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Desconstruindo Gessinger

por em 24/07/2015
Por Lucas Borges Teixeira Parece que o mundo nunca esteve tão propício para uma letra de Humberto Gessinger. A mistura entre globalização, velocidade da informação, causas sociais, relacionamentos amorosos e outros assuntos sempre foi uma pauta constante nas músicas dos Engenheiros do Hawaii. “É uma coisa que sempre esteve presente no meu trabalho: o mix entre o macro e o micro”, explica o gaúcho, em turnê com o seu primeiro disco solo, Insular (2013), que ganhou um registro em DVD neste ano. Com músicas do disco novo, dos Engenheiros e do Pouca Vogal (projeto de Gessinger com Duca Leindecker), o gaúcho faz uma releitura musical dos seus (quase) 30 anos de estrada. “Eu sou muito mais burro hoje”, brinca. “Tenho muito menos certezas”. Em entrevista à Billboard Brasil, Gessinger não só refletiu sobre sua carreira como abordou a maneira de como a música é encarada hoje, como a imprensa lida com isso e explicou que Insular não é exatamente o seu primeiro disco solo – embora seja. Estou com o seu DVD Insular em mãos. Como você selecionou o repertório? Não foi muito fácil, não, porque tem muito material. Mas eu quis que o DVD fosse um registro de todas as fases da minha carreira. Esse foi um dos pontos iniciais da seleção. Além disso, vi o que rolava bem com a formação. Por isso, acabei resgatando músicas que não eram tão conhecidas do repertório dos Engenheiros, como do disco Minuano [1996], "Deserto Freezer" e "Nuvem", porque acho que são canções que se fechavam melhor com esse momento da minha carreira: ao mesmo tempo em que dão um testemunho histórico do que eu fiz, elas dialogam muito bem com o que eu tô fazendo agora. Isso me norteou mais do que o fato de serem músicas conhecidas ou não. Não queria gravar um disco só de sucessos. É difícil, mas eu tentei ficar distante de como as músicas batem nas pessoas e sim buscar o que elas diziam em si. A mudança de arranjo é uma prática comum dos seus shows, e isso ficou bem claro nesse DVD, como "Dançando em Campo Minado" e em "Exército de um Homem Só". É uma coisa que acabou sendo uma característica minha, embora não seja uma coisa que eu tenha buscado. Acho super legal quando artistas que têm gravações clássicas as repetem literalmente. Mas, na minha história, sempre foi mais autoral essa coisa de alterar canções. Porque eu acho que elas estão sempre vivas, sendo feitas. A gente nunca acaba de escrever uma canção: a gente vai mudando, elas vão mudando junto, assim como nossa percepção delas. Por que, depois de 30 anos de carreira, você decidiu lançar um disco solo? Sabe que, quando falam que esse é o meu primeiro disco solo, até me dá um susto. Obviamente, é o primeiro disco solo, mas eu não consigo encarar assim porque quando eu comecei a preparar o material que seria o CD, não sabia exatamente se seria mais uma formação do Engenheiros. Eu tava muito a fim de tocar com várias pessoas. O Insular tem a ver com isso: um artista é uma ilha do seu trabalho e faz um mundo próprio, mas o bacana é criar pontes com outras ilhas. É nesse momento em que eu me situava: com vontade de criar pontes. Só por isso eu acabei colocando meu nome na frente, por não ter uma banda fixa me acompanhando todo disco. E é irônico porque tem duas formações completas do Engenheiros em um DVD que não é do Engenheiros. Você falou que o DVD contempla toda a sua carreira. Quando você olha pro Humberto que gravou Longe Demais das Capitais em 1986 e compara com o de hoje. O que mudou? Ah, eu sou muito mais burro hoje do que era. Por quê? Porque eu tenho muito menos certezas. Acho que é uma coisa natural, né? Na adolescência, a gente tem um monte de certezas. E tu vai amadurecendo. Mais do que envelhecer é ir perdendo essas certezas e ficando mais flexível. Com o tempo, a gente acaba aprendendo a não pensar de forma direta, principalmente o lance instrumental. Nas letras eu não vejo muita diferença. O DVD mostra isso: canções do primeiro disco tão do lado de canções mais recentes. A gente vai aprendendo a chegar mais perto do som que tem na mente. Ao ouvir Engenheiros, nota-se a relação entre o “eu” e o mundo, de como o ser humano se vê diante de um planeta cada vez mais globalizado. Hoje, os questionamentos ainda estão lá, mas de forma mais madura. Ia perguntar se certas dúvidas sumiram. Mas mais dúvidas