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Diogo Nogueira lança Munduê, um álbum de samba com “força política”

Sambista une resgate histórico com a preocupação sobre a tensão dos dias atuais

por Marcos Lauro em 06/12/2017

Diogo Nogueira é daqueles caras tranquilos que, aparentemente, não se estressam com nada. Há 10 anos – apesar de muita gente achar que é mais tempo – leva seu samba e agora lança o álbum Munduê como forma de comemorar o aniversário.

100% autoral, Munduê é um resgate das raízes do samba, com muito batuque e personagens do Quilombo São José, o mais antigo do Rio de Janeiro, localizado em Valença. Atento aos dias atuais, tentos, reconhece uma força política no trabalho: “Tem samba ali que é totalmente político, um soco na cara. ‘Tempos Difíceis’ é um lamento”, afirmou o sambista em conversa com a Billboard Brasil no escritório da Universal Music em São Paulo.

Leia o papo abaixo:

Você é um cara midiático e muita gente pensa que você tem muito mais de 10 anos de carreira. Você também tem essa sensação?
Eu percebo que as pessoas sentem isso mesmo, mas eu tenho mais essa noção de tempo... tem gente que acha que eu tenho 20 anos de carreira [risos]. Mas acho que o histórico familiar conta um pouco, por causa do meu pai [o sambista João Nogueira] e tal pensam que eu canto desde pequenininho... tipo Sandy & Junior [risos]. Mas eu sempre fui de boa, relax.

O que você considera como marco inicial da sua carreira?
O marco inicial foi a gravação do meu primeiro trabalho mesmo, Ao Vivo, no Teatro João Caetano. Quando eu larguei o futebol, eu fique uns três anos fazendo samba nas casas da Lapa, no Rio. Mas não era profissional... era de sacanagem pra conseguir um trocado e curtir. Eu não tinha foco. Eu passei a ter foco depois que começou a pintar gravadora interessada, essas coisas... aí precisei entender o processo. A partir dali foi profissional.

E esse novo trabalho tem uma preocupação estética interessante. Como ele foi se formando nesse sentido?
Eu tô trabalhando nesse disco tem dois anos e o Bruno Barreto, parceiro na música “Munduê”, me ajudou muito. Eu quis ir pra batucada, tambor, couro na mão, sabe? As origens do samba. E onde eu encontraria isso, num terreiro? Sim, mas seria um lance mais religioso. E aí vi que em quilombos a gente encontra o jongo, os tambores... as origens estão ali. E aí eu quis buscar esse lugar. Fizemos uma pesquisa e descobri que minha mãe frequentava o Quilombo São José nas festas, nas feijoadas... vem gente do Brasil inteiro. Fica em Valença, interior do Rio de Janeiro, já perto de Minas Gerais. Fiquei com esse sentimento, fomos pra lá. É uma fazenda e não tem praticamente nada, só as casas dos quilombolas mesmo. Percebemos que a história estava no povo que mora ali e focamos nele. Quis uma criança na capa, com toda a pureza e a verdade. Chegamos lá e tinha esses gêmeos, a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer. E aí montamos a história, com figurino e tudo... ficou um espetáculo, fiquei muito fã do trabalho. Foi tudo muito natural. Na foto da capa, mesmo, a gente estava andando numa estrada e batendo papo... as fotos foram acontecendo.

O samba foi criando muitos subgêneros que se distanciaram dessas raízes mas você sempre se preocupou com essa coisa da percussão e dos batuques...
Sempre procurei fazer essa junção de respeitar o passado e manter o que está rolando atualmente. Nesse disco, os arranjos mostram isso. É como se estivesse recebendo o bastão pra dar continuidade a essa história.

O álbum já nasceu com essa ideia de ser 100% autoral? Porque tem muitos sambas clássicos que também se encaixariam bem.
Veio da ideia de ser uma coisa nova e de ter um material guardado durante esses 10 anos de carreira. Tenho quase 100 músicas guardadas. Então foi um processo de pegar música, botar de volta, tirar... não parei pra fazer um disco autoral, mas peguei músicas escolhidas.

