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Arquivo Billboard: leia a entrevista com Ronnie Von, que completa 70 anos hoje

por em 17/07/2014
Em d
ezembro de 2012, Billboard Brasil esteve na mansão de Ronnie Von, no bairro do Morumbi, em São Paulo, e publicou uma extensa entrevista com o cantor e apresentador, hoje cultuado pelos discos psicodélicos que lançou no final da década de 1960. No dia em que o eterno Pequeno Príncipe completa 70 anos, relembramos essa reportagem do editor José Flávio Júnior aqui no site. Ronnie esmiúça aquele período “surrealista” da carreira, explica o motivo de estar distante dos estúdios de gravação e comenta o medo que sempre teve das drogas.   PRÍNCIPE DESENCANADO Mesmo após sucesso de show com filho e de dueto com Bibi Ferreira, Ronnie Von quer distância dos palcos. Mas vem biografia por aí..._VIZ7792 Por José Flávio Júnior Ronnie Von não lança um disco desde 1996, quadro que não tende a mudar. Confortável como apresentador do Todo Seu, programa de variedades exibido diariamente pela paulistana TV Gazeta, o niteroiense de 68 anos alega não ter mais tempo para a carreira musical. Mesmo afastado dos palcos, causou comoção ao participar de um show do filho caçula em um café em Moema, há quatro meses. Foram duas noites em que Leo Von, de 25 anos, homenageou o pai cantando músicas de sua fase psicodélica, no fim da década de 60, entre outras gemas perdidas. O cantor/apresentador recebe Billboard Brasil em sua nova mansão no Morumbi. Da sala onde a entrevista foi feita, embaixo do dormitório principal, de módicos 140 metros, é possível avistar a quadra de tênis e ouvir o barulho de diversas aves que Ronnie cria em um dos jardins. As duas horas de conversa não são suficientes para repassar os 46 anos de carreira (musical e na TV) do cantor que afirma ter vendido dez milhões de discos – e batizado os Mutantes. Mas vem biografia por aí. Ronnie já começou os depoimentos para o livro que contará sua vida em detalhes. Só não há previsão de lançamento.   A participação no show do seu filho foi algo pontual, isolado? Absolutamente pontual. Eu sabia que ele ia me fazer uma homenagem, um agrado no Dia dos Pais. Só que acabou virando um show mega, com pancadaria para entrar, lotado. Era um show baseado no meu lado B, minhas coisas psicodélicas, as mais estranhas, avantgarde, com alguns hits costurando. Tem uma canção que gravei no começo dos anos 80 com arranjo do Cesar Camargo Mariano chamada “Visagem”, do Fagner e do Fausto Nilo. Tecnicamente, foi a coisa mais importante que gravei, mas ninguém tocou.  Meu filho mandou essa e eu subi para cantá-la. Fiquei muito emocionado, tive de tomar água depois para me acalmar. Não há nenhuma intenção minha em seguir carreira musical agora. Se eventualmente gravo um disco, tendo de bancá-lo, não me olho mais no espelho. Não acho isso legal. Não depois de 46 anos de estrada. Música sempre foi a minha vida, não a minha sobrevivência. Devo tudo o que tenho materialmente e emocionalmente à música, claro. O complexo é que disco não vende mais. Se alguém investir tempo e dinheiro numa produção fonográfica comigo, o retorno vai ter de ser outro. Não tenho tempo para fazer shows. Ainda vai à sua agência de publicidade pela manhã? Vou duas vezes, trabalho de casa, sem o estresse do trânsito. Isso porque andei tendo uns piripaques. Tive um transtorno de ansiedade. Que se manifesta como? A sintomatologia é de problema cardíaco: pressão monumental, batimento de 160 em repouso, adormecimento do braço, enjoo, tontura. Fui internado quatro vezes no ano passado. Um dia, às três da manhã, tive a mais absoluta sensação da morte. Virei para a minha esposa e disse: na gaveta tal está o documento tal, na outra está o documento tal. Ela, que já teve síndrome do pânico, me pediu para respirar e ligou para o cardiologista. Ele me receitou um ansiolítico. Dez minutos depois, eu estava normal. De manhã cedo, ele me ligou e disse que se eu não tinha um psiquiatra, me recomendaria um. Meu problema não era cardiológico, era transtorno de ansiedade. Você acha que vai morrer e começa a se sentir mal. E não tem nada a ver com o físico.   