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Envelheço na cidade: entrevista com Edgard Scandurra

por em 03/02/2012
Imagem: Divulgação

O rock brasileiro não seria o mesmo sem Edgard Scandurra. O garoto que aprendeu a tocar guitarra vendo a banda de seu irmão mais velho ensaiar na garagem de casa cresceu e ajudou a fundar duas das mais importantes bandas do gênero no país: Ultraje A Rigor e Ira!. Desde então, Edgard participou de diversos outros projetos de sucesso ao longo dos mais de trinta anos de sua carreira e se tornou um dos mais importantes guitarristas do Brasil.

Prestes a completar 50 anos de idade no próximo domingo, dia 5, Edgard Scandurra conversou com a Billboard Brasil e falou sobre diversos aspectos de sua extensa trajetória. O guitarrista não se esquivou nem quando o assunto foi a chance de uma futura reconciliação do Ira!.

Ex-membro das bandas pós-punk Mercenárias e Smack, Edgard Scandurra foi um dos instrumentistas e compositores mais prolíficos de sua época, consagrando composições como “Núcleo Base”, “Envelheço Na Cidade” e “Flores Em Você”. E quem achou que ele iria desacelerar após o traumático fim do Ira!, em 2007, se enganou completamente.

De lá pra cá, Edgard tocou seu projeto de música eletrônica Benzina, se dedicou à sua carreira solo e passou a participar de shows e gravações de jovens artistas como Tulipa Ruiz, Karina Buhr, Marcelo Jeneci e muitos outros. Não fosse o bastante, Edgard ainda achou tempo para realizar dois projetos em conjunto com seu amigo de longa data, Arnaldo Antunes.

Ao contrário do que cantava no clássico do Ira!, Edgard Scandurra ainda parece longe de envelhecer na cidade. Feliz aniversário!


Você é considerado um dos grandes ícones do rock nacional. Nesses 50 anos de vida, o que você mais se orgulha de ter feito?

Eu me orgulho muito de ter começado uma carreira como músico, de muito cedo já ter definido isso. Quando eu tinha seis ou sete anos de idade, eu já me imaginava fazendo shows, gravando discos. E me orgulho de ter conquistado esse sonho de criança, poder viver da música, pagar minhas contas, educar meus quatro filhos, ter construído uma vida toda em torno da música.

E como foram seus primeiros contatos com a música?

Eu tenho um irmão dez anos mais velho que eu, o Marco. Ele tinha uma banda – eu tinha uns cinco anos - e foi por causa dela que eu comecei a ter contato com o pessoal ensaiando na garagem, até os discos.  Era uma banda que fazia um rock na época do iê-iê-iê, e os integrantes já tinham contato com Jimi Hendrix e já estavam sacando uma coisa um pouquinho mais a frente da época. Esse som foi parar na minha mão muito rápido. Então eu já tinha um repertório na minha casa que eu conhecia bem: Led Zeppelin, Black Sabbath, já tinha até algumas coisas mais sofisticadas, como o King Crimson. Aos dez anos eu ouvia King Crimson. Isso tudo me influenciou muito. Eu comecei a tocar vendo esses ensaios, de ouvido. Meu irmão me ensinou uns dois, três acordes, e eu comecei a pegar o instrumento canhoto, tocar do meu jeito o violão do meu irmão, e aí comecei a desenvolver as minhas músicas. Com 15 anos formei minha primeira banda, o Subúrbio, que durou uns quatro anos, até quando entrei no exército. Logo depois formei o Ira!, junto com o Nasi, que já era meu amigo desde o colegial e que também chegou a fazer uma participação no Subúrbio. O Ira! foi uma outra realidade da música brasileira, quando o rock estava mais em evidência, existiam muitas bandas, havia toda aquela cena do punk de Brasília, de São Paulo, de Recife, Porto Alegre, e aí eu comecei a gravar mesmo.

Falando da cena rock and roll dos anos 80, você foi um dos músicos mais ativos, tocando em bandas como Smask, Ultraje A Rigor, Mercenárias e o próprio Ira!. Na sua opinião, qual é a principal diferença entre a cena dos anos 80 e a cena atual? 

Tem algumas semelhanças. Eu acho que a maior delas é que, naquela época, eu era um dos poucos que tinha essa opção em trabalhar com muita gente, de tocar em quatro, cinco bandas. Hoje eu vejo que isso faz parte da realidade das bandas. Eu vejo, por exemplo, que o baterista que toca com a Karina Buhr é o mesmo que toca com a Céu, que também toca com o Lucas Santtana. Isso hoje é uma coisa normal no meio artístico.

