NOTÍCIAS

Biografias trazem memórias químicas de João Gordo e Rita Lee

Artistas fazem apanhado das suas carreiras em livros

por Marcos Lauro em 16/11/2016

“A memória é uma ilha de edição”, já dizia o saudoso compositor Wally Salomão. Com essa frase, ele quis reforçar a ideia de que a memória é uma construção e pode ser moldada de acordo com o inconsciente do seu dono. Se isso já ocorre em condições normais, imagine então numa vida desregrada e repleta de abusos de substâncias químicas, além de atividades intensas como turnês e gravações. São os casos de João Gordo e Rita Lee, que acabam de lançar as suas respectivas autobiografias.

Em João Gordo – Viva La Vida Tosca, o vocalista do Ratos de Porão contou com o trabalho de André Barcinski, jornalista com vasta experiência no ramo cultural e que tomou depoimentos do músico e de seus familiares e amigos para reconstruir a história no papel. Bastante midiático, João Gordo sempre foi muito aberto em relação a sua história de vida e já contou diversos episódios em seus programas ou entrevistas. Ou seja: se você acompanha a trajetória do músico, não espere grandes novidades ou muitas passagens inéditas. A qualidade aqui é o texto, leve e fluido, que faz você imaginar o próprio João te contando sobre o movimento punk, sua entrada para a televisão e seus excessos.

JOÃO GORDO FAZ PANELAÇO COM A FACA E O TOFU NA MÃO

A biografia dá ênfase à infância de João, talvez o período com mais revelações. Da convivência com o pai, um policial linha dura que batia no filho quase que diariamente e, num determinado dia, quase o matou sufocado, até a mudança para o interior, para “se afastar das más influências de São Paulo” – mudança essa que acabou reforçando alguns vícios. O músico revela, por exemplo, que se tornou palmeirense apenas porque seu pai, apesar de não ligar muito para futebol, era corintiano.

Além de contar a vida do protagonista, hoje com 52 anos, o livro traz um bom panorama do início da cena punk em São Paulo no comecinho dos anos 1980 – desde a dificuldade em se conseguir discos até o amadorismo dos shows –, fala sobre a cena heavy metal e o respeito que o Ratos conquistou nas duas e, principalmente, fora do Brasil. A polêmica entrevista de João com Dado Dolabella, o famigerado rolê pelo centro de São Paulo com Kurt Cobain e Courtney Love e a treta com o Chorão também estão no livro, com detalhes. João Gordo – Viva La Vida Tosca é um livro de leitura rápida e leve – até quando as maiores barbaridades estão sendo contadas, o texto, bem natural, não transmite tanta tensão –, mesmo quando João conta que até crack aprendeu a produzir.

Na outra publicação, temos a artista que é considerada a rainha do rock no Brasil, Rita Lee. O próprio anúncio da sua autobiografia já foi uma surpresa. Rita sempre se negou a falar sobre seu passado, especialmente a fase com os irmãos Dias Baptista em Os Mutantes, e já vetou projetos anteriores de biografias e documentários. Preferiu escrever ela mesma suas memórias – e tem até foto da Rita na mesa do seu escritório para comprovar que o livro foi, sim, escrito pela própria.

“AGORA VAMOS PRECISAR DE MAIS 'RITA LEES'”, DIZ PROMOTOR DO CASO MC BRINQUEDO

Rita Lee – Uma Autobiografia tem uma leitura deliciosa. Aos 68 anos (e já aposentada da sua carreira de 50), Rita traz muitas revelações. Duas figuras são pegas para Cristo de uma forma mais incisiva: Sergio Dias, d’Os Mutantes, que leva adjetivos nada elogiosos (a frase mais leve sobre ele diz que Sergio toca guitarra com “95% de técnica e 5% de alma”, praticamente um xingamento para qualquer músico que se preze), e Luiz Carlini, guitarrista do Tutti Frutti, a quem Rita acusa de roubar o nome da banda após a saída da vocalista e, antes disso, participar de esquemas de desvios de dinheiro em conjunto com a ex-empresária. A crítica musical também apanha de Rita, em especial o produtor e jornalista Ezequiel Neves. Mesmo depois de tantos anos de carreira e sem a obrigação de provar mais nada pra ninguém, Rita ainda se mostra ressentida com as críticas negativas que recebeu. Infelizmente, pra alguns artistas, crítica que não tem elogio não serve. Rita deu o troco em seu livro.

