NOTÍCIAS

Enquanto as inéditas não vêm, Nando Reis revisita repertório

por em 30/11/2015
P
or Marcos Lauro
O cantor Nando Reis está num período de intervalo. Mas isso não significa que não esteja trabalhando. Ele lançou na última sexta-feira (27/11) Voz e Violão – No Recreio – Vol. 1. O disco tem esse nome porque, de fato, é uma diversão para o cantor e compositor. Ele pegou algumas músicas do seu repertório e voltou para um formato bem parecido com o inicial, de quando elas foram compostas: voz e violão. Descompromissado, é um registro cru e minimalista tanto de hits quanto de alguns lados b da carreira do hitmaker – termo não muito bem aceito por Nando, mas comprovado por números importantes em uma carreira de sucesso. Suas composições foram hits nas vozes de Cássia Eller, Marisa Monte e Samuel Rosa, só pra citar alguns. Nando Reis recebeu a Billboard Brasil em sua casa, na zona oeste de São Paulo, para uma conversa solta sobre esse disco e sua carreira. Enquanto o próximo álbum de inéditas não chega, Nando Reis está se divertindo. Esse disco mostra suas músicas de uma forma muito próxima da maneira como elas foram compostas. Essa foi a intenção, de ser cru? Qual a história dele? Sim. Eu acho que a forma é exatamente assim, porque eu componho tudo com o violão. Claro que da composição até o arranjo tem um grau de maturação, experimentação etc. A composição fica mais evidente quando não tem nenhum elemento de arranjo. Você tem ali a forma como toco violão, que é bastante rítmica mas é um suporte pra melodia e pra letra. Eu nunca tinha lançado nada desse tipo. Essa gravação que eu tô lançando como um disco se deu de maneira inesperada, um registro de um show. Eu sempre fiz apresentações com voz e violão, mas muito pouco. Em fevereiro eu fui convidado pelo SESC Pompeia para participar do projeto Sala de Estar. Foram quatro dias, ingressos esgotados e tal. Isso despertou o convite do Citibank Hall pra fazer esse show lá. E isso não estava na minha pauta e eu nem achava adequado, é um show pra um espaço menor. Eu exitei, refleti... me assustava um pouco. Como é um show de voz e violão num espaço tão grande? Aí deu certo e falei: “Bom, vamos registrar!”. E o disco tem esse “vol. 1” porque provavelmente vai ser uma série, mas não tem regularidade, não concorre com meus discos de carreira... É um registro. Meu primeiro disco voz e violão. E eu não refiz nada. Tem erros! De letra, inclusive. Nada que compromete, mas é o que ele se propõe a ser. Tem esse “Recreio” no meio do nome, dá a impressão de diversão mesmo... É um pouco de alívio, de intervalo. Porque eu estou gravando um disco de inéditas, está no forno. Já gravei em Seattle e estou finalizando aqui no Brasil. E fazer esses shows é sempre divertido. Pra montar o repertório da apresentação de fevereiro eu fui ouvir meus discos, fazer relações entre as músicas. Eu posso tocar coisas que não são só as conhecidas. É uma reaproximação com o meu trabalho. Tem coisas que nem lembrava, nunca toquei. “Diariamente” [gravada por Marisa Monte] eu toquei uma ou duas vezes só. “Sutilmente” também. E ficou muita coisa de fora, não dava pra incluir mais. Tem essa espontaneidade que é a marca do disco. A minha carreira tem isso, uma certa imperfeição, algo que não é exatamente preparado. Isso funciona pra mim. Eu admiro pessoas que fazem tudo certinho, como a Marisa Monte. O show dela é impecável, lindo. Mas não é a minha. Cada show é único. Então esse disco é um único show. Se fosse outro dia, sairia diferente... Eu me dei conta depois, eu mudei melodias, mudei letras... coisas sutis e tal, mas rolaram. Eu errei letra! [risos]. Letra grande, nervosismo, 3,7 mil pessoas na plateia. E deixei assim. E quando fui fazer o encarte, pintou a dúvida: “O que eu faço?” [risos]. Aí resolvi pôr a letra original. O registro oficial de uma música é a