NOTÍCIAS

Call me Mr. Gustavo de Almeida Ribeiro

por em 07/09/2015
Por Maurício Amendola  

Quem, nos idos de 2004, ouviu os versos “prepare a esquiva/informação real pro povo à deriva/na terra da terra improdutiva” – trecho final de “From Hell Do Céu”, fechamento primoroso de Babylon By Gus Vol.1, O Ano Do Macaco – não imaginava que teria de esperar tanto para escutar outro disco de inéditas do sábio informante de Niterói. Ainda que não tenha vendido absurdamente, o álbum de estreia da carreira solo de Black Alien é um clássico do rap nacional, algo que também tem a ver com a demora para o lançamento de seu sucessor.  Além dos fãs fiéis até hoje, a influência e relevância do disco foram decisivas para o prestígio inabalável de Black Alien entre seus pares: “Esquiva Na Esgrima”, de Criolo, cita o rapper como inspiração; Emicida o chama de gênio; Marechal já o estabeleceu como o melhor MC brasileiro e por aí vai. Toda essa admiração muito por conta de apenas um disco. Claro, há, antes, notáveis trabalhos ao lado de Speed Freaks e a fase como integrante do Planet Hemp. Mas o fato é que Babylon By Gus Vol. 1 é, sim, um divisor de águas no rap nacional – provavelmente como Nó Na Orelha o será daqui a pouco tempo – e a pressão depois de um clássico, para alguém como Black Alien, é grande. Junte essa questão de antemão a (muitos) problemas com drogas e álcool no período, preguiça (“Preguiça é o meu pecado capital”, admitiu o rapper na série “No Princípio Era o Verbo”) e um rimador genial e cuidadoso, que não subestima jamais a força das palavras. O resultado foi uma espera de longos 11 anos para um novo disco: Babylon By Gus Vol 2 – No Princípio Era O Verbo finalmente chegou à praça na semana passada.  Alexandre Basa, produtor do primeiro disco, repete a dobradinha e preparou a cama para Black Alien deixar suas rimas.

Em cada verso do trabalho, que, na capa, faz referência ao filme O Sétimo Selo, clássico de Ingmar Bergman, nota-se o lado Gustavo de Almeida Ribeiro no já conhecido Black Alien. Temos a impressão de sermos apresentados a alguém que sempre esteve ali, mas que apenas agora resolveu dar o ar da graça. Talvez mais por necessidade do que por opção. Na introdução recitada, “1972”, já há um informe: “Do jeito que tava indo, não tava indo/ te apresento minha nova vida/ seja bem-vindo!”.  Esse tipo de aviso vindo de alguém que passou por tratamento contra drogas, foi para clínicas e enfrentou infernos pessoais, pode ser o prenúncio para um mar de clichês e cafonices sobre superação. Errado. A faixa seguinte, não à toa intitulada “Rolo Compressor”, traz sample poderoso de gaita – advindo de um tema do bluesman Doctor Ross – e batidão cheio de graves, para alívio de todos. No refrão, entre os versos que comprovam que Black Alien está de pé novamente e em ótima forma, há citação de “Bring The Pain”, canção de Method Man, integrante do Wu-Tang Clan. O cartão de visitas é muito bem entregue.

Na sequência, duas faixas que demonstram a versatilidade estilística do MC: “Somos O Mundo” e “Rock ‘n’ Roll”. A primeira, com participação de Céu, é uma linda canção de amor, com levada lenta e beat lisérgico. A segunda, uma faixa com influência de trap, agressiva, com participação de Edi Rock e refrão simplista – “Eu sou Rock ‘n’ Roll!” –, o qual soa um desabafo que quer dizer algo como “eu sou casca grossa, eu sou zica, ninguém vai me derrubar”.  Ou, como diz KL Jay: “Estamos vivos, irmãos, estamos vivos!”.