Mas eu também acho que hoje em dia tem uma preocupação das bandas em achar alternativas pra fazer coisas em conjunto. Eu acho que nos anos 80 a coisa era um pouquinho mais individualista, cada banda procurava seguir o seu caminho. Existiam muito mais bandas do que artistas solo, era uma cena mais rock and roll. Hoje é um pouco mais misturado com uma coisa MPB, então a gente tem muitos expoentes solo, tem muitos nomes isolados que trabalham com grandes nomes. O rock dos anos 80 – apesar de ter produzido uma música muito marcante – tinha uma dose grande de ingenuidade. Eu acho a música atual mais elaborada, mais sofisticada, com mudanças de arranjo, elementos instrumentais que fogem da guitarra, baixo, batera e teclado. Hoje vejo o uso da sanfona, flauta. Além da presença feminina que é muito grande. Praticamente de dez grandes nomes da música atual, seis serão de garotas.

Eu acho que talvez o glamour dos anos 80 é que tenha se perdido. Existia uma música mais popular atrás das bandas que estavam fazendo sons novos naquela época. Hoje, acho que em função de tantas mídias, tem muita coisa, então perde um pouco do glamour e da duração do trabalho da banda. Antes você podia fazer um disco a cada dois anos, e você ia ter uma estrada bacana pra esse trabalho. Hoje, a impressão que me dá é que você tem que fazer um trabalho por ano.

Daquela cena formada por bandas como Fellini, Smack, Mercenárias, Akira S E As Garotas Que Erraram e muitas outras, o Ira! foi talvez a que se tornou mais conhecida, mas muitas delas ainda continuam na ativa, com muitos de seus músicos realizando diversos tipos de projetos. Você acha que o movimento pós-punk de São Paulo não teve o devido reconhecimento na época?

Eu acho que houve alguns problemas. A falta de união dessas bandas era um deles. As pessoas tinham opiniões muito fortes, a Sandrá Coutinho era uma pessoa muito forte, Ciro Pessoa, do Cabine C, era um cara muito forte, Thomas Pappon, Cadão Volpato, do Fellini. Tanta personalidade dificultava o diálogo. E a qualidade das coisas era outro ponto. A gente tinha a Baratos e Afins, que era uma gravadora super envolvida com todos esses artistas, querendo mostrar trabalho, querendo divulgar e produzir, mas a qualidade deixava a desejar, não por parte deles, mas por parte de nós músicos também, dos estúdios da época, do know-how que as pessoas tinham de produção. Você ouve os discos dessa época e reconhece que o som é precário. Os dois discos das Mercenárias são dois discos incríveis que eu acho que pecam no som. O Voluntários da Pátria, que era uma banda também alternativa dessa época, eu acho que peca no som. O Smack, que tem um disco que eu acho uma obra de arte, o Ao Vivo No Mosh, eu acho que poderia ter uma qualidade muito maior de som do que teve. Enfim, eu acho que isso abalou muito a estrutura do pós-punk aqui de São Paulo, enquanto que a música pop e o rock passava pelas gravadoras. Isso desanimou um pouco, todo mundo tinha que viver, trabalhar, nem todo mundo conseguiu segurar a bronca na música, uns foram pro jornalismo, outros foram para outras áreas, e a cena foi acabando. Mas eu acho que deixou uma semente bacana para as gerações seguintes. Eu vejo um monte de garotos hoje que falam do Akira S com intimidade, e o Akira não mora no Brasil há mais de dez anos. As pessoas foram pesquisar essa época, e quem pesquisou viu que era uma cena muito bonita, muito autêntica, muito urbana, e eu tive muito orgulho de participar dela.

No primeiro álbum do Ira! vocês cantavam a música “Ninguém Entende um Mod!”. Como foi sua relação com os movimentos culturais urbanos?