primeira gravação, é a matriz. A partir dele, tudo é versão. Eu mesmo já achei na internet um monte de letra minha com erro... Ah é? Quais, por exemplo? Em “Pra Você Guardei O Amor” tem “... que aprendi, vem dos meus pais” e já vi “vendo meus pais”. É outra coisa [risos]. Ou em “A Letra A”, “... a gente em movimento, amor”. E já vi “a gente movimenta o amor”. Detalhes. Esse título de hitmaker te afeta? Você se cobra? Nada. Eu acho esse termo até meio ridículo. Claro que eu fico feliz porque as pessoas se identificam com as músicas que eu faço, há impacto, empatia. E quando é num nível maior, é gratificante. Mas eu me esquivo de achar que uma música é feita pra ser hit. Isso é consequência de algo que é misterioso. Se você acreditar no hit, você se impõe uma pressão e acaba acreditando em fórmulas. É uma armadilha? Sim, e eu tento escapar. Já me basta a própria pressão de querer fazer música e a angústia de nunca mais conseguir fazer uma música. Não é bloqueio, nunca senti isso. Mas há tanta expectativa... O sucesso é desejado, impulsiona a carreira, propicia mais shows... Eu adoro os meus hits. No entanto, eu percebo músicas que potencialmente podem ser, aquelas que não, mas faço todas com a mesma potência. Isso é mais um problema do rádio do que meu. O rádio é fechado, conservador. Por isso que é admirável quando tem as exceções. Pô, Legião Urbana! Música de sete minutos! Eu tenho várias músicas de sete minutos, adoraria que virassem hits. Você pega “O Segundo Sol”, por exemplo. Tem um refrão poderoso, mas não é uma “Do Seu Lado”, que é mais “fácil”. Tem uma letra estranha! “Relicário” demorou anos pra pegar. Antes da Cássia Eller gravar, muitas cantoras não quiseram a música! Simone, Gal Costa... E tudo bem! Eu mesmo lancei a música em 2000 e passou em branco. Há hits e hits. Eu tive dois hits de rádio: “Me Diga” e “Por Onde Andei”. O resto faz sucesso no show, mas demoraram anos pra tocar... Você falou em rádio agora... como você ouve música? Está no digital, internet ou no analógico? Eu nunca fiz um download, bicho. Nada. Sei que as pessoas usam, mas não é a minha. Eu compro. Onde eu mais ouço música é no carro, CD. Em casa tenho um puta som e muito vinil. Compro muito vinil, muito disco. Acho uma miséria a gente ter ficado nessa coisa de ouvir uma música. Uma pobreza! Eu faço discos... É uma visão romântica da coisa, certo? Sim, é. Mas se não for romântico, eu vou ser o quê? Cético? Medíocre? Eu acho medíocre o som do mp3. É igual você pegar um livro... claro que você tem passagens preferidas. Mas tem o contexto. A riqueza que uma música passa pra outra num disco é demais. Eu fico puto com essa ideia de que o meu trabalho é conteúdo e pode ser vendido sem remunerar os direitos autorais. Todo mundo ganha dinheiro! Teve um processo em que a indústria fonográfica não planejou isso. Eu me sinto lesado e preciso de uma regulamentação. Já é um escândalo: na era digital, a cobrança de direito autoral é por amostragem e isso prejudica o compositor que tem poucas músicas. Eu faço parte do Procure Saber... Ia te perguntar isso agora! Sim, estou lá. Claro que tem pontos conflitantes, mas a discussão é saudável e fundamental. Sempre me dizem que estou entre os dez autores que mais arrecadam... e eu nem sei como [risos]! Claro que os direitos são parte significativa do que ganho hoje e isso é bom. Acho espantoso, não sou popular! Mas o cara que tem uma música tá fodido! E ele fez uma música tão importante quanto eu que fiz dez! E há muitos autores que são prejudicados pela forma de arrecadação. A defesa não é em meu favor, é em favor de todos! O que é de cada um tem que ser dado... O Procure Saber teve um momento crítico no começo, com a questão das biografias... Sim, aquilo foi muito mal colocado. Aquilo foi um erro. É uma questão complexa... não dá pra impedir [uma biografia] e eu