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Com protesto, megalomania e hits, U2 segue sua cartilha de sucesso em São Paulo

Banda manifestou-se contra a censura e homenageou Renato Russo, Cazuza e mulheres brasileiras

Não há migalhas no show do U2: tudo é grandioso, imponente, megalomaníaco, até – mesmo quando quer ser intimista.  Se tem duas coisas que o U2 sabe fazer são megaespetáculos e hits. É com um telão em alta definição de 14 metros de altura que a banda irlandesa desembarcou em São Paulo para a sua turnê de comemoração de 30 anos do álbum The Joshua Tree.

O grupo subiu ao palco do estádio do Morumbi por volta das 21h15. Por ali já havia passado o britânico Noel Gallagher, que, para a felicidade dos desavisados e dos fãs do Oasis, tocou alguns dos hits da antiga banda. Estádio lotado para este primeiro dia de apresentação, em uma passagem que tem mais três dias na capital paulista (21, 22 e 25), o que configura um recorde: O U2 é o primeiro artista a marcar quatro espetáculos no estádio paulistano.

Na pauta, o Joshua Tree, mais conceituado disco da banda, lançado em 1987. É preciso pontuar que o tipo da turnê não ajuda. Depois de dois lançamentos fracos (No Line on the Horizon e Songs of Innocence), que não passaram pelo Brasil e foram ignorados neste show, fazer tour comemorativo de um disco parece uma confissão de que não deu certo ou um caça níquel. Antes do show, uma apresentação de poesias sobre liberdade, preconceito e segregação – que podem ser interpretadas como um recado ao atual presidente norte-americano, Donald Trump – também não empolgam muito. Mas é o U2, veja bem.

O clima meio morno-blasé desaparece, no entanto, quando o baterista Larry Mullen Jr. começa a marcha de “Sunday Bloody Sunday”. O estádio, vermelho, começa a balançar em catarse. Engana-se quem acha que só as moças gritaram desesperadas quando Bono surgiu no palco em meio ao público - a empolgação o tanto quanto comovida é geral. Há uma força ali, mesmo que o telão não tenha mostrado a banda neste início – o que privilegiou quem estava na tal da Red Zone, o setor VIP.

22686638_1019269118213236_2083985660_nReprodução/Facebook

Mas Bono sabe o que faz. De cara, emenda “Sunday Bloody Sunday” com “New Year’s Day”, “Bad” e “Pride (In The Name Of Love)”. Um luxo para qualquer banda neste mundo. Mas ainda havia muito cartucho para queimar. Em um segundo ato, a banda foi para o palco principal tocar o disco ao qual se propôs. E é como se continuasse um Best Of, afinal, o Joshua Tree começa com “Where the Streets Have No Name”, “I Still Haven't Found What I'm Looking For” e “With Or Without You”.

Em meio aos hits, há, claro, as mensagens de Bono. É o U2, veja bem. Antes de “Bad”, o vocalista, com seu tom pastoral, professa: “Quando você realmente – realmente – quer algo, o universo conspira!". O sucesso do The Unforgettable Fire (1984) foi dedicado a Renato Russo e Cazuza. "Heroes", grita ele e emenda com a música de David Bowie.

Mas, de novo, o músico sabe o que faz. A cada gesto, a cada palavra falada em português, o público o acompanha aos berros de maneira religiosa, servil. Ele passa a mensagem que quer.

Depois do Joshua Tree – o lado B, invariavelmente, deu uma queda na animação, apesar das ótimas “Exit” e “Mothers of the Disappeared” – e uma pausa, a banda voltou aos sucessos. Não faltou repertório de diferentes épocas: “Vertigo” (2006, com “Rebel Rebel”, também de Bowie, como música incidental), “Beautiful Day” e “Elevation” (2000) e, por fim, “One” (1992).

Tudo seguia nos conformes. Megaprodução: check. Hits: check. Mensagens pela paz: check. O bingo da banda estava quase completo, só faltavam ativismo e homenagens. A primeira ficou por conta de Mullen Jr. Em meio a “Elevation”, o telão revela as costas do baterista com a mensagem "Censura nunca mais", em português.

Já a segunda veio com “Ultraviolet (Light My Way)”. A música do Achtung Baby (1992) foi dedicada a "todas as grandes mulheres do mundo", com fotos de ativistas, artistas e mulheres influentes na história, entre elas as brasileiras Tarsila do Amaral, Conceição Evaristo, Irmã Dulce, Taís Araújo e Maria da Penha. "As mulheres mudam o mundo", gritou o vocalista.

Embora seus discos tenham, de fato, envelhecido, há poucos artistas no planeta (McCartney? Stones? Springsteen?) que conseguem fazer um espetáculo como o U2. A banda irlandesa nunca foi conhecida por seu carisma, mas tem força e um poder (milionário) em cima do palco difíceis de comparar.

São só os quatro sobre uma armação megalomaníaca (eles não penduram a bandeira do Brasil na bateria, por exemplo: a projetam no telão). Tem luz, pregação, um pouco de pedantismo e muita animação e música boa. É o U2 e essa fórmula não envelhece.

