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“Autobiografia” de Jimi Hendrix é imersão imperdível na alma do mito

por em 05/12/2014
ong>Por Maurício Amendola Muito já foi escrito e comentado sobre Jimi Hendrix. Há diversas biografias e grandes livros que tratam de sua meteórica carreira espalhados pelas prateleiras. Mas o pulo do gato de Jimi Hendrix Por Ele Mesmo, organizado por Alan Douglas e Peter Neal, é que, como o título diz, quem conta a história do maior guitarrista de todos os tempos é ele próprio. A obra reconstrói a vida do lendário músico em ordem cronológica, a partir de entrevistas e material de arquivo pessoal, e é narrada todo tempo na primeira pessoa. O resultado é precioso como relato biográfico e certeiro enquanto imersão no alucinante universo de Hendrix. É o mais próximo que teremos de uma autobiografia do mito. Apenas isso já faz valer a leitura das mais de 200 páginas. Douglas, produtor musical e amigo íntimo do guitarrista, e Neal, documentarista, realizaram uma pesquisa de mais de 20 anos para conseguir juntar material suficiente para a empreitada arriscada e louvável. Pela leitura, faz sentido que um cineasta esteja envolvido no projeto. A impressão é de que um tremendo quebra-cabeças de anotações pessoais – Hendrix era um escritor compulsivo – somadas a matérias jornalísticas estavam sobre a mesa e era preciso maestria para a colagem com coerência e, mais importante, com caráter autobiográfico. JimiHendrixPorEleMesmo Por se tratar de uma exposição particular, como um diário de Hendrix, o livro nem sempre conta exatamente o que acontece em sua vida. Isto é, fala-se mais do interno do que do externo. Obviamente, o que acontece em sua rotina (apresentações malucas, fama vertiginosa, status de mago) influencia suas palavras. Mas o grande trunfo do livro é justamente o vômito – não aquele derradeiro – do lendário guitarrista sobre a realidade que o cerca e o arrebata. Tudo fica mais interessante sob a visão de Hendrix e seus insights sensíveis, sensoriais e irônicos. Comprove por este trecho datado de agosto de 1968, retirado do diário de Hendrix: “O tempo está ótimo aqui em Nova Orleans. A comida é OK. Está tudo pegando fogo – mas um fogo do bem. Dá para imaginar a polícia sulista ME protegendo? Nós poderíamos mudar a América! O show foi ótimo. Deixei a plateia ligada com uma música pesada, voltei ao hotel, fiquei chapado e fiz amor com ‘Pootsie’, uma loura sulista ALTA”. É possível dimensionar muito da essência de Hendrix apenas por esse trecho. Difícil dizer se a história de um músico tão peculiar saindo da ponta de sua caneta tem a exatidão factual de uma detalhada biografia. Mas isso passa batido logo que o leitor percebe que a traição ou não de Capitu não é o ponto chave da trama. O esquema é – tal qual nas notas dos solos de “Little Wing” ou “Hey Joe” – se deixar levar pelas palavras de Hendrix e confiar em seu eu-lírico. Além do talento incendiário como guitarrista, Hendrix se revela um escritor articulado e elegante. Com digressões frequentes sobre vida, morte, amor e relações humanas, o relato é uma mistura de autobiografia com manifesto filosófico-espiritual. E não perde o fôlego, nem cai na verborragia esotérica. Quando acumulam-se páginas muito descritivas – que não deixam de ser interessantes – logo surge uma pincelada existencial de Hendrix. E assim vamos até o fim do livro. Jimi Hendrix Por Ele Mesmo é obrigatório não apenas para os fãs da lenda, mas para amantes da arte. Um mergulho profundo no cérebro e na alma de um dos principais artistas de todos os tempos. É um privilégio poder ler o que se passava naquela cabeça sem tantas interferências, censuras ou filtros estilísticos. Até não seria leviano dizer que os passos de Hendrix ficam mais atrativos sem o apego à rigidez dos acontecimentos. Recordando a célebre frase de O Homem que Matou o Facínora (1962), filme de John Ford: “Quando a lenda se torna fato, imprime-se a lenda”. Na saga de Jimi Hendrix, os fatos têm ares tão míticos que a gente nem percebe a diferença. Se é que há. https://www.youtube.com/watch?v=03yPUlBE5OU
