e a T4F que terminou em março desse ano, com o show do Justin Bieber. A partir daí, ela passou a fazer shows com diferentes produtores. Teve Sting, Ariana Grande, tem Coldplay, U2, Bruno Mars e John Mayer. E Depeche Mode em 2018. E a partir daí ela começa a andar com suas próprias pernas aqui no Brasil.

Você trabalha desde quando com entretenimento? Conta pra gente um pouco da sua trajetória.
Eu comecei em 1992, 1993, fazendo festas e pequenos eventos. Na universidade, montei uma empresa com dois sócios, mas ainda pra eventos pequenos. A coisa foi crescendo e começamos a atender o Barra Shopping e a empresariar alguns artistas brasileiros, como Leo Jaime. Também rolaram os primeiros shows internacionais em 1994, 1995, mas os que cabiam no nosso bolso. Teve The Wailers, Suicidal Tendencies, Agent Orange, TSOL e a turnê do Sepultura, do álbum Roots. Em 1997 foi um ano bem difícil pro mercado e eu tava cansado de tanta responsabilidade, quis dar uma mudada e comecei a fazer shows com uma banda chamada Nativus [que se tornou Natiruts e permanece com esse nome até hoje]. Eles tinham dois empresários em Brasília e nós assumimos algumas datas deles em São Paulo, Rio e Espírito Santo. Shows pra mil pessoas, em média. As duas músicas deles [“Beija-Flor” e “Liberdade Pra Dentro da Cabeça”] estouraram de uma maneira absurda e passamos a fazer shows pra oito mil pessoas, minha vida deu uma guinada. Mas, mesmo assim, eu ainda era o empresário, estava à frente dos riscos... não era isso que eu queria. Em 1999 eu conversei com a Mercury e vim pra São Paulo. Fiquei pouco tempo lá, em 2000 eu fui pra CIE cuidar da turnê da Marina Lima e de alguns shows internacionais. Em 2007 eu me tornei diretor e a CIE já tinha virado a T4F... fizemos U2, Madonna, Metallica, Pearl Jam, Foo Fighters... tudo isso. Em 2011 eu assumi a promoção dos shows da T4F em toda a América Latina. E agora eu aceitei o desafio de iniciar a operação da Live Nation na América do Sul.

E como foi o seu começo? Isso era o que você queria ou foi acontecendo naturalmente?
A música sempre esteve presente em casa. Minha mãe se casou muito jovem, com 17, e eu nasci quando ela tinha 18 anos. Ela tocava piano com o Roupa Nova, na primeira formação. E meu pai é economista. Então a música e os negócios se somaram em casa [risos]. Meu pai me mostrava os discos do Pink Floyd, The Who, Elis Regina, Raul Seixas... muita música. E eu comecei a gostar. Quando eu tinha 11 anos eu já ia em loja de discos pra garimpar, descobrir novidades. Aquilo me fascinava muito. Então, desde muito jovem essa coisa de estar próximo da música está na minha história de uma forma muito intensa.

Mas até aí você poderia ter se tornado um músico também, em vez de um cara dos negócios...
Ah, eu não virei músico porque eu não era bom [risos]. Minha mãe é professora de piano, fiz cinco anos de piano clássico. É um sacrifício. Quando eu vejo uma pessoa tocando e lendo partitura, eu valorizo. Piano é o mestre dos instrumentos... cê nem conhece a música, mas lê a partitura e toca, é um processo matemático. Eu admiro, mas não tive esse dom. Não tive a disciplina de aprender. E peguei um atalho, fui aprender violão [risos].

Mas também era muita responsabilidade gerenciar tudo isso...
Mas eu não sei se tinha toda essa responsabilidade. A gente com 20 anos é impetuoso, pensa que pode tudo, que vai dar certo. Hoje, aos 44 anos, eu vejo que fui irresponsável também [risos]. Eu fazia tudo certinho e tal, mas a palavra “responsável” não cabe não [risos].

E você fazia produção nos shows também, aquela correria de backstage?
Curioso, porque eu sempre cuidei da parte da captação dos artistas. Tinha um administrador financeiro, um comercial e produção. Eu focava sempre na parte da contratação do artista e do gerenciamento da turnê. É uma parte do trabalho que eu continuo próximo até hoje, de alguma maneira.

E como você explica tantos festivais que foram grandes e hoje não existem mais? Por exemplo: Close-UP Planet, TIM Festival, Planeta Terra...?
Eu não sei se acredito em festival que leva o nome de marca. Acho que isso define. O festival que é guiado por um patrocinador não é feito pra longo prazo. A estratégia da marca muda! E um festival tem que ser maior do que uma estratégia de uma marca. Claro que os festivais precisam muito dos patrocinadores e a relação tem que ser sadia. Mas os eventos precisam ter sua alma e o patrocinador tem que fazer parte dessa alma, não o contrário.