nunca estive do lado disso. Algumas pessoas ali deram sua opinião pessoal e o Procure Saber acabou sendo uma plataforma dessas pessoas. A proibição é lamentável. E você é um cara que a gente não vê muito nas colunas de fofoca, né? Naquelas notícias do tipo “Nando Reis foi visto não sei onde”. Não acham muita graça em mim [risos]. Minha vida é familiar, meus filhos detestam publicidade. Eu atendo todo mundo. É um saco fazer selfie. Muita gente vem sem nem saber quem você é, porque quer postar na internet e tal. Um dia eu tava almoçando, eu tinha uma hora pra almoçar. Tava em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Chega um rapaz com o filho e pede uma foto. Eu disse: “Claro. Cê pode só esperar eu terminar o almoço? Eu vou na sua mesa”. Mas saí dali e não rolou. Depois fui ver na internet e o cara fez um texto me esculhambando! Calúnia mesmo! Então... a minha profissão não é “artista”. O meu trabalho pode ter um alcance e tal. Mas eu não sou obrigado a fazer isso. Eu tenho que subir ao palco e fazer o meu trabalho. Mas eu paro e atendo todo mundo, a não ser quando estou almoçando ou depois de um show. Muitas vezes não dá! Cem pessoas esperando e eu tendo que pegar o voo, ir embora... é difícil! E nos seus shows, como você percebe seu público? É mais velho? Ah, isso é fantástico! Nas redes sociais, meu público é feminino! Sei lá, 90%. Mas nos shows tem todo mundo. E muito adolescente. Muito! A música que eu faço não tem um gênero, né? Todo mundo pode se identificar. E eu fico feliz por isso. Como é a experiência com seus filhos, por exemplo, em relação à música? A molecada hoje ouve de tudo, sem se preocupar com gêneros. Como foi e tem sido com eles? Sendo filhos de um grande apreciador de música, é óbvio que eles nasceram já com muitos discos em casa e uma relação diferente com a música, diria que educativa. É outra visão sobre a coisa. Mas foi ao mesmo tempo tradicional e cada um foi se descobrindo. É engraçado. Eu tenho filho de 30 e de nove anos. Sebastião é fanático por Led Zeppelin, por exemplo. Aliás, todo mundo é meio ligado nos anos 1970... Foi a última década importante em termos de criação? Os anos 1980 também foram importantes... É engraçado, porque eu sou dos anos 1980 e digo que ela foi importante e detestável em termos de timbres. Invasão dos sintetizadores, a transição do analógico pro digital... Isso deixou muita coisa datada. Mas tem coisas brilhantes, principalmente no Brasil e tal. Mas eu sou anos 1970. O que tem do Nando Reis lá do comecinho, anos 1980, no Nando Reis de hoje? O que você conservou? Bom, é a mesma pessoa [risos], transformada pelos 32 anos depois... A minha relação com a música não é diferente. Sou mais profissional, claro, aprendi muita coisa. Mas as minhas convicções permanecem as mesmas. Essa coisa de não ter preconceito com nenhum tipo de música... nada. Nenhuma vergonha de ter feito Barros de Alencar, Chacrinha, Silvio Santos... Pô, tocamos “Bichos Escrotos” no Silvio Santos. Sensacional! Fausto Silva na época do Balancê... Eu sou grato a ele até hoje. Quando o Arnaldo Antunes foi preso [1985], nenhuma TV queria a gente. E o Fausto, no Perdidos na Noite, foi o único que abriu as portas. Eu não faço distinção entre sertanejo, axé, nada... Claro que eu tenho o meu gosto, mas não faço distinção. Eu tô na mesma daquela época. Talvez hoje eu possa fazer mais escolhas, coisa que eu não podia no começo de carreira. Você falou sobre não ter preconceito e tal... Esses dias ouvi uma versão de “All Star” em pagode, do grupo Bom Gosto. Você já deve ter ouvido... Jura? Putz, não conheço. Vou procurar! Velho, eu adoro isso. O Sambô já regravou “Os Cegos Do Castelo” também. Eu já gravei com o Molejo, bicho [risos]! As pessoas torciam o nariz achando que a gente era vendido. Bicho, foi um barato. Tinha aquele programa A.M.I.G.O.S, da Globo, e o Zezé di Camargo me chamou. Ele toca um violão do caralho! E eu tenho o maior orgulho disso. Gravei depois pra trilha sonora d’Os Filhos de Francisco, com a Wanessa. Convidei o Ximbinha e a Joelma pra tocar comigo... Tocamos Kaoma, “Chorando Se Foi”. Pô, eu fui parceiro do Wando [risos]. Eu tava num voo e tava o Wando e o Ratinho. E eu tocava Wando no show, “Fogo E Paixão”. E rolava uma dúvida se eu tocava tirando um sarro ou não. Tocava “Whisky A Go Go”, do Roupa Nova, e tal. Nesse voo, o Ratinho chegou pra mim e falou: “Cê vai no meu programa?”