O seu programa é assistido e elogiado por pessoas influentes, como o Silvio Santos. Nesse tempo todo de Gazeta, você não sofreu assédio para ir para outra emissora? Tive 14 propostas. Mas existem dois vetores. Um é a busca desenfreada pela audiência a qualquer preço, o que acho muito perigoso. Um programa em que você tem de mostrar desfile de travestis, peito de fora, escatologia, sangue, tem o seu nicho. Só que não é o meu. Não tenho talento para fazer isso. Outra coisa: alguns contratos que chegaram para mim diziam que a emissora teria o direito de sugerir pautas quando fosse de interesse da casa. Isso me assusta. Tudo que me chegou foi muito sombrio. Tenho o conforto emocional de trabalhar num lugar que me cobra qualidade, não audiência. As propostas mais atraentes que recebi vieram de TVs a cabo. Segundo os meus pares das mega-agências de publicidade, só tenho um concorrente: o cabo. Talvez não seja a hora de eu migrar. A única sedução possível é o dinheiro. Mas eu quero estar contente comigo mesmo. Vou fazer nove anos de Gazeta em 2013. Um cara de quase 70 anos não pode se dar ao luxo de cometer errinhos, de se arriscar. Tenho muito pouco tempo de vida útil, com muito para realizar, e já sei que talvez não dê tempo.   _VIZ7895 Você acha que se beneficia do programa, já que, no campo musical, recebe muitos talentos da nova geração, o que te deixa atualizado com o que está rolando? Claro. A Ana Cañas declarou que deve parte da carreira ao meu programa. Adoro a Bruna Caram. Essa menina tem um Pro-Tools dentro dela, não semitona nunca. Fora as surpresas que a produção faz para mim. Eu tenho paixão pela Jane Monheit, a cantora de jazz americana. Um dia eu estou no camarim e essa moça bate na minha porta: “May I?”. Minhas pernas tremiam, comecei a gaguejar. O John Pizzarelli virou meu brother. Estava no programa cantando Beatles faz pouco tempo. E qual é o espaço que essa gente vai ter na TV brasileira? Sua relação hoje com a música é só de apreciador mesmo, não tem maiores pretensões? De apreciador e de agradecimento. À música eu devo tudo o que me aconteceu de bom. A minha geração foi a primeira a começar a ganhar bem com shows e discos. Nossos salários em televisão eram coisas absurdamente gigantescas para a época. Consegui ter uma vida correta, confortável, me dedicando às coisas que gosto, à literatura, à arte, viajando o mundo inteiro, conhecendo outras culturas quando minha carreira estourou lá fora. Isso tem um preço impossível de ser dimensionado. A música que me deu. Mas você não teve uma carreira convencional na música... Foi totalmente esculhambada. Sem nenhuma assessoria, sem ninguém para me dizer o que fazer. Isso te fez falta? Fez. Eu gostaria de ter tido uma carreira linear. Mas aí você poderia não ter feito carreira na TV. Mas eu apresento televisão há 46 anos. Meu primeiro programa, O Pequeno Mundo de Ronnie Von, foi em 1966. O Todo Seu é meu 13º programa. O país rotulador determina que você só possa ser uma coisa. Ou é cantor ou apresentador ou motorista de caminhão. Eu poderia confessar uma coisa aqui: gosto mais de apresentar do que de cantar. Sou um cantor medíocre. Não que eu seja um apresentador maravilhoso. Mas fico mais à vontade na TV. Você imaginava que um dia seus discos seriam redescobertos e valorizados? Nunca imaginei. Eu só era assessorado pelo departamento de vendas. Me