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Entrevista com Jack Endino (Parte II)

por em 12/11/2009
Imagem: Divulgação/Charles Peterson

Mas nem só de Nirvana viveu Jack Endino. Na primeira parte da entrevista (clique aqui), o produtor relembrou os bastidores do mítico álbum de estreia do Nirvana. Agora, na segunda, comenta alguns projetos mais inusitados, como gravar com os Titãs (e, por conseguinte, com Nando Reis), e estar por trás dos discos de retorno de duas das principais bandas do rock psicodélico. Uma delas é o Blue Cheer, que segue uma linha blues rock e cujo líder, Dickie Peterson, recentemente faleceu. A outra é o The Sonics, padroeiros do garage rock, que existiu entre 1960 e 1968. Muito antes do grunge, antes até mesmo de Jimi Hendrix, essa pode ser considerada a primeira banda de Seattle da história – foi formada em Tacoma, a 50 quilômetros da capital do estado de Washington. Depois de 40 anos separados e 43 sem gravar nada, a banda está de volta ao estúdio. Jack Endino está encarregado da produção e dá mais detalhes.

 

Ótimo. Agora que conseguimos tirar o Bleach do caminho, tem uma pergunta que estou louco para fazer: é verdade que você está gravando com o The Sonics?

[Risos] Ainda não falei nada com a imprensa, mas, sim, é verdade.

 

Uau! Recentemente fiquei sabendo que eles tinham voltado.

Pois é, eles estão tentando recomeçar. Voltaram a tocar no ano passado, fizeram alguns shows e disseram: “Bom, vamos tentar compor algumas canções e ver o que acontece”. E eles estavam muito inseguros, já que fazia 43 anos desde a última vez que eles gravaram alguma coisa. E isso é muuuito tempo. Confesso que fiquei um pouco nervoso.

 

Quando vocês começaram?

Agora em setembro.

 

E em que pé anda isso?

Na segunda-feira passada [a entrevista ocorreu na quarta, 14 de outubro] acabamos de gravar e mixar quatro novas faixas.

 

Como elas soam, algo como o que eles faziam nos anos 60?

São músicas muito boas, mas não soam como “Psycho” [uma das músicas mais emblemáticas do grupo] porque eles não são mais as mesmas pessoas que eram 43 anos atrás [risos]. Simplesmente, são boas canções de rock’n’roll, as quatro muito diferentes entre si. Elas não têm uma sonoridade muito anos 60 porque esses são outros tempos. A banda está muito mais velha e o equipamento muito mais novo. Eles nem querem soar como nos anos 60, têm consciência de como a música hoje em dia está muito diferente.

 

Como ficou o setup no estúdio?

Eu não iria gravar a bateria com dupla microfonia. Buscamos um som simples, ao vivo no estúdio, bem classic rock. Não muito perfeito, apenas soando bem.

 

E o que eles pretendem fazer com isso?

Ainda não sei. Acho que eles vão lançar algum tipo de EP, com quatro faixas, ou simplesmente vão disponibilizá-las no site da banda. Não tenho muita certeza do que eles vão fazer com isso, não tem nem selo. Se eles conseguirem compor mais algumas canções, talvez as gravemos nos próximos meses.

 

Quais os nomes dessas quatro faixas?

“Cheap Shades”, “Don’t Back Down”, “Bad Attitude” e “Vampire Kiss”.

 

Como você se sentiu gravando uma banda tão importante DEPOIS de ela ter se tornado tão importante (risos)?

Foi muito interessante estar no estúdio com os Sonics originais, e eles são muito mais velhos do que eu [risos].  No começo eu fiquei nervoso, não tinha nenhuma demo para escutar, não sabia o que esperar deles. Mas estou muito satisfeito com o resultado dessas quatro canções. E foi simplesmente incrível escutar as histórias que eles tinham para contar.

 

E eles estão com a mesma formação?

Sim, todos os membros originais estavam no estúdio [Gerry Roslie, piano, teclados e vocais; Andy Parypa, baixo; Larry Paripa, guitarra; e Rob Lind, sax, gaita e vocais], exceto o baterista, Bob Bennett, que não toca mais. Eles têm um novo baterista, Ricky, que também toca no The Wailers [não o grupo de Bob Marley, mas outra banda seminal de garage rock dos anos 60, também formada em Tacoma, EUA].

 

Uau... Além disso, o que você anda fazendo?

