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Do começo do rap no Brasil ao disco novo, um papo com Thaíde

Vamo Que Vamo Que O Som Não Pode Parar é o segundo álbum solo do artista, que viu o rap nascer no país

por Marcos Lauro em 11/07/2017

Mesmo que você não curta rap, já viu Thaíde. Um dos caras mais midiáticos do hip hop nacional já foi da MTV, da Band (A Liga, onde se destacou como repórter) e já participou de reality show da Record (Power Couple), entre diversas outras aparições.

Dono de uma carreira importante ao lado do ex-parceiro DJ Hum, Thaíde acabou de lançar seu segundo álbum solo, Vamo Que Vamo Que O Som Não Pode Parar, um dos seus bordões. Thaíde viu o rap nascer no Brasil, participou do primeiro disco do gênero no país e não vê o rap comercial com maus olhos, como acontece com boa parte dos fãs do gênero. “O rap vai se tornar tão popular que muita gente que não tem nada a ver com essa história vai fazer rap. E isso já está rolando!”, afirma.

Ouça o álbum e leia a conversa abaixo:

Esse é apenas o seu segundo disco solo [o primeiro foi Apenas, de 2007]. Qual a grande diferença pro anterior?
Talvez ele soe diferente porque no Apenas eu tentei me manter no mercado. E aí tem um anseio do público por coisas pras pistas, rádios etc. Já nesse disco, eu consegui manter minha essência. Eu ficaria muito repetitivo se lançasse algo naquele esquema.

“Prá Cima” virou hit de pista, né, até hoje toca em festa de rap...
E as duas versões, a original e o remix. Foi a música que marcou aquele disco. Eu tenho até o interesse de relançar esse disco... já faz dez anos. Nesse meio tempo lancei singles e outras paradas, além de já estar preparando o novo. Eu tenho o meu tempo, né? Chego a ficar cinco anos com uma música ali, guardada. É o caso da música que abre esse disco, “Só1Tiro!”. Ela tá comigo há uns cinco anos. Tem uma base, aí eu penso: “essa base é legal, mas não é pra agora”. Prefiro ter mais tempo pra analisar.

Você é um cara que está sempre na TV. Quando viu que a TV também era um caminho?
Quando você apresenta um programa que tem a ver com você, musical, no meu caso, é zona de conforto, né? Tem afinidade. Mas quando sai da zona de conforto e continua dando certo, aí você vê que pode insistir um pouco mais naquilo. Quando fui pr’A Liga, fazer jornalismo, eu nunca imaginei que poderia chamar atenção. Fui considerado um dos principais repórteres e fiquei desde o início. Então eu faço TV, trabalho em empresas, faço locuções... eu tento aproveitar tudo.

E como é entrevistar?
Pô, cê poderia me responder, tá mais acostumado que eu [risos]. O lance é que na TV a pessoa que está assistindo tem que esquecer que existe câmera. E sempre deixar o entrevistado mais relaxado possível, à vontade, sem forçar, pra ele não dizer mais e nem menos do que precisa ser dito. Eu tenho o lance do rap, que me ajudou. Sem falar dos ídolos, né? Goulart de Andrade, Gil Gomes. O Gil é um repórter policial que falava de igual pra igual. Eu sempre admirei. O cara retratava pra sociedade um criminoso, mas tratava com respeito.

Qual o marco que você conta como início de carreira?
Ah, dá uns 32, 33 anos já, por aí. Eu conto desde quando comecei a dançar break. Mas o marco inicial mesmo foi numa festa do antigo Espaço Mambembe, organizada pelo Nasi e pelo Skowa, em 1987. Ali eu cantei uma música que nem tava gravada ainda... tinha tocado no rádio só, “Consciência”. Deixei de dançar break e comecei a escrever mais. Mas só foi definitivo mesmo no Cultura de Rua [primeiro disco de rap no Brasil, em formato de coletânea], de 1988.

