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Emicida: "Pretos vão se arrepiar, brancos vão se impressionar"

Emicida lança álbum inspirado em viagem à África

por Marcos Lauro em 20/08/2015

Depois de mixtapes, EPs e singles, chegou o (apenas) segundo disco de estúdio de Emicida, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos E Lições De Casa. O disco é basicamente inspirado numa viagem que o rapper fez para Cabo Verde e Angola, países que fazem parte da chamada África lusófona – a parte do continente que, assim como o Brasil, foi colonizada pelos portugueses e tem a língua portuguesa como oficial.

“Eu precisava olhar pra África e ver de perto a devastação cultural que rolou lá. Saber o que aconteceu antes dos portugueses, os reis, os impérios, a cultura rica e diversa”, disse o rapper para a Billboard Brasil.

O discurso do rapper também mudou em relação aos trabalhos anteriores. Se antes destacava-se a autoafirmação, agora o coletivo fala mais alto. Emicida canta sem usar tanto a si próprio como exemplo de vitória e superação.

O papo estava marcado para 17h e o rapper ainda não tinha sequer almoçado. “Acabei de voltar do ensaio [para os shows de lançamento do disco no SESC Pinheiros], uma baita correria. Mas sei que o game é esse, ‘tâmo’ nessa”, explicou. Conversamos com ele para saber mais sobre esse “game”, sacar as referências do disco e falar sobre as suas parcerias. Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos E Lições De Casa é para a África, mas também pros parceiros de microfone.

Sua viagem para a África mudou o quê em você?
Eu precisava olhar pra África e ver de perto a devastação cultural que rolou lá. Saber o que aconteceu antes dos portugueses, os reis, os impérios, a cultura rica e diversa. Eu já estava pesquisando sobre isso, desde o Egito antigo. A mitologia iorubá também, que é algo complexo e se popularizou aqui com o candomblé. Não conheço o candomblé de Cuba, mas acho que o da Bahia é o mais bonito do mundo. E aqui a gente consome a África pelo europeu ainda. Lá eu era um estrangeiro, mas rolou um vínculo sentimental muito forte. Voltei mais humano, mais rico como pessoa, e tô muito feliz com o resultado dessa viagem. Meu produtor, o Xuxa Levy, soube captar o momento.

E já soube da repercussão do disco por lá?
Os caras estão doidos [risos]! Ficaram malucos com a “Mufete”, que fala das quebradas de Angola. Um parceiro de lá tava na Alemanha comigo [Emicida fez shows pela Europa antes de voltar da África] e eu já tava com a “Mufete” pronta. Ele ouviu e chorou. Ele é um refugiado da guerra civil em Angola. No meio de tanta tristeza, a música conseguiu captar o que tem de bonito. Claro que é a perspectiva de um brasileiro, mas consegui captar.

Falando nisso, o Brasil vem recebendo muitos refugiados, especialmente do Haiti. Você acompanha isso?
O Haiti se libertou e aí bloquearam o país pra tudo. O embargo contra eles foi muito pior que o de Cuba. Ficaram lá trancados por três séculos e ninguém fez nada. O terremoto [de 2010, que devastou o país] só piorou a situação. Angola é um país rico perto do Haiti, assim como o Brasil. É rico, mas a riqueza não é distribuída.

Seu disco tem referências que vão de Ron Mueck a Lupicínio Rodrigues. Você se preocupa com o tanto de informação que o fã vai absorver ou isso é questão de tempo?
Acho que o fã de rap tem que pesquisar. O rap americano nos deu referências de Malcolm X e Martin Luther King, mas a gente tem os nossos, que lutaram pelo povo do Brasil. Tem Simonal, sacou? Foi o [grupo de rap] Z’África Brasil que me apresentou Zumbi dos Palmares. Foi numa música deles que eu ouvi pela primeira vez esse nome. Aí fui pesquisar. E a molecada vai se reconhecer. Cê precisa ter um leque muito vasto. Mas não é questão de ser instantâneo, o lance é captar a energia e eu me sinto muito à vontade com isso. Instantâneo é só o sentimento, a informação pode vir depois.

PLAYLIST: Um panorama sobre o rap nacional

“Mandume” é uma música que tem se destacado no disco. Como rolaram as participações?
Existe hoje uma expectativa baixa em relação ao rap contemporâneo. Achavam que os rappers novos vinham com um nível de pesquisa muito baixo, sem conteúdo. Aí resolvi juntar essas pessoas [Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin]. São rappers que representam bem a música da minha cidade, que está sendo produzida hoje. “Mandume” é um desabafo e vem numa sequência pesada do disco. São cinco séculos com esse grito trancado no peito. E ela vem como um “tô livre, acabou!”. É um canto de libertação.

