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Entrevista com Yael Naim

por em 11/11/2009

Depois de sua apresentação “de luxo” ontem no Bourbon Street, em São Paulo, a cantora, compositora e instrumentista Yael Naim se apresenta no teatro do Sesc Pinheiros amanhã (dia 12) e sexta-feira (13). Com sua voz suave e melodias bem trabalhadas, Yael começou a brilhar quando uma de suas músicas (“New Soul”) foi escolhida pelo próprio Steve Jobs para estrelar um anúncio da Apple. O single, que chegou à sétima posição do Hot 100 da Billboard, integrava o disco Yael Naim(2007), segundo na carreira da cantora nascida em Paris e criada em Israel, que voltou a viver na capital francesa. Ela conversou com a Billboard Brasil sobre os shows no país, o processo de gravar música em casa e lembrou dos tempos em que tocava na Força Aérea de Israel.     

 
Quais suas expectativas para os shows em São Paulo?
Estou muito contente por poder encerrar essa turnê em São Paulo. Depois vou dar uma parada e me concentrar no novo álbum. Será o meu primeiro show no Brasil, pois só estive aí como turista.
 
Ah é? Para onde você foi?
Foi uma vez só, fiquei no Rio e também conheci a Ilha Grande. Foi muito bom, conheci vários músicos daí e entrei em contato de verdade com a sua cultura. Me apaixonei pelo Brasil, não vejo a hora de voltar.
 
Que músicos?
Não lembro de todos os nomes, mas sou uma grande admiradora da cultura brasileira.
 
E como você veio parar aqui?
Foi há sete anos, eu estava de férias. Meu irmão estava viajando pela América do Sul e fui ao Brasil me encontrar com ele.
 
E como você selecionou o repertório para esses shows em São Paulo,?
Está centrado basicamente no último álbum, mas também estou apresentando músicas do meu próximo disco. Ficou um mistura boa.
 
Quantas músicas novas?
Talvez cinco ou seis. Já tenho cerca de 60 faixas compostas.
 
60 (!)?
Sim. Por enquanto só estou tocando as que para mim são mais profundas e sinceras, mas costumo compor todo dia.
 
E o que você fez com elas?
Já gravei boa parte, pois trabalho no meu apartamento, inclusive gravei o último disco por lá. Basicamente minha vida se resume a isso: acordar de manhã, compor uma canção e gravá-la [risos]. Depois eu e o David [Donatienparceiro criativo] retrabalhamos os arranjos. E isso é muito bom, porque quando você está sozinho, fica limitado ao seu gosto e à sua experiência. E o universo musical dele é completamente diferente do meu. Então, juntos, começamos discutindo [risos] e acabamos produzindo e gravamos músicas bem melhores.
 
Além da participação do David e de estar possivelmente com todo o repertório pronto, o que mais você pode dizer sobre o próximo álbum?  
Não sei, por mais que estejamos ligados à uma grande gravadora, não fazemos nada seguindo os moldes convencionais da indústria. Acho que ele pode estar pronto lá para abril, mas é cedo para dizer, vai depender da música... É ela quem diz quando está pronto.
 
Vai dar um trabalhão selecionar algumas faixas das 60 que você já compôs...
[Risos] Não acho isso tão difícil. Consigo apontar quais faixas são mais fáceis para mim, que traduzem algo mais sincero, e são essas que irão sobreviver ao corte final.
 
Como é essa rotina de acordar e já correr para gravar?
[Risos] É uma rotina como outra qualquer. Acordo, leio o jornal, tomo café da manhã e então vou para o quarto no meu apartamento onde fica todo o equipamento. Também estudo piano clássico. Faço isso todo dia e às vezes surge uma canção nova daí.
 
E a inspiração surge naturalmente?
Acho que isso acontece quando você compõe toda hora. Você toca um trecho de uma canção e ela te faz lembrar de alguma coisa que você já viveu e de repente surge uma música. O mesmo vale para quando você escuta outros artistas, observa uma obra de arte...
 
