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Cinebiografia de Elis Regina não chega à força da cantora

Resenha: Longa carece exatamente da emoção que tornava a gaúcha um fenômeno

Elis Regina foi a maior cantora do país. De temperamento forte e voz incomparável, a gaúcha era um furacão dentro e fora dos palcos, responsável por movimentar a cena cultural brasileira durante quase duas décadas. É isso, pelo menos, que o longa Elis, que estreou na última quinta-feira (24/11), tenta convencer o espectador. Mas é exatamente na hora de retratar a protagonista que a cinebiografia dirigido por Hugo Prata não convence.

O longa parte da chegada da gaúcha ao Rio de Janeiro no meio do Golpe de 1964. Acompanhada do pai, a cantora pena até conseguir uma chance em um bar gerenciado por Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli (naquele momento, ainda seu futuro marido). Desde o começo, a personagem é construída para deixar duas coisas claras: ela tem atitude e canta muito bem. Dá para contar, em meia hora de filme, quantas vezes Elis ou algum homem que a acompanha repete que ela "será a melhor cantora do Brasil". A constatação, inclusive, segue-se durante todo o longa - muda-se apenas o tempo verbal para "é".

Não há sutileza para que o público, que já suspeita dessa ideia, tire a impressão por si ou pela emoção que a história passa: grita-se a todo momento que a jovem tem talento. Enquanto parte dos personagens, mesmo que importantes historicamente, apareçam para referendar os dotes da protagonista, suas falas, por outro lado, são todas impactantes. Não há dúvida de que Elis Regina falava coisas fortes, mas parece menos verossímil que 100% dos seus diálogos sejam compostos por frases prontas.

A dublagem das músicas não convence. Não por causa da interpretação esforçada de Andréia Horta - que, alinhada a um excelente trabalho de maquiagem/cabeleireiro, está parecidíssima com a cantora nas suas diferentes fases -, mas pelo recurso ficar tão claro que parece proposital.

Elis Regina Andréia Horta como Elis Regina (Divulgação)

Condensar uma vida inteira em duas horas é um trabalho árduo. Logo, é questionável a necessidade de colocar diversas músicas quase em sua totalidade. Em dados momentos, mais do que uma cinebiografia, o longa parece apenas uma grande homenagem, na pegada da série Por Toda Minha Vida, da Rede Globo. Destaca-se, no meio disso, a belíssima produção de arte, do figurino aos detalhes dos objetos e cenários.

Prata explicou mais de uma vez que teve de tomar decisões importantes na hora de escolher as fases da vida da cantora que entrariam. Tom Jobim, por exemplo, ficou de fora. Teria de se dedicar muito à história da gravação de Elis & Tom, clássico álbum da dupla gravado nos Estados Unidos em 1974. Milton Nascimento, um dos compositores mais gravados pela cantora, pela qual o músico sentia admiração inestimável, também não entrou, como tantos outros. Escolhas.

Mas o filme busca abordar todas as fases da intérprete, dos discos aos amores, e, talvez por não conseguir dar conta de tudo, pareça atropelado. Está dito, escancarado, que Elis é uma cantora maravilhosa, uma força da natureza em cima do palco, mas, ao mesmo tempo, não dá para sentir isso. Os episódios simplesmente se passam, embalados pela belíssima voz das gravações originais.

Vê-se que Bôscoli a trai e que ela o trai de volta, mas não dá para sentir a dor da separação dos dois (ela está lá, na gravação de "Atrás Da Porta", mas não no filme); vê-se que ela tem de se virar para criar os filhos sozinha, mas não dá para palpar este peso; vê-se que ela é pressionada pelo Regime Militar, mas não passa-se o medo (parece, na verdade, mais um desafio que nossa heroína com certeza vencerá ao final); mas o mais impactante disso é a sua morte e os problemas que a precedem.

Hoje, sabe-se que, quando morreu, Elis Regina era viciada em cocaína e álcool. Sua morte, aos 36 anos em 1982, deu-se em decorrência de uma overdose, no meio do dia, enquanto seus filhos brincavam no térreo do prédio. Quem vê o filme, no entanto, não tem essa certeza. Nos últimos 20 minutos, nota-se que ela tem abusado do álcool. César Camargo Mariano (Caco Ciocler), seu pianista e segundo marido, fala isso em alto e bom som na hora de se separar. Depois disso, há uma cena breve que indique o uso de drogas. De resto, tabu.

Essa escolha torna a morte da cantora, que, na pegada do filme deveria ser algo quase redentor, o tanto quanto abrupta. Mais uma vez, indica-se que há algo errado, mas não dá para sentir. Seu vício é transmitido no mesmo tom pastel que as duas separações ou as vaias que tomou por ter cantado nas Olimpíadas do Exército.

Elis preocupa-se mais em convencer o espectador de que ela era a melhor cantora do país do que em tentar revelar a alma tão complexa da intérprete. Falta-lhe exatamente a profundidade e a força (ou a pimenta) que tornava a gaúcha tão fantástica.