Os primeiros versos da faixa seguinte, “Terra” que havia sido lançada em dezembro de 2014 – uma das únicas gravações inéditas de Black Alien que chegaram ao público antes de No Princípio – anuncia a retomada do caminho: “Terra, meu atual endereço. Em reconhecimento para um novo começo”. Depois de anos longe daqui, ele está de volta, mas, ao final, avisa aos navegantes que nada será como antes.  A primeira metade do disco é encerrada por “Skate No Pé”, contagiante faixa que conta com as participações de Kamau e Parteum. É um trio de peso e uma ode ao skate. Energia pura!

Com ares épicos e participação de Luiz Melodia, “Quem É Você?” é uma das faixas mais sombrias do disco. Os versos de Black Alien falam sobre uma espécie de inimigo misterioso e virtual, enquanto o vozeirão de Melodia dá sustância à “paranoia”. “Dá tudo que tu quer e rouba o que você precisa/o nome dela é tecnologia”, diz uma passagem. Na sequência, o rapper mostra seu talento para rimar sobre amor na deliciosa “Falando Do Meu Bem”, algo como a prima de “Como Eu Te Quero”, lançada há 11 anos. O refrão, amparado por uma bela linha de metais, é irresistível. Em “Identidade”, o rapper mostra seu apreço pelo pop/rock, apresentando uma faixa que, por vezes, remete a Charlie Brown Jr, inclusive com virtuosos riffs de guitarra.

A canção na qual Black Alien mais revira seus esqueletos no armário é “O Estranho Vizinho da Frente”, curiosamente a que mais deve bombar nas pistas. Com versos pontiagudos explicando ao vizinho da frente quem é o sujeito estranho que anda de um lado para o outro com um caderno na mão, é um dos grandes momentos do disco. “Homem de Família”, faixa seguinte, serve como contrapeso à densidade anterior: uma canção confiante, na qual o eu lírico do rapper é seu próprio avô falando sobre família, futuro e amor. “Cidadão Honorário”, poema que encerra o álbum, é para marmanjo marejar os olhos e arrepiar os pelos do braço. Nele, Black Alien homenageia seus familiares e amigos (há até citação ao Quinto Andar, extinto grupo carioca) e expressa com sensibilidade e lirismo a nova fase de sua vida. “Sou Nova Orleans depois do Katrina”. É hora de recomeçar... o disco.

Gustavo, que recentemente chegou a dizer que o amor próprio é algo novo para ele, compôs boa parte do repertório dentro da clínica de reabilitação. Ele disse ter enfrentado a folha branca diversas vezes, por conta da dificuldade de compor sóbrio pela primeira vez. Aos poucos, a coisa foi saindo. O resultado é um disco imperdível: ecumênico, solar, cheio de esperança, mensagens positivas, mas sem, em nenhum momento, soar piegas. Como ele mesmo disse: “Estar sóbrio não significa que eu virei um careta”. De 2004 para cá, muita coisa mudou. O mundo é outro e Black Alien é outro. Mas seu talento para rimar continua inigualável, sua visão do mundo permanece interessante e a Lírica Bereta segue afiadíssima, agora, com novos alvos e novas motivações. Ele trocou a avalanche de referências – “cocaína no avião da FAB”; “reserva dos Cinta Larga”; “Eldorado dos Carajás”; “Solana Star” – e o caráter metafórico pela exatidão e as rimas cirúrgicas, que dizem muito, às vezes tudo, com pouco – “o mundo é bem complicado para quem raciocina/Então, amigo, pensa rápido: é uma benção ou é uma sina?”. A acrobacia verbal dá lugar a estrofes mais lógicas, mas não menos originais. No lugar de política, vemos temas como elevação, amor, edificação do espírito. É Gustavo se apresentando em grande estilo, enquanto Black Alien respira, descansa, se renova, mas sem dormir. Que nem o cão que morde a mão que o afaga.