Como você tem descendência israelita, consegue identificar alguma influência dessa cultura no seu trabalho?
Não muito, talvez uns 20%. Dificilmente escuto música que venha de Israel. Claro que isso está nas minhas raízes, adoro a língua, afinal cresci ouvindo músicas em hebraico. Mas isso não transparece tanto no meu trabalho.
 
Você já foi solista das Força Aérea de Israel. Como era isso?
Foi tranquilo porque eu tinha 18 anos e não tinha muita consciência do que era fazer parte de uma estrutura militar. Eu só sabia que queria continuar fazendo música e as Forças Aéreas não deixaram de ser um caminho. Meu trabalho durante dois anos foi ensaiar e depois tocar. Foi como passar dois anos fazendo shows de rock, com a diferença que eu tinha que usar farda [risos]. Tocávamos Björk, Police... Eram shows para jovens.
 
Mas rock não transparece muito no seu estilo. Que artistas te influenciaram mais?
Muita coisa da Joni Mitchell, amo Nina Simone, mas não acho que eu me pareça muito com ela [risos]. Também Jeff Buckley, Nick Drake, Aretha Franklin...
 
Curioso você mencionar o Jeff e não o Tim Buckley (pai do primeiro, um dos maiores nomes do folk de todos os tempos) em uma lista com Joni Mitchell e Nick Drake.
Adoro as músicas do Tim, mas não gosto tanto da voz dele. Amo “Song to the Siren” [do álbum Starsailor, 1969], que ele escreveu [ao lado de Larry Beckett].
 
O que você acha de toda essa onda “neofolk” que atualmente estamos atravessando?
Acho legal porque muitos jovens conseguem produzir suas músicas com mais liberdade e criar sua própria identidade. Há nove anos moro em Paris, e é engraçado que, quando cheguei aqui, o nível dos músicos que tocavam por aí era péssimo. Já hoje você consegue ver gente de toda parte do mundo, cantando em seus idiomas de origem e misturando com elementos de suas próprias culturas, como israelita ou africana. Gosto muito dessa geração de músicos, como se o pop dos anos 90 finalmente ganhasse uma nova cara agora nos 2000.
 
Seu primeiro álbum, In a Man’s Womb, saiu em 2001, e o segundo veio somente seis anos depois. Por que a demora?
Naquela época eu era muito jovem [estava com 23 anos], tinha acabado de chegar a Paris e trabalhei com um monte de gente sem estar pronta. O disco não se saiu bem, e então eu acho que fiquei traumatizada com o mercado de música [risos]. Foi uma primeira experiência, e então decidi que eu não faria um outro álbum, apenas encontraria uma forma de tocar músicas das quais eu gostasse. Depois aconteceram um monte de eventos de impacto emocional, como a separação de um namorado que morava em Paris e coisas do tipo. Acabei deixando de me preocupar em gravar um disco segundo os moldes convencionais, queria apenas fazer música de que gostasse.
 
Aí você começou a gravar em casa?
Então compus as canções que entraram no segundo disco, conheci o David e foi ele quem me mostrou como eu posso compor e gravar sem sair de casa. A partir daí, ele passou a me encorajar a gravar o disco, que acabamos fazendo juntos e demoramos dois anos e meio para concluir.
 
Depois que “New Soul” apareceu no comercial, sua carreira deu uma guinada. Isso de alguma forma pode interferir na sua forma de produzir música?
Na verdade, não. Na época tínhamos apenas um microfone ruim e um PC, tudo muito rústico. E, mesmo assim, conseguimos gravar o disco do jeito que queríamos. Hoje nossos equipamentos melhoraram bastante, e não temos por que mudar nossa forma de trabalhar. Foi uma boa lição para mim.
 
Você renega o primeiro álbum?

De certa forma, sim. Eu era muito ambiciosa, queria que as coisas fossem grandiosas e nada aconteceu. Fiquei completamente frustrada com o resultado.