. Eu falei: “Só se for com o Wando!”. E fomos, foi demais! Ser parceiro do Wando é tão importante pra mim quanto ser parceiro da Marisa Monte, da Cássia Eller... Enfim, não tenho preconceito mesmo. Esse disco novo é lançamento do seu selo, o Relicário. Quando você sentiu a necessidade de ter um selo próprio? Ah, foi decorrência de todo esse processo de aprendizado mesmo. Em 2011, a Universal não quis renovar comigo dizendo que eu não dava lucro – e não devia dar mesmo [risos]. Outras gravadoras fizeram propostas que não me agradaram. Então estou descobrindo os caminhos... Mudou tudo! Me incomoda muito ter minhas músicas presas na Universal e os discos fora de catálogo. Então eu compro os meus discos e revendo na minha loja! O selo vai nesse caminho de ter uma identidade, quero reeditar meus discos, já estou negociando com a Warner. Tenho as cartas da Cássia Eller, centenas de fitas cassete com muita coisa. Deve ter música inédita lá. É uma marca pra que eu possa fazer essas coisas. Mas deixo claro que sempre fui independente, no sentido de que as gravadoras por onde passei nunca se meteram no meu trabalho. A independência significa hoje a administração, onde eu sou mais um empresário. Antes eu delegava tudo e agora isso me interessa. O escritório tem várias áreas e eu coordeno todas. Eu acho bacana!
  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
2
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Enquanto as inéditas não vêm, Nando Reis revisita repertório

por em 30/11/2015
P
or Marcos Lauro
O cantor Nando Reis está num período de intervalo. Mas isso não significa que não esteja trabalhando. Ele lançou na última sexta-feira (27/11) Voz e Violão – No Recreio – Vol. 1. O disco tem esse nome porque, de fato, é uma diversão para o cantor e compositor. Ele pegou algumas músicas do seu repertório e voltou para um formato bem parecido com o inicial, de quando elas foram compostas: voz e violão. Descompromissado, é um registro cru e minimalista tanto de hits quanto de alguns lados b da carreira do hitmaker – termo não muito bem aceito por Nando, mas comprovado por números importantes em uma carreira de sucesso. Suas composições foram hits nas vozes de Cássia Eller, Marisa Monte e Samuel Rosa, só pra citar alguns. Nando Reis recebeu a Billboard Brasil em sua casa, na zona oeste de São Paulo, para uma conversa solta sobre esse disco e sua carreira. Enquanto o próximo álbum de inéditas não chega, Nando Reis está se divertindo. Esse disco mostra suas músicas de uma forma muito próxima da maneira como elas foram compostas. Essa foi a intenção, de ser cru? Qual a história dele? Sim. Eu acho que a forma é exatamente assim, porque eu componho tudo com o violão. Claro que da composição até o arranjo tem um grau de maturação, experimentação etc. A composição fica mais evidente quando não tem nenhum elemento de arranjo. Você tem ali a forma como toco violão, que é bastante rítmica mas é um suporte pra melodia e pra letra. Eu nunca tinha lançado nada desse tipo. Essa gravação que eu tô lançando como um disco se deu de maneira inesperada, um registro de um show. Eu sempre fiz apresentações com voz e violão, mas muito pouco. Em fevereiro eu fui convidado pelo SESC Pompeia para participar do projeto Sala de Estar. Foram quatro dias, ingressos esgotados e tal. Isso despertou o convite do Citibank Hall pra fazer esse show lá. E isso não estava na minha pauta e eu nem achava adequado, é um show pra um espaço menor. Eu exitei, refleti... me assustava um pouco. Como é um show de voz e violão num espaço tão grande? Aí deu certo e falei: “Bom, vamos registrar!”