Ouça Babylon By Gus Vol 2 – No Princípio Era O Verbo:

https://www.youtube.com/watch?v=ALFAG8dvycY
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Call me Mr. Gustavo de Almeida Ribeiro

por em 07/09/2015
Por Maurício Amendola  

Quem, nos idos de 2004, ouviu os versos “prepare a esquiva/informação real pro povo à deriva/na terra da terra improdutiva” – trecho final de “From Hell Do Céu”, fechamento primoroso de Babylon By Gus Vol.1, O Ano Do Macaco – não imaginava que teria de esperar tanto para escutar outro disco de inéditas do sábio informante de Niterói. Ainda que não tenha vendido absurdamente, o álbum de estreia da carreira solo de Black Alien é um clássico do rap nacional, algo que também tem a ver com a demora para o lançamento de seu sucessor.  Além dos fãs fiéis até hoje, a influência e relevância do disco foram decisivas para o prestígio inabalável de Black Alien entre seus pares: “Esquiva Na Esgrima”, de Criolo, cita o rapper como inspiração; Emicida o chama de gênio; Marechal já o estabeleceu como o melhor MC brasileiro e por aí vai. Toda essa admiração muito por conta de apenas um disco. Claro, há, antes, notáveis trabalhos ao lado de Speed Freaks e a fase como integrante do Planet Hemp. Mas o fato é que Babylon By Gus Vol. 1 é, sim, um divisor de águas no rap nacional – provavelmente como Nó Na Orelha o será daqui a pouco tempo – e a pressão depois de um clássico, para alguém como Black Alien, é grande. Junte essa questão de antemão a (muitos) problemas com drogas e álcool no período, preguiça (“Preguiça é o meu pecado capital”, admitiu o rapper na série “No Princípio Era o Verbo”) e um rimador genial e cuidadoso, que não subestima jamais a força das palavras. O resultado foi uma espera de longos 11 anos para um novo disco: Babylon By Gus Vol 2 – No Princípio Era O Verbo finalmente chegou à praça na semana passada.  Alexandre Basa, produtor do primeiro disco, repete a dobradinha e preparou a cama para Black Alien deixar suas rimas.

Em cada verso do trabalho, que, na capa, faz referência ao filme O Sétimo Selo, clássico de Ingmar Bergman, nota-se o lado Gustavo de Almeida Ribeiro no já conhecido Black Alien. Temos a impressão de sermos apresentados a alguém que sempre esteve ali, mas que apenas agora resolveu dar o ar da graça. Talvez mais por necessidade do que por opção. Na introdução recitada, “1972”, já há um informe: “Do jeito que tava indo, não tava indo/ te apresento minha nova vida/ seja bem-vindo!”.  Esse tipo de aviso vindo de alguém que passou por tratamento contra drogas, foi para clínicas e enfrentou infernos pessoais, pode ser o prenúncio para um mar de clichês e cafonices sobre superação. Errado. A faixa seguinte, não à toa intitulada “Rolo Compressor”, traz sample poderoso de gaita – advindo de um tema do bluesman Doctor Ross – e batidão cheio de graves, para alívio de todos. No refrão, entre os versos que comprovam que Black Alien está de pé novamente e em ótima forma, há citação de “Bring The Pain”, canção de Method Man, integrante do Wu-Tang Clan. O cartão de visitas é muito bem entregue.

Na sequência, duas faixas que demonstram a versatilidade estilística do MC: “Somos O Mundo” e “Rock ‘n’ Roll”. A primeira, com participação de Céu, é uma linda canção de amor, com levada lenta e beat lisérgico. A segunda, uma faixa com influência de trap, agressiva, com participação de Edi Rock e refrão simplista – “Eu sou Rock ‘n’ Roll!” –, o qual soa um desabafo que quer dizer algo como “eu sou casca grossa, eu sou zica, ninguém vai me derrubar”.  Ou, como diz KL Jay: “Estamos vivos, irmãos, estamos vivos!”.

