NOTÍCIAS

Entre Clube da Esquina e Skank, Samuel Rosa e Lô Borges lançam DVD

A Billboard Brasil conversou com os dois em São Paulo sobre esse trabalho, sons de Minas, futebol e política.

por Marcos Lauro em 14/04/2016

A dupla Samuel Rosa e Lô Borges tem uma admiração mútua. A de Samuel vem da infância, de quando ouvia em casa o disco Clube Da Esquina. A de Lô Borges vem dos anos 1990, quando o Skank lançou o disco Calango – ele ficou tão obcecado por “Te Ver” que regravou imediatamente.

Depois de dividirem os palcos algumas vezes, agora a dupla ganha registro em DVD. No trabalho com nome autoexplicativo Samuel Rosa E Lô Borges, os dois cantam sucessos como "Paisagem Da Janela", "O Trem Azul", "Para Lennon E McCartney", "Um Girassol Da Cor Do Seu Cabelo", "Te Ver", "Resposta", "Três Lados" e "Balada Do Amor Inabalável".

A Billboard Brasil conversou com os dois em São Paulo sobre esse trabalho, sons de Minas, futebol e política.

Você se lembra da primeira vez que ouviu algo do Lô Borges? O que sentiu?
Samuel Rosa:
Infância, né? Eu comecei a ouvir a música do Lô dentro da minha casa. Meu pai escutava os discos, me lembro da capa do Clube Da Esquina... uma memória mais remota da infância. Mas sabendo quem é e tendo consciência, foi na adolescência. Aí já fui comprar discos, fui aos shows, aprendi a tocar no violão, essas coisas...

E você, Lô, quando conheceu Skank?
Lô Borges:
Bom, quando o Skank apareceu eu já tinha 20 anos de carreira. Eu ouvi o primeiro disco [Skank, homônimo, 1992] e o segundo [Calango, 1994]. Comecei a curtir mesmo o Skank a partir do segundo. Eu estava numa festa num sítio e tocava o disco o tempo todo, os mineiros fascinados com o êxito da banda. E eu ficava pedindo pra voltar uma música, a “Te Ver”. Nesse momento eu estava gravando um álbum com violões, tinha o Marco Susano... era só violão e percussão. Entrei num quarto e fiz um arranjo ali. A música tinha dois acordes só e eu dei uma “loborgeada”, inventei uns acordes. Depois gravei. Eu mudei tanto a música que o Marcos Susano me falou na gravação: “Não sabia que o Skank tinha gravado uma música sua” [risos]. Era o contrário. Depois encontrei com Samuel numa festa e ele me disse que fiz parte da vida dele desde criança, conhecia a minha carreira e que tinha sido uma honra eu ter regravado “Te Ver”.

Uma coisa é um artista admirar o outro. Outra coisa é compor, trabalhar junto. Teve um gatilho pra que isso acontecesse?
Samuel:
Depois desses encontros, a gente começou a dividir palcos e tal. Mas nada muito grande, três, quatro shows, depois parava etc. Achamos que estava legal tabelar no palco, mas lembramos que somos dois compositores. E esse encontro não resultar em músicas novas seria um desperdício. Veio “Última Guerra” [Maquinarama, 2000], “Dois Rios” [Cosmotron, 2003] e outras...

Vocês acham que a música de Minas Gerais tem uma cara, uma marca registrada?
Lô:
Eu acho que é muito diversificada. O Guimarães Rosa já falava: “Minas é muitas”. Só ele podia usar esse erro gramatical. Então tem o norte, com sua música mais ligada ao nordeste do Brasil. Minas faz divisa com vários estados e cada lugar tem suas influências. Tanto que a música do Skank, do Pato Fu, o pessoal que surgiu na década de 1990, é totalmente diferente da música feita no momento em que eu surgi, nos anos 1970. E o barato desse nosso encontro aqui é conseguir uma unidade desses momentos diferentes. Somos parceiros de canções inéditas e de palco e isso é bacana, poder fazer essa mistura.