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“Autobiografia” de Jimi Hendrix é imersão imperdível na alma do mito

por em 05/12/2014
ong>Por Maurício Amendola Muito já foi escrito e comentado sobre Jimi Hendrix. Há diversas biografias e grandes livros que tratam de sua meteórica carreira espalhados pelas prateleiras. Mas o pulo do gato de Jimi Hendrix Por Ele Mesmo, organizado por Alan Douglas e Peter Neal, é que, como o título diz, quem conta a história do maior guitarrista de todos os tempos é ele próprio. A obra reconstrói a vida do lendário músico em ordem cronológica, a partir de entrevistas e material de arquivo pessoal, e é narrada todo tempo na primeira pessoa. O resultado é precioso como relato biográfico e certeiro enquanto imersão no alucinante universo de Hendrix. É o mais próximo que teremos de uma autobiografia do mito. Apenas isso já faz valer a leitura das mais de 200 páginas. Douglas, produtor musical e amigo íntimo do guitarrista, e Neal, documentarista, realizaram uma pesquisa de mais de 20 anos para conseguir juntar material suficiente para a empreitada arriscada e louvável. Pela leitura, faz sentido que um cineasta esteja envolvido no projeto. A impressão é de que um tremendo quebra-cabeças de anotações pessoais – Hendrix era um escritor compulsivo – somadas a matérias jornalísticas estavam sobre a mesa e era preciso maestria para a colagem com coerência e, mais importante, com caráter autobiográfico. JimiHendrixPorEleMesmo Por se tratar de uma exposição particular, como um diário de Hendrix, o livro nem sempre conta exatamente o que acontece em sua vida. Isto é, fala-se mais do interno do que do externo. Obviamente, o que acontece em sua rotina (apresentações malucas, fama vertiginosa, status de mago) influencia suas palavras. Mas o grande trunfo do livro é justamente o vômito – não aquele derradeiro – do lendário guitarrista sobre a realidade que o cerca e o arrebata. Tudo fica mais interessante sob a visão de Hendrix e seus insights sensíveis, sensoriais e irônicos. Comprove por este trecho datado de agosto de 1968, retirado do diário de Hendrix: “O tempo está ótimo aqui em Nova Orleans. A comida é OK. Está tudo pegando fogo – mas um fogo do bem. Dá para imaginar a polícia sulista ME protegendo? Nós poderíamos mudar a América! O show foi ótimo. Deixei a plateia ligada com uma música pesada, voltei ao hotel, fiquei chapado e fiz amor com ‘Pootsie’, uma loura sulista ALTA”. É possível dimensionar muito da essência de Hendrix apenas por esse trecho. Difícil dizer se a história de um músico tão peculiar saindo da ponta de sua caneta tem a exatidão factual de uma detalhada biografia. Mas isso passa batido logo que o leitor percebe que a traição ou não de Capitu não é o ponto chave da trama. O esquema é – tal qual nas notas dos solos de “Little Wing” ou “Hey Joe” – se deixar levar pelas palavras de Hendrix e confiar em seu eu-lírico. Além do talento incendiário como guitarrista, Hendrix se revela um escritor articulado e elegante. Com digressões frequentes sobre vida, morte, amor e relações humanas, o relato é uma mistura de autobiografia com manifesto filosófico-espiritual. E não perde o fôlego, nem cai na verborragia esotérica. Quando acumulam-se páginas muito descritivas – que não deixam de ser interessantes – logo surge uma pincelada existencial de Hendrix. E assim vamos até o fim do livro. Jimi Hendrix Por Ele Mesmo é obrigatório não apenas para os fãs da lenda, mas para amantes da arte. Um mergulho profundo no cérebro e na alma de um dos principais artistas de todos os tempos. É um privilégio poder ler o que se passava naquela cabeça sem tantas interferências, censuras ou filtros estilísticos. Até não seria leviano dizer que os passos de Hendrix ficam mais atrativos sem o apego à rigidez dos acontecimentos. Recordando a célebre frase de O Homem que Matou o Facínora (1962), filme de John Ford: “Quando a lenda se torna fato, imprime-se a lenda”. Na saga de Jimi Hendrix, os fatos têm ares tão míticos que a gente nem percebe a diferença. Se é que há. https://www.youtube.com/watch?v=03yPUlBE5OU