. E o disco tem esse “vol. 1” porque provavelmente vai ser uma série, mas não tem regularidade, não concorre com meus discos de carreira... É um registro. Meu primeiro disco voz e violão. E eu não refiz nada. Tem erros! De letra, inclusive. Nada que compromete, mas é o que ele se propõe a ser. Tem esse “Recreio” no meio do nome, dá a impressão de diversão mesmo... É um pouco de alívio, de intervalo. Porque eu estou gravando um disco de inéditas, está no forno. Já gravei em Seattle e estou finalizando aqui no Brasil. E fazer esses shows é sempre divertido. Pra montar o repertório da apresentação de fevereiro eu fui ouvir meus discos, fazer relações entre as músicas. Eu posso tocar coisas que não são só as conhecidas. É uma reaproximação com o meu trabalho. Tem coisas que nem lembrava, nunca toquei. “Diariamente” [gravada por Marisa Monte] eu toquei uma ou duas vezes só. “Sutilmente” também. E ficou muita coisa de fora, não dava pra incluir mais. Tem essa espontaneidade que é a marca do disco. A minha carreira tem isso, uma certa imperfeição, algo que não é exatamente preparado. Isso funciona pra mim. Eu admiro pessoas que fazem tudo certinho, como a Marisa Monte. O show dela é impecável, lindo. Mas não é a minha. Cada show é único. Então esse disco é um único show. Se fosse outro dia, sairia diferente... Eu me dei conta depois, eu mudei melodias, mudei letras... coisas sutis e tal, mas rolaram. Eu errei letra! [risos]. Letra grande, nervosismo, 3,7 mil pessoas na plateia. E deixei assim. E quando fui fazer o encarte, pintou a dúvida: “O que eu faço?” [risos]. Aí resolvi pôr a letra original. O registro oficial de uma música é a primeira gravação, é a matriz. A partir dele, tudo é versão. Eu mesmo já achei na internet um monte de letra minha com erro... Ah é? Quais, por exemplo? Em “Pra Você Guardei O Amor” tem “... que aprendi, vem dos meus pais” e já vi “vendo meus pais”. É outra coisa [risos]. Ou em “A Letra A”, “... a gente em movimento, amor”. E já vi “a gente movimenta o amor”. Detalhes. Esse título de hitmaker te afeta? Você se cobra? Nada. Eu acho esse termo até meio ridículo. Claro que eu fico feliz porque as pessoas se identificam com as músicas que eu faço, há impacto, empatia. E quando é num nível maior, é gratificante. Mas eu me esquivo de achar que uma música é feita pra ser hit. Isso é consequência de algo que é misterioso. Se você acreditar no hit, você se impõe uma pressão e acaba acreditando em fórmulas. É uma armadilha? Sim, e eu tento escapar. Já me basta a própria pressão de querer fazer música e a angústia de nunca mais conseguir fazer uma música. Não é bloqueio, nunca senti isso. Mas há tanta expectativa... O sucesso é desejado, impulsiona a carreira, propicia mais shows... Eu adoro os meus hits. No entanto, eu percebo músicas que potencialmente podem ser, aquelas que não, mas faço todas com a mesma potência. Isso é mais um problema do rádio do que meu. O rádio é fechado, conservador. Por isso que é admirável quando tem as exceções. Pô, Legião Urbana! Música de sete minutos! Eu tenho várias músicas de sete minutos, adoraria que virassem hits. Você pega “O Segundo Sol”, por exemplo. Tem um refrão poderoso, mas não é uma “Do Seu Lado”, que é mais “fácil”. Tem uma letra estranha! “Relicário” demorou anos pra pegar. Antes da Cássia Eller gravar, muitas cantoras não quiseram a música! Simone, Gal Costa... E tudo bem! Eu mesmo lancei a música em 2000 e passou em branco. Há hits e hits. Eu tive dois hits de rádio: “Me Diga” e “Por Onde Andei”. O resto