Você viajou algum tempo com o musical que comemorou os 100 anos de samba. Esse projeto ainda está de pé?
O SamBra depende muito de tempo e patrocínio. São 70 pessoas viajando, uma estrutura gigante. Mas tô aberto totalmente pra seguir sim... foi um aprendizado e um presente inesquecível.

Tem usado nos seus shows algo que aprendeu com esse espetáculo?
Ah, muita coisa, com certeza. Questão corporal, posicionamento, maneira de lidar com o público, de apresentar a canção... tive a oportunidade de trabalhar com gente que vive disso, de fazer musicais, sabe. Fiquei amigo de todos, tenho contato... um aprendizado fantástico.

Você também está na TV há alguns anos com o programa Samba na Gamboa...
Pois é... estamos há dois anos parados por conta de Temer e essas coisas. As verbas dos programas terceirizados foram retiradas... era o programa de maior audiência da TV Brasil, chegamos a alcançar 10 milhões de pessoas. Até hoje perguntam, eu falo: “Reclama lá pro presidente” [risos]. Foi uma experiência ótima... todas essas experiências, na verdade, eu encarei como um desafio de crescimento e pulei no escuro, com tudo, sem medo de errar. Acho que por isso a coisa fluiu e deu certo. Eu me entrego ao máximo e graças a Deus.

Já que entramos na política... vivemos um momento tenso, em que os artistas são muito cobrados e você é um cara tranquilo em relação a isso. Como você encara esse momento?
Esse disco se encaixa perfeitamente nesse momento tenso como uma forma de falar. Eu sou um cara de boa, procuro focar no meu trabalho... mas tô atento e tento dar minha opinião. É muito difícil o que está acontecendo, essa ganância descarada... e não existe uma pessoa lá dentro que diga: “gente, cês precisam parar com isso”. Se o povo não se abraçar e meter a cara, vai continuar. E a única maneira que eu tenho de me expressar é um disco como esse...

Então, nesse sentido, Munduê é um disco político?
Eu acredito que ele tenha uma força política sim. Resgate histórico, cultural... tem samba ali que é totalmente político, um soco na cara. “Tempos Difíceis” é um lamento.

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    200
  • HOT 100
    EUA
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Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
2
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
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Diogo Nogueira lança Munduê, um álbum de samba com “força política”

Sambista une resgate histórico com a preocupação sobre a tensão dos dias atuais

por Marcos Lauro em 06/12/2017

Diogo Nogueira é daqueles caras tranquilos que, aparentemente, não se estressam com nada. Há 10 anos – apesar de muita gente achar que é mais tempo – leva seu samba e agora lança o álbum Munduê como forma de comemorar o aniversário.

100% autoral, Munduê é um resgate das raízes do samba, com muito batuque e personagens do Quilombo São José, o mais antigo do Rio de Janeiro, localizado em Valença. Atento aos dias atuais, tentos, reconhece uma força política no trabalho: “Tem samba ali que é totalmente político, um soco na cara. ‘Tempos Difíceis’ é um lamento”, afirmou o sambista em conversa com a Billboard Brasil no escritório da Universal Music em São Paulo.

Leia o papo abaixo:

Você é um cara midiático e muita gente pensa que você tem muito mais de 10 anos de carreira. Você também tem essa sensação?
Eu percebo que as pessoas sentem isso mesmo, mas eu tenho mais essa noção de tempo... tem gente que acha que eu tenho 20 anos de carreira [risos]. Mas acho que o histórico familiar conta um pouco, por causa do meu pai [o sambista João Nogueira] e tal pensam que eu canto desde pequenininho... tipo Sandy & Junior [risos]. Mas eu sempre fui de boa, relax.

O que você considera como marco inicial da sua carreira?
O marco inicial foi a gravação do meu primeiro trabalho mesmo, Ao Vivo, no Teatro João Caetano. Quando eu larguei o futebol, eu fique uns três anos fazendo samba nas casas da Lapa, no Rio. Mas não era profissional... era de sacanagem pra conseguir um trocado e curtir. Eu não tinha foco. Eu passei a ter foco depois que começou a pintar gravadora interessada, essas coisas... aí precisei entender o processo. A partir dali foi profissional.