No caso do Planeta Terra, que você acompanhou de perto, acabou por isso?
O festival é impactado pela crise do negócio não ligado ao festival, mas ligado ao patrocinador. E o Terra também sofria por ser ligado a um portal de internet, que fazia com que os veículos não cobrissem da forma como deveriam. Isso atrapalhada. Em 2013, por exemplo, a gente teve Blur, Lana del Rey, Travis, Beck, The Roots e nomes nacionais... foi super legal. Mas sofreu com a falta de cobertura jornalística.

E partindo pra fase atual, já na Live Nation, como você define a sua função?
A minha posição agora é de cuidar da companhia como um todo, não só da área artística. A função primordial é fazer com que o negócio da Live Nation cresça na América do Sul. Vamos trabalhar com turnês e eventos.

A gente vive um momento em que as pessoas ouvem de tudo. Como é isso pra você na hora de montar um lineup?
Posso falar do Lollapalooza, que eu vivi intensamente de 2013 a 2017 e acredito muito no formato. O Lolla tem quatro pilares: o rock (com as suas variáveis), o hip hop, o pop e o eletrônico. Eu acredito no sucesso de um evento que consiga combinar estilos musicais. É óbvio que o blues é um estilo mais envelhecido e deve estar em lugares menores, mais confortáveis... o Lolla é pra um público mais jovem. De 16 a 25, 26 anos.

E o Lolla ainda dá uma chancela trazer novos nomes...
Sim. Até porque o cara que foi mainstream nos anos 1990 pode não dialogar mais com o público jovem... então não adianta trazer. Só se ele se renovou, se permaneceu na cena. A pessoa quando vai num Lolla, vai com espírito aberto, de descoberta. E ela vê que a música está andando pra frente. E essa é a missão também. A pessoa que está sentada numa cadeira como a minha tem a missão de renovar, tentar mostrar que a música não está na mesmice. “Pô, mas o The Weeknd é pop?”. Sim, mas dialoga com o hip hop, é moderno... é tudo misturado. É hip hop eletrônico! O que é Florence and the Machine? Indie? Pop? As barreiras caem... ela é maravilhosa ao vivo, acertou em cheio no último disco.

Isso dificulta ou facilita o seu trabalho?
Ah, facilita! Cê aproxima os mundos, baixa preconceito. No Lolla desse ano, a gente colocou numa mesma noite o The XX, Metallica e Rancid. Enquanto o Metallica tá tocando, tá tocando o Martin Garrix! É muito legal esse espírito de paz e convivência harmoniosa.

Nesse ano rolou a “polêmica” do Metallica no Lolla. Muita gente disse que isso traiu a essência do festival. E foi o maior público... eu mesmo vi muita gente de camiseta preta chegando só pra hora do show. Como foi isso pra você?
Acompanhei isso, claro. Acho que faz parte do processo a gente dar essas chacoalhadas. A gente nunca vai ser unanimidade, sempre vai faltar um artista. E os objetivos do festival já foram alcançados, as pessoas sabem o que é o Lollapalooza.

Pela Live Nation, tem grandes shows vindo por ai...
Sim, tem o U2 que vai quebrar recorde no Morumbi. Primeiro artista a fazer quatro shows no Morumbi!

E você consegue explicar como um show desse, que não é barato, lota quatro noites num momento de crise?
Eu não tenho a verdade absoluta, mas teorias. A indústria do entretenimento caminha bem na crise, ela funciona como uma gangorra em relação à indústria do turismo. Na crise, a pessoa joga pra frente a compra de um carro mais caro, um apartamento, uma viagem mais cara... mas ela tem que viver. Ela vai a um restaurante, vai a um show. Se você coloca no papel os custos de um show e de uma viagem, a diferença, claro, é muito grande. E as pessoas precisam espairecer, elas precisam viver.

Até que ponto quatro noites pro U2 são uma surpresa pra você?
Olha, em relação ao U2 eu sempre acredito. Trabalhei na turnê 360º, agora estamos nessa do Joshua Tree. Eu vi a velocidade de vendas lá no 360º e agora foi tão bem quanto. O U2 tem um grande histórico de grandes shows no Brasil, não é surpresa.

E de um lado mais pop, tem o Bruno Mars vindo também.
O dele ainda não está esgotado, mas é um nome com grandes números também. Nos Estados Unidos, ele abriu as vendas da turnê inteira no mesmo dia e vendeu um milhão de tickets num dia. Ele vem se provando um blockbuster.