E nessa época, como fazia pra pegar as referências?
A gente tinha referências pessoais, a gente se virava. Tinha shows em circos e bailes e agente se aproximava dos ídolos. Negro e rap na TV, rádio... era escasso. Então de vez em quando a gente dava sorte de ver um Tony Tornado na TV, era como ver o James Brown. A primeira vez que vi break foi na TV, num Video Show... vi um cara girando de costas e falei: “Quero fazer”. Quem ia pros bailes, trazia informações... aí abriam sedes nos bairros, a gente se aproximava. Isso antes do hip hop mesmo. Quando veio a cultura, aí rolaram as equipes de bailes que traziam os discos. A gente dava graças a Deus quando alguém viajava... se for contar tudo, dá um longa.

E a gente está nesse momento de contarem a história do hip-hop, com The Get Down, Hip-Hop Evolution... cê assistiu?
Sim... sei de gente que viu o The Get Down e depois viu o Evolution pra conferir a história. Eu acho que faltou história no The Get Down. A gente podia fazer aqui, tem muita história...

Você se reconhece ali no Hip-Hop Evolution?
Sim, consigo me ver aqui também. Naquela hora em que eles estão conhecendo os equipamentos. Aquela coisa de ir de baile em baile pra cantar mesmo sabendo que não vai rolar cachê. A coisa da polícia pegar no pé mesmo depois de ser conhecido. O lance é que lá fora eles se organizaram muito rápido. Aqui a gente ainda está se organizando. Aqui a gente ainda tem a questão do ego muito forte... falta reconhecer, batalhar. Quando a gente conseguir olhar pro outro e saber que só a união vai fortalecer o movimento, aí sim a gente vai conseguir se organizar.

E no seu disco novo tem o Kurtis Blow, um dos pilares disso tudo. Como foi a participação?
Eu já tive contato com ele nos anos 1990, quando ele veio da outra vez. Ele é muito humilde, gente fina. Ele se interessa pela sua história. Eu não falo inglês, mas acompanhei ele em alguns lugares da outra vez. Agora, quando soube que ele viria de novo, falei com o produtor se rolaria uma participação dele no disco, eu estava fazendo e tal. O produtor falou: “Sim, só marcar horário”. Eu respondi: “É verdade mesmo?” [risos]. Numa boa. Engraçado que uma vez o Fab 5 Freddy, um outro grande ícone do hip hop, veio pro Brasil. Falei pra ele que não falava inglês e tal. Ele respondeu: “Mas falamos a linguagem do hip hop!”. E usei isso na letra com o Kurtis Blow também... eu em português, ele em inglês, com uma unidade. O cara vem, te respeita e você mantém o seu pé no chão.

Na música “Rock ‘n’ Roll, do Black Alien, o Edi Rock diz “queria ser Thaíde” num verso. Como é se ver como referência pra esses caras, que também já são grandes no movimento?
Quando eu ouvi aquilo ali, ainda bem que eu estava escorado num lugar [risos]. Gratificante, né? Cê vê que o trabalho é verdadeiro. Se você chama a atenção de pessoas como o Edi Rock, é sinal de que o trabalho está sendo bem desenvolvido. É uma responsabilidade.

Como você tem visto a onda do trap lá nos Estados Unidos, que já chega por aqui?
Acho que quando o assunto é pista, tudo é muito passageiro. Ainda mais hoje. As músicas que são eternas foram feitas de 1960 a 1990. Depois de 2000, tudo se tornou descartável, rápido, efêmero. Cê lança uma, bomba na pista... já lançam outra amanhã, entra no lugar. E assim vai. Eu tento balancear isso no meu trabalho, faço música de pista mas tento fazer música pra tocar e gravar na mente. Acho que consegui isso, sem falsa modéstia, com “Povo de Aruanda”. É uma música que pode não tocar em pista, mas fica aquela coisa de “ouve essa letra aí, presta atenção!”. É o que eu tento fazer.

Que é uma característica desde a parceria com o DJ Hum, não?
Sim, e a gente foi muito criticado. “Música de festinha e tal”. Mas é o meu jeito de fazer som.

