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Como o terrorismo vê as estrelas do pop

Billboard conversou com ex-militante, que agora se dedica a conter o extremismo

por Redação em 25/05/2017

H.M. Uddin tinha 19 anos quando foi recrutada pelo controverso grupo islâmico Hizb ut-Tahrir no campus de sua faculdade na Inglaterra. Fundado em 1953 como organização muçulmana Sunni, Hizb ut-Tahrir tem a missão de estabelecer um califado, ou um Estado muçulmano, e tem sido creditada por trazer o conceito do Estado Islâmico para a consciência coletiva. Em vez de usar fundamentalismo violento e táticas jihadistas para conquistar suas missões, se baseia em extremismo retórico e ideológico como formas de conquistar seus convertidos.

POLÍCIA IDENTIFICA AUTOR DO ATENTADO EM SHOW DE ARIANA GRANDE

“Me disseram que minha obrigação não era apenar rezar, mas resolver o problema dos países ocidentais invasores de territórios islâmicos, que pegam suas fontes de renda e matam pessoas enquanto ninguém parece se importar ou tomar uma atitude”, disse Uddin, que teve o nome substituído para esse artigo. “A mentalidade era ‘essas pessoas sendo mortas são seu problema. Os bebês sendo mortos na Guerra são seus filhos e você está deixando isso acontecer’”.

Por 10 anos, Uddin se aprofundou nas táticas e subiu cargos até se tornar uma figura importante na Hizb ut-Tahrir. Mas com o tempo, a idade e a maternidade, ela começou a questionar mais. A série de ataques coordenados com bombas no centro de Londres em 07 de julho de 2005 – que coincidiu com o nascimento de seu terceiro filho – se mostrou um momento crucial. “Era um momento emotivo para mim”, lembra Uddin. “Percebi que tinham me contado um monte de mentiras e eu fui tola de acreditar nas pessoas e no que elas diziam. Confiei na forma que eles convertiam a teologia religiosa e a apresentaram para mim. Quando percebi que estava seguindo o caminho errado, que as coisas não são preto no branco, são bem diferentes, me disseram para deixar o grupo”.

Enquanto alguns deixam a organização e não olham para trás, Uddin tem dedicado sua vida a conter o extremismo e usa as mesmas táticas retóricas que a atraíram para a Hizb ut-Tahrir para chamar a atenção de outros – principalmente mulheres – para questionar seus envolvimentos com grupos radicais. Com sabedoria em primeira mão sobre extremismo, ela falou recentemente com a Billboard sobre o atentado na Arena Manchester, na noite da última segunda-feira (22/05), quando o britânico de 22 anos Salman Abedi detonou uma bomba após o show de Ariana Grande, deixando 22 mortos e mais de 60 feridos.

Quando indivíduos são recrutados por extremistas, estrelas do pop e música ocidental fazem parte do diálogo?

Sim. Não é apenas: “Olha como as nações ocidentais destroem nossa terra”. É algo como “veja a forma que eles vivem”. [Estrelas do pop] são a antítese dos ensinamentos conservadores, que demandam que mulheres cubram seus corpos, sejam modestas e não mostrem suas bundas. Essa mentalidade faz parte de uma interpretação muito conservadora que essas pessoas têm. Nem todos os conservadores são terroristas, mas todos os terroristas são conservadores.

Mas existem nomes específicos ou pessoas que são apontadas como exemplo de “inimigos”? Como é o processo de “demonização”?

Outdoors mostrando mulheres nuas, esse tipo de coisa, são vistos como a forma errada de viver a vida. Então, faz sentido que uma pessoa famosa como Ariana Grande, que está na mídia, que faz clipes que muitos extremistas acham um insulto, seja um alvo.

Então mulheres sexualmente empoderadas são apresentadas como ameaça.

Sim. É esse é o ponto, a Ariana preenche todos os requisitos. Mas novamente, sinto que a mentalidade de extremistas violentos é mais sobre “vocês mataram todas essas crianças, vamos matar seus filhos também. Vimos a imensa perda de pessoas no Iraque e em todo o mundo por causa de guerras que vocês começaram. Tome um pouco do seu próprio remédio. Estamos nos vingando”.

