NOTÍCIAS

Bi Ribeiro e os 30 e poucos anos dos Paralamas do Sucesso

por em 24/04/2015
P
or Lucas Borges Teixeira
Mais de trinta anos de estrada é um feito no mínimo louvável para uma banda de rock no Brasil. Ainda mais quando essa trajetória envolve um hiato forçado porque o vocalista e guitarrista quase morreu devido a um acidente. Mas isso não parece um problema para Os Paralamas do Sucesso. A banda lançou neste ano uma caixa com toda a sua discografia (18 discos lançados e duas compilações) e, apesar de não lançar nada inédito desde 2009, eles não param: fazem entre um e dois shows por semana pelo país. A Billboard Brasil bateu um papo com o baixista Bi Ribeiro sobre a história da banda, como encaram a música hoje, os discos preferidos e mais. Nesses 32 anos, tem disco com pegada ska, outro mais rock, sons com influência de música nordestina, algumas baladas, projeto acústico, em espanhol, referências à música latina... Qual é a pegada do Paralamas hoje? Poxa, mais ou menos a mistura disso tudo que você falou. Essas coisas são verdadeiras em nós. Cada momento a gente passa por determinado ritmo e incorpora aquilo de verdade. Entendo quando falam que o repertório é plural, mas, pra gente, tem a nossa cara. Como vocês escolhem o setlist do show? Tem um monte de hit... Vão pelas mais populares? O repertório vai pelos hits e outras que não necessariamente são hits. Algumas a gente dá uma afastada às vezes, mas com outras você não pode fazer isso. Numa época, a gente ficou meio arrogante e quis parar de tocar “Meu Erro” e “Óculos”. Tipo “isso faz parte do passado”, como os Los Hermanos fizeram com “Anna Julia”. Mas é uma bobagem, né? É a sua cara, a sua história. A gente logo deixou isso pra trás e essas músicas voltaram revitalizadas. Agora, olhando mais de longe, você tem algum disco preferido? Eu não posso deixar de dizer que o Selvagem? [1986] é o queridinho. Não só por que foi reconhecido. É um disco que eu gosto porque é muito simples: poucos instrumentos com arranjos simples e diretos. Ele comunica, com poucas palavras, muita coisa. Mas cada um tem sua coisa especial. Um foi mais difícil de gravar... Qual? Severino [1994]. A gente foi gravar na Inglaterra. Logo um com uma pegada tão brasileira e latina... Pra você ver. A gente inventou de gravar com o Phil Manzanera, do Roxy Music. Nada a ver, né? Ele tinha feito um disco argentino que a gente achou interessante. Ele topou e fomos pra lá. Mas a gente, normalmente, entra no estúdio com tudo pronto. Já ensaiamos mil vezes: vamos lá, registramos e vamos embora, não ficamos inventando... Apesar daquele disco ser bastante experimental, muitas coisas são de primeiro take. Mas o cara era gringo e a velocidade de gravação era muito devagar pra gente, sabe? Chegava lá de manhã e ele falava “hoje vamos gravar uma guitarra dessa música”. Nós: “não, vamos gravar dez guitarras!” Ele estranhou muito. O Passo do Lui [1984] é outro xodó, depois de uma experiência ruim com o primeiro disco [Cinema Mudo, 1983]. Que experiência ruim? A gente chegou lá muito inexperiente, nunca tinha entrado em estúdio e tal. O diretor artístico chegava e falava: “’Vital e sua Moto’ tem que ter refrão”. Aí a gente criou, mas à força. “Aqui, vamos colocar um vocalzinho, chama os Golden Boys.” E lá vinham os Golden Boys... Ele chamava o cara da Rádio Cidade pra ouvir dentro de estúdio e falar se ia tocar ou não ia tocar no rádio. Foi horrível, horrível mesmo. A gente saiu revoltado. Aí, partiu pro segundo disco. Falamos: “se não for como a gente quer, a gente nem grava”. Em menos de um ano, fizemos todas as músicas e gravamos. Deu tudo muito certo. O som é muito bom perto de outros discos da época. Nos anos 80, vocês lançaram cinco discos de inéditas, quase um por ano. Nos 90, quatro e, nos 2000, três. Vai diminuindo, né? [risos] Por que essa queda de produção? Acho que é da idade mesmo. Antes, a gente tinha mais vitalidade, uma vontade de contar um monte de coisas. Quando você vai gravar um disco aos 20 e poucos anos, tem um monte de coisa pra contar. Como é o processo de composição de vocês? Tivemos épocas mais difíceis, outras mais fáceis... tanto tempo junto. Agora, a gente se obriga a tocar, nos encontramos duas ou três vezes por semana com hora marcada, se não, não consegue. Às vezes, a