A gente não te vê muito envolvido nas tretas do rap. Porque? Cê não dá bola?
Na verdade, cara, eu já passei em tanta situação pra chegar onde eu tô hoje, pra cuidar do meu próprio nariz, sabe como é... me esquivar de briga e tudo mais, não é nem porque eu não queira, é porque eu não tenho tempo! É muito trabalho, tenho três filhos, tenho problemas normais pra resolver... às vezes alguém me liga: “Ah, cê viu tal coisa?”. Ah, não... não tenho tempo. E o tempo que me resta eu uso pra ficar em casa. Eu tento não participar de qualquer coisa. Se eu vejo que é pela comunidade, que todo mundo ali vai conseguir fazer barulho e obter resultados, pode contar comigo. Agora, se é besteira, intriga... talvez eu perca um tempo pra conversar com essa pessoa pessoalmente, mas não vou fazer uma música, responder etc.

E o lance da participação no Power Couple? Sei que você faz TV há muitos anos, mas confesso que me surpreendi ao te ver num reality show.
Bom, eu sou um homem livre. Começa por aí. Eu já fiz tudo que é tipo de música além do rap, já fiz TV, cinema, sou louco pra fazer teatro, lancei livro, já fui pra fora do país... porque eu não poderia participar? É um direito que eu tenho. Se me convidaram, é porque eu sou interessante. Não iria pra outros tipos de programa, que dão uma exposição mais negativa. Ali é um jogo de casais e minha esposa tava doida pra participar [risos]. Eu nem queria tanto... me chamaram da outra vez mas eu ainda estava na Band, não podia. Aí me chamaram de novo e ela me convenceu, até pra ajudar na divulgação do disco, fizemos umas camisetas e tal. E se não fosse por isso, seria por outra coisa... onde está a corrente que me prende em algum lugar? Tô lá sempre com a consciência dos meus atos.

No álbum novo tem a faixa “Estilo”, que tem um time pesado. Rincon Sapiência, Marcelo D2, Ndee Naldinho, Don Cesão, Black Alien, Rapadura e Ana P. Qual a história dessa faixa?
A gente tem discussões bobas de “velha escola” versus “nova escola”. Umas brigas que querem jogar o passado contra o presente e assim a gente não vai ter futuro. Eu prefiro juntar todo mundo numa música. Tentei mostrar que uma música pode ser atemporal assim como o respeito tem que ser também. E com uma mensagem legal sobre estilo. Mesmo de chinelo de dedo, se tiver proceder vai ser respeitado. Gosto muito dessa música porque mostra a união que tá em falta. Respeito é primordial em tudo. Essa conversa só está acontecendo porque eu respeitei você, você nos respeitou, ligou, seguiu as normas. Aqui comigo também só trabalha quem segue as normas. Se não vira bagunça.

Bom, esse é seu segundo álbum depois do fim da parceria com o DJ Hum. Como é o relacionamento entre vocês hoje?
A gente só se fala quando existe algum interesse, algo pra resolver. Temos alguns problemas de bastidores, que estamos resolvendo. Uma das melhores coisas que eu fiz foi dar essa chance pra cada um seguir seu caminho. Acho que cresci muito como artista e pessoa e acho que ele também.

E como foi quando você se viu tendo que trabalhar com vários produtores e beatmakers? Como é o relacionamento?
Graças a Deus, consegui me tornar um músico que pode trabalhar com qualquer tipo de DJ, produtor. Posso trabalhar com banda. Tenho essa flexibilidade. E sou cara de pau também, chego nos DJs e peço batida mesmo [risos]. E não tenho essa de contrato, chegar com grana... é tudo dividido, os créditos são divididos. Todo mundo se paga.

Hoje é normal a compra e venda de beats. O que acha disso?
Existem os profissionais das batidas, os caras fazem, te mandam, sem vínculo, e você compra. Eu não condeno quem faz isso. Mas acho mais legal quem cria junto. “DJ, preciso disso aqui”. “Beleza, vou mudar”. Entendeu? Gosto de chegar, dar satisfação, dizer o que ficou legal... todos os beat makers gostaram do resultado nesse disco.