CAIXA MOSTRA CARREIRA IRREGULAR DE RITA LEE

A memória de Rita não é boa e a própria brinca com isso em diversos momentos do livro. Para desfazer algumas distorções ou reforçar detalhes que passaram batido, foi criada a figura do “ghost writer” (um trocadilho para brincar com a figura que escreve os livros no lugar das celebridades): um fantasma que aparece no meio do texto e “conversa” com Rita e com o leitor trazendo números, informações ou correções sobre o que está sendo falado naquele trecho. Quem escreve as participações do fantasminha é Guilherme Samora, “o único jornalista vivo de prestígio que fala bem de mim”. Se a memória de Rita falha, o ego continua inteiro.

RITA LEE, A ROQUEIRA EXPERIENTE EM FAZER HITS?

Algo que salta aos olhos é a quantidade de fotos, todas guardadas por Rita, de todas as fases da sua vida. Além disso, no texto, ela afirma ter quase todos os figurinos e objetos importantes da sua carreira – num determinado momento, ela conta que optou pela mudança para um apartamento maior para poder continuar guardando tudo. Já dá para imaginar uma grande exposição com tudo isso reunido. Fica a dica.

Rita pega pesado consigo mesma quando fala do vício em álcool, que a fez sofrer acidentes graves – um deles, uma queda de 15 metros da sacada de sua casa, quase a fez ter de abandonar a carreira por conta da lesão na mandíbula. Ela conta que chegou a viver num apartamento alugado em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, sozinha, numa dieta baseada em álcool em todos os momentos do dia. As internações em spas e hospitais psiquiátricos foram frequentes.

ORGANIZAÇÃO PROÍBE SELFIES E ÁUDIOS PARA WHATSAPP EM EVENTO COM RITA LEE

Diferente de João Gordo, que continua ativo na TV (hoje, mais no YouTube) e no Ratos de Porão, Rita Lee está aposentada e mora com seu marido, o guitarrista Roberto de Carvalho, que administra a sua carreira desde os anos 1970. A biografia vem para suprir um buraco de anos e anos sem uma entrevista decente, que esclarecesse pontos até então obscuros da sua carreira. Pelo menos agora temos a versão de Rita sobre os fatos, mesmo desconfiando da memória da cantora.

Livro: João Gordo: Viva la Vida Tosca
Autor: João Gordo/André Barcinski
Editora: Darkside Books
Páginas: 320

Livro: Rita Lee - Uma Autobiografia
Autora: Rita Lee
Editora: Globo Livros
Páginas: 294

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Biografias trazem memórias químicas de João Gordo e Rita Lee

Artistas fazem apanhado das suas carreiras em livros

por Marcos Lauro em 16/11/2016

“A memória é uma ilha de edição”, já dizia o saudoso compositor Wally Salomão. Com essa frase, ele quis reforçar a ideia de que a memória é uma construção e pode ser moldada de acordo com o inconsciente do seu dono. Se isso já ocorre em condições normais, imagine então numa vida desregrada e repleta de abusos de substâncias químicas, além de atividades intensas como turnês e gravações. São os casos de João Gordo e Rita Lee, que acabam de lançar as suas respectivas autobiografias.

Em João Gordo – Viva La Vida Tosca, o vocalista do Ratos de Porão contou com o trabalho de André Barcinski, jornalista com vasta experiência no ramo cultural e que tomou depoimentos do músico e de seus familiares e amigos para reconstruir a história no papel. Bastante midiático, João Gordo sempre foi muito aberto em relação a sua história de vida e já contou diversos episódios em seus programas ou entrevistas. Ou seja: se você acompanha a trajetória do músico, não espere grandes novidades ou muitas passagens inéditas. A qualidade aqui é o texto, leve e fluido, que faz você imaginar o próprio João te contando sobre o movimento punk, sua entrada para a televisão e seus excessos.

JOÃO GORDO FAZ PANELAÇO COM A FACA E O TOFU NA MÃO

A biografia dá ênfase à infância de João, talvez o período com mais revelações. Da convivência com o pai, um policial linha dura que batia no filho quase que diariamente e, num determinado dia, quase o matou sufocado, até a mudança para o interior, para “se afastar das más influências de São Paulo” – mudança essa que acabou reforçando alguns vícios. O músico revela, por exemplo, que se tornou palmeirense apenas porque seu pai, apesar de não ligar muito para futebol, era corintiano.

Além de contar a vida do protagonista, hoje com 52 anos, o livro traz um bom panorama do início da cena punk em São Paulo no comecinho dos anos 1980 – desde a dificuldade em se conseguir discos até o amadorismo dos shows –, fala sobre a cena heavy metal e o respeito que o Ratos conquistou nas duas e, principalmente, fora do Brasil. A polêmica entrevista de João com Dado Dolabella, o famigerado rolê pelo centro de São Paulo com Kurt Cobain e Courtney Love e a treta com o Chorão também estão no livro, com detalhes. João Gordo – Viva La Vida Tosca é um livro de leitura rápida e leve – até quando as maiores barbaridades estão sendo contadas, o texto, bem natural, não transmite tanta tensão –, mesmo quando João conta que até crack aprendeu a produzir.