Sempre que uma nova geração surge, tem essa coisa de ir contra uma geração anterior. Quando o Skank surgiu, trouxe uma sonoridade carregada de Jamaica, de coisas bem diferentes do que vinha sendo feito. Houve essa vontade de romper com o que existia?
Samuel:
A gente não queria ser confundido com o Clube da Esquina. Era uma necessidade de autoafirmação. Até porque tem uma geração intermediária, ali entre 1972 e 1992, que foi muito no rabicho, na cola do Clube, e se tornou uma espécie de genérico do Clube da Esquina. Era uma tentativa de continuação, uma geração menos genuína. O Skank queria romper com isso tudo e criar uma nova estética, com harmonias, melodias mais simples, mais pop mesmo, letras mais diretas, sampler... Era a tentativa de se chegar a algo novo. Mas, nem por isso, deixar de soar mineiro. Acho que o Skank conseguiu uma assinatura, um DNA mineiro. Em “Resposta” foi a virada do Skank... A gente vinha de “Garota Nacional”, “É Uma Partida De Futebol” e, de repente, aparece uma música pra violão. E ali era o Skank querendo romper com ele mesmo [risos]. A gente queria ser lembrado nos acampamentos: “Pô, a moçadinha vai pegar um violão e tocar o quê?” [risos]. Fiz valer toda a escola de Clube da Esquina e Beatles. Ao encontrar com o Lô, eu vi que tocava errado várias músicas dele [risos]. O Cosmotron é um disco que vem daí...

Então rolou uma “loborgização” do som do Skank?
Samuel:
Exatamente! [risos]

Vocês têm repertórios muito grandes, seja o Lô com o Clube e solo, seja o Samuel com o Skank. Como fizeram pra fechar o repertório desse DVD?
Lô:
Foi um bate-bola mesmo, um consenso. Samuel opinou sobre as minhas músicas e eu também opinei nas dele. Fácil, tranquilo. As minhas músicas que estão nesse DVD são as músicas que o Samuel ouvia na infância. Sem dificuldades, né?
Samuel: Ou uma dificuldade boa, né? Como um técnico da Seleção Brasileira: “Tem tanta gente, quem eu vou escalar?”. Como a gente já toca junto há um tempo, conseguimos experimentar muita coisa. Quando chegou na hora de gravar já tinha uma espinha dorsal e faltavam só os complementos, umas duvidazinhas. As 11 feras do Zagallo já estavam definidas.

Não tem como falar com o Samuel sem falar sobre futebol. Como você está vendo esse momento da Seleção Brasileira, CBF sendo investigada etc?
Samuel:
Não é romântico dizer isso, mas é fácil constatar que um time, em campo, é reflexo da diretoria, da organização. Eu vejo o Cruzeiro, quando teve um presidente bem-intencionado, sempre deu em título. A Seleção é a mesma coisa. Ela é desorganizada porque a cúpula é. Enquanto a gente teve gerações extraordinárias, o bom futebol encobria os problemas. Na hora em que deixou de ter isso – a geração é boa mas não é brilhante –, os problemas começaram a aparecer.
Lô: Eu já fui muito ligado em futebol, na minha adolescência. Eu fui na inauguração do Mineirão, era uma novidade pra cidade. As pessoas gostavam de ir, era um evento, fazia picnic. E era tão bom ir ao Mineirão que eu ia aos jogos até do Atlético...
Samuel: Na minha família era assim também. Meu pai foi em vários jogos do Atlético, era um evento. Principalmente quando o time estava bom. Não tinha essa rivalidade... Ou pelo menos ela não era tão agressiva.
Lô: Sim, as torcidas organizadas foram uma merda pro futebol. Um grande time transformava um torcedor rival num simpatizante. Quando o Atlético surgiu com Reinaldo, Cerezo, Marcelo, eu ia. E quando o Cruzeiro teve uma época de supremacia, todos os meus irmãos atleticanos iam ver. As pessoas respeitavam e um bom time levava torcedores rivais pro estádios.

Falando em torcida e rivalidade, a gente anda num momento político complicado. Como vocês observam tudo isso?
Lô:
O Brasil está muito radicalizado e mal administrado. É uma notícia complexa e maluca a cada segundo, é difícil de acompanhar. Eu não tenho capacidade de acompanhar o que acontece no Brasil, não consigo emitir opinião. Só acho tudo muito caótico.
Samuel: Me incomoda quando a política vira um assunto de todo mundo e se banaliza. Porque gente que nunca leu sobre política se acha entendedora, o discurso fica vazio, Petralhas contra coxinhas... gente que não tem conhecimento nenhum. E onde está o meu medo aí? A massa quer ver a degola. Até que ponto a opinião pública desinformada pode influenciar em decisões políticas? Tem que ser com calma, julgar direitinho, aparecer tudo... até agora são especulações. Eu vejo uma correria desenfreada pra se defender e, aí que me assunta... Por que essa ânsia de provar tanto que fulano é criminoso? Eu me policio pra não cair nessa coisa novelesca, imatura, do bem e do mal. Não é assim. Nem tudo é de todo mal ou de todo bem. Eu me policio pra não cair nessa novelização grotesca.