apareceram, então? O que vai acontecendo é que as coisas começam a entrar em perspectiva. Coisas que te deixavam perplexo, com o tempo você vê que eles são cíclicas. Não que as dúvidas sejam respondidas, pelo contrário, elas aumentam, mas tu vai aprendendo que o melhor é respirar fundo e esperar a onda passar. Muita gente fala do aspecto político do meu trabalho, mas eu nunca escrevi músicas somente políticas ou panfletárias. Elas sempre vieram misturadas com coisas pessoais. "Toda Forma de Poder", por exemplo, coloca Fidel e Pinochet na mesma frase e o refrão já toca em algo mais pessoal... "Se tudo passa, talvez você passe por aqui" é o diálogo entre duas pessoas. Aquilo que era global vira algo pessoal. Isso é uma coisa que sempre esteve presente no meu trabalho: o mix entre o macro e o micro. Quando você começou a tocar, o som era divulgado em vinil, depois veio CD. Hoje, a indústria não é nem mais de iPod. Como você encara essas mudanças? O aspecto musical acho que não mudou muito desde os caras batendo pedaços de tronco na pré-história. Por outro lado, eu sinto que a grande mudança foi o fim do formato álbum como um módulo determinante da produção artística. Isso já muda muita coisa, porque determina também o ritmo que tu vai expondo a tua produção musical. Hoje em dia, a tecnologia te permite lançar um disco por dia ou uma canção a cada dez anos. Por um lado, te deixa um pouco livre, por outro, você fica sem saber como ler os trabalhos que estão sendo lançados. Tem gente que analisa de uma forma analógica, achando que um download é a mesma coisa que comprar uma música, só que a música vem por um cabo em vez de tu ir na loja comprar o disco. Isso muda muito a influência de como a música é percebida. O tempo das pessoas é muito fragmentado, então, sabe lá se ela não ouviu do primeiro ao segundo minuto. Quer dizer, a maneira como a música é percebida acaba influenciando o formato. De que maneira? Forma e conteúdo acabam fazendo um jogo. Mas eu acho que a gente tem que reconhecer que nós temos um limite, tem um tipo de música que a gente sabe fazer bem e, às vezes, não é pra ficar querendo suprir as novas ondas. Acho que a gente deve continuar fazendo bem o que acha que consegue fazer. A informação há um tempo era meio que determinante, os caras que ouviam os discos importados eram os mais informados. Hoje, já não é mais ter um grande volume de informação que determina a posição no tabuleiro de xadrez. Você já declarou, há mais de 20 anos, que suas influências eram rock progressivo inglês e MPB dos anos 70. São as mesmas até hoje? São. Eu acho que, o que tu ouve no teu período de formação, acaba ouvindo com um lado do cérebro mais emocional do que racional e isso acompanha a vida inteira. Claro que vai reformando, mas nunca é com aquela sensação de que teu HD tá vazio. O interessante das influências é quando, no teu trabalho, tu transforma elas ao ponto de serem irreconhecíveis. Aí que começa a ficar interessante a coisa. Apesar de as coisas que podem influenciar serem ilimitadas, a maneira como tu mixa aquilo no teu trabalho é única. Sua música é conhecida por essas misturas. Tenho sorte de ter vivido um momento em que o ambiente e o público eram muito generosos em relação à experimentação e a ouvir coisas diferentes. Hoje em dia eu vejo que o ambiente tá muito pragmático. Como assim? As pessoas querem se encaixar em uma coisa pré-existente muito rapidamente. Nós, como ouvintes, queremos sempre o melhor da maneira mais rápida, sem dar tempo pra discos ou canções amadurecerem na nossa frente. E o que você anda ouvindo atualmente? O que rola no teu... toca-discos, iPod? Cara, o pior é que hoje em dia meu iPod é quase tão antigo quanto um toca-discos, né? [risos] Mas eu não sou muito novidadeiro, não. Sou mais de me aprofundar nas coisas que ouço do que ficar buscando novidade. E tem o viés do ofício. Eu gosto muito de ouvir músicas que as pessoas nem veem reflexos no meu trabalho, músicas de jazz e de instrumentistas super técnicos. Eu sou o oposto disso tocando, mas gosto muito de ouvir esses caras. Acho que o músico ouve muito com os dedos, sabe? Baixista ouve como baixista, o guitarrista, como guitarrista. Como você vê o rock hoje no Brasil? Muita gente reclama pra mim: "po, não tem mais aquela qualidade". Eu não sei, acho que é muito pouco provável que tenha diminuído a qualidade aumentando a velocidade de lançar. O