Estou gravando com umas bandas de metal. Minha carreira é muito estranha, nunca sei com quem estarei no estúdio. Tudo vale. De garage rock, ao punk e ao metal, eu faço de tudo.

 

E até pop brasileiro. Você vai do Zeke ao Titãs num piscar de olhos.  

[Risos] Eu não penso no Titãs como uma banda de pop brasileiro, e sim como uma banda de rock. Eles compõem faixas pop, mas tocam guitarra em alto volume, sempre incorporaram elementos de rock e punk. Pelo menos esse é o lado da banda que eles me apresentaram. Talvez só me chamem quando querem fazer um disco de rock [risos].

 

Lembro que era muito estranho assistir o Titãs tocando “Será que É Isso que Eu Necessito?” em programas de auditório no começo dos anos 90.

Imagino, mas esse [Titanomaquia, de 1993] é o disco que eles queriam fazer na época. Até Domingo eu considero um disco de rock’n’roll. Desde Tudo ao Mesmo Tempo Agora [1991], o primeiro disco deles que eu escutei, fiquei com essa impressão. Não é bem o disco de pop e eles sabiam o que estavam fazendo.

 

E em 2005 você veio ao Brasil gravar o disco MTV Ao Vivo.

Sim, fui até Florianópolis ajudar na gravação e fazer a mixagem. Adorei, me diverti muito. As praias são maravilhosas.

 

Você também já produziu dois discos solo do Nando Reis – Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro (2000) e Infernal (01, co-produção). Eles definitivamente não podem ser considerados rock’n’roll. O que você achou do resultado?

Eu gosto do Nando, sempre gostei dele. Estou feliz que ele está se dando bem por conta própria porque ele não conseguia gravar muitas das próprias composições com o Titãs, já que todo mundo na banda compõe. Eram seis pessoas tentando encaixar suas próprias composições e o Nando era apenas um deles. Mas ele é muito prolífico e, quando fiquei sabendo que ele tinha deixado a banda e seguido carreira solo, fez bastante sentido para mim. Afinal, olhe todos os discos que ele já fez.

 

E para o Titãs, isso foi positivo?

O Nando é um excelente baixista. Às vezes sinto que as pessoas não têm noção do quão bom ele é no baixo. Mas eles estão bem, Nando está bem, ambos estão se dando bem. Desejo tudo de bom para eles, amo esses caras.

 

Há pouco estávamos falando sobre The Sonics, mas você já trabalhou com outra banda seminal do rock psicodélico, o Blue Cheer (no discoHighlights & Low Lives, de 1990). Como você se sentiu com a recente morte do Dickie Peterson (baixista e vocalista da banda, morreu em 12/10 de câncer no fígado)?

Eu fiquei triste, muito triste. Passei um mês da minha vida com o Dickie Peterson no País de Gales, onde gravamos o disco. Era para ser um disco de retorno da banda, mas, no final das contas, acho que ninguém nem ficou sabendo. Não se saiu bem, o empresário que eles tinham era completamente louco e o disco não deu muito certo. Mas o bom foi que eu conheci Dickie e o restante da banda muito bem e fiquei chateado com a morte dele. Rickie era um cavalheiro, tinha dignidade, era um sobrevivente durão dos anos 60.

 

Muitas histórias também, imagino.

Você não faz ideia! Blue Cheer já abriu algumas vezes para Jimi Hendrix. O baterista [Paul Whaley] namorou com a Janis Joplin [risos]. Histórias desse tipo, onde mais você poderia escutá-las? Caras muito interessantes, verdadeiros sobreviventes dos anos 60. Por isso é difícil perder o Dickie, um cara muito legal e um baixista extremamente talentoso.

 

Você também toca baixo, no Slippage. E guitarra no Kandi Coded. Como andam esses projetos?

O Slippage meio que se aposentou. O Kandi Coded é o que chamo de minha banda, é com ela que passo a maior parte do meu tempo. Acabamos de gravar um álbum que deve sair no começo do ano que vem.

 

E o Skin Yard (sua primeira banda e uma das precursoras do grunge)? Alguma chance de vocês voltarem?

Não, a banda acabou logo que o vocalista (Ben McMillan) morreu, em 1992. Não nos reunimos desde que ele se foi e isso nunca vai acontecer. Lançamos um disco de raridades em 2001 [Start at the Top], mas a banda nunca voltou a se encontrar.