O rap já foi mais fechado, mas ainda hoje a gente vê resistências contra coisas novas. Como você sente o movimento hoje em relação a isso?
Eu tenho uma opinião que muitos não gostam, já gravei lá na “Preste Atenção”. O rap vai se tornar tão popular que muita gente que não tem nada a ver com essa história vai fazer rap. E isso já está rolando! Gente que não dança break, não faz graffiti, não é DJ, mas tem simpatia pelo movimento, faz música e está se dando bem. Eu não tenho esse direito de impedir, nem posso. Eu sempre batalhei pela minha liberdade de expressão, então não posso fazer isso. Enquanto for feito de maneiro respeitosa, pra mim tá ótimo. Pra fazer rap precisava ser favelado, preto e fodido na vida. E isso mudou muito. Vejo muita gente que não é favelada, muito branquinho, fazendo legal, se dando bem e conquistando público. Eu não vou tirar ninguém do seu lugar. Tem campo de trabalho pra todo mundo. Eu gosto do que está acontecendo agora. Mantém o mercado aquecido e estão fazendo rap de boa.

E o fã de rap colabora para essa pressão?
Sim, vem a cobrança. Mas aconteceu isso no samba também. Lembro quando tinha o Originais do Samba, chegou o Fundo de Quintal criando instrumentos. Almir Guineto colocou banjo no samba. Nêgo ficou louco [risos]! Depois veio Raça Negra, com teclado. De novo! Cê pega o reggae no Brasil, mesma coisa. Hoje o reggae tem que ser comercial e eu não acho ruim. Só acho que deveria ter mais. Pra se abrir espaço tem que ser comercial. Eu falo pra um amigo: “Cê faz música de conceito, muito boas. Mas não vende. Mistura. Chama atenção com algo comercial e coloca o conceito”. Se quer espaço, não adianta ser radical. Quem é radical, acaba solitário. É minha opinião. Muitos não vão gostar, vão ficar mordidos [risos].

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Vamo Que Vamo Que O Som Não Pode Parar é o segundo álbum solo do artista, que viu o rap nascer no país

por Marcos Lauro em 11/07/2017

Mesmo que você não curta rap, já viu Thaíde. Um dos caras mais midiáticos do hip hop nacional já foi da MTV, da Band (A Liga, onde se destacou como repórter) e já participou de reality show da Record (Power Couple), entre diversas outras aparições.

Dono de uma carreira importante ao lado do ex-parceiro DJ Hum, Thaíde acabou de lançar seu segundo álbum solo, Vamo Que Vamo Que O Som Não Pode Parar, um dos seus bordões. Thaíde viu o rap nascer no Brasil, participou do primeiro disco do gênero no país e não vê o rap comercial com maus olhos, como acontece com boa parte dos fãs do gênero. “O rap vai se tornar tão popular que muita gente que não tem nada a ver com essa história vai fazer rap. E isso já está rolando!”, afirma.

Ouça o álbum e leia a conversa abaixo:

Esse é apenas o seu segundo disco solo [o primeiro foi Apenas, de 2007]. Qual a grande diferença pro anterior?
Talvez ele soe diferente porque no Apenas eu tentei me manter no mercado. E aí tem um anseio do público por coisas pras pistas, rádios etc. Já nesse disco, eu consegui manter minha essência. Eu ficaria muito repetitivo se lançasse algo naquele esquema.

“Prá Cima” virou hit de pista, né, até hoje toca em festa de rap...
E as duas versões, a original e o remix. Foi a música que marcou aquele disco. Eu tenho até o interesse de relançar esse disco... já faz dez anos. Nesse meio tempo lancei singles e outras paradas, além de já estar preparando o novo. Eu tenho o meu tempo, né? Chego a ficar cinco anos com uma música ali, guardada. É o caso da música que abre esse disco, “Só1Tiro!”. Ela tá comigo há uns cinco anos. Tem uma base, aí eu penso: “essa base é legal, mas não é pra agora”. Prefiro ter mais tempo pra analisar.