que deve estar acontecendo é que as coisas não estão tendo o mesmo espaço que tinha pra esse tipo de som nos anos 80, tem menos espaço hoje. A marca do tempo é a fragmentação. [Está] cada vez mais difícil ter alguém que resuma as coisas pra ti e cada vez mais impossível acompanhar tudo que tá acontecendo. Acho que a gente nunca precisou tanto quanto agora de pessoas que escrevam sobre música, façam crítica mesmo. E é engraçado porque eu vejo cada vez menos espaço para isso, menos espaço na imprensa em geral. Você se refere aos sons que estão surgindo? Acho que tem mais gente escrevendo, mas menos espaço. Todos nós como ouvintes acabamos ficando muito pragmáticos. A primeira vez que eu toquei uma música que não fosse minha, já tinha três discos de ouro na parede. Hoje em dia, é quase impossível pruma banda começar sem estar tocando alguma cover. Mas eu não gosto de colocar a culpa disso nas novas gerações. Talvez seja uma coisa que eu senti quando fiz a transição dos meus discos de vinil pra música digital e pro iPod: teoricamente, isso ampliava meus limites de informação, mas eu comecei a ouvir cada vez mais a mesma coisa. Hoje, é mais difícil renovar o que tá ouvindo do que na época da indústria fonográfica. Por quê? As pessoas se lembram com muito amargor da indústria fonográfica por alguns equívocos que ela cometia, mas talvez ela tivesse essa coisa de boa, que pouca gente reconhece, que movimentava a renovação do repertório geral depois de uns anos. Todo mundo ficava esperando um novo disco do Caetano, o que ele ia falar e tal. Isso se perdeu um pouco. O que você está preparando para o futuro? Eu quero ficar bastante tempo na estrada com o Insular, que é uma fase que eu passei muito tempo pra produzir, quero dar tempo pras pessoas entenderem isso. Porque eu começo a ver que, na minha discografia, tem muita coisa que passou batida por eu não ter dado o tempo certo. Quero seguir com ele pelo menos um ou dois anos. Ano que vem completa 30 anos do Longe Demais das Capitais e 20 anos do Humberto Gessinger Trio. É bem provável que [haja] uns shows pontuais desses dois discos, mas não vou parar com a turnê do Insular. https://www.youtube.com/watch?v=CEJTwStGwOU
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Desconstruindo Gessinger

por em 24/07/2015
Por Lucas Borges Teixeira Parece que o mundo nunca esteve tão propício para uma letra de Humberto Gessinger. A mistura entre globalização, velocidade da informação, causas sociais, relacionamentos amorosos e outros assuntos sempre foi uma pauta constante nas músicas dos Engenheiros do Hawaii. “É uma coisa que sempre esteve presente no meu trabalho: o mix entre o macro e o micro”, explica o gaúcho, em turnê com o seu primeiro disco solo, Insular (2013), que ganhou um registro em DVD neste ano. Com músicas do disco novo, dos Engenheiros e do Pouca Vogal (projeto de Gessinger com Duca Leindecker), o gaúcho faz uma releitura musical dos seus (quase) 30 anos de estrada. “Eu sou muito mais burro hoje”, brinca. “Tenho muito menos certezas”. Em entrevista à Billboard Brasil, Gessinger não só refletiu sobre sua carreira como abordou a maneira de como a música é encarada hoje, como a imprensa lida com isso e explicou que Insular não é exatamente o seu primeiro disco solo – embora seja. Estou com o seu DVD Insular em mãos. Como você selecionou o repertório? Não foi muito fácil, não, porque tem muito material. Mas eu quis que o DVD fosse um registro de todas as fases da minha carreira. Esse foi um dos pontos iniciais da seleção. Além disso, vi o que rolava bem com a formação. Por isso, acabei resgatando músicas que não eram tão conhecidas do repertório dos Engenheiros, como do disco Minuano [1996], "Deserto Freezer" e "Nuvem", porque acho que são canções que se fechavam melhor com esse momento da minha carreira: ao mesmo tempo em que dão um testemunho histórico do que eu fiz, elas dialogam muito bem com o que eu tô fazendo agora. Isso me norteou mais do que o fato de serem músicas conhecidas ou não. Não queria gravar um disco só de sucessos. É difícil, mas eu tentei ficar distante de como as músicas batem nas pessoas e sim buscar o que elas diziam em si. A mudança de arranjo é uma prática comum dos seus shows, e isso ficou bem claro nesse DVD, como "Dançando em Campo Minado" e em "Exército de um Homem Só". É uma coisa que acabou sendo uma característica minha, embora não seja