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Entrevista com Jack Endino (Parte II)

por em 12/11/2009
Imagem: Divulgação/Charles Peterson

Mas nem só de Nirvana viveu Jack Endino. Na primeira parte da entrevista (clique aqui), o produtor relembrou os bastidores do mítico álbum de estreia do Nirvana. Agora, na segunda, comenta alguns projetos mais inusitados, como gravar com os Titãs (e, por conseguinte, com Nando Reis), e estar por trás dos discos de retorno de duas das principais bandas do rock psicodélico. Uma delas é o Blue Cheer, que segue uma linha blues rock e cujo líder, Dickie Peterson, recentemente faleceu. A outra é o The Sonics, padroeiros do garage rock, que existiu entre 1960 e 1968. Muito antes do grunge, antes até mesmo de Jimi Hendrix, essa pode ser considerada a primeira banda de Seattle da história – foi formada em Tacoma, a 50 quilômetros da capital do estado de Washington. Depois de 40 anos separados e 43 sem gravar nada, a banda está de volta ao estúdio. Jack Endino está encarregado da produção e dá mais detalhes.

 

Ótimo. Agora que conseguimos tirar o Bleach do caminho, tem uma pergunta que estou louco para fazer: é verdade que você está gravando com o The Sonics?

[Risos] Ainda não falei nada com a imprensa, mas, sim, é verdade.

 

Uau! Recentemente fiquei sabendo que eles tinham voltado.

Pois é, eles estão tentando recomeçar. Voltaram a tocar no ano passado, fizeram alguns shows e disseram: “Bom, vamos tentar compor algumas canções e ver o que acontece”. E eles estavam muito inseguros, já que fazia 43 anos desde a última vez que eles gravaram alguma coisa. E isso é muuuito tempo. Confesso que fiquei um pouco nervoso.

 

Quando vocês começaram?

Agora em setembro.

 

E em que pé anda isso?

Na segunda-feira passada [a entrevista ocorreu na quarta, 14 de outubro] acabamos de gravar e mixar quatro novas faixas.

 

Como elas soam, algo como o que eles faziam nos anos 60?

São músicas muito boas, mas não soam como “Psycho” [uma das músicas mais emblemáticas do grupo] porque eles não são mais as mesmas pessoas que eram 43 anos atrás [risos]. Simplesmente, são boas canções de rock’n’roll, as quatro muito diferentes entre si. Elas não têm uma sonoridade muito anos 60 porque esses são outros tempos. A banda está muito mais velha e o equipamento muito mais novo. Eles nem querem soar como nos anos 60, têm consciência de como a música hoje em dia está muito diferente.

 

Como ficou o setup no estúdio?

Eu não iria gravar a bateria com dupla microfonia. Buscamos um som simples, ao vivo no estúdio, bem classic rock. Não muito perfeito, apenas soando bem.

 

E o que eles pretendem fazer com isso?

Ainda não sei. Acho que eles vão lançar algum tipo de EP, com quatro faixas, ou simplesmente vão disponibilizá-las no site da banda. Não tenho muita certeza do que eles vão fazer com isso, não tem nem selo. Se eles conseguirem compor mais algumas canções, talvez as gravemos nos próximos meses.

 

Quais os nomes dessas quatro faixas?

“Cheap Shades”, “Don’t Back Down”, “Bad Attitude” e “Vampire Kiss”.

 

Como você se sentiu gravando uma banda tão importante DEPOIS de ela ter se tornado tão importante (risos)?

Foi muito interessante estar no estúdio com os Sonics originais, e eles são muito mais velhos do que eu [risos].  No começo eu fiquei nervoso, não tinha nenhuma demo para escutar, não sabia o que esperar deles. Mas estou muito satisfeito com o resultado dessas quatro canções. E foi simplesmente incrível escutar as histórias que eles tinham para contar.

 

E eles estão com a mesma formação?

Sim, todos os membros originais estavam no estúdio [Gerry Roslie, piano, teclados e vocais; Andy Parypa, baixo; Larry Paripa, guitarra; e Rob Lind, sax, gaita e vocais], exceto o baterista, Bob Bennett, que não toca mais. Eles têm um novo baterista, Ricky, que também toca no The Wailers [não o grupo de Bob Marley, mas outra banda seminal de garage rock dos anos 60, também formada em Tacoma, EUA].

 

Uau... Além disso, o que você anda fazendo?