Na outra publicação, temos a artista que é considerada a rainha do rock no Brasil, Rita Lee. O próprio anúncio da sua autobiografia já foi uma surpresa. Rita sempre se negou a falar sobre seu passado, especialmente a fase com os irmãos Dias Baptista em Os Mutantes, e já vetou projetos anteriores de biografias e documentários. Preferiu escrever ela mesma suas memórias – e tem até foto da Rita na mesa do seu escritório para comprovar que o livro foi, sim, escrito pela própria.

“AGORA VAMOS PRECISAR DE MAIS 'RITA LEES'”, DIZ PROMOTOR DO CASO MC BRINQUEDO

Rita Lee – Uma Autobiografia tem uma leitura deliciosa. Aos 68 anos (e já aposentada da sua carreira de 50), Rita traz muitas revelações. Duas figuras são pegas para Cristo de uma forma mais incisiva: Sergio Dias, d’Os Mutantes, que leva adjetivos nada elogiosos (a frase mais leve sobre ele diz que Sergio toca guitarra com “95% de técnica e 5% de alma”, praticamente um xingamento para qualquer músico que se preze), e Luiz Carlini, guitarrista do Tutti Frutti, a quem Rita acusa de roubar o nome da banda após a saída da vocalista e, antes disso, participar de esquemas de desvios de dinheiro em conjunto com a ex-empresária. A crítica musical também apanha de Rita, em especial o produtor e jornalista Ezequiel Neves. Mesmo depois de tantos anos de carreira e sem a obrigação de provar mais nada pra ninguém, Rita ainda se mostra ressentida com as críticas negativas que recebeu. Infelizmente, pra alguns artistas, crítica que não tem elogio não serve. Rita deu o troco em seu livro.

CAIXA MOSTRA CARREIRA IRREGULAR DE RITA LEE

A memória de Rita não é boa e a própria brinca com isso em diversos momentos do livro. Para desfazer algumas distorções ou reforçar detalhes que passaram batido, foi criada a figura do “ghost writer” (um trocadilho para brincar com a figura que escreve os livros no lugar das celebridades): um fantasma que aparece no meio do texto e “conversa” com Rita e com o leitor trazendo números, informações ou correções sobre o que está sendo falado naquele trecho. Quem escreve as participações do fantasminha é Guilherme Samora, “o único jornalista vivo de prestígio que fala bem de mim”. Se a memória de Rita falha, o ego continua inteiro.

RITA LEE, A ROQUEIRA EXPERIENTE EM FAZER HITS?

Algo que salta aos olhos é a quantidade de fotos, todas guardadas por Rita, de todas as fases da sua vida. Além disso, no texto, ela afirma ter quase todos os figurinos e objetos importantes da sua carreira – num determinado momento, ela conta que optou pela mudança para um apartamento maior para poder continuar guardando tudo. Já dá para imaginar uma grande exposição com tudo isso reunido. Fica a dica.

Rita pega pesado consigo mesma quando fala do vício em álcool, que a fez sofrer acidentes graves – um deles, uma queda de 15 metros da sacada de sua casa, quase a fez ter de abandonar a carreira por conta da lesão na mandíbula. Ela conta que chegou a viver num apartamento alugado em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, sozinha, numa dieta baseada em álcool em todos os momentos do dia. As internações em spas e hospitais psiquiátricos foram frequentes.

ORGANIZAÇÃO PROÍBE SELFIES E ÁUDIOS PARA WHATSAPP EM EVENTO COM RITA LEE

Diferente de João Gordo, que continua ativo na TV (hoje, mais no YouTube) e no Ratos de Porão, Rita Lee está aposentada e mora com seu marido, o guitarrista Roberto de Carvalho, que administra a sua carreira desde os anos 1970. A biografia vem para suprir um buraco de anos e anos sem uma entrevista decente, que esclarecesse pontos até então obscuros da sua carreira. Pelo menos agora temos a versão de Rita sobre os fatos, mesmo desconfiando da memória da cantora.

Livro: João Gordo: Viva la Vida Tosca
Autor: João Gordo/André Barcinski
Editora: Darkside Books
Páginas: 320

Livro: Rita Lee - Uma Autobiografia
Autora: Rita Lee
Editora: Globo Livros
Páginas: 294