uma coisa que eu tenha buscado. Acho super legal quando artistas que têm gravações clássicas as repetem literalmente. Mas, na minha história, sempre foi mais autoral essa coisa de alterar canções. Porque eu acho que elas estão sempre vivas, sendo feitas. A gente nunca acaba de escrever uma canção: a gente vai mudando, elas vão mudando junto, assim como nossa percepção delas. Por que, depois de 30 anos de carreira, você decidiu lançar um disco solo? Sabe que, quando falam que esse é o meu primeiro disco solo, até me dá um susto. Obviamente, é o primeiro disco solo, mas eu não consigo encarar assim porque quando eu comecei a preparar o material que seria o CD, não sabia exatamente se seria mais uma formação do Engenheiros. Eu tava muito a fim de tocar com várias pessoas. O Insular tem a ver com isso: um artista é uma ilha do seu trabalho e faz um mundo próprio, mas o bacana é criar pontes com outras ilhas. É nesse momento em que eu me situava: com vontade de criar pontes. Só por isso eu acabei colocando meu nome na frente, por não ter uma banda fixa me acompanhando todo disco. E é irônico porque tem duas formações completas do Engenheiros em um DVD que não é do Engenheiros. Você falou que o DVD contempla toda a sua carreira. Quando você olha pro Humberto que gravou Longe Demais das Capitais em 1986 e compara com o de hoje. O que mudou? Ah, eu sou muito mais burro hoje do que era. Por quê? Porque eu tenho muito menos certezas. Acho que é uma coisa natural, né? Na adolescência, a gente tem um monte de certezas. E tu vai amadurecendo. Mais do que envelhecer é ir perdendo essas certezas e ficando mais flexível. Com o tempo, a gente acaba aprendendo a não pensar de forma direta, principalmente o lance instrumental. Nas letras eu não vejo muita diferença. O DVD mostra isso: canções do primeiro disco tão do lado de canções mais recentes. A gente vai aprendendo a chegar mais perto do som que tem na mente. Ao ouvir Engenheiros, nota-se a relação entre o “eu” e o mundo, de como o ser humano se vê diante de um planeta cada vez mais globalizado. Hoje, os questionamentos ainda estão lá, mas de forma mais madura. Ia perguntar se certas dúvidas sumiram. Mas mais dúvidas apareceram, então? O que vai acontecendo é que as coisas começam a entrar em perspectiva. Coisas que te deixavam perplexo, com o tempo você vê que eles são cíclicas. Não que as dúvidas sejam respondidas, pelo contrário, elas aumentam, mas tu vai aprendendo que o melhor é respirar fundo e esperar a onda passar. Muita gente fala do aspecto político do meu trabalho, mas eu nunca escrevi músicas somente políticas ou panfletárias. Elas sempre vieram misturadas com coisas pessoais. "Toda Forma de Poder", por exemplo, coloca Fidel e Pinochet na mesma frase e o refrão já toca em algo mais pessoal... "Se tudo passa, talvez você passe por aqui" é o diálogo entre duas pessoas. Aquilo que era global vira algo pessoal. Isso é uma coisa que sempre esteve presente no meu trabalho: o mix entre o macro e o micro. Quando você começou a tocar, o som era divulgado em vinil, depois veio CD. Hoje, a indústria não é nem mais de iPod. Como você encara essas mudanças? O aspecto musical acho que não mudou muito desde os caras batendo pedaços de tronco na pré-história. Por outro lado, eu sinto que a grande mudança foi o fim do formato álbum como um módulo determinante da produção artística. Isso já muda muita coisa, porque determina também o ritmo que tu vai expondo a tua produção musical. Hoje em dia, a tecnologia te permite lançar um disco por dia ou uma canção a cada dez anos. Por um lado, te deixa um pouco livre, por outro, você fica sem saber como ler os trabalhos que estão sendo lançados. Tem gente que analisa de uma forma analógica, achando que um download é a mesma coisa que comprar uma música, só que a música vem por um cabo em vez de tu ir na loja comprar o disco. Isso muda muito a influência de como a música é percebida. O tempo das pessoas é muito fragmentado, então, sabe lá se ela não ouviu do primeiro ao segundo minuto. Quer dizer, a maneira como a música é percebida acaba influenciando o formato. De que maneira? Forma e conteúdo acabam fazendo um jogo. Mas eu acho que a gente tem que reconhecer que nós temos um limite, tem um tipo de música que a gente sabe fazer bem e, às vezes, não é pra ficar querendo suprir as novas ondas. Acho que a gente deve continuar fazendo bem o que