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Entre Clube da Esquina e Skank, Samuel Rosa e Lô Borges lançam DVD

A Billboard Brasil conversou com os dois em São Paulo sobre esse trabalho, sons de Minas, futebol e política.

por Marcos Lauro em 14/04/2016

A dupla Samuel Rosa e Lô Borges tem uma admiração mútua. A de Samuel vem da infância, de quando ouvia em casa o disco Clube Da Esquina. A de Lô Borges vem dos anos 1990, quando o Skank lançou o disco Calango – ele ficou tão obcecado por “Te Ver” que regravou imediatamente.

Depois de dividirem os palcos algumas vezes, agora a dupla ganha registro em DVD. No trabalho com nome autoexplicativo Samuel Rosa E Lô Borges, os dois cantam sucessos como "Paisagem Da Janela", "O Trem Azul", "Para Lennon E McCartney", "Um Girassol Da Cor Do Seu Cabelo", "Te Ver", "Resposta", "Três Lados" e "Balada Do Amor Inabalável".

A Billboard Brasil conversou com os dois em São Paulo sobre esse trabalho, sons de Minas, futebol e política.

Você se lembra da primeira vez que ouviu algo do Lô Borges? O que sentiu?
Samuel Rosa:
Infância, né? Eu comecei a ouvir a música do Lô dentro da minha casa. Meu pai escutava os discos, me lembro da capa do Clube Da Esquina... uma memória mais remota da infância. Mas sabendo quem é e tendo consciência, foi na adolescência. Aí já fui comprar discos, fui aos shows, aprendi a tocar no violão, essas coisas...

E você, Lô, quando conheceu Skank?
Lô Borges:
Bom, quando o Skank apareceu eu já tinha 20 anos de carreira. Eu ouvi o primeiro disco [Skank, homônimo, 1992] e o segundo [Calango, 1994]. Comecei a curtir mesmo o Skank a partir do segundo. Eu estava numa festa num sítio e tocava o disco o tempo todo, os mineiros fascinados com o êxito da banda. E eu ficava pedindo pra voltar uma música, a “Te Ver”. Nesse momento eu estava gravando um álbum com violões, tinha o Marco Susano... era só violão e percussão. Entrei num quarto e fiz um arranjo ali. A música tinha dois acordes só e eu dei uma “loborgeada”, inventei uns acordes. Depois gravei. Eu mudei tanto a música que o Marcos Susano me falou na gravação: “Não sabia que o Skank tinha gravado uma música sua” [risos]. Era o contrário. Depois encontrei com Samuel numa festa e ele me disse que fiz parte da vida dele desde criança, conhecia a minha carreira e que tinha sido uma honra eu ter regravado “Te Ver”.

Uma coisa é um artista admirar o outro. Outra coisa é compor, trabalhar junto. Teve um gatilho pra que isso acontecesse?
Samuel:
Depois desses encontros, a gente começou a dividir palcos e tal. Mas nada muito grande, três, quatro shows, depois parava etc. Achamos que estava legal tabelar no palco, mas lembramos que somos dois compositores. E esse encontro não resultar em músicas novas seria um desperdício. Veio “Última Guerra” [Maquinarama, 2000], “Dois Rios” [Cosmotron, 2003] e outras...

Vocês acham que a música de Minas Gerais tem uma cara, uma marca registrada?
Lô:
Eu acho que é muito diversificada. O Guimarães Rosa já falava: “Minas é muitas”. Só ele podia usar esse erro gramatical. Então tem o norte, com sua música mais ligada ao nordeste do Brasil. Minas faz divisa com vários estados e cada lugar tem suas influências. Tanto que a música do Skank, do Pato Fu, o pessoal que surgiu na década de 1990, é totalmente diferente da música feita no momento em que eu surgi, nos anos 1970. E o barato desse nosso encontro aqui é conseguir uma unidade desses momentos diferentes. Somos parceiros de canções inéditas e de palco e isso é bacana, poder fazer essa mistura.