sentia um ignorante. Um dia decidi me libertar desse jogo. Houve uma mudança de diretores na minha gravadora e, por um mês, ela ficou acéfala, enquanto o Andre Midani não chegava dos Estados Unidos. Eu tinha uma obra a cumprir. Entrei no estúdio com o produtor Damiano Cozzella e arrebentamos. Na época, quebravam esse disco em público. Na rádio, diziam que eu tinha jogado o dinheiro da gravadora fora. Que eu era um alucinado, um alienado, um débil mental. Não adiantava dizer que aquilo era uma tela de Magritte, que era um trabalho surrealista. capa -Ronnie Von Luta Alguns desses seus discos mais cultuados ainda não foram lançados em CD. O que deveria sair é o A Misteriosa Luta Do Reino De Parassempre Contra O Império Do Nuncamais, de 1969. Reeditaram a minha estreia, que eu odeio e deixei isso claro no texto do CD. É uma coisa muito equivocada. Eu queria aproximar a música erudita da guitarra elétrica. Ouvi “Eleanor Rigby” e achei sensacional. Só que aqui ninguém entendeu. Me botaram num estúdio com uma megaorquestra, com tudo o que eu queria: fagote, oboé, clarone, corne inglês. Só que eram músicas para dançar. Deu tudo errado. O segundo LP bombou por causa de “A Praça”. O terceiro, que tem “Pra Chatear”, o dueto com o Caetano Veloso, eu quis gravar com Os Mutantes. Esse é um disco muito maluco, feito com o produtor Rogério Duprat de cabo a rabo. Não vendeu nada, foi um fracasso. Os discos que eu mais gosto foram fracassos. O quarto é o mais maluco. No quinto, já tirei o pé um pouco, a pedido do Midani. Quando fiz “Viva O Chopp Escuro”, estava almoçando com ele num restaurante. A letra é literal. Uma pessoa foi atropelada na rua, bem na nossa frente. Daí vem o verso “Vamos todos viver a vida/ Pois ela acaba na avenida”. E sua fase romântica, do final dos anos 70? De certa forma, ela também está sendo reavaliada, já que o Otto gravou “Pra Ser Só Minha Mulher”. É, essa eu fiz para o Roberto Carlos gravar. Mas não tenho muita admiração por esse período. Estava seguindo a visão comercial da gravadora. Eles me viam como um cantor romântico, me chamavam de príncipe. Mas era um lugar-comum. Estava todo mundo nessa. Eu não gostava. E “Cavaleiro De Aruanda”, de 1972? Ah, dessa eu gostei! Foi a única gravação minha que tocou na Inglaterra. O Emerson Fittipaldi me ligou de lá para contar. Letra e música de Tony Osanah, meu parceiraço! Hoje, ele dá aula de música na Alemanha. Um argentino apaixonado por folclore brasileiro que acabou virando orixá, se meteu em umbanda. Tocou comigo durante 12 anos, foi diretor musical da minha banda. Eu o conheci em 1966, quando ele tocava nos Beat Boys. Eu que os apresentei ao Caetano, assim como apresentei os Mutantes a ele. Esses eram os meus amiguinhos. O Tony mora numa cidadezinha perto de Frankfurt, mas passa o Natal aqui comigo. Muita gente não sabe que o Arnaldo Saccomani, atual jurado do SBT, é autor de várias das suas músicas mais psicodélicas. O Arnaldo é extremamente criativo. É um compositor brilhante, mas enveredou pelo caminho da produção fonográfica. E o que é o mainstream hoje? É sertanojo, breganojo, sambanojo. A determinação das gravadoras é que ele faça disco com essas pessoas. Aí todo mundo acha que o Arnaldo é só isso. Essa não era a praia dele como compositor. O cara é um craque. “Anarquia” é dele. Nenhum censor sacou a intenção na época. Os militares já tinham começado a vir para cima de mim, por eu ter formação acadêmica. Fui chamado duas vezes para conversar com os militares por ter reclamado da aposentadoria dos oficiais na Jovem Pan, afinal, sou aviador. Uma vez me avisaram, outra vez me avisaram, na terceira mandaram me buscar. Achei que eles iam começar a esmiuçar as minhas letras. E eu comentei com o Arnaldo que minha vontade era sair