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Cinebiografia de Elis Regina não chega à força da cantora

Resenha: Longa carece exatamente da emoção que tornava a gaúcha um fenômeno

por Lucas Borges Teixeira em 29/11/2016

Elis Regina foi a maior cantora do país. De temperamento forte e voz incomparável, a gaúcha era um furacão dentro e fora dos palcos, responsável por movimentar a cena cultural brasileira durante quase duas décadas. É isso, pelo menos, que o longa Elis, que estreou na última quinta-feira (24/11), tenta convencer o espectador. Mas é exatamente na hora de retratar a protagonista que a cinebiografia dirigido por Hugo Prata não convence.

O longa parte da chegada da gaúcha ao Rio de Janeiro no meio do Golpe de 1964. Acompanhada do pai, a cantora pena até conseguir uma chance em um bar gerenciado por Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli (naquele momento, ainda seu futuro marido). Desde o começo, a personagem é construída para deixar duas coisas claras: ela tem atitude e canta muito bem. Dá para contar, em meia hora de filme, quantas vezes Elis ou algum homem que a acompanha repete que ela "será a melhor cantora do Brasil". A constatação, inclusive, segue-se durante todo o longa - muda-se apenas o tempo verbal para "é".

Não há sutileza para que o público, que já suspeita dessa ideia, tire a impressão por si ou pela emoção que a história passa: grita-se a todo momento que a jovem tem talento. Enquanto parte dos personagens, mesmo que importantes historicamente, apareçam para referendar os dotes da protagonista, suas falas, por outro lado, são todas impactantes. Não há dúvida de que Elis Regina falava coisas fortes, mas parece menos verossímil que 100% dos seus diálogos sejam compostos por frases prontas.

A dublagem das músicas não convence. Não por causa da interpretação esforçada de Andréia Horta - que, alinhada a um excelente trabalho de maquiagem/cabeleireiro, está parecidíssima com a cantora nas suas diferentes fases -, mas pelo recurso ficar tão claro que parece proposital.

Elis Regina Andréia Horta como Elis Regina (Divulgação)

Condensar uma vida inteira em duas horas é um trabalho árduo. Logo, é questionável a necessidade de colocar diversas músicas quase em sua totalidade. Em dados momentos, mais do que uma cinebiografia, o longa parece apenas uma grande homenagem, na pegada da série Por Toda Minha Vida, da Rede Globo. Destaca-se, no meio disso, a belíssima produção de arte, do figurino aos detalhes dos objetos e cenários.

Prata explicou mais de uma vez que teve de tomar decisões importantes na hora de escolher as fases da vida da cantora que entrariam. Tom Jobim, por exemplo, ficou de fora. Teria de se dedicar muito à história da gravação de Elis & Tom, clássico álbum da dupla gravado nos Estados Unidos em 1974. Milton Nascimento, um dos compositores mais gravados pela cantora, pela qual o músico sentia admiração inestimável, também não entrou, como tantos outros. Escolhas.

Mas o filme busca abordar todas as fases da intérprete, dos discos aos amores, e, talvez por não conseguir dar conta de tudo, pareça atropelado. Está dito, escancarado, que Elis é uma cantora maravilhosa, uma força da natureza em cima do palco, mas, ao mesmo tempo, não dá para sentir isso. Os episódios simplesmente se passam, embalados pela belíssima voz das gravações originais.

Vê-se que Bôscoli a trai e que ela o trai de volta, mas não dá para sentir a dor da separação dos dois (ela está lá, na gravação de "Atrás Da Porta", mas não no filme); vê-se que ela tem de se virar para criar os filhos sozinha, mas não dá para palpar este peso; vê-se que ela é pressionada pelo Regime Militar, mas não passa-se o medo (parece, na verdade, mais um desafio que nossa heroína com certeza vencerá ao final); mas o mais impactante disso é a sua morte e os problemas que a precedem.

Hoje, sabe-se que, quando morreu, Elis Regina era viciada em cocaína e álcool. Sua morte, aos 36 anos em 1982, deu-se em decorrência de uma overdose, no meio do dia, enquanto seus filhos brincavam no térreo do prédio. Quem vê o filme, no entanto, não tem essa certeza. Nos últimos 20 minutos, nota-se que ela tem abusado do álcool. César Camargo Mariano (Caco Ciocler), seu pianista e segundo marido, fala isso em alto e bom som na hora de se separar. Depois disso, há uma cena breve que indique o uso de drogas. De resto, tabu.

Essa escolha torna a morte da cantora, que, na pegada do filme deveria ser algo quase redentor, o tanto quanto abrupta. Mais uma vez, indica-se que há algo errado, mas não dá para sentir. Seu vício é transmitido no mesmo tom pastel que as duas separações ou as vaias que tomou por ter cantado nas Olimpíadas do Exército.

Elis preocupa-se mais em convencer o espectador de que ela era a melhor cantora do país do que em tentar revelar a alma tão complexa da intérprete. Falta-lhe exatamente a profundidade e a força (ou a pimenta) que tornava a gaúcha tão fantástica.