faz sucesso no show, mas demoraram anos pra tocar... Você falou em rádio agora... como você ouve música? Está no digital, internet ou no analógico? Eu nunca fiz um download, bicho. Nada. Sei que as pessoas usam, mas não é a minha. Eu compro. Onde eu mais ouço música é no carro, CD. Em casa tenho um puta som e muito vinil. Compro muito vinil, muito disco. Acho uma miséria a gente ter ficado nessa coisa de ouvir uma música. Uma pobreza! Eu faço discos... É uma visão romântica da coisa, certo? Sim, é. Mas se não for romântico, eu vou ser o quê? Cético? Medíocre? Eu acho medíocre o som do mp3. É igual você pegar um livro... claro que você tem passagens preferidas. Mas tem o contexto. A riqueza que uma música passa pra outra num disco é demais. Eu fico puto com essa ideia de que o meu trabalho é conteúdo e pode ser vendido sem remunerar os direitos autorais. Todo mundo ganha dinheiro! Teve um processo em que a indústria fonográfica não planejou isso. Eu me sinto lesado e preciso de uma regulamentação. Já é um escândalo: na era digital, a cobrança de direito autoral é por amostragem e isso prejudica o compositor que tem poucas músicas. Eu faço parte do Procure Saber... Ia te perguntar isso agora! Sim, estou lá. Claro que tem pontos conflitantes, mas a discussão é saudável e fundamental. Sempre me dizem que estou entre os dez autores que mais arrecadam... e eu nem sei como [risos]! Claro que os direitos são parte significativa do que ganho hoje e isso é bom. Acho espantoso, não sou popular! Mas o cara que tem uma música tá fodido! E ele fez uma música tão importante quanto eu que fiz dez! E há muitos autores que são prejudicados pela forma de arrecadação. A defesa não é em meu favor, é em favor de todos! O que é de cada um tem que ser dado... O Procure Saber teve um momento crítico no começo, com a questão das biografias... Sim, aquilo foi muito mal colocado. Aquilo foi um erro. É uma questão complexa... não dá pra impedir [uma biografia] e eu nunca estive do lado disso. Algumas pessoas ali deram sua opinião pessoal e o Procure Saber acabou sendo uma plataforma dessas pessoas. A proibição é lamentável. E você é um cara que a gente não vê muito nas colunas de fofoca, né? Naquelas notícias do tipo “Nando Reis foi visto não sei onde”. Não acham muita graça em mim [risos]. Minha vida é familiar, meus filhos detestam publicidade. Eu atendo todo mundo. É um saco fazer selfie. Muita gente vem sem nem saber quem você é, porque quer postar na internet e tal. Um dia eu tava almoçando, eu tinha uma hora pra almoçar. Tava em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Chega um rapaz com o filho e pede uma foto. Eu disse: “Claro. Cê pode só esperar eu terminar o almoço? Eu vou na sua mesa”. Mas saí dali e não rolou. Depois fui ver na internet e o cara fez um texto me esculhambando! Calúnia mesmo! Então... a minha profissão não é “artista”. O meu trabalho pode ter um alcance e tal. Mas eu não sou obrigado a fazer isso. Eu tenho que subir ao palco e fazer o meu trabalho. Mas eu paro e atendo todo mundo, a não ser quando estou almoçando ou depois de um show. Muitas vezes não dá! Cem pessoas esperando e eu tendo que pegar o voo, ir embora... é difícil! E nos seus shows, como você percebe seu público? É mais velho? Ah, isso é fantástico! Nas redes sociais, meu público é feminino! Sei lá, 90%. Mas nos shows tem todo mundo. E muito adolescente. Muito! A música que eu faço não tem um gênero, né? Todo mundo pode se identificar. E eu fico feliz por isso. Como é a experiência com seus filhos, por exemplo, em relação à música? A molecada hoje ouve de tudo, sem se preocupar com gêneros. Como foi e tem sido com eles? Sendo filhos de um grande apreciador de música, é óbvio que eles nasceram já com muitos discos em casa e uma relação diferente com a música, diria que educativa. É outra visão sobre a