pichando tudo, fazendo uma anarquia. Sempre disse que sou anarquista. Não gosto da direita, não gosto da esquerda. Aí, no dia seguinte, ele veio com “Anarquia” para mim. Agora ela é cantada pelo Mombojó, o que me devolve à juventude. Como você ficou sabendo do seu “redescobrimento”? Foi meu filho foi quem me alertou que minha obra estava sendo reavaliada. Primeiro, recebi uma publicação austríaca que colocava o meu quarto disco na lista dos melhores trabalhos psicodélicos de todos os tempos. Ele saiu na Argentina, na Polônia, na Inglaterra. Tudo pirata. Nem eu tinha cópia do disco quando isso começou a acontecer. Pipocaram várias comunidades no Orkut falando dessa minha fase rock’n’roll. Só não gostei muito de uma que dizia que eu era o primeiro emo do Brasil. Veio muita gente nova falar comigo, fizeram um tributo. A primeira banda que me procurou foi a Video Hits, do Diego Medina, lá de Porto Alegre. Isso foi em 2000. Fui para o Rio e gravei “Silvia 20 Horas Domingo” com eles. Acho que minha carreira teria tomado um rumo diametralmente oposto se aquele disco mais psicodélico tivesse sido entendido na época. _VIZ7703 Os Mutantes acabaram realizando as ideias que você esboçou, mas não conseguiu dar continuidade? A Tropicália, como um todo, fez isso. Até me envolvi inicialmente com eles, mas nossos empresários bateram de frente. Falaram que aquilo não ia dar em nada, que era efêmero, ia passar. Saí da Tropicália e me arrependo até hoje. A história de misturar eletrônico com acústico, que eu tanto buscava, estava ali. A Elis Regina me cobrava, dizia que eu fazia música de alienado, com guitarra elétrica. Ela sabia que eu gostava de jazz e blues. Só que eu adorava rock também. Chegou a ter aquela passeata contra a guitarra elétrica. O Gil estava lá, mas depois enfiou a guitarra no saco e foi para a guitarra. Ele entendeu tudo, foi a mola propulsora da mudança. “Domingo No Parque” é algo antológico. Não tentaram te impingir fama de dedo-duro na época do regime militar? Não. Eu fui censurado. Era da UNE. Tomava era borrachada. Mas você tinha um vínculo com a Aeronáutica, assim como o Simonal havia tido uma trajetória no Exército. Meu vínculo é que fui cadete-aviador da Força Aérea. O que aconteceu com o Simonal é que a esquerda o odiava. Eu fui solidário a ele em todos os momentos, assim como o Chico Anysio e o maestro Erlon Chaves. O Simoninha foi criado com os meus filhos, é padrinho de casamento da minha filha. Éramos vizinhos no Morumbi. O Simonal não tinha qualquer visão ideológica. Não estava aí para coisa nenhuma. Depois que ele morreu, fiz um documento com o Chico Anysio e mandamos para Brasília pedindo a reabilitação dele. Você gravou uma faixa para o disco natalino da Bibi Ferreira. Como foi isso? Ela me convenceu. E ainda pediu para eu escolher a música. Fui de “Ave Maria”, de Schubert. Bibi foi a única pessoa que conseguiu me fazer voltar a um estúdio e gravar. Disse que queria fazer um disco inteiro comigo. No meu programa, contou que queria que eu tivesse sido o professor Higgins, na versão de My Fair Lady que fez nos anos 70. Só que eu estava estourado na Europa com “Deje Mi Vida”. Você nunca usou drogas mesmo? Nunca. Aconteceu uma coisa quando conheci a Rita Lee, que era deslumbrantemente linda e beatlemaníaca como eu. O amigo que nos apresentou estava fazendo experiências lisérgicas e fui assistir a uma. Eu vi esse cara gritando, dizendo que estava saindo sangue da parede, que tinha um morcego o perseguindo pela casa. Vão achar que é mentira, mas nunca queimei um baseado. De medo. Tive um amigo no Rio que começou na maconha, passou para a heroína e acabou se jogando do décimo andar dizendo que era o Super-Homem. Tudo isso povoou minha adolescência. Por isso tenho pavor de drogas.