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
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Entrevista com Yael Naim

por em 11/11/2009

Depois de sua apresentação “de luxo” ontem no Bourbon Street, em São Paulo, a cantora, compositora e instrumentista Yael Naim se apresenta no teatro do Sesc Pinheiros amanhã (dia 12) e sexta-feira (13). Com sua voz suave e melodias bem trabalhadas, Yael começou a brilhar quando uma de suas músicas (“New Soul”) foi escolhida pelo próprio Steve Jobs para estrelar um anúncio da Apple. O single, que chegou à sétima posição do Hot 100 da Billboard, integrava o disco Yael Naim(2007), segundo na carreira da cantora nascida em Paris e criada em Israel, que voltou a viver na capital francesa. Ela conversou com a Billboard Brasil sobre os shows no país, o processo de gravar música em casa e lembrou dos tempos em que tocava na Força Aérea de Israel.     

 
Quais suas expectativas para os shows em São Paulo?
Estou muito contente por poder encerrar essa turnê em São Paulo. Depois vou dar uma parada e me concentrar no novo álbum. Será o meu primeiro show no Brasil, pois só estive aí como turista.
 
Ah é? Para onde você foi?
Foi uma vez só, fiquei no Rio e também conheci a Ilha Grande. Foi muito bom, conheci vários músicos daí e entrei em contato de verdade com a sua cultura. Me apaixonei pelo Brasil, não vejo a hora de voltar.
 
Que músicos?
Não lembro de todos os nomes, mas sou uma grande admiradora da cultura brasileira.
 
E como você veio parar aqui?
Foi há sete anos, eu estava de férias. Meu irmão estava viajando pela América do Sul e fui ao Brasil me encontrar com ele.
 
E como você selecionou o repertório para esses shows em São Paulo,?
Está centrado basicamente no último álbum, mas também estou apresentando músicas do meu próximo disco. Ficou um mistura boa.
 
Quantas músicas novas?
Talvez cinco ou seis. Já tenho cerca de 60 faixas compostas.
 
60 (!)?
Sim. Por enquanto só estou tocando as que para mim são mais profundas e sinceras, mas costumo compor todo dia.
 
E o que você fez com elas?
Já gravei boa parte, pois trabalho no meu apartamento, inclusive gravei o último disco por lá. Basicamente minha vida se resume a isso: acordar de manhã, compor uma canção e gravá-la [risos]. Depois eu e o David [Donatienparceiro criativo] retrabalhamos os arranjos. E isso é muito bom, porque quando você está sozinho, fica limitado ao seu gosto e à sua experiência. E o universo musical dele é completamente diferente do meu. Então, juntos, começamos discutindo [risos] e acabamos produzindo e gravamos músicas bem melhores.
 
Além da participação do David e de estar possivelmente com todo o repertório pronto, o que mais você pode dizer sobre o próximo álbum?  
Não sei, por mais que estejamos ligados à uma grande gravadora, não fazemos nada seguindo os moldes convencionais da indústria. Acho que ele pode estar pronto lá para abril, mas é cedo para dizer, vai depender da música... É ela quem diz quando está pronto.
 
Vai dar um trabalhão selecionar algumas faixas das 60 que você já compôs...
[Risos] Não acho isso tão difícil. Consigo apontar quais faixas são mais fáceis para mim, que traduzem algo mais sincero, e são essas que irão sobreviver ao corte final.
 
Como é essa rotina de acordar e já correr para gravar?
[Risos] É uma rotina como outra qualquer. Acordo, leio o jornal, tomo café da manhã e então vou para o quarto no meu apartamento onde fica todo o equipamento. Também estudo piano clássico. Faço isso todo dia e às vezes surge uma canção nova daí.
 
E a inspiração surge naturalmente?
Acho que isso acontece quando você compõe toda hora. Você toca um trecho de uma canção e ela te faz lembrar de alguma coisa que você já viveu e de repente surge uma música. O mesmo vale para quando você escuta outros artistas, observa uma obra de arte...
 