No momento que um ataque é planejado, o quanto se pensa no artista? Em ataques em shows, acredita que extremistas são calculistas o suficiente para pensar que um artista é mais perigoso e explícito que outro, por exemplo?

Não, não acredito. Nesse caso, o terrorista era de Manchester, então ele usou a oportunidade que teve e aconteceu de ser no show de uma estrela do pop que se apresentou em sua cidade. Ele tinha apenas 22 anos, você precisa entender que eles recrutam pessoas muito jovens. Parece que ele analisou o que conseguiria fazer com seus próprios recursos e, infelizmente, foi em um show de Ariana Grande. Não foi ‘vamos atacar Ariana’. Ou ‘vamos atacar um show de Beyoncé porque ela mostra mais o corpo’. O que aconteceu foi: ele estava em Manchester, Ariana estava vindo, faz sentido e faria muito barulho na mídia.

Você acha que eles sabiam que o público era formado por jovens garotas?

Acredito que a tática hoje em dia seja de chocar, deixar todos impressionados – fazer o ato mais violento possível que vá conseguir mais atenção e criar mais medo. Extremistas vão se sentar e pensar “como podemos atingir o maior impacto”. E é isso que eles fizeram: todos conhecem Ariana, ela é uma estrela internacional… o número de pessoas, a morte de crianças são pensados para atrair muita atenção e atrapalhar a vida de muçulmanos não extremistas. É a única tática do ISIS porque estão perdendo território e apoio, então é o efeito de revigorar pessoas que se sentem sem direitos. Se você está se sentindo atacado ou indesejável, esse tipo de ato chama sua atenção – é estrategicamente executado para conseguir os efeitos desejados.

Como alguém com muito conhecimento sobre a mentalidade de um extremist, você acredita que shows vão se tornar um alvo mais frequente?

É sobre uma grande quantidade de pessoas e em shows, isso acontece. Mas novamente, o Estado Islâmico perdeu muito poder e território e eles precisam fazer parecer que ainda têm força. O ataque em Manchester foi feito por um cara e causou aquela destruição, foi apenas o que eles precisam. Eles estão procurando como fazer o máximo com o que eles têm disponível.

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Billboard conversou com ex-militante, que agora se dedica a conter o extremismo

por Redação em 25/05/2017

H.M. Uddin tinha 19 anos quando foi recrutada pelo controverso grupo islâmico Hizb ut-Tahrir no campus de sua faculdade na Inglaterra. Fundado em 1953 como organização muçulmana Sunni, Hizb ut-Tahrir tem a missão de estabelecer um califado, ou um Estado muçulmano, e tem sido creditada por trazer o conceito do Estado Islâmico para a consciência coletiva. Em vez de usar fundamentalismo violento e táticas jihadistas para conquistar suas missões, se baseia em extremismo retórico e ideológico como formas de conquistar seus convertidos.

POLÍCIA IDENTIFICA AUTOR DO ATENTADO EM SHOW DE ARIANA GRANDE

“Me disseram que minha obrigação não era apenar rezar, mas resolver o problema dos países ocidentais invasores de territórios islâmicos, que pegam suas fontes de renda e matam pessoas enquanto ninguém parece se importar ou tomar uma atitude”, disse Uddin, que teve o nome substituído para esse artigo. “A mentalidade era ‘essas pessoas sendo mortas são seu problema. Os bebês sendo mortos na Guerra são seus filhos e você está deixando isso acontecer’”.

Por 10 anos, Uddin se aprofundou nas táticas e subiu cargos até se tornar uma figura importante na Hizb ut-Tahrir. Mas com o tempo, a idade e a maternidade, ela começou a questionar mais. A série de ataques coordenados com bombas no centro de Londres em 07 de julho de 2005 – que coincidiu com o nascimento de seu terceiro filho – se mostrou um momento crucial. “Era um momento emotivo para mim”, lembra Uddin. “Percebi que tinham me contado um monte de mentiras e eu fui tola de acreditar nas pessoas e no que elas diziam. Confiei na forma que eles convertiam a teologia religiosa e a apresentaram para mim. Quando percebi que estava seguindo o caminho errado, que as coisas não são preto no branco, são bem diferentes, me disseram para deixar o grupo”.