Já é um hino da luta racial?
Não... Acho que só quando se conecta com quem ouve, aí pode ser um hino. Não tenho essa pretensão. Mas sei que a música tá estralando nas ruas, os moleques se viram nela. Quando pego a  caneta, quero contar uma história pra pessoa se enxergar dentro dela. Os pretos vão se arrepiar e os brancos vão se impressionar. Hino foi em 1993, quando o Edi Rock cantou “1993, fudidamente voltando, Racionais!/ Usando e abusando da nossa liberdade de expressão/ Um dos poucos direitos que o jovem negro ainda tem nesse país” [introdução do disco Raio X Do Brasil, dos Racionais MCs]. Aquilo ali era minha vida e a vida dos moleques.

“Passarinhos”, com a Vanessa da Mata, já toca em rádios que não se dedicam ao rap. Até que ponto essa parceria foi natural ou foi pensada para isso?
A parceria com a Vanessa era inusitada pra muita gente, mas ela é amiga de longa data. Na verdade, é o rolê de sempre, natural. A música com a Pitty [“Hoje Cedo”, do disco anterior, O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui] eu não achei que fosse tocar tanto. Caramba, era muito forte! A primeira frase da música fala de cocaína. E rolou. Desde o começo a gente foge do nicho do rap, já são sinais de interesse em fazer coisa diferente. A MPB parece abrangente, mas é limitada, são poucos nomes.

Veja imagens dos bastidores do clipe de "Passarinhos", de Emicida e Vanessa da Mata

Há alguns dias lançamos uma música de dois internos da Fundação Casa de Franca. O rap ainda salva mais moleque que qualquer projeto social [trecho da letra de “Isso Não Pode Se Perder”, do próprio Emicida]?
O hip hop é grande na assistência social, se preocupa com a origem dos problemas. O rap, como música, não é mercado, não movimenta mais grana do que outros gêneros e a gente sabe disso. Mas a cultura hip hop sim... Essa é forte. O fascinante é esse tipo de coisa: os moleques reclusos encontram a janela pra sair da cadeia. O hip hop dá essa autonomia, liberta, “essa música é minha vida”. O rap serve pra se manter informado, unido, inteligente. Essa coisa de “o gigante acordou” é bizarro pra mim, porque o rap nunca dormiu. [A chacina de] Osasco é o símbolo maior de como os problemas são “dos outros”, esse silêncio sobre o que aconteceu. Passeio pelo mundo e todo lugar tem rádio e TV de rap. Aqui não é assim e isso é bizarro. Eu fico feliz e vejo que tô no caminho certo.

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Emicida: "Pretos vão se arrepiar, brancos vão se impressionar"

Emicida lança álbum inspirado em viagem à África

por Marcos Lauro em 20/08/2015

Depois de mixtapes, EPs e singles, chegou o (apenas) segundo disco de estúdio de Emicida, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos E Lições De Casa. O disco é basicamente inspirado numa viagem que o rapper fez para Cabo Verde e Angola, países que fazem parte da chamada África lusófona – a parte do continente que, assim como o Brasil, foi colonizada pelos portugueses e tem a língua portuguesa como oficial.

“Eu precisava olhar pra África e ver de perto a devastação cultural que rolou lá. Saber o que aconteceu antes dos portugueses, os reis, os impérios, a cultura rica e diversa”, disse o rapper para a Billboard Brasil.

O discurso do rapper também mudou em relação aos trabalhos anteriores. Se antes destacava-se a autoafirmação, agora o coletivo fala mais alto. Emicida canta sem usar tanto a si próprio como exemplo de vitória e superação.

O papo estava marcado para 17h e o rapper ainda não tinha sequer almoçado. “Acabei de voltar do ensaio [para os shows de lançamento do disco no SESC Pinheiros], uma baita correria. Mas sei que o game é esse, ‘tâmo’ nessa”, explicou. Conversamos com ele para saber mais sobre esse “game”, sacar as referências do disco e falar sobre as suas parcerias. Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos E Lições De Casa é para a África, mas também pros parceiros de microfone.

Sua viagem para a África mudou o quê em você?
Eu precisava olhar pra África e ver de perto a devastação cultural que rolou lá. Saber o que aconteceu antes dos portugueses, os reis, os impérios, a cultura rica e diversa. Eu já estava pesquisando sobre isso, desde o Egito antigo. A mitologia iorubá também, que é algo complexo e se popularizou aqui com o candomblé. Não conheço o candomblé de Cuba, mas acho que o da Bahia é o mais bonito do mundo. E aqui a gente consome a África pelo europeu ainda. Lá eu era um estrangeiro, mas rolou um vínculo sentimental muito forte. Voltei mais humano, mais rico como pessoa, e tô muito feliz com o resultado dessa viagem. Meu produtor, o Xuxa Levy, soube captar o momento.