coisa. Mas foi ao mesmo tempo tradicional e cada um foi se descobrindo. É engraçado. Eu tenho filho de 30 e de nove anos. Sebastião é fanático por Led Zeppelin, por exemplo. Aliás, todo mundo é meio ligado nos anos 1970... Foi a última década importante em termos de criação? Os anos 1980 também foram importantes... É engraçado, porque eu sou dos anos 1980 e digo que ela foi importante e detestável em termos de timbres. Invasão dos sintetizadores, a transição do analógico pro digital... Isso deixou muita coisa datada. Mas tem coisas brilhantes, principalmente no Brasil e tal. Mas eu sou anos 1970. O que tem do Nando Reis lá do comecinho, anos 1980, no Nando Reis de hoje? O que você conservou? Bom, é a mesma pessoa [risos], transformada pelos 32 anos depois... A minha relação com a música não é diferente. Sou mais profissional, claro, aprendi muita coisa. Mas as minhas convicções permanecem as mesmas. Essa coisa de não ter preconceito com nenhum tipo de música... nada. Nenhuma vergonha de ter feito Barros de Alencar, Chacrinha, Silvio Santos... Pô, tocamos “Bichos Escrotos” no Silvio Santos. Sensacional! Fausto Silva na época do Balancê... Eu sou grato a ele até hoje. Quando o Arnaldo Antunes foi preso [1985], nenhuma TV queria a gente. E o Fausto, no Perdidos na Noite, foi o único que abriu as portas. Eu não faço distinção entre sertanejo, axé, nada... Claro que eu tenho o meu gosto, mas não faço distinção. Eu tô na mesma daquela época. Talvez hoje eu possa fazer mais escolhas, coisa que eu não podia no começo de carreira. Você falou sobre não ter preconceito e tal... Esses dias ouvi uma versão de “All Star” em pagode, do grupo Bom Gosto. Você já deve ter ouvido... Jura? Putz, não conheço. Vou procurar! Velho, eu adoro isso. O Sambô já regravou “Os Cegos Do Castelo” também. Eu já gravei com o Molejo, bicho [risos]! As pessoas torciam o nariz achando que a gente era vendido. Bicho, foi um barato. Tinha aquele programa A.M.I.G.O.S, da Globo, e o Zezé di Camargo me chamou. Ele toca um violão do caralho! E eu tenho o maior orgulho disso. Gravei depois pra trilha sonora d’Os Filhos de Francisco, com a Wanessa. Convidei o Ximbinha e a Joelma pra tocar comigo... Tocamos Kaoma, “Chorando Se Foi”. Pô, eu fui parceiro do Wando [risos]. Eu tava num voo e tava o Wando e o Ratinho. E eu tocava Wando no show, “Fogo E Paixão”. E rolava uma dúvida se eu tocava tirando um sarro ou não. Tocava “Whisky A Go Go”, do Roupa Nova, e tal. Nesse voo, o Ratinho chegou pra mim e falou: “Cê vai no meu programa?”. Eu falei: “Só se for com o Wando!”. E fomos, foi demais! Ser parceiro do Wando é tão importante pra mim quanto ser parceiro da Marisa Monte, da Cássia Eller... Enfim, não tenho preconceito mesmo. Esse disco novo é lançamento do seu selo, o Relicário. Quando você sentiu a necessidade de ter um selo próprio? Ah, foi decorrência de todo esse processo de aprendizado mesmo. Em 2011, a Universal não quis renovar comigo dizendo que eu não dava lucro – e não devia dar mesmo [risos]. Outras gravadoras fizeram propostas que não me agradaram. Então estou descobrindo os caminhos... Mudou tudo! Me incomoda muito ter minhas músicas presas na Universal e os discos fora de catálogo. Então eu compro os meus discos e revendo na minha loja! O selo vai nesse caminho de ter uma identidade, quero reeditar meus discos, já estou negociando com a Warner. Tenho as cartas da Cássia Eller, centenas de fitas cassete com muita coisa. Deve ter música inédita lá. É uma marca pra que eu possa fazer essas coisas. Mas deixo claro que sempre fui independente, no sentido de que as gravadoras por onde passei nunca se meteram no meu trabalho. A independência significa hoje a administração, onde eu sou mais um empresário. Antes eu delegava tudo e agora isso me interessa. O escritório tem várias áreas e eu coordeno todas. Eu acho bacana!