acha que consegue fazer. A informação há um tempo era meio que determinante, os caras que ouviam os discos importados eram os mais informados. Hoje, já não é mais ter um grande volume de informação que determina a posição no tabuleiro de xadrez. Você já declarou, há mais de 20 anos, que suas influências eram rock progressivo inglês e MPB dos anos 70. São as mesmas até hoje? São. Eu acho que, o que tu ouve no teu período de formação, acaba ouvindo com um lado do cérebro mais emocional do que racional e isso acompanha a vida inteira. Claro que vai reformando, mas nunca é com aquela sensação de que teu HD tá vazio. O interessante das influências é quando, no teu trabalho, tu transforma elas ao ponto de serem irreconhecíveis. Aí que começa a ficar interessante a coisa. Apesar de as coisas que podem influenciar serem ilimitadas, a maneira como tu mixa aquilo no teu trabalho é única. Sua música é conhecida por essas misturas. Tenho sorte de ter vivido um momento em que o ambiente e o público eram muito generosos em relação à experimentação e a ouvir coisas diferentes. Hoje em dia eu vejo que o ambiente tá muito pragmático. Como assim? As pessoas querem se encaixar em uma coisa pré-existente muito rapidamente. Nós, como ouvintes, queremos sempre o melhor da maneira mais rápida, sem dar tempo pra discos ou canções amadurecerem na nossa frente. E o que você anda ouvindo atualmente? O que rola no teu... toca-discos, iPod? Cara, o pior é que hoje em dia meu iPod é quase tão antigo quanto um toca-discos, né? [risos] Mas eu não sou muito novidadeiro, não. Sou mais de me aprofundar nas coisas que ouço do que ficar buscando novidade. E tem o viés do ofício. Eu gosto muito de ouvir músicas que as pessoas nem veem reflexos no meu trabalho, músicas de jazz e de instrumentistas super técnicos. Eu sou o oposto disso tocando, mas gosto muito de ouvir esses caras. Acho que o músico ouve muito com os dedos, sabe? Baixista ouve como baixista, o guitarrista, como guitarrista. Como você vê o rock hoje no Brasil? Muita gente reclama pra mim: "po, não tem mais aquela qualidade". Eu não sei, acho que é muito pouco provável que tenha diminuído a qualidade aumentando a velocidade de lançar. O que deve estar acontecendo é que as coisas não estão tendo o mesmo espaço que tinha pra esse tipo de som nos anos 80, tem menos espaço hoje. A marca do tempo é a fragmentação. [Está] cada vez mais difícil ter alguém que resuma as coisas pra ti e cada vez mais impossível acompanhar tudo que tá acontecendo. Acho que a gente nunca precisou tanto quanto agora de pessoas que escrevam sobre música, façam crítica mesmo. E é engraçado porque eu vejo cada vez menos espaço para isso, menos espaço na imprensa em geral. Você se refere aos sons que estão surgindo? Acho que tem mais gente escrevendo, mas menos espaço. Todos nós como ouvintes acabamos ficando muito pragmáticos. A primeira vez que eu toquei uma música que não fosse minha, já tinha três discos de ouro na parede. Hoje em dia, é quase impossível pruma banda começar sem estar tocando alguma cover. Mas eu não gosto de colocar a culpa disso nas novas gerações. Talvez seja uma coisa que eu senti quando fiz a transição dos meus discos de vinil pra música digital e pro iPod: teoricamente, isso ampliava meus limites de informação, mas eu comecei a ouvir cada vez mais a mesma coisa. Hoje, é mais difícil renovar o que tá ouvindo do que na época da indústria fonográfica. Por quê? As pessoas se lembram com muito amargor da indústria fonográfica por alguns equívocos que ela cometia, mas talvez ela tivesse essa coisa de boa, que pouca gente reconhece, que movimentava a renovação do repertório geral depois de uns anos. Todo mundo ficava esperando um novo disco do Caetano, o que ele ia falar e tal. Isso se perdeu um pouco. O que você está preparando para o futuro? Eu quero ficar bastante tempo na estrada com o Insular, que é uma fase que eu passei muito tempo pra produzir, quero dar tempo pras pessoas entenderem isso. Porque eu começo a ver que, na minha discografia, tem muita coisa que passou batida por eu não ter dado o tempo certo. Quero seguir com ele pelo menos um ou dois anos. Ano que vem completa 30 anos do Longe Demais das Capitais e 20 anos do Humberto Gessinger Trio. É bem provável que [haja] uns shows pontuais desses dois discos, mas não vou parar com a turnê do Insular. https://www.youtube.com/watch?v=CEJTwStGwOU