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Dinucci: “O paulista tem esse lado reacionário. A São Paulo do meu disco é outra”

Músico lança Cortes Curtos, seu álbum solo com narrativas rápidas sobre a cidade

por Marcos Lauro em 07/02/2017

30 discos em seis anos. Esse é o saldo de um grupo de músicos de São Paulo que formou um núcleo de trabalho que serve tanto para a carreira solo de cada um quanto para grupos como Metá-Metá e Passo Torto. Esse coletivo é formado por Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Romulo Fróes, Thiago França, Marcelo Cabral, Sergio Machado e Rodrigo Campos.

Nessa terça-feira (07/02), Kiko Dinucci lança seu álbum solo, Cortes Curtos, com a participação de alguns dos nomes do coletivo. A ideia é misturar influências que vão de Paulo Vanzolini ao pós-punk com músicas rápidas, narrativas curtas sobre o centro de São Paulo – aliás, o álbum foi gravado no estúdio da Red Bull, que fica próximo da Praça da Bandeira e do Anhangabaú, terreno fértil para ideias em um álbum com esse tema.

O álbum, como todos os anteriores, está disponível para download no site kikodinucci.com.br – a independência de Dinucci não suporta nem Spotify e afins. A relação aqui é free download.

kiko-dinucci-capa

Leia o bate papo com Dinucci sobre Cortes Curtos:

Quem apareceu primeiro na sua vida, Vanzolini ou o pós-punk?
Acho que foi o Vanzolini, não por causa do samba, mas por causa da música caipira. Vanzolini fez uma versão de uma música tradicional do Mato Grosso do Sul chamada “Cuitelinho”, gravada pelo Pena Branca e Xavantinho entre outros. A prosa da canção do Vanzolini não é a do malandro carioca, é a do caboclo, muito por conta de suas andanças como cientista pelo norte do Brasil. A música que mais ouvi na infância foi essa música rural paulista e mineira, por conta do meu pai que era de Piracicaba. Música sertaneja era (e é ainda hoje) muito forte na periferia. Pós-punk veio muito depois, só aos 14 anos. Antes disso teve muito Beth Carvalho, Benito de Paula, Roberto Carlos, Edith Veiga, Angela Maria, Alcione, Queen, por influência da minha mãe e Michael Jackson, Kraftwerk, Ramones, Paralamas do Sucesso, Titãs, Toy Dolls, New Order, Siouxsie por influência da minha irmã mais velha que chegava em casa com discos.

Gravar no centro de São Paulo, no Red Bull Studio São Paulo, te inspirou de alguma forma? Como você define aquele visual daquela parte do centro velho?
Com certeza influenciou muito. Na verdade, tudo o que eu faço é muito paulista, nunca me esforcei pra isso acontecer, foi só uma atitude de me aceitar do jeito que eu sou. Mas ser paulista pode até ser um xingamento hoje em dia. No filme A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla, a personagem Angela Carne e Osso xinga um cara de paulista, acho isso magnífico. O paulista tem esse lado reacionário, travado, preconceituoso, careta, TFP, elegem o Doria e Alckmin com maior orgulho. A São Paulo do meu disco é outra, é a antítese do Dória. É o pesadelo do Dória. É tudo aquilo que habita os pesadelos do Doria. É a São Paulo do vômito, das vísceras expostas, dos ossos partidos, que solta um grito ensurdecedor.

As letras são suas ou parcerias? Rodrigo Campos também é bom em narrativas... ele está no disco?
O disco tem três parcerias. Uma é “No Escuro”, com o Wandi Doratiotto (Premê). As outras são: “Terra de Um Beijo Só” com Anna Zêpa e “Seus Olhos” com Sinhá. Ainda toco uma canção do meu amigo Beto Villares, “Chorei”. Rodrigo Campos me inspira muito, eu mudei meu jeito de escrever por causa dele. Ele não está no disco como letrista, mas toca cavaco e guitarra em algumas faixas.