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Arquivo Billboard: leia a entrevista com Ronnie Von, que completa 70 anos hoje

por em 17/07/2014
Em d
ezembro de 2012, Billboard Brasil esteve na mansão de Ronnie Von, no bairro do Morumbi, em São Paulo, e publicou uma extensa entrevista com o cantor e apresentador, hoje cultuado pelos discos psicodélicos que lançou no final da década de 1960. No dia em que o eterno Pequeno Príncipe completa 70 anos, relembramos essa reportagem do editor José Flávio Júnior aqui no site. Ronnie esmiúça aquele período “surrealista” da carreira, explica o motivo de estar distante dos estúdios de gravação e comenta o medo que sempre teve das drogas.   PRÍNCIPE DESENCANADO Mesmo após sucesso de show com filho e de dueto com Bibi Ferreira, Ronnie Von quer distância dos palcos. Mas vem biografia por aí..._VIZ7792 Por José Flávio Júnior Ronnie Von não lança um disco desde 1996, quadro que não tende a mudar. Confortável como apresentador do Todo Seu, programa de variedades exibido diariamente pela paulistana TV Gazeta, o niteroiense de 68 anos alega não ter mais tempo para a carreira musical. Mesmo afastado dos palcos, causou comoção ao participar de um show do filho caçula em um café em Moema, há quatro meses. Foram duas noites em que Leo Von, de 25 anos, homenageou o pai cantando músicas de sua fase psicodélica, no fim da década de 60, entre outras gemas perdidas. O cantor/apresentador recebe Billboard Brasil em sua nova mansão no Morumbi. Da sala onde a entrevista foi feita, embaixo do dormitório principal, de módicos 140 metros, é possível avistar a quadra de tênis e ouvir o barulho de diversas aves que Ronnie cria em um dos jardins. As duas horas de conversa não são suficientes para repassar os 46 anos de carreira (musical e na TV) do cantor que afirma ter vendido dez milhões de discos – e batizado os Mutantes. Mas vem biografia por aí. Ronnie já começou os depoimentos para o livro que contará sua vida em detalhes. Só não há previsão de lançamento.   A participação no show do seu filho foi algo pontual, isolado? Absolutamente pontual. Eu sabia que ele ia me fazer uma homenagem, um agrado no Dia dos Pais. Só que acabou virando um show mega, com pancadaria para entrar, lotado. Era um show baseado no meu lado B, minhas coisas psicodélicas, as mais estranhas, avantgarde, com alguns hits costurando. Tem uma canção que gravei no começo dos anos 80 com arranjo do Cesar Camargo Mariano chamada “Visagem”, do Fagner e do Fausto Nilo. Tecnicamente, foi a coisa mais importante que gravei, mas ninguém tocou.  Meu filho mandou essa e eu subi para cantá-la. Fiquei muito emocionado, tive de tomar água depois para me acalmar. Não há nenhuma intenção minha em seguir carreira musical agora. Se eventualmente gravo um disco, tendo de bancá-lo, não me olho mais no espelho. Não acho isso legal. Não depois de 46 anos de estrada. Música sempre foi a minha vida, não a minha sobrevivência. Devo tudo o que tenho materialmente e emocionalmente à música, claro. O complexo é que disco não vende mais. Se alguém investir tempo e dinheiro numa produção fonográfica comigo, o retorno vai ter de ser outro. Não tenho tempo para fazer shows. Ainda vai à sua agência de publicidade pela manhã? Vou duas vezes, trabalho de casa, sem o estresse do trânsito. Isso porque andei tendo uns piripaques. Tive um transtorno de ansiedade. Que se manifesta como? A sintomatologia é de problema cardíaco: pressão monumental, batimento de 160 em repouso, adormecimento do braço, enjoo, tontura. Fui internado quatro vezes no ano passado. Um dia, às três da manhã, tive a mais absoluta sensação da morte. Virei para a minha esposa e disse: na gaveta tal está o documento tal, na outra está o documento tal. Ela, que já teve síndrome do pânico, me pediu para respirar e ligou para o cardiologista. Ele me receitou um ansiolítico. Dez minutos depois, eu estava normal. De manhã cedo, ele me ligou e disse que se eu não tinha um psiquiatra, me recomendaria um. Meu problema não era cardiológico, era transtorno de ansiedade. Você acha que vai morrer e começa a se sentir mal. E não tem nada a ver com o físico.   