E já soube da repercussão do disco por lá?
Os caras estão doidos [risos]! Ficaram malucos com a “Mufete”, que fala das quebradas de Angola. Um parceiro de lá tava na Alemanha comigo [Emicida fez shows pela Europa antes de voltar da África] e eu já tava com a “Mufete” pronta. Ele ouviu e chorou. Ele é um refugiado da guerra civil em Angola. No meio de tanta tristeza, a música conseguiu captar o que tem de bonito. Claro que é a perspectiva de um brasileiro, mas consegui captar.

Falando nisso, o Brasil vem recebendo muitos refugiados, especialmente do Haiti. Você acompanha isso?
O Haiti se libertou e aí bloquearam o país pra tudo. O embargo contra eles foi muito pior que o de Cuba. Ficaram lá trancados por três séculos e ninguém fez nada. O terremoto [de 2010, que devastou o país] só piorou a situação. Angola é um país rico perto do Haiti, assim como o Brasil. É rico, mas a riqueza não é distribuída.

Seu disco tem referências que vão de Ron Mueck a Lupicínio Rodrigues. Você se preocupa com o tanto de informação que o fã vai absorver ou isso é questão de tempo?
Acho que o fã de rap tem que pesquisar. O rap americano nos deu referências de Malcolm X e Martin Luther King, mas a gente tem os nossos, que lutaram pelo povo do Brasil. Tem Simonal, sacou? Foi o [grupo de rap] Z’África Brasil que me apresentou Zumbi dos Palmares. Foi numa música deles que eu ouvi pela primeira vez esse nome. Aí fui pesquisar. E a molecada vai se reconhecer. Cê precisa ter um leque muito vasto. Mas não é questão de ser instantâneo, o lance é captar a energia e eu me sinto muito à vontade com isso. Instantâneo é só o sentimento, a informação pode vir depois.

PLAYLIST: Um panorama sobre o rap nacional

“Mandume” é uma música que tem se destacado no disco. Como rolaram as participações?
Existe hoje uma expectativa baixa em relação ao rap contemporâneo. Achavam que os rappers novos vinham com um nível de pesquisa muito baixo, sem conteúdo. Aí resolvi juntar essas pessoas [Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin]. São rappers que representam bem a música da minha cidade, que está sendo produzida hoje. “Mandume” é um desabafo e vem numa sequência pesada do disco. São cinco séculos com esse grito trancado no peito. E ela vem como um “tô livre, acabou!”. É um canto de libertação.

Já é um hino da luta racial?
Não... Acho que só quando se conecta com quem ouve, aí pode ser um hino. Não tenho essa pretensão. Mas sei que a música tá estralando nas ruas, os moleques se viram nela. Quando pego a  caneta, quero contar uma história pra pessoa se enxergar dentro dela. Os pretos vão se arrepiar e os brancos vão se impressionar. Hino foi em 1993, quando o Edi Rock cantou “1993, fudidamente voltando, Racionais!/ Usando e abusando da nossa liberdade de expressão/ Um dos poucos direitos que o jovem negro ainda tem nesse país” [introdução do disco Raio X Do Brasil, dos Racionais MCs]. Aquilo ali era minha vida e a vida dos moleques.

“Passarinhos”, com a Vanessa da Mata, já toca em rádios que não se dedicam ao rap. Até que ponto essa parceria foi natural ou foi pensada para isso?
A parceria com a Vanessa era inusitada pra muita gente, mas ela é amiga de longa data. Na verdade, é o rolê de sempre, natural. A música com a Pitty [“Hoje Cedo”, do disco anterior, O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui] eu não achei que fosse tocar tanto. Caramba, era muito forte! A primeira frase da música fala de cocaína. E rolou. Desde o começo a gente foge do nicho do rap, já são sinais de interesse em fazer coisa diferente. A MPB parece abrangente, mas é limitada, são poucos nomes.

Veja imagens dos bastidores do clipe de "Passarinhos", de Emicida e Vanessa da Mata

Há alguns dias lançamos uma música de dois internos da Fundação Casa de Franca. O rap ainda salva mais moleque que qualquer projeto social [trecho da letra de “Isso Não Pode Se Perder”, do próprio Emicida]?
O hip hop é grande na assistência social, se preocupa com a origem dos problemas. O rap, como música, não é mercado, não movimenta mais grana do que outros gêneros e a gente sabe disso. Mas a cultura hip hop sim... Essa é forte. O fascinante é esse tipo de coisa: os moleques reclusos encontram a janela pra sair da cadeia. O hip hop dá essa autonomia, liberta, “essa música é minha vida”. O rap serve pra se manter informado, unido, inteligente. Essa coisa de “o gigante acordou” é bizarro pra mim, porque o rap nunca dormiu. [A chacina de] Osasco é o símbolo maior de como os problemas são “dos outros”, esse silêncio sobre o que aconteceu. Passeio pelo mundo e todo lugar tem rádio e TV de rap. Aqui não é assim e isso é bizarro. Eu fico feliz e vejo que tô no caminho certo.