Enquanto alguns deixam a organização e não olham para trás, Uddin tem dedicado sua vida a conter o extremismo e usa as mesmas táticas retóricas que a atraíram para a Hizb ut-Tahrir para chamar a atenção de outros – principalmente mulheres – para questionar seus envolvimentos com grupos radicais. Com sabedoria em primeira mão sobre extremismo, ela falou recentemente com a Billboard sobre o atentado na Arena Manchester, na noite da última segunda-feira (22/05), quando o britânico de 22 anos Salman Abedi detonou uma bomba após o show de Ariana Grande, deixando 22 mortos e mais de 60 feridos.

Quando indivíduos são recrutados por extremistas, estrelas do pop e música ocidental fazem parte do diálogo?

Sim. Não é apenas: “Olha como as nações ocidentais destroem nossa terra”. É algo como “veja a forma que eles vivem”. [Estrelas do pop] são a antítese dos ensinamentos conservadores, que demandam que mulheres cubram seus corpos, sejam modestas e não mostrem suas bundas. Essa mentalidade faz parte de uma interpretação muito conservadora que essas pessoas têm. Nem todos os conservadores são terroristas, mas todos os terroristas são conservadores.

Mas existem nomes específicos ou pessoas que são apontadas como exemplo de “inimigos”? Como é o processo de “demonização”?

Outdoors mostrando mulheres nuas, esse tipo de coisa, são vistos como a forma errada de viver a vida. Então, faz sentido que uma pessoa famosa como Ariana Grande, que está na mídia, que faz clipes que muitos extremistas acham um insulto, seja um alvo.

Então mulheres sexualmente empoderadas são apresentadas como ameaça.

Sim. É esse é o ponto, a Ariana preenche todos os requisitos. Mas novamente, sinto que a mentalidade de extremistas violentos é mais sobre “vocês mataram todas essas crianças, vamos matar seus filhos também. Vimos a imensa perda de pessoas no Iraque e em todo o mundo por causa de guerras que vocês começaram. Tome um pouco do seu próprio remédio. Estamos nos vingando”.

No momento que um ataque é planejado, o quanto se pensa no artista? Em ataques em shows, acredita que extremistas são calculistas o suficiente para pensar que um artista é mais perigoso e explícito que outro, por exemplo?

Não, não acredito. Nesse caso, o terrorista era de Manchester, então ele usou a oportunidade que teve e aconteceu de ser no show de uma estrela do pop que se apresentou em sua cidade. Ele tinha apenas 22 anos, você precisa entender que eles recrutam pessoas muito jovens. Parece que ele analisou o que conseguiria fazer com seus próprios recursos e, infelizmente, foi em um show de Ariana Grande. Não foi ‘vamos atacar Ariana’. Ou ‘vamos atacar um show de Beyoncé porque ela mostra mais o corpo’. O que aconteceu foi: ele estava em Manchester, Ariana estava vindo, faz sentido e faria muito barulho na mídia.

Você acha que eles sabiam que o público era formado por jovens garotas?

Acredito que a tática hoje em dia seja de chocar, deixar todos impressionados – fazer o ato mais violento possível que vá conseguir mais atenção e criar mais medo. Extremistas vão se sentar e pensar “como podemos atingir o maior impacto”. E é isso que eles fizeram: todos conhecem Ariana, ela é uma estrela internacional… o número de pessoas, a morte de crianças são pensados para atrair muita atenção e atrapalhar a vida de muçulmanos não extremistas. É a única tática do ISIS porque estão perdendo território e apoio, então é o efeito de revigorar pessoas que se sentem sem direitos. Se você está se sentindo atacado ou indesejável, esse tipo de ato chama sua atenção – é estrategicamente executado para conseguir os efeitos desejados.

Como alguém com muito conhecimento sobre a mentalidade de um extremist, você acredita que shows vão se tornar um alvo mais frequente?

É sobre uma grande quantidade de pessoas e em shows, isso acontece. Mas novamente, o Estado Islâmico perdeu muito poder e território e eles precisam fazer parecer que ainda têm força. O ataque em Manchester foi feito por um cara e causou aquela destruição, foi apenas o que eles precisam. Eles estão procurando como fazer o máximo com o que eles têm disponível.