gente nem toca, fica só batendo papo, ouve música, ouvimos algo que gravamos pra ver se aproveita. É daí que sai. O Herbert [Vianna] traz umas coisas embrionárias e a gente dá o acabamento. Vocês se consideram um banda de BRRock, como chamam as bandas dos anos 80, ou esse é só um rótulo bobo? [risos] Porra, tem uma frase do João Barone que diz que a gente tá cada vez mais perto dos 80 anos e mais longe dos anos 80. Não tem como negar nossa geração, mas é algo tão distante, não somos aquela banda. A gente fez parte desse levante do rock nacional, mesmo que não houvesse união entre as bandas. Não havia inimizade, mas era ombro a ombro, disputado. Passa um tempo, a gente vai ficando amigo dos caras. Mas, na época, era correr atrás de chegar primeiro. Nos anos 80, o rock estava entre os mais tocados do país. Hoje, perdeu espaço para sertanejo, pop americano e outros, principalmente entre os jovens. Por quê? Eu acho que ainda tem um bom espaço. Deixou de ser o mainstream, como era nos anos 80, e o sertanejo é hoje. Acho que regrediu ao lugar que era dele mesmo. Voltou ao nicho dele, porque tem o público certo, garantido. É que acho que o tamanho real dele no Brasil é esse que tá agora... Tem festival atrás do outro, cheio de banda que não toca no rádio, mas que enche. A gente não aparece na televisão, no Fantástico, mas a banda tá viva. Tem algo novo que você escute? Tem muita coisa surgindo, mas que eu saiba falar de nome... Minha filha tem 13 anos e quer ir ao Monsters of Rock para ver uma banda que eu nunca ouvi falar. Deve rolar algo que você goste... Sim, gosto do Motörhead, do Judas Priest... O que tem mais? Tem o Ozzy. Do Ozzy eu gosto muito! Mas não ouço muita coisa nova, não. Vi na TV o show do Jack White... Não vou com a cara dele, mas achei o show muito bom mesmo. Há a brincadeira de que nevava muito no Rio de Janeiro nos anos 80, especialmente na classe artística. Só que os Paralamas nunca foram associados às drogas nem envolvidos em polêmicas do tipo, como outras bandas e músicos. Mas rolava muito, ainda rola, como é? É... Muito nunca rolou, mas sempre foi por pouco. [risos] Alguns mais que outros, né? É uma coisa que acontece... Você é a favor da legalização da maconha? Tem que resolver esse assunto. Acho que tem que legalizar. Vai diminuir a violência e tirar o glamour. Mas tem que discutir as outras drogas também. Por que a bebida é liberada? Ela mata um monte de gente por aí. Não só de cirrose, como o cara chega em casa e bate na mulher ou mata alguém em acidente de carro. É uma droga. Por que pode e outras não podem? Músicas políticas e sociais estão entre os principais sucessos de vocês, como “O Beco”, “Alagados”, “Perplexo”... Elas não criticam exatamente uma classe, mas propõe um debate. Como você vê a situação política e social do Brasil atualmente? Poxa, caótica, né? Acho que a gente está beirando o fundo do poço, mas somos um país com muito potencial, tanto da forma humana como de recursos naturais. Acho que a gente vai dar a volta. Estou otimista. Com o governo atual? Não! Sou contra esse negócio de Impeachment, “tira a Dilma”. Acho que tem que deixar ela afundar sozinha com o navio dela. Vai tirar ela e botar o Temer? Deixa assim. Não é a curto prazo. E o futuro do Paralamas? Vocês estão com essa turnê de releitura de obra fazendo show no país inteiro. Tem disco novo a caminho? A gente tem umas músicas já. Algumas prontas, algumas em andamento... Mas só vai fechar num disco quando a coisa estiver mais madura, com músicas que tenham alguma coisa a dizer. Tem o projeto de fazer o disco para o ano que vem. É que dá pena... O que dá pena? Dá pena você fazer um disco com muitas músicas e, hoje, quase ninguém ouve o disco inteiro, né? Ele se dilui com a internet... A gente pode tentar fazer uma espécie de EP ou alguns EPs, sei lá... Como vocês veem a música digital? Quando começaram a fazer música era outro planeta... Exatamente. Assim, a gente faz música em qualquer formato que aparecer. Mas eu tenho uma implicância danada – não que seja purista – com essa coisa comprimida. Acho que perde muito, fica amassado. Então boa turnê e parabéns pelos 30 (e poucos) anos! Valeu! O que tá rolando agora é parecido com o [show] de 30 anos. Mantivemos o cenário, mas mudamos algumas músicas. É um show atemporal.