O que tem no radar para 2018? Tem nomes, como Drake, que são muito pedidos pelos fãs.
Já estamos a todo vapor! O Drake está no radar, mas não tem nada avançado. A gente tem um problema em relação ao hip hop: o jovem norte-americano está consumindo muito intensamente e o patamar desses artistas nos Estados Unidos inviabiliza a vinda. A não ser que eles passem a encarar a América do Sul como um investimento. “Vou deixar de cobrar os meus três X pra cobrar meio X e ir pro Brasil!”. Não são todos os artistas que têm essa visão de investimento, principalmente no hip hop que é o mundo da ostentação. Não é fácil convencer. O Drake foi fazer Londres e as pessoas não acreditavam muito. Ele foi e fez oito shows na O2 Arena. Oito! Eu estive com o agente do Drake e ele me disse: “O Drake sempre teve que se provar na vida”. O Drake fazia Nickelodeon e hoje é do rap. Ele não é o JAY-Z, que vem do Brooklyn. Não é o Snoop Dog, que vem de Los Angeles. É um cara que vem do Canadá. E vem se provando, cada vez mais. Vi um show da turnê anterior dele e não gostei, muita pirotecnia. Vi um show dessa turnê atual e o cara se transformou, show com banda... incrível.

E o hip hop está num momento de dominação. Como funciona uma negociação desse tipo?
É uma queda de braço. Porque o cara tem que diminuir o cachê pra vir pra cá, mas, ao mesmo tempo, ele tem que monetizar ao máximo esse momento. Geralmente, quando procuramos um artista assim, ele quer cobrar quatro vezes mais o que ele vale e inviabiliza. Tô falando de Future, Travis Scott, Big Sean... todos eles. O Drake já é outro patamar, é até esperado que ele cobre isso. Junto com a Adele, o Drake é o maior vendedor de tickets no mundo.

Cê falou em Adele... ela quase veio. O que rolou?
Ela tinha um período pra América do Sul em março de 2017. Mas ela acabou fazendo Austrália. Porque muitas vezes a gente compete também com outros territórios, foi uma opção da produção dela. E tinha aquele lance do zika vírus aqui no Brasil... isso atrapalhou. A Adele nunca tinha sido testada fisicamente numa turnê desse tamanho e ela pensou que não fosse aguentar no meio do negócio. Eu já estive em turnê com vários artistas e eles chegam num estágio de cansaço muito grande. Você não lembra o número do quarto do hotel nem a cidade... cê não sabe onde você está. Avião-show-avião-show...

Mas voltando para 2018, queremos nomes.
Confidenciais [risos].

E como está o planejamento?
Eu estou esquentando a cadeira ainda. Mas tem grandes turnês vindo por aí, estamos desenhando os próximos passos.

E esse fenômeno latino, vocês consideram trabalhar?
É uma novidade pra gente. Eu sempre estive muito próximo dos artistas latinos. Já fiz três ou quatro turnês do Maná e do Alejandro Sanz e sempre foram muito bem. Eu vejo os artistas de reggaeton com boa execução de rádio, mas precisam se provar ainda enquanto talento de show ao vivo. Não sei o quanto esse sucesso se reverte com venda de ingresso aqui.

O Maluma já veio, mas não pra shows solo.
Fiz a Demi Lovato lá no Festival Villa Mix e posso garantir que as pessoas não estavam ali pelo Maluma. Mas estamos atentos.

E tem os brasileiros entrando na onda, como a Anitta...
Anitta é um talento. Eu acho que ela tem tudo pra ser a brasileira mais bem posicionada no exterior, assim como a Shakira foi a colombiana mais conhecida lá fora.

E pessoalmente, você tem contato com os artistas que você traz?
As coisas têm que acontecer de maneira natural. Se ele estiver aberto pra isso, vou conhecer, agradecer pela vinda, essas coisas.

Dos que você conheceu, qual mais impressionou?
Eddie Vedder. O discurso condiz com o que ele é de verdade. Ele é preocupado com as coisas. Na última turnê no Brasil, ele quis saber o que tinha acontecido em Mariana, Minas Gerais, o que tinha sido afetado [pela tragédia provocada pela mineradora Samarco]. Ele doou uma parte do cachê pras vítimas. Ele é aquilo de verdade. O Chris Martin também é sempre muito descontraído, é um meninão, incrível. O cara é leve, uma figura tranquila. Cê não sente o peso do sucesso nele, sabe? Não tem máscara, sisudez... ele faz o que gosta.

Isso acaba ajudando no processo também?
Vou te dizer: As coisas, pro Coldplay, dão certo sempre! Tem uma aura ali de positividade ali... sabe uma figura iluminada? É impressionante.