Como você tem descendência israelita, consegue identificar alguma influência dessa cultura no seu trabalho?
Não muito, talvez uns 20%. Dificilmente escuto música que venha de Israel. Claro que isso está nas minhas raízes, adoro a língua, afinal cresci ouvindo músicas em hebraico. Mas isso não transparece tanto no meu trabalho.
 
Você já foi solista das Força Aérea de Israel. Como era isso?
Foi tranquilo porque eu tinha 18 anos e não tinha muita consciência do que era fazer parte de uma estrutura militar. Eu só sabia que queria continuar fazendo música e as Forças Aéreas não deixaram de ser um caminho. Meu trabalho durante dois anos foi ensaiar e depois tocar. Foi como passar dois anos fazendo shows de rock, com a diferença que eu tinha que usar farda [risos]. Tocávamos Björk, Police... Eram shows para jovens.
 
Mas rock não transparece muito no seu estilo. Que artistas te influenciaram mais?
Muita coisa da Joni Mitchell, amo Nina Simone, mas não acho que eu me pareça muito com ela [risos]. Também Jeff Buckley, Nick Drake, Aretha Franklin...
 
Curioso você mencionar o Jeff e não o Tim Buckley (pai do primeiro, um dos maiores nomes do folk de todos os tempos) em uma lista com Joni Mitchell e Nick Drake.
Adoro as músicas do Tim, mas não gosto tanto da voz dele. Amo “Song to the Siren” [do álbum Starsailor, 1969], que ele escreveu [ao lado de Larry Beckett].
 
O que você acha de toda essa onda “neofolk” que atualmente estamos atravessando?
Acho legal porque muitos jovens conseguem produzir suas músicas com mais liberdade e criar sua própria identidade. Há nove anos moro em Paris, e é engraçado que, quando cheguei aqui, o nível dos músicos que tocavam por aí era péssimo. Já hoje você consegue ver gente de toda parte do mundo, cantando em seus idiomas de origem e misturando com elementos de suas próprias culturas, como israelita ou africana. Gosto muito dessa geração de músicos, como se o pop dos anos 90 finalmente ganhasse uma nova cara agora nos 2000.
 
Seu primeiro álbum, In a Man’s Womb, saiu em 2001, e o segundo veio somente seis anos depois. Por que a demora?
Naquela época eu era muito jovem [estava com 23 anos], tinha acabado de chegar a Paris e trabalhei com um monte de gente sem estar pronta. O disco não se saiu bem, e então eu acho que fiquei traumatizada com o mercado de música [risos]. Foi uma primeira experiência, e então decidi que eu não faria um outro álbum, apenas encontraria uma forma de tocar músicas das quais eu gostasse. Depois aconteceram um monte de eventos de impacto emocional, como a separação de um namorado que morava em Paris e coisas do tipo. Acabei deixando de me preocupar em gravar um disco segundo os moldes convencionais, queria apenas fazer música de que gostasse.
 
Aí você começou a gravar em casa?
Então compus as canções que entraram no segundo disco, conheci o David e foi ele quem me mostrou como eu posso compor e gravar sem sair de casa. A partir daí, ele passou a me encorajar a gravar o disco, que acabamos fazendo juntos e demoramos dois anos e meio para concluir.
 
Depois que “New Soul” apareceu no comercial, sua carreira deu uma guinada. Isso de alguma forma pode interferir na sua forma de produzir música?
Na verdade, não. Na época tínhamos apenas um microfone ruim e um PC, tudo muito rústico. E, mesmo assim, conseguimos gravar o disco do jeito que queríamos. Hoje nossos equipamentos melhoraram bastante, e não temos por que mudar nossa forma de trabalhar. Foi uma boa lição para mim.
 
Você renega o primeiro álbum?

De certa forma, sim. Eu era muito ambiciosa, queria que as coisas fossem grandiosas e nada aconteceu. Fiquei completamente frustrada com o resultado.