  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Saudade
Eduardo Costa
3
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Bi Ribeiro e os 30 e poucos anos dos Paralamas do Sucesso

por em 24/04/2015
P
or Lucas Borges Teixeira
Mais de trinta anos de estrada é um feito no mínimo louvável para uma banda de rock no Brasil. Ainda mais quando essa trajetória envolve um hiato forçado porque o vocalista e guitarrista quase morreu devido a um acidente. Mas isso não parece um problema para Os Paralamas do Sucesso. A banda lançou neste ano uma caixa com toda a sua discografia (18 discos lançados e duas compilações) e, apesar de não lançar nada inédito desde 2009, eles não param: fazem entre um e dois shows por semana pelo país. A Billboard Brasil bateu um papo com o baixista Bi Ribeiro sobre a história da banda, como encaram a música hoje, os discos preferidos e mais. Nesses 32 anos, tem disco com pegada ska, outro mais rock, sons com influência de música nordestina, algumas baladas, projeto acústico, em espanhol, referências à música latina... Qual é a pegada do Paralamas hoje? Poxa, mais ou menos a mistura disso tudo que você falou. Essas coisas são verdadeiras em nós. Cada momento a gente passa por determinado ritmo e incorpora aquilo de verdade. Entendo quando falam que o repertório é plural, mas, pra gente, tem a nossa cara. Como vocês escolhem o setlist do show? Tem um monte de hit... Vão pelas mais populares? O repertório vai pelos hits e outras que não necessariamente são hits. Algumas a gente dá uma afastada às vezes, mas com outras você não pode fazer isso. Numa época, a gente ficou meio arrogante e quis parar de tocar “Meu Erro” e “Óculos”. Tipo “isso faz parte do passado”, como os Los Hermanos fizeram com “Anna Julia”. Mas é uma bobagem, né? É a sua cara, a sua história. A gente logo deixou isso pra trás e essas músicas voltaram revitalizadas. Agora, olhando mais de longe, você tem algum disco preferido? Eu não posso deixar de dizer que o Selvagem? [1986] é o queridinho. Não só por que foi reconhecido. É um disco que eu gosto porque é muito simples: poucos instrumentos com arranjos simples e diretos. Ele comunica, com poucas palavras, muita coisa. Mas cada um tem sua coisa especial. Um foi mais difícil de gravar... Qual? Severino [1994]. A gente foi gravar na Inglaterra. Logo um com uma pegada tão brasileira e latina... Pra você ver. A gente inventou de gravar com o Phil Manzanera, do Roxy Music. Nada a ver, né? Ele tinha feito um disco argentino que a gente achou interessante. Ele topou e fomos pra lá. Mas a gente, normalmente, entra no estúdio com tudo pronto. Já ensaiamos mil vezes: vamos lá, registramos e vamos embora, não ficamos inventando... Apesar daquele disco ser bastante experimental, muitas coisas são de primeiro take. Mas o cara era gringo e a velocidade de gravação era muito devagar pra gente, sabe? Chegava lá de manhã e ele falava “hoje vamos gravar uma guitarra dessa música”. Nós: “não, vamos gravar dez guitarras!” Ele estranhou muito. O Passo do Lui [1984] é outro xodó, depois de uma experiência ruim com o primeiro disco [Cinema Mudo, 1983]. Que experiência ruim? A gente chegou lá muito inexperiente, nunca tinha entrado em estúdio e tal. O diretor artístico chegava e falava: “’Vital e sua Moto’ tem que ter refrão”. Aí a gente criou, mas à força. “Aqui, vamos colocar um vocalzinho, chama os Golden Boys.” E lá vinham os Golden Boys... Ele chamava o cara da Rádio Cidade pra ouvir dentro de estúdio e falar se ia tocar ou não ia tocar no rádio. Foi horrível, horrível mesmo. A gente saiu revoltado. Aí, partiu pro segundo disco. Falamos: “se não for como a gente quer, a gente nem grava”. Em menos de um ano, fizemos todas as músicas e gravamos. Deu tudo muito certo. O som é muito bom perto de outros discos da época. Nos anos 80, vocês lançaram cinco discos de inéditas, quase um por ano. Nos 90, quatro e, nos 2000, três. Vai diminuindo, né? [risos] Por que essa queda de produção? Acho que é da idade mesmo. Antes, a gente tinha mais vitalidade, uma vontade de contar um monte de coisas. Quando você vai gravar um disco aos 20 e poucos anos, tem um monte de coisa pra contar. Como é o processo de composição de vocês? Tivemos épocas mais difíceis, outras mais fáceis... tanto tempo junto. Agora, a gente se obriga a tocar, nos encontramos duas ou três vezes por