Estou gravando com umas bandas de metal. Minha carreira é muito estranha, nunca sei com quem estarei no estúdio. Tudo vale. De garage rock, ao punk e ao metal, eu faço de tudo.

 

E até pop brasileiro. Você vai do Zeke ao Titãs num piscar de olhos.  

[Risos] Eu não penso no Titãs como uma banda de pop brasileiro, e sim como uma banda de rock. Eles compõem faixas pop, mas tocam guitarra em alto volume, sempre incorporaram elementos de rock e punk. Pelo menos esse é o lado da banda que eles me apresentaram. Talvez só me chamem quando querem fazer um disco de rock [risos].

 

Lembro que era muito estranho assistir o Titãs tocando “Será que É Isso que Eu Necessito?” em programas de auditório no começo dos anos 90.

Imagino, mas esse [Titanomaquia, de 1993] é o disco que eles queriam fazer na época. Até Domingo eu considero um disco de rock’n’roll. Desde Tudo ao Mesmo Tempo Agora [1991], o primeiro disco deles que eu escutei, fiquei com essa impressão. Não é bem o disco de pop e eles sabiam o que estavam fazendo.

 

E em 2005 você veio ao Brasil gravar o disco MTV Ao Vivo.

Sim, fui até Florianópolis ajudar na gravação e fazer a mixagem. Adorei, me diverti muito. As praias são maravilhosas.

 

Você também já produziu dois discos solo do Nando Reis – Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro (2000) e Infernal (01, co-produção). Eles definitivamente não podem ser considerados rock’n’roll. O que você achou do resultado?

Eu gosto do Nando, sempre gostei dele. Estou feliz que ele está se dando bem por conta própria porque ele não conseguia gravar muitas das próprias composições com o Titãs, já que todo mundo na banda compõe. Eram seis pessoas tentando encaixar suas próprias composições e o Nando era apenas um deles. Mas ele é muito prolífico e, quando fiquei sabendo que ele tinha deixado a banda e seguido carreira solo, fez bastante sentido para mim. Afinal, olhe todos os discos que ele já fez.

 

E para o Titãs, isso foi positivo?

O Nando é um excelente baixista. Às vezes sinto que as pessoas não têm noção do quão bom ele é no baixo. Mas eles estão bem, Nando está bem, ambos estão se dando bem. Desejo tudo de bom para eles, amo esses caras.

 

Há pouco estávamos falando sobre The Sonics, mas você já trabalhou com outra banda seminal do rock psicodélico, o Blue Cheer (no discoHighlights & Low Lives, de 1990). Como você se sentiu com a recente morte do Dickie Peterson (baixista e vocalista da banda, morreu em 12/10 de câncer no fígado)?

Eu fiquei triste, muito triste. Passei um mês da minha vida com o Dickie Peterson no País de Gales, onde gravamos o disco. Era para ser um disco de retorno da banda, mas, no final das contas, acho que ninguém nem ficou sabendo. Não se saiu bem, o empresário que eles tinham era completamente louco e o disco não deu muito certo. Mas o bom foi que eu conheci Dickie e o restante da banda muito bem e fiquei chateado com a morte dele. Rickie era um cavalheiro, tinha dignidade, era um sobrevivente durão dos anos 60.

 

Muitas histórias também, imagino.

Você não faz ideia! Blue Cheer já abriu algumas vezes para Jimi Hendrix. O baterista [Paul Whaley] namorou com a Janis Joplin [risos]. Histórias desse tipo, onde mais você poderia escutá-las? Caras muito interessantes, verdadeiros sobreviventes dos anos 60. Por isso é difícil perder o Dickie, um cara muito legal e um baixista extremamente talentoso.

 

Você também toca baixo, no Slippage. E guitarra no Kandi Coded. Como andam esses projetos?

O Slippage meio que se aposentou. O Kandi Coded é o que chamo de minha banda, é com ela que passo a maior parte do meu tempo. Acabamos de gravar um álbum que deve sair no começo do ano que vem.

 

E o Skin Yard (sua primeira banda e uma das precursoras do grunge)? Alguma chance de vocês voltarem?

Não, a banda acabou logo que o vocalista (Ben McMillan) morreu, em 1992. Não nos reunimos desde que ele se foi e isso nunca vai acontecer. Lançamos um disco de raridades em 2001 [Start at the Top], mas a banda nunca voltou a se encontrar.