E esse novo trabalho tem uma preocupação estética interessante. Como ele foi se formando nesse sentido?
Eu tô trabalhando nesse disco tem dois anos e o Bruno Barreto, parceiro na música “Munduê”, me ajudou muito. Eu quis ir pra batucada, tambor, couro na mão, sabe? As origens do samba. E onde eu encontraria isso, num terreiro? Sim, mas seria um lance mais religioso. E aí vi que em quilombos a gente encontra o jongo, os tambores... as origens estão ali. E aí eu quis buscar esse lugar. Fizemos uma pesquisa e descobri que minha mãe frequentava o Quilombo São José nas festas, nas feijoadas... vem gente do Brasil inteiro. Fica em Valença, interior do Rio de Janeiro, já perto de Minas Gerais. Fiquei com esse sentimento, fomos pra lá. É uma fazenda e não tem praticamente nada, só as casas dos quilombolas mesmo. Percebemos que a história estava no povo que mora ali e focamos nele. Quis uma criança na capa, com toda a pureza e a verdade. Chegamos lá e tinha esses gêmeos, a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer. E aí montamos a história, com figurino e tudo... ficou um espetáculo, fiquei muito fã do trabalho. Foi tudo muito natural. Na foto da capa, mesmo, a gente estava andando numa estrada e batendo papo... as fotos foram acontecendo.

O samba foi criando muitos subgêneros que se distanciaram dessas raízes mas você sempre se preocupou com essa coisa da percussão e dos batuques...
Sempre procurei fazer essa junção de respeitar o passado e manter o que está rolando atualmente. Nesse disco, os arranjos mostram isso. É como se estivesse recebendo o bastão pra dar continuidade a essa história.

O álbum já nasceu com essa ideia de ser 100% autoral? Porque tem muitos sambas clássicos que também se encaixariam bem.
Veio da ideia de ser uma coisa nova e de ter um material guardado durante esses 10 anos de carreira. Tenho quase 100 músicas guardadas. Então foi um processo de pegar música, botar de volta, tirar... não parei pra fazer um disco autoral, mas peguei músicas escolhidas.

Você viajou algum tempo com o musical que comemorou os 100 anos de samba. Esse projeto ainda está de pé?
O SamBra depende muito de tempo e patrocínio. São 70 pessoas viajando, uma estrutura gigante. Mas tô aberto totalmente pra seguir sim... foi um aprendizado e um presente inesquecível.

Tem usado nos seus shows algo que aprendeu com esse espetáculo?
Ah, muita coisa, com certeza. Questão corporal, posicionamento, maneira de lidar com o público, de apresentar a canção... tive a oportunidade de trabalhar com gente que vive disso, de fazer musicais, sabe. Fiquei amigo de todos, tenho contato... um aprendizado fantástico.

Você também está na TV há alguns anos com o programa Samba na Gamboa...
Pois é... estamos há dois anos parados por conta de Temer e essas coisas. As verbas dos programas terceirizados foram retiradas... era o programa de maior audiência da TV Brasil, chegamos a alcançar 10 milhões de pessoas. Até hoje perguntam, eu falo: “Reclama lá pro presidente” [risos]. Foi uma experiência ótima... todas essas experiências, na verdade, eu encarei como um desafio de crescimento e pulei no escuro, com tudo, sem medo de errar. Acho que por isso a coisa fluiu e deu certo. Eu me entrego ao máximo e graças a Deus.

Já que entramos na política... vivemos um momento tenso, em que os artistas são muito cobrados e você é um cara tranquilo em relação a isso. Como você encara esse momento?
Esse disco se encaixa perfeitamente nesse momento tenso como uma forma de falar. Eu sou um cara de boa, procuro focar no meu trabalho... mas tô atento e tento dar minha opinião. É muito difícil o que está acontecendo, essa ganância descarada... e não existe uma pessoa lá dentro que diga: “gente, cês precisam parar com isso”. Se o povo não se abraçar e meter a cara, vai continuar. E a única maneira que eu tenho de me expressar é um disco como esse...

Então, nesse sentido, Munduê é um disco político?
Eu acredito que ele tenha uma força política sim. Resgate histórico, cultural... tem samba ali que é totalmente político, um soco na cara. “Tempos Difíceis” é um lamento.