Metá-Metá e Passo Torto têm quase os mesmos integrantes. Como você faz pra direcionar uma composição pra um deles? Como você sabia que essas 15 músicas seriam pra um disco solo e não pra um do Metá-Metá, por exemplo?
No caso do núcleo no qual faz parte eu, Juçara Marçal, Romulo Fróes, Thiago França, Marcelo Cabral, Sergio Machado e Rodrigo Campos, que gerou trabalhos como o Metá, Passo Torto, Mulher do Fim do Mundo [premiado disco da Elza Soares], que são 30 discos lançados em 6 anos, temos a característica de fazer sempre algo diferente dos trabalhos anteriores. Os discos do Metá não se parecem entre si e assim por diante. No caso do Cortes Curtos, eu comecei a compor em 2011 cerca de 40 músicas, todas curtas e ligeiras, e eu já sabia que não cabia em nenhum outro projeto e que teria que criar algo novo. Das 40 canções, as que sobreviveram ao tempo foram essas 15 do disco.

Muita gente compara essa cena atual à Lira Paulistana, pela inquietude, diversidade de sons e até o bom humor em algumas letras. Faz sentido pra você?
Acho que somos parecidos com a geração da Vanguarda Paulista no sentido da audácia na criação e no jeito em que nos viramos no meio independente. No demais fica alguma influência do Itamar e do Arrigo. Adoro a produção daquele período, Premê, Grupo Rumo. Mas acho que a gente tá fazendo outra coisa, bem diferente. Ao mesmo tempo me sinto próximo da geração, toco direto com a Ná Ozzetti e ela se sente muito à vontade no nosso meio. Sempre que toquei com o Arrigo também sempre foi muito legal e o Cortes Curtos abre com a minha parceria com o Wandi. Sinto proximidade com eles porque sinto essa gana pela criação. Essa geração dos 1980 foi muito ofuscada pelo Rock BR, pelas rádios e TV, acho uma injustiça que eles não tiveram tanta projeção, naquela época era muito difícil ser um artista alternativo.

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Músico lança Cortes Curtos, seu álbum solo com narrativas rápidas sobre a cidade

por Marcos Lauro em 07/02/2017

30 discos em seis anos. Esse é o saldo de um grupo de músicos de São Paulo que formou um núcleo de trabalho que serve tanto para a carreira solo de cada um quanto para grupos como Metá-Metá e Passo Torto. Esse coletivo é formado por Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Romulo Fróes, Thiago França, Marcelo Cabral, Sergio Machado e Rodrigo Campos.

Nessa terça-feira (07/02), Kiko Dinucci lança seu álbum solo, Cortes Curtos, com a participação de alguns dos nomes do coletivo. A ideia é misturar influências que vão de Paulo Vanzolini ao pós-punk com músicas rápidas, narrativas curtas sobre o centro de São Paulo – aliás, o álbum foi gravado no estúdio da Red Bull, que fica próximo da Praça da Bandeira e do Anhangabaú, terreno fértil para ideias em um álbum com esse tema.

O álbum, como todos os anteriores, está disponível para download no site kikodinucci.com.br – a independência de Dinucci não suporta nem Spotify e afins. A relação aqui é free download.

kiko-dinucci-capa

Leia o bate papo com Dinucci sobre Cortes Curtos:

Quem apareceu primeiro na sua vida, Vanzolini ou o pós-punk?
Acho que foi o Vanzolini, não por causa do samba, mas por causa da música caipira. Vanzolini fez uma versão de uma música tradicional do Mato Grosso do Sul chamada “Cuitelinho”, gravada pelo Pena Branca e Xavantinho entre outros. A prosa da canção do Vanzolini não é a do malandro carioca, é a do caboclo, muito por conta de suas andanças como cientista pelo norte do Brasil. A música que mais ouvi na infância foi essa música rural paulista e mineira, por conta do meu pai que era de Piracicaba. Música sertaneja era (e é ainda hoje) muito forte na periferia. Pós-punk veio muito depois, só aos 14 anos. Antes disso teve muito Beth Carvalho, Benito de Paula, Roberto Carlos, Edith Veiga, Angela Maria, Alcione, Queen, por influência da minha mãe e Michael Jackson, Kraftwerk, Ramones, Paralamas do Sucesso, Titãs, Toy Dolls, New Order, Siouxsie por influência da minha irmã mais velha que chegava em casa com discos.