Você é um cara que está sempre na TV. Quando viu que a TV também era um caminho?
Quando você apresenta um programa que tem a ver com você, musical, no meu caso, é zona de conforto, né? Tem afinidade. Mas quando sai da zona de conforto e continua dando certo, aí você vê que pode insistir um pouco mais naquilo. Quando fui pr’A Liga, fazer jornalismo, eu nunca imaginei que poderia chamar atenção. Fui considerado um dos principais repórteres e fiquei desde o início. Então eu faço TV, trabalho em empresas, faço locuções... eu tento aproveitar tudo.

E como é entrevistar?
Pô, cê poderia me responder, tá mais acostumado que eu [risos]. O lance é que na TV a pessoa que está assistindo tem que esquecer que existe câmera. E sempre deixar o entrevistado mais relaxado possível, à vontade, sem forçar, pra ele não dizer mais e nem menos do que precisa ser dito. Eu tenho o lance do rap, que me ajudou. Sem falar dos ídolos, né? Goulart de Andrade, Gil Gomes. O Gil é um repórter policial que falava de igual pra igual. Eu sempre admirei. O cara retratava pra sociedade um criminoso, mas tratava com respeito.

Qual o marco que você conta como início de carreira?
Ah, dá uns 32, 33 anos já, por aí. Eu conto desde quando comecei a dançar break. Mas o marco inicial mesmo foi numa festa do antigo Espaço Mambembe, organizada pelo Nasi e pelo Skowa, em 1987. Ali eu cantei uma música que nem tava gravada ainda... tinha tocado no rádio só, “Consciência”. Deixei de dançar break e comecei a escrever mais. Mas só foi definitivo mesmo no Cultura de Rua [primeiro disco de rap no Brasil, em formato de coletânea], de 1988.

E nessa época, como fazia pra pegar as referências?
A gente tinha referências pessoais, a gente se virava. Tinha shows em circos e bailes e agente se aproximava dos ídolos. Negro e rap na TV, rádio... era escasso. Então de vez em quando a gente dava sorte de ver um Tony Tornado na TV, era como ver o James Brown. A primeira vez que vi break foi na TV, num Video Show... vi um cara girando de costas e falei: “Quero fazer”. Quem ia pros bailes, trazia informações... aí abriam sedes nos bairros, a gente se aproximava. Isso antes do hip hop mesmo. Quando veio a cultura, aí rolaram as equipes de bailes que traziam os discos. A gente dava graças a Deus quando alguém viajava... se for contar tudo, dá um longa.

E a gente está nesse momento de contarem a história do hip-hop, com The Get Down, Hip-Hop Evolution... cê assistiu?
Sim... sei de gente que viu o The Get Down e depois viu o Evolution pra conferir a história. Eu acho que faltou história no The Get Down. A gente podia fazer aqui, tem muita história...

Você se reconhece ali no Hip-Hop Evolution?
Sim, consigo me ver aqui também. Naquela hora em que eles estão conhecendo os equipamentos. Aquela coisa de ir de baile em baile pra cantar mesmo sabendo que não vai rolar cachê. A coisa da polícia pegar no pé mesmo depois de ser conhecido. O lance é que lá fora eles se organizaram muito rápido. Aqui a gente ainda está se organizando. Aqui a gente ainda tem a questão do ego muito forte... falta reconhecer, batalhar. Quando a gente conseguir olhar pro outro e saber que só a união vai fortalecer o movimento, aí sim a gente vai conseguir se organizar.