O primeiro disco que eu comprei com o meu dinheiro foi a coletânea A Revista Pop Apresenta o Punk Rock, e lá eu vi várias bandas com as quais eu me identificava totalmente na sonoridade, mesmo que antes eu tenha tido muito mais influência do hard rock, do heavy metal, de Led Zeppelin, Jimi Hendrix principalmente. Acho que o punk veio pra me abrir uma perspectiva musical de mais simplicidade de execução, de uma timbragem mais próxima do equipamento que eu tinha na época, que era uma guitarra e um amplificador. E tinha a possibilidade de compor no início de uma abertura política no nosso país, começava a ter espaço para letras com uma preocupação mais social, com um protesto, às vezes até ingênuo, pueril, mas já era uma forma de a gente se expressar. Eu acho que o mod já era uma coisa que vinha comigo desde criança, desde que eu via os ensaios da banda do meu irmão nos anos 60. Eu tinha uma ligação muito forte com aquela cena, com aquela atitude dos anos 60 e com aquela estética: o terno, a gravata fininha, as roupas bem cortadas, a sonoridade de The Who, depois o The Jam. E o fato também de poder contar nos dedos os números de mods que existiam em São Paulo naqueles dias [risos]. Eu achei que era uma coisa legal e um desafio. Por isso que tem essa música “Ninguém Entende um Mod”, porque parecia que era uma ilha. Uma ilha cercada por punks, new wavers, enfim, era um terninho cercado por aquelas roupas horríveis dos anos 80 [Risos].

Aí foi surgindo uma cena pequena de mods, algumas bandas como Faces e Fases, e anos depois, com o Orkut, eu fiquei super feliz de ver uma comunidade mod que faz festas, que combina encontros e que fala de mim como um pioneiro da cena. Isso tudo é muito bacana, porque mod pra mim é muito sentimentalista, existencialista, tem questões internas relacionadas à vida, ao amor, ao trabalho, à família, e isso tudo era um mote da minha razão de compor.

Você é frequentemente listado como um dos maiores guitarristas do rock brasileiro. Esse tipo de comparação exerce alguma influência em você? Há alguma pressão baseada no que você já fez no passado?

A maior pressão que eu tive foi quando eu descobri a música eletrônica, no projeto Benzina. Aquilo era uma pressão dos dois lados. Foi uma relação tribal que eu tive com a moçada que gostava de música eletrônica, porque nessa época eles tinham o rock como um inimigo, como uma música conservadora que torcia o nariz pra música eletrônica, que via na música eletrônica um mero bate-estaca, que via aquela coisa mais ligada à diversão e não tanto uma música pra você prestar atenção e ouvir. Então nessa época eu tive que botar a cara pra bater pra turma do rock, onde alguns me viam como um traidor da cena, e pra música eletrônica, que me via como um invasor roqueiro nas pistas dos clubes. Acho que foi um momento difícil pra mim, onde eu tive que realmente me dobrar, mostrar que minha música transcendia o fato de eu ser guitarrista e que essa música eletrônica também não ia tirar de mim uma coisa orgânica que era minha grande herança do rock.

E qual foi sua grande inspiração para o Benzina?

A minha inspiração para o Benzina foram os DJs, principalmente o Mau Mau, porque raríssimas vezes tinha uma guitarra nas músicas que ele tocava. Às vezes podia ter, mas era tudo tão distorcido, tão transformado, que podia ser um sintetizador. Então eu ficava ouvindo aquela música toda, era uma música que me tirava do chão. Eu pensei: “Tenho que participar dessa cena, mas eu quero que minha guitarra seja o meu diferencial”. Aí comecei a fazer os projetos todos. Fiz três discos do Benzina e achei que foi uma conquista, porque essa desconfiança toda que existia está caindo por terra. A cena eletrônica abraçou o Benzina, toquei em grandes festivais para públicos muito animados.

O Charles Gavin já tocou no Ira!, assim como você fez parte do Ultraje a Rigor, e muitos outros músicos desta época tocaram em diversas bandas diferentes. Na época vocês imaginavam que bandas como Titãs, Ira! e Ultraje A Rigor se tornariam algumas das maiores do rock brasileiro?

Eu vou falar por mim. Eu acho que antes do Ira!, com o Subúrbio, eu tinha a impressão que a gente ia deixar uma marca na música brasileira. Agora, quando a gente começou a gravar os discos, tanto o Ira!, como o Ultraje, a gente tinha uma certa desconfiança daquilo, por causa das gravadoras. Principalmente eu e a moçada do Ira! tínhamos uma origem dentro do punk, do pós-punk, então essa coisa de assinar contrato com gravadora nos dava uma certa insegurança, a gente achava que ia ficar na geladeira. Mas quando a gente viu que o Ultraje, os Titãs, começaram a despontar, e a surgir outras bandas fazendo um trabalho popular dentro do rock, aí deu pra acreditar mais no que ia acontecer. Agora é incrível o quanto essas bandas ficaram marcadas para essa geração. Até hoje, 30 anos depois, as pessoas ainda vão se referir ao rock falando dos Titãs, do Ira!, do Ultraje. E aconteceu tanta coisa bacana e rica depois também.