semana com hora marcada, se não, não consegue. Às vezes, a gente nem toca, fica só batendo papo, ouve música, ouvimos algo que gravamos pra ver se aproveita. É daí que sai. O Herbert [Vianna] traz umas coisas embrionárias e a gente dá o acabamento. Vocês se consideram um banda de BRRock, como chamam as bandas dos anos 80, ou esse é só um rótulo bobo? [risos] Porra, tem uma frase do João Barone que diz que a gente tá cada vez mais perto dos 80 anos e mais longe dos anos 80. Não tem como negar nossa geração, mas é algo tão distante, não somos aquela banda. A gente fez parte desse levante do rock nacional, mesmo que não houvesse união entre as bandas. Não havia inimizade, mas era ombro a ombro, disputado. Passa um tempo, a gente vai ficando amigo dos caras. Mas, na época, era correr atrás de chegar primeiro. Nos anos 80, o rock estava entre os mais tocados do país. Hoje, perdeu espaço para sertanejo, pop americano e outros, principalmente entre os jovens. Por quê? Eu acho que ainda tem um bom espaço. Deixou de ser o mainstream, como era nos anos 80, e o sertanejo é hoje. Acho que regrediu ao lugar que era dele mesmo. Voltou ao nicho dele, porque tem o público certo, garantido. É que acho que o tamanho real dele no Brasil é esse que tá agora... Tem festival atrás do outro, cheio de banda que não toca no rádio, mas que enche. A gente não aparece na televisão, no Fantástico, mas a banda tá viva. Tem algo novo que você escute? Tem muita coisa surgindo, mas que eu saiba falar de nome... Minha filha tem 13 anos e quer ir ao Monsters of Rock para ver uma banda que eu nunca ouvi falar. Deve rolar algo que você goste... Sim, gosto do Motörhead, do Judas Priest... O que tem mais? Tem o Ozzy. Do Ozzy eu gosto muito! Mas não ouço muita coisa nova, não. Vi na TV o show do Jack White... Não vou com a cara dele, mas achei o show muito bom mesmo. Há a brincadeira de que nevava muito no Rio de Janeiro nos anos 80, especialmente na classe artística. Só que os Paralamas nunca foram associados às drogas nem envolvidos em polêmicas do tipo, como outras bandas e músicos. Mas rolava muito, ainda rola, como é? É... Muito nunca rolou, mas sempre foi por pouco. [risos] Alguns mais que outros, né? É uma coisa que acontece... Você é a favor da legalização da maconha? Tem que resolver esse assunto. Acho que tem que legalizar. Vai diminuir a violência e tirar o glamour. Mas tem que discutir as outras drogas também. Por que a bebida é liberada? Ela mata um monte de gente por aí. Não só de cirrose, como o cara chega em casa e bate na mulher ou mata alguém em acidente de carro. É uma droga. Por que pode e outras não podem? Músicas políticas e sociais estão entre os principais sucessos de vocês, como “O Beco”, “Alagados”, “Perplexo”... Elas não criticam exatamente uma classe, mas propõe um debate. Como você vê a situação política e social do Brasil atualmente? Poxa, caótica, né? Acho que a gente está beirando o fundo do poço, mas somos um país com muito potencial, tanto da forma humana como de recursos naturais. Acho que a gente vai dar a volta. Estou otimista. Com o governo atual? Não! Sou contra esse negócio de Impeachment, “tira a Dilma”. Acho que tem que deixar ela afundar sozinha com o navio dela. Vai tirar ela e botar o Temer? Deixa assim. Não é a curto prazo. E o futuro do Paralamas? Vocês estão com essa turnê de releitura de obra fazendo show no país inteiro. Tem disco novo a caminho? A gente tem umas músicas já. Algumas prontas, algumas em andamento... Mas só vai fechar num disco quando a coisa estiver mais madura, com músicas que tenham alguma coisa a dizer. Tem o projeto de fazer o disco para o ano que vem. É que dá pena... O que dá pena? Dá pena você fazer um disco com muitas músicas e, hoje, quase ninguém ouve o disco inteiro, né? Ele se dilui com a internet... A gente pode tentar fazer uma espécie de EP ou alguns EPs, sei lá... Como vocês veem a música digital? Quando começaram a fazer música era outro planeta... Exatamente. Assim, a gente faz música em qualquer formato que aparecer. Mas eu tenho uma implicância danada – não que seja purista – com essa coisa comprimida. Acho que perde muito, fica amassado. Então boa turnê e parabéns pelos 30 (e poucos) anos! Valeu! O que tá rolando agora é parecido com o [show] de 30 anos. Mantivemos o cenário, mas mudamos algumas músicas. É um show atemporal.