E no seu disco novo tem o Kurtis Blow, um dos pilares disso tudo. Como foi a participação?
Eu já tive contato com ele nos anos 1990, quando ele veio da outra vez. Ele é muito humilde, gente fina. Ele se interessa pela sua história. Eu não falo inglês, mas acompanhei ele em alguns lugares da outra vez. Agora, quando soube que ele viria de novo, falei com o produtor se rolaria uma participação dele no disco, eu estava fazendo e tal. O produtor falou: “Sim, só marcar horário”. Eu respondi: “É verdade mesmo?” [risos]. Numa boa. Engraçado que uma vez o Fab 5 Freddy, um outro grande ícone do hip hop, veio pro Brasil. Falei pra ele que não falava inglês e tal. Ele respondeu: “Mas falamos a linguagem do hip hop!”. E usei isso na letra com o Kurtis Blow também... eu em português, ele em inglês, com uma unidade. O cara vem, te respeita e você mantém o seu pé no chão.

Na música “Rock ‘n’ Roll, do Black Alien, o Edi Rock diz “queria ser Thaíde” num verso. Como é se ver como referência pra esses caras, que também já são grandes no movimento?
Quando eu ouvi aquilo ali, ainda bem que eu estava escorado num lugar [risos]. Gratificante, né? Cê vê que o trabalho é verdadeiro. Se você chama a atenção de pessoas como o Edi Rock, é sinal de que o trabalho está sendo bem desenvolvido. É uma responsabilidade.

Como você tem visto a onda do trap lá nos Estados Unidos, que já chega por aqui?
Acho que quando o assunto é pista, tudo é muito passageiro. Ainda mais hoje. As músicas que são eternas foram feitas de 1960 a 1990. Depois de 2000, tudo se tornou descartável, rápido, efêmero. Cê lança uma, bomba na pista... já lançam outra amanhã, entra no lugar. E assim vai. Eu tento balancear isso no meu trabalho, faço música de pista mas tento fazer música pra tocar e gravar na mente. Acho que consegui isso, sem falsa modéstia, com “Povo de Aruanda”. É uma música que pode não tocar em pista, mas fica aquela coisa de “ouve essa letra aí, presta atenção!”. É o que eu tento fazer.

Que é uma característica desde a parceria com o DJ Hum, não?
Sim, e a gente foi muito criticado. “Música de festinha e tal”. Mas é o meu jeito de fazer som.

A gente não te vê muito envolvido nas tretas do rap. Porque? Cê não dá bola?
Na verdade, cara, eu já passei em tanta situação pra chegar onde eu tô hoje, pra cuidar do meu próprio nariz, sabe como é... me esquivar de briga e tudo mais, não é nem porque eu não queira, é porque eu não tenho tempo! É muito trabalho, tenho três filhos, tenho problemas normais pra resolver... às vezes alguém me liga: “Ah, cê viu tal coisa?”. Ah, não... não tenho tempo. E o tempo que me resta eu uso pra ficar em casa. Eu tento não participar de qualquer coisa. Se eu vejo que é pela comunidade, que todo mundo ali vai conseguir fazer barulho e obter resultados, pode contar comigo. Agora, se é besteira, intriga... talvez eu perca um tempo pra conversar com essa pessoa pessoalmente, mas não vou fazer uma música, responder etc.

E o lance da participação no Power Couple? Sei que você faz TV há muitos anos, mas confesso que me surpreendi ao te ver num reality show.
Bom, eu sou um homem livre. Começa por aí. Eu já fiz tudo que é tipo de música além do rap, já fiz TV, cinema, sou louco pra fazer teatro, lancei livro, já fui pra fora do país... porque eu não poderia participar? É um direito que eu tenho. Se me convidaram, é porque eu sou interessante. Não iria pra outros tipos de programa, que dão uma exposição mais negativa. Ali é um jogo de casais e minha esposa tava doida pra participar [risos]. Eu nem queria tanto... me chamaram da outra vez mas eu ainda estava na Band, não podia. Aí me chamaram de novo e ela me convenceu, até pra ajudar na divulgação do disco, fizemos umas camisetas e tal. E se não fosse por isso, seria por outra coisa... onde está a corrente que me prende em algum lugar? Tô lá sempre com a consciência dos meus atos.