Suas músicas tinham ao mesmo tempo o espírito de revolta típico do rock e a poesia juvenil que ajudou a transformá-las em clássicos da época. Quais eram suas inspirações para a criação?

Era uma coisa muito do meu dia a dia, muito da minha vida mesmo. Eu sempre fui um cara muito passional nos meus relacionamentos, e eu devo isso para todas as minhas ex-namoradas, ex-esposas e amigas, enfim, devo muito das minhas músicas aos meus desamores, às minhas desventuras. Tenho minhas preocupações sociais também, mas sempre com um ponto de vista juvenil.  “Pobre Paulista”, por exemplo, é uma música que gera polêmica, e eu entendo a polêmica dela por causa dos versos, que são um pouco fortes. Mas no momento que eu a fiz eu achava que estava falando para todo mundo, eu não pensava em transformar a música num hino da cidade ou coisa assim. Eu via São Paulo como uma cidade repleta de brasileiros, então se eu falava sobre São Paulo eu estava falando sobre o Brasil. Era uma coisa um pouco mais leve, dentro da minha realidade de um menino simples. Eu estudei até o colegial, nunca fui um cara de ler muitos livros, tenho uma educação baseada no ensino público, então acho que tudo que eu escrevi foi baseado na minha vida mesmo. “Dias De Luta” é uma música com a qual as pessoas se identificam até hoje, assim como “Envelheço Na Cidade” e “Flores Em Você”. Tem coisas muito despretensiosas que ficaram marcantes. E tem coisas que passaram batidas. Eu tenho quase 200 músicas compostas e apenas 30 ficaram marcadas. Acho que aí tem um trabalho incrível que pode ser redescoberto. E a coisa de continuar trabalhando, continuar pesquisando, continuar pensando em novos trabalhos. Isso pra mim é um grande desafio, porque são outros tempos, vou fazer 50 anos. As inspirações são outras, os motivos para escrever são outros, e eu pretendo trabalhar isso para que a minha música seja importante para as pessoas.

Falando dos seus projetos atuais, você toca com a Karina Buhr, já tocou com a Tulipa Ruiz, Barbara Eugênia e muita gente dessa nova geração. O que você acha desse movimento batizado como “novos paulistas” e o que te atraiu para fazer parte disso?

São Paulo está num momento muito bacana porque está com uma cena de músicos vindos do Brasil inteiro, como sempre foi, mas dessa vez é muito mais evidente. Então esses “novos paulistas” são, na verdade, brasileiros que vivem em São Paulo, que mostram seu trabalho aqui. Eu fiquei muito feliz em poder tocar, principalmente com a Karina Buhr, com quem eu já estou no segundo disco, e eu percebo uma identificação muito grande com coisas como Mercenárias, com o Smack, e não só na identidade sonora, mas na atitude mesmo, de não estar sempre sorrindo pras pessoas, de ser verdadeira. Eu fico feliz de ser chamado por essa geração e não me sentir em nenhum momento um cara tão mais velho que todos eles. Eu percebo que eu ainda tenho muita informação pra passar, mas que também aprendo muito. Quando eu toco, por exemplo, com um cara como o Marcelo Jeneci, jovem, mas com uma bagagem musical incrível.

E quais são seus próximos planos?

Eu tenho três discos que talvez eu consiga lançar ainda nesse ano. Um deles é um disco instrumental, eu estou com músicas incríveis que eu acho que se resolvem sem letra. É a coisa mais pronta que eu tenho. Tem também um disco de músicas inéditas e tem esse projeto de poder trabalhar com essas meninas, de fazer parceria com elas.  Já tenho duas parcerias: uma com a Juliana R., e uma com uma menina super underground chamada Silvia Tape, que faz um trabalho incrível. E apresentei uma música pra Nina Becker, pra ela compor comigo. A Sandra Coutinho vai participar também, então eu quero fazer um disco com essas garotas. Tem a turnê de A Curva Da Cintura, que a gente vai fazer quando o Tumani chegar, mas a gente pretende seguir sem ele também.  Além disso estou acompanhando a Karina Buhr. O Arnaldo Antunes fez o disco acústico agora no final do ano, e provavelmente vai estar na estrada. Eu pretendo estar presente o máximo que conseguir. Enquanto eu puder trabalhar com o maior número possível de pessoas eu estarei muito satisfeito.