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Com protesto, megalomania e hits, U2 segue sua cartilha de sucesso em São Paulo

Banda manifestou-se contra a censura e homenageou Renato Russo, Cazuza e mulheres brasileiras

por Lucas Borges Teixeira em 20/10/2017

Não há migalhas no show do U2: tudo é grandioso, imponente, megalomaníaco, até – mesmo quando quer ser intimista.  Se tem duas coisas que o U2 sabe fazer são megaespetáculos e hits. É com um telão em alta definição de 14 metros de altura que a banda irlandesa desembarcou em São Paulo para a sua turnê de comemoração de 30 anos do álbum The Joshua Tree.

O grupo subiu ao palco do estádio do Morumbi por volta das 21h15. Por ali já havia passado o britânico Noel Gallagher, que, para a felicidade dos desavisados e dos fãs do Oasis, tocou alguns dos hits da antiga banda. Estádio lotado para este primeiro dia de apresentação, em uma passagem que tem mais três dias na capital paulista (21, 22 e 25), o que configura um recorde: O U2 é o primeiro artista a marcar quatro espetáculos no estádio paulistano.

Na pauta, o Joshua Tree, mais conceituado disco da banda, lançado em 1987. É preciso pontuar que o tipo da turnê não ajuda. Depois de dois lançamentos fracos (No Line on the Horizon e Songs of Innocence), que não passaram pelo Brasil e foram ignorados neste show, fazer tour comemorativo de um disco parece uma confissão de que não deu certo ou um caça níquel. Antes do show, uma apresentação de poesias sobre liberdade, preconceito e segregação – que podem ser interpretadas como um recado ao atual presidente norte-americano, Donald Trump – também não empolgam muito. Mas é o U2, veja bem.

O clima meio morno-blasé desaparece, no entanto, quando o baterista Larry Mullen Jr. começa a marcha de “Sunday Bloody Sunday”. O estádio, vermelho, começa a balançar em catarse. Engana-se quem acha que só as moças gritaram desesperadas quando Bono surgiu no palco em meio ao público - a empolgação o tanto quanto comovida é geral. Há uma força ali, mesmo que o telão não tenha mostrado a banda neste início – o que privilegiou quem estava na tal da Red Zone, o setor VIP.

22686638_1019269118213236_2083985660_nReprodução/Facebook

Mas Bono sabe o que faz. De cara, emenda “Sunday Bloody Sunday” com “New Year’s Day”, “Bad” e “Pride (In The Name Of Love)”. Um luxo para qualquer banda neste mundo. Mas ainda havia muito cartucho para queimar. Em um segundo ato, a banda foi para o palco principal tocar o disco ao qual se propôs. E é como se continuasse um Best Of, afinal, o Joshua Tree começa com “Where the Streets Have No Name”, “I Still Haven't Found What I'm Looking For” e “With Or Without You”.

Em meio aos hits, há, claro, as mensagens de Bono. É o U2, veja bem. Antes de “Bad”, o vocalista, com seu tom pastoral, professa: “Quando você realmente – realmente – quer algo, o universo conspira!". O sucesso do The Unforgettable Fire (1984) foi dedicado a Renato Russo e Cazuza. "Heroes", grita ele e emenda com a música de David Bowie.

Mas, de novo, o músico sabe o que faz. A cada gesto, a cada palavra falada em português, o público o acompanha aos berros de maneira religiosa, servil. Ele passa a mensagem que quer.

Depois do Joshua Tree – o lado B, invariavelmente, deu uma queda na animação, apesar das ótimas “Exit” e “Mothers of the Disappeared” – e uma pausa, a banda voltou aos sucessos. Não faltou repertório de diferentes épocas: “Vertigo” (2006, com “Rebel Rebel”, também de Bowie, como música incidental), “Beautiful Day” e “Elevation” (2000) e, por fim, “One” (1992).

Tudo seguia nos conformes. Megaprodução: check. Hits: check. Mensagens pela paz: check. O bingo da banda estava quase completo, só faltavam ativismo e homenagens. A primeira ficou por conta de Mullen Jr. Em meio a “Elevation”, o telão revela as costas do baterista com a mensagem "Censura nunca mais", em português.

Já a segunda veio com “Ultraviolet (Light My Way)”. A música do Achtung Baby (1992) foi dedicada a "todas as grandes mulheres do mundo", com fotos de ativistas, artistas e mulheres influentes na história, entre elas as brasileiras Tarsila do Amaral, Conceição Evaristo, Irmã Dulce, Taís Araújo e Maria da Penha. "As mulheres mudam o mundo", gritou o vocalista.

Embora seus discos tenham, de fato, envelhecido, há poucos artistas no planeta (McCartney? Stones? Springsteen?) que conseguem fazer um espetáculo como o U2. A banda irlandesa nunca foi conhecida por seu carisma, mas tem força e um poder (milionário) em cima do palco difíceis de comparar.

São só os quatro sobre uma armação megalomaníaca (eles não penduram a bandeira do Brasil na bateria, por exemplo: a projetam no telão). Tem luz, pregação, um pouco de pedantismo e muita animação e música boa. É o U2 e essa fórmula não envelhece.