O seu programa é assistido e elogiado por pessoas influentes, como o Silvio Santos. Nesse tempo todo de Gazeta, você não sofreu assédio para ir para outra emissora? Tive 14 propostas. Mas existem dois vetores. Um é a busca desenfreada pela audiência a qualquer preço, o que acho muito perigoso. Um programa em que você tem de mostrar desfile de travestis, peito de fora, escatologia, sangue, tem o seu nicho. Só que não é o meu. Não tenho talento para fazer isso. Outra coisa: alguns contratos que chegaram para mim diziam que a emissora teria o direito de sugerir pautas quando fosse de interesse da casa. Isso me assusta. Tudo que me chegou foi muito sombrio. Tenho o conforto emocional de trabalhar num lugar que me cobra qualidade, não audiência. As propostas mais atraentes que recebi vieram de TVs a cabo. Segundo os meus pares das mega-agências de publicidade, só tenho um concorrente: o cabo. Talvez não seja a hora de eu migrar. A única sedução possível é o dinheiro. Mas eu quero estar contente comigo mesmo. Vou fazer nove anos de Gazeta em 2013. Um cara de quase 70 anos não pode se dar ao luxo de cometer errinhos, de se arriscar. Tenho muito pouco tempo de vida útil, com muito para realizar, e já sei que talvez não dê tempo.   _VIZ7895 Você acha que se beneficia do programa, já que, no campo musical, recebe muitos talentos da nova geração, o que te deixa atualizado com o que está rolando? Claro. A Ana Cañas declarou que deve parte da carreira ao meu programa. Adoro a Bruna Caram. Essa menina tem um Pro-Tools dentro dela, não semitona nunca. Fora as surpresas que a produção faz para mim. Eu tenho paixão pela Jane Monheit, a cantora de jazz americana. Um dia eu estou no camarim e essa moça bate na minha porta: “May I?”. Minhas pernas tremiam, comecei a gaguejar. O John Pizzarelli virou meu brother. Estava no programa cantando Beatles faz pouco tempo. E qual é o espaço que essa gente vai ter na TV brasileira? Sua relação hoje com a música é só de apreciador mesmo, não tem maiores pretensões? De apreciador e de agradecimento. À música eu devo tudo o que me aconteceu de bom. A minha geração foi a primeira a começar a ganhar bem com shows e discos. Nossos salários em televisão eram coisas absurdamente gigantescas para a época. Consegui ter uma vida correta, confortável, me dedicando às coisas que gosto, à literatura, à arte, viajando o mundo inteiro, conhecendo outras culturas quando minha carreira estourou lá fora. Isso tem um preço impossível de ser dimensionado. A música que me deu. Mas você não teve uma carreira convencional na música... Foi totalmente esculhambada. Sem nenhuma assessoria, sem ninguém para me dizer o que fazer. Isso te fez falta? Fez. Eu gostaria de ter tido uma carreira linear. Mas aí você poderia não ter feito carreira na TV. Mas eu apresento televisão há 46 anos. Meu primeiro programa, O Pequeno Mundo de Ronnie Von, foi em 1966. O Todo Seu é meu 13º programa. O país rotulador determina que você só possa ser uma coisa. Ou é cantor ou apresentador ou motorista de caminhão. Eu poderia confessar uma coisa aqui: gosto mais de apresentar do que de cantar. Sou um cantor medíocre. Não que eu seja um apresentador maravilhoso. Mas fico mais à vontade na TV. Você imaginava que um dia seus discos seriam redescobertos e valorizados? Nunca imaginei. Eu só era assessorado pelo departamento de vendas. Me