Os primeiros versos da faixa seguinte, “Terra” que havia sido lançada em dezembro de 2014 – uma das únicas gravações inéditas de Black Alien que chegaram ao público antes de No Princípio – anuncia a retomada do caminho: “Terra, meu atual endereço. Em reconhecimento para um novo começo”. Depois de anos longe daqui, ele está de volta, mas, ao final, avisa aos navegantes que nada será como antes.  A primeira metade do disco é encerrada por “Skate No Pé”, contagiante faixa que conta com as participações de Kamau e Parteum. É um trio de peso e uma ode ao skate. Energia pura!

Com ares épicos e participação de Luiz Melodia, “Quem É Você?” é uma das faixas mais sombrias do disco. Os versos de Black Alien falam sobre uma espécie de inimigo misterioso e virtual, enquanto o vozeirão de Melodia dá sustância à “paranoia”. “Dá tudo que tu quer e rouba o que você precisa/o nome dela é tecnologia”, diz uma passagem. Na sequência, o rapper mostra seu talento para rimar sobre amor na deliciosa “Falando Do Meu Bem”, algo como a prima de “Como Eu Te Quero”, lançada há 11 anos. O refrão, amparado por uma bela linha de metais, é irresistível. Em “Identidade”, o rapper mostra seu apreço pelo pop/rock, apresentando uma faixa que, por vezes, remete a Charlie Brown Jr, inclusive com virtuosos riffs de guitarra.

A canção na qual Black Alien mais revira seus esqueletos no armário é “O Estranho Vizinho da Frente”, curiosamente a que mais deve bombar nas pistas. Com versos pontiagudos explicando ao vizinho da frente quem é o sujeito estranho que anda de um lado para o outro com um caderno na mão, é um dos grandes momentos do disco. “Homem de Família”, faixa seguinte, serve como contrapeso à densidade anterior: uma canção confiante, na qual o eu lírico do rapper é seu próprio avô falando sobre família, futuro e amor. “Cidadão Honorário”, poema que encerra o álbum, é para marmanjo marejar os olhos e arrepiar os pelos do braço. Nele, Black Alien homenageia seus familiares e amigos (há até citação ao Quinto Andar, extinto grupo carioca) e expressa com sensibilidade e lirismo a nova fase de sua vida. “Sou Nova Orleans depois do Katrina”. É hora de recomeçar... o disco.

Gustavo, que recentemente chegou a dizer que o amor próprio é algo novo para ele, compôs boa parte do repertório dentro da clínica de reabilitação. Ele disse ter enfrentado a folha branca diversas vezes, por conta da dificuldade de compor sóbrio pela primeira vez. Aos poucos, a coisa foi saindo. O resultado é um disco imperdível: ecumênico, solar, cheio de esperança, mensagens positivas, mas sem, em nenhum momento, soar piegas. Como ele mesmo disse: “Estar sóbrio não significa que eu virei um careta”. De 2004 para cá, muita coisa mudou. O mundo é outro e Black Alien é outro. Mas seu talento para rimar continua inigualável, sua visão do mundo permanece interessante e a Lírica Bereta segue afiadíssima, agora, com novos alvos e novas motivações. Ele trocou a avalanche de referências – “cocaína no avião da FAB”; “reserva dos Cinta Larga”; “Eldorado dos Carajás”; “Solana Star” – e o caráter metafórico pela exatidão e as rimas cirúrgicas, que dizem muito, às vezes tudo, com pouco – “o mundo é bem complicado para quem raciocina/Então, amigo, pensa rápido: é uma benção ou é uma sina?”. A acrobacia verbal dá lugar a estrofes mais lógicas, mas não menos originais. No lugar de política, vemos temas como elevação, amor, edificação do espírito. É Gustavo se apresentando em grande estilo, enquanto Black Alien respira, descansa, se renova, mas sem dormir. Que nem o cão que morde a mão que o afaga.

Ouça Babylon By Gus Vol 2 – No Princípio Era O Verbo:

https://www.youtube.com/watch?v=ALFAG8dvycY