No álbum novo tem a faixa “Estilo”, que tem um time pesado. Rincon Sapiência, Marcelo D2, Ndee Naldinho, Don Cesão, Black Alien, Rapadura e Ana P. Qual a história dessa faixa?
A gente tem discussões bobas de “velha escola” versus “nova escola”. Umas brigas que querem jogar o passado contra o presente e assim a gente não vai ter futuro. Eu prefiro juntar todo mundo numa música. Tentei mostrar que uma música pode ser atemporal assim como o respeito tem que ser também. E com uma mensagem legal sobre estilo. Mesmo de chinelo de dedo, se tiver proceder vai ser respeitado. Gosto muito dessa música porque mostra a união que tá em falta. Respeito é primordial em tudo. Essa conversa só está acontecendo porque eu respeitei você, você nos respeitou, ligou, seguiu as normas. Aqui comigo também só trabalha quem segue as normas. Se não vira bagunça.

Bom, esse é seu segundo álbum depois do fim da parceria com o DJ Hum. Como é o relacionamento entre vocês hoje?
A gente só se fala quando existe algum interesse, algo pra resolver. Temos alguns problemas de bastidores, que estamos resolvendo. Uma das melhores coisas que eu fiz foi dar essa chance pra cada um seguir seu caminho. Acho que cresci muito como artista e pessoa e acho que ele também.

E como foi quando você se viu tendo que trabalhar com vários produtores e beatmakers? Como é o relacionamento?
Graças a Deus, consegui me tornar um músico que pode trabalhar com qualquer tipo de DJ, produtor. Posso trabalhar com banda. Tenho essa flexibilidade. E sou cara de pau também, chego nos DJs e peço batida mesmo [risos]. E não tenho essa de contrato, chegar com grana... é tudo dividido, os créditos são divididos. Todo mundo se paga.

Hoje é normal a compra e venda de beats. O que acha disso?
Existem os profissionais das batidas, os caras fazem, te mandam, sem vínculo, e você compra. Eu não condeno quem faz isso. Mas acho mais legal quem cria junto. “DJ, preciso disso aqui”. “Beleza, vou mudar”. Entendeu? Gosto de chegar, dar satisfação, dizer o que ficou legal... todos os beat makers gostaram do resultado nesse disco.

O rap já foi mais fechado, mas ainda hoje a gente vê resistências contra coisas novas. Como você sente o movimento hoje em relação a isso?
Eu tenho uma opinião que muitos não gostam, já gravei lá na “Preste Atenção”. O rap vai se tornar tão popular que muita gente que não tem nada a ver com essa história vai fazer rap. E isso já está rolando! Gente que não dança break, não faz graffiti, não é DJ, mas tem simpatia pelo movimento, faz música e está se dando bem. Eu não tenho esse direito de impedir, nem posso. Eu sempre batalhei pela minha liberdade de expressão, então não posso fazer isso. Enquanto for feito de maneiro respeitosa, pra mim tá ótimo. Pra fazer rap precisava ser favelado, preto e fodido na vida. E isso mudou muito. Vejo muita gente que não é favelada, muito branquinho, fazendo legal, se dando bem e conquistando público. Eu não vou tirar ninguém do seu lugar. Tem campo de trabalho pra todo mundo. Eu gosto do que está acontecendo agora. Mantém o mercado aquecido e estão fazendo rap de boa.

E o fã de rap colabora para essa pressão?
Sim, vem a cobrança. Mas aconteceu isso no samba também. Lembro quando tinha o Originais do Samba, chegou o Fundo de Quintal criando instrumentos. Almir Guineto colocou banjo no samba. Nêgo ficou louco [risos]! Depois veio Raça Negra, com teclado. De novo! Cê pega o reggae no Brasil, mesma coisa. Hoje o reggae tem que ser comercial e eu não acho ruim. Só acho que deveria ter mais. Pra se abrir espaço tem que ser comercial. Eu falo pra um amigo: “Cê faz música de conceito, muito boas. Mas não vende. Mistura. Chama atenção com algo comercial e coloca o conceito”. Se quer espaço, não adianta ser radical. Quem é radical, acaba solitário. É minha opinião. Muitos não vão gostar, vão ficar mordidos [risos].