Gravar no centro de São Paulo, no Red Bull Studio São Paulo, te inspirou de alguma forma? Como você define aquele visual daquela parte do centro velho?
Com certeza influenciou muito. Na verdade, tudo o que eu faço é muito paulista, nunca me esforcei pra isso acontecer, foi só uma atitude de me aceitar do jeito que eu sou. Mas ser paulista pode até ser um xingamento hoje em dia. No filme A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla, a personagem Angela Carne e Osso xinga um cara de paulista, acho isso magnífico. O paulista tem esse lado reacionário, travado, preconceituoso, careta, TFP, elegem o Doria e Alckmin com maior orgulho. A São Paulo do meu disco é outra, é a antítese do Dória. É o pesadelo do Dória. É tudo aquilo que habita os pesadelos do Doria. É a São Paulo do vômito, das vísceras expostas, dos ossos partidos, que solta um grito ensurdecedor.

As letras são suas ou parcerias? Rodrigo Campos também é bom em narrativas... ele está no disco?
O disco tem três parcerias. Uma é “No Escuro”, com o Wandi Doratiotto (Premê). As outras são: “Terra de Um Beijo Só” com Anna Zêpa e “Seus Olhos” com Sinhá. Ainda toco uma canção do meu amigo Beto Villares, “Chorei”. Rodrigo Campos me inspira muito, eu mudei meu jeito de escrever por causa dele. Ele não está no disco como letrista, mas toca cavaco e guitarra em algumas faixas.

Metá-Metá e Passo Torto têm quase os mesmos integrantes. Como você faz pra direcionar uma composição pra um deles? Como você sabia que essas 15 músicas seriam pra um disco solo e não pra um do Metá-Metá, por exemplo?
No caso do núcleo no qual faz parte eu, Juçara Marçal, Romulo Fróes, Thiago França, Marcelo Cabral, Sergio Machado e Rodrigo Campos, que gerou trabalhos como o Metá, Passo Torto, Mulher do Fim do Mundo [premiado disco da Elza Soares], que são 30 discos lançados em 6 anos, temos a característica de fazer sempre algo diferente dos trabalhos anteriores. Os discos do Metá não se parecem entre si e assim por diante. No caso do Cortes Curtos, eu comecei a compor em 2011 cerca de 40 músicas, todas curtas e ligeiras, e eu já sabia que não cabia em nenhum outro projeto e que teria que criar algo novo. Das 40 canções, as que sobreviveram ao tempo foram essas 15 do disco.

Muita gente compara essa cena atual à Lira Paulistana, pela inquietude, diversidade de sons e até o bom humor em algumas letras. Faz sentido pra você?
Acho que somos parecidos com a geração da Vanguarda Paulista no sentido da audácia na criação e no jeito em que nos viramos no meio independente. No demais fica alguma influência do Itamar e do Arrigo. Adoro a produção daquele período, Premê, Grupo Rumo. Mas acho que a gente tá fazendo outra coisa, bem diferente. Ao mesmo tempo me sinto próximo da geração, toco direto com a Ná Ozzetti e ela se sente muito à vontade no nosso meio. Sempre que toquei com o Arrigo também sempre foi muito legal e o Cortes Curtos abre com a minha parceria com o Wandi. Sinto proximidade com eles porque sinto essa gana pela criação. Essa geração dos 1980 foi muito ofuscada pelo Rock BR, pelas rádios e TV, acho uma injustiça que eles não tiveram tanta projeção, naquela época era muito difícil ser um artista alternativo.