sentia um ignorante. Um dia decidi me libertar desse jogo. Houve uma mudança de diretores na minha gravadora e, por um mês, ela ficou acéfala, enquanto o Andre Midani não chegava dos Estados Unidos. Eu tinha uma obra a cumprir. Entrei no estúdio com o produtor Damiano Cozzella e arrebentamos. Na época, quebravam esse disco em público. Na rádio, diziam que eu tinha jogado o dinheiro da gravadora fora. Que eu era um alucinado, um alienado, um débil mental. Não adiantava dizer que aquilo era uma tela de Magritte, que era um trabalho surrealista. capa -Ronnie Von Luta Alguns desses seus discos mais cultuados ainda não foram lançados em CD. O que deveria sair é o A Misteriosa Luta Do Reino De Parassempre Contra O Império Do Nuncamais, de 1969. Reeditaram a minha estreia, que eu odeio e deixei isso claro no texto do CD. É uma coisa muito equivocada. Eu queria aproximar a música erudita da guitarra elétrica. Ouvi “Eleanor Rigby” e achei sensacional. Só que aqui ninguém entendeu. Me botaram num estúdio com uma megaorquestra, com tudo o que eu queria: fagote, oboé, clarone, corne inglês. Só que eram músicas para dançar. Deu tudo errado. O segundo LP bombou por causa de “A Praça”. O terceiro, que tem “Pra Chatear”, o dueto com o Caetano Veloso, eu quis gravar com Os Mutantes. Esse é um disco muito maluco, feito com o produtor Rogério Duprat de cabo a rabo. Não vendeu nada, foi um fracasso. Os discos que eu mais gosto foram fracassos. O quarto é o mais maluco. No quinto, já tirei o pé um pouco, a pedido do Midani. Quando fiz “Viva O Chopp Escuro”, estava almoçando com ele num restaurante. A letra é literal. Uma pessoa foi atropelada na rua, bem na nossa frente. Daí vem o verso “Vamos todos viver a vida/ Pois ela acaba na avenida”. E sua fase romântica, do final dos anos 70? De certa forma, ela também está sendo reavaliada, já que o Otto gravou “Pra Ser Só Minha Mulher”. É, essa eu fiz para o Roberto Carlos gravar. Mas não tenho muita admiração por esse período. Estava seguindo a visão comercial da gravadora. Eles me viam como um cantor romântico, me chamavam de príncipe. Mas era um lugar-comum. Estava todo mundo nessa. Eu não gostava. E “Cavaleiro De Aruanda”, de 1972? Ah, dessa eu gostei! Foi a única gravação minha que tocou na Inglaterra. O Emerson Fittipaldi me ligou de lá para contar. Letra e música de Tony Osanah, meu parceiraço! Hoje, ele dá aula de música na Alemanha. Um argentino apaixonado por folclore brasileiro que acabou virando orixá, se meteu em umbanda. Tocou comigo durante 12 anos, foi diretor musical da minha banda. Eu o conheci em 1966, quando ele tocava nos Beat Boys. Eu que os apresentei ao Caetano, assim como apresentei os Mutantes a ele. Esses eram os meus amiguinhos. O Tony mora numa cidadezinha perto de Frankfurt, mas passa o Natal aqui comigo. Muita gente não sabe que o Arnaldo Saccomani, atual jurado do SBT, é autor de várias das suas músicas mais psicodélicas. O Arnaldo é extremamente criativo. É um compositor brilhante, mas enveredou pelo caminho da produção fonográfica. E o que é o mainstream hoje? É sertanojo, breganojo, sambanojo. A determinação das gravadoras é que ele faça disco com essas pessoas. Aí todo mundo acha que o Arnaldo é só isso. Essa não era a praia dele como compositor. O cara é um craque. “Anarquia” é dele. Nenhum censor sacou a intenção na época. Os militares já tinham começado a vir para cima de mim, por eu ter formação acadêmica. Fui chamado duas vezes para conversar com os militares por ter reclamado da aposentadoria dos oficiais na Jovem Pan, afinal, sou aviador. Uma vez me avisaram, outra vez me avisaram, na terceira mandaram me buscar. Achei que eles iam começar a esmiuçar as minhas letras. E eu comentei com o Arnaldo que minha vontade era sair