Sempre que uma nova geração surge, tem essa coisa de ir contra uma geração anterior. Quando o Skank surgiu, trouxe uma sonoridade carregada de Jamaica, de coisas bem diferentes do que vinha sendo feito. Houve essa vontade de romper com o que existia?
Samuel:
A gente não queria ser confundido com o Clube da Esquina. Era uma necessidade de autoafirmação. Até porque tem uma geração intermediária, ali entre 1972 e 1992, que foi muito no rabicho, na cola do Clube, e se tornou uma espécie de genérico do Clube da Esquina. Era uma tentativa de continuação, uma geração menos genuína. O Skank queria romper com isso tudo e criar uma nova estética, com harmonias, melodias mais simples, mais pop mesmo, letras mais diretas, sampler... Era a tentativa de se chegar a algo novo. Mas, nem por isso, deixar de soar mineiro. Acho que o Skank conseguiu uma assinatura, um DNA mineiro. Em “Resposta” foi a virada do Skank... A gente vinha de “Garota Nacional”, “É Uma Partida De Futebol” e, de repente, aparece uma música pra violão. E ali era o Skank querendo romper com ele mesmo [risos]. A gente queria ser lembrado nos acampamentos: “Pô, a moçadinha vai pegar um violão e tocar o quê?” [risos]. Fiz valer toda a escola de Clube da Esquina e Beatles. Ao encontrar com o Lô, eu vi que tocava errado várias músicas dele [risos]. O Cosmotron é um disco que vem daí...

Então rolou uma “loborgização” do som do Skank?
Samuel:
Exatamente! [risos]

Vocês têm repertórios muito grandes, seja o Lô com o Clube e solo, seja o Samuel com o Skank. Como fizeram pra fechar o repertório desse DVD?
Lô:
Foi um bate-bola mesmo, um consenso. Samuel opinou sobre as minhas músicas e eu também opinei nas dele. Fácil, tranquilo. As minhas músicas que estão nesse DVD são as músicas que o Samuel ouvia na infância. Sem dificuldades, né?
Samuel: Ou uma dificuldade boa, né? Como um técnico da Seleção Brasileira: “Tem tanta gente, quem eu vou escalar?”. Como a gente já toca junto há um tempo, conseguimos experimentar muita coisa. Quando chegou na hora de gravar já tinha uma espinha dorsal e faltavam só os complementos, umas duvidazinhas. As 11 feras do Zagallo já estavam definidas.

Não tem como falar com o Samuel sem falar sobre futebol. Como você está vendo esse momento da Seleção Brasileira, CBF sendo investigada etc?
Samuel:
Não é romântico dizer isso, mas é fácil constatar que um time, em campo, é reflexo da diretoria, da organização. Eu vejo o Cruzeiro, quando teve um presidente bem-intencionado, sempre deu em título. A Seleção é a mesma coisa. Ela é desorganizada porque a cúpula é. Enquanto a gente teve gerações extraordinárias, o bom futebol encobria os problemas. Na hora em que deixou de ter isso – a geração é boa mas não é brilhante –, os problemas começaram a aparecer.
Lô: Eu já fui muito ligado em futebol, na minha adolescência. Eu fui na inauguração do Mineirão, era uma novidade pra cidade. As pessoas gostavam de ir, era um evento, fazia picnic. E era tão bom ir ao Mineirão que eu ia aos jogos até do Atlético...
Samuel: Na minha família era assim também. Meu pai foi em vários jogos do Atlético, era um evento. Principalmente quando o time estava bom. Não tinha essa rivalidade... Ou pelo menos ela não era tão agressiva.
Lô: Sim, as torcidas organizadas foram uma merda pro futebol. Um grande time transformava um torcedor rival num simpatizante. Quando o Atlético surgiu com Reinaldo, Cerezo, Marcelo, eu ia. E quando o Cruzeiro teve uma época de supremacia, todos os meus irmãos atleticanos iam ver. As pessoas respeitavam e um bom time levava torcedores rivais pro estádios.

Falando em torcida e rivalidade, a gente anda num momento político complicado. Como vocês observam tudo isso?
Lô:
O Brasil está muito radicalizado e mal administrado. É uma notícia complexa e maluca a cada segundo, é difícil de acompanhar. Eu não tenho capacidade de acompanhar o que acontece no Brasil, não consigo emitir opinião. Só acho tudo muito caótico.
Samuel: Me incomoda quando a política vira um assunto de todo mundo e se banaliza. Porque gente que nunca leu sobre política se acha entendedora, o discurso fica vazio, Petralhas contra coxinhas... gente que não tem conhecimento nenhum. E onde está o meu medo aí? A massa quer ver a degola. Até que ponto a opinião pública desinformada pode influenciar em decisões políticas? Tem que ser com calma, julgar direitinho, aparecer tudo... até agora são especulações. Eu vejo uma correria desenfreada pra se defender e, aí que me assunta... Por que essa ânsia de provar tanto que fulano é criminoso? Eu me policio pra não cair nessa coisa novelesca, imatura, do bem e do mal. Não é assim. Nem tudo é de todo mal ou de todo bem. Eu me policio pra não cair nessa novelização grotesca.