pichando tudo, fazendo uma anarquia. Sempre disse que sou anarquista. Não gosto da direita, não gosto da esquerda. Aí, no dia seguinte, ele veio com “Anarquia” para mim. Agora ela é cantada pelo Mombojó, o que me devolve à juventude. Como você ficou sabendo do seu “redescobrimento”? Foi meu filho foi quem me alertou que minha obra estava sendo reavaliada. Primeiro, recebi uma publicação austríaca que colocava o meu quarto disco na lista dos melhores trabalhos psicodélicos de todos os tempos. Ele saiu na Argentina, na Polônia, na Inglaterra. Tudo pirata. Nem eu tinha cópia do disco quando isso começou a acontecer. Pipocaram várias comunidades no Orkut falando dessa minha fase rock’n’roll. Só não gostei muito de uma que dizia que eu era o primeiro emo do Brasil. Veio muita gente nova falar comigo, fizeram um tributo. A primeira banda que me procurou foi a Video Hits, do Diego Medina, lá de Porto Alegre. Isso foi em 2000. Fui para o Rio e gravei “Silvia 20 Horas Domingo” com eles. Acho que minha carreira teria tomado um rumo diametralmente oposto se aquele disco mais psicodélico tivesse sido entendido na época. _VIZ7703 Os Mutantes acabaram realizando as ideias que você esboçou, mas não conseguiu dar continuidade? A Tropicália, como um todo, fez isso. Até me envolvi inicialmente com eles, mas nossos empresários bateram de frente. Falaram que aquilo não ia dar em nada, que era efêmero, ia passar. Saí da Tropicália e me arrependo até hoje. A história de misturar eletrônico com acústico, que eu tanto buscava, estava ali. A Elis Regina me cobrava, dizia que eu fazia música de alienado, com guitarra elétrica. Ela sabia que eu gostava de jazz e blues. Só que eu adorava rock também. Chegou a ter aquela passeata contra a guitarra elétrica. O Gil estava lá, mas depois enfiou a guitarra no saco e foi para a guitarra. Ele entendeu tudo, foi a mola propulsora da mudança. “Domingo No Parque” é algo antológico. Não tentaram te impingir fama de dedo-duro na época do regime militar? Não. Eu fui censurado. Era da UNE. Tomava era borrachada. Mas você tinha um vínculo com a Aeronáutica, assim como o Simonal havia tido uma trajetória no Exército. Meu vínculo é que fui cadete-aviador da Força Aérea. O que aconteceu com o Simonal é que a esquerda o odiava. Eu fui solidário a ele em todos os momentos, assim como o Chico Anysio e o maestro Erlon Chaves. O Simoninha foi criado com os meus filhos, é padrinho de casamento da minha filha. Éramos vizinhos no Morumbi. O Simonal não tinha qualquer visão ideológica. Não estava aí para coisa nenhuma. Depois que ele morreu, fiz um documento com o Chico Anysio e mandamos para Brasília pedindo a reabilitação dele. Você gravou uma faixa para o disco natalino da Bibi Ferreira. Como foi isso? Ela me convenceu. E ainda pediu para eu escolher a música. Fui de “Ave Maria”, de Schubert. Bibi foi a única pessoa que conseguiu me fazer voltar a um estúdio e gravar. Disse que queria fazer um disco inteiro comigo. No meu programa, contou que queria que eu tivesse sido o professor Higgins, na versão de My Fair Lady que fez nos anos 70. Só que eu estava estourado na Europa com “Deje Mi Vida”. Você nunca usou drogas mesmo? Nunca. Aconteceu uma coisa quando conheci a Rita Lee, que era deslumbrantemente linda e beatlemaníaca como eu. O amigo que nos apresentou estava fazendo experiências lisérgicas e fui assistir a uma. Eu vi esse cara gritando, dizendo que estava saindo sangue da parede, que tinha um morcego o perseguindo pela casa. Vão achar que é mentira, mas nunca queimei um baseado. De medo. Tive um amigo no Rio que começou na maconha, passou para a heroína e acabou se jogando do décimo andar dizendo que era o Super-Homem. Tudo isso povoou minha adolescência. Por isso tenho pavor de drogas.