Pra finalizar, é inevitável falar com você sem perguntar sobre o Ira!. Você ainda fala com o Nasi? Existe alguma chance de os fãs voltarem a ver a banda junta algum dia?

Eu acho muito difícil. Acho que tem uma coisa muito importante, é um ditado infantil, mas eu acho que o peixe morre pela boca mesmo. Enquanto o Nasi estiver por aí falando as coisas que ele tem falado e expondo a vida íntima da banda, como se fosse uma coisa que todo mundo tem que saber, eu não tenho o menor tesão em voltar a tocar com ele. Acho que se um dia ele tomar consciência das besteiras que fez e voltar atrás, falar com a gente, comigo, com o André Jung, o batera, com quem ele foi um cara muito, muito errado, e com o Ricardo Gaspa [ex-baixista do Ira!], pode ser que a gente reate e faça algo juntos. Ou simplesmente recupere a amizade, que eu acho que é uma coisa mais importante até do que a gente voltar a tocar. Mas enquanto eu o ouvir dizendo que não gostava das minhas letras – sabendo que ele viveu dessas letras por muitos anos e que elas foram o grande cartão de visitas pra todas as garotas que ele diz que já encontrou por aí –, eu vou continuar achando injusto comigo e com a história da banda. Ele cospe no prato que comeu e fala de coisas particulares. Infelizmente essas coisas chegam pra mim, coisas que eu não gostaria nem de saber. Coisas que não me estragam a vida, mas me estragam o dia. Eu fico muito chateado de ver um cara que era meu amigo de infância, que ficou 20 e tantos anos comigo, desdenhando daquele trabalho que ajudou o cara a ter a casa que ele tem até hoje. Isso me deixa muito chateado e me faz não ter muita vontade em pensar em ter ele ao meu lado. Mas se um dia ele recuar e pedir desculpas sinceras sobre tudo isso, eu acho que pode ser que a gente volte a se falar e quem sabe até fazer um som.

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Envelheço na cidade: entrevista com Edgard Scandurra

por em 03/02/2012
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O rock brasileiro não seria o mesmo sem Edgard Scandurra. O garoto que aprendeu a tocar guitarra vendo a banda de seu irmão mais velho ensaiar na garagem de casa cresceu e ajudou a fundar duas das mais importantes bandas do gênero no país: Ultraje A Rigor e Ira!. Desde então, Edgard participou de diversos outros projetos de sucesso ao longo dos mais de trinta anos de sua carreira e se tornou um dos mais importantes guitarristas do Brasil.

Prestes a completar 50 anos de idade no próximo domingo, dia 5, Edgard Scandurra conversou com a Billboard Brasil e falou sobre diversos aspectos de sua extensa trajetória. O guitarrista não se esquivou nem quando o assunto foi a chance de uma futura reconciliação do Ira!.

Ex-membro das bandas pós-punk Mercenárias e Smack, Edgard Scandurra foi um dos instrumentistas e compositores mais prolíficos de sua época, consagrando composições como “Núcleo Base”, “Envelheço Na Cidade” e “Flores Em Você”. E quem achou que ele iria desacelerar após o traumático fim do Ira!, em 2007, se enganou completamente.

De lá pra cá, Edgard tocou seu projeto de música eletrônica Benzina, se dedicou à sua carreira solo e passou a participar de shows e gravações de jovens artistas como Tulipa Ruiz, Karina Buhr, Marcelo Jeneci e muitos outros. Não fosse o bastante, Edgard ainda achou tempo para realizar dois projetos em conjunto com seu amigo de longa data, Arnaldo Antunes.

Ao contrário do que cantava no clássico do Ira!, Edgard Scandurra ainda parece longe de envelhecer na cidade. Feliz aniversário!


Você é considerado um dos grandes ícones do rock nacional. Nesses 50 anos de vida, o que você mais se orgulha de ter feito?

Eu me orgulho muito de ter começado uma carreira como músico, de muito cedo já ter definido isso. Quando eu tinha seis ou sete anos de idade, eu já me imaginava fazendo shows, gravando discos. E me orgulho de ter conquistado esse sonho de criança, poder viver da música, pagar minhas contas, educar meus quatro filhos, ter construído uma vida toda em torno da música.

E como foram seus primeiros contatos com a música?

Eu tenho um irmão dez anos mais velho que eu, o Marco. Ele tinha uma banda – eu tinha uns cinco anos - e foi por causa dela que eu comecei a ter contato com o pessoal ensaiando na garagem, até os discos.  Era uma banda que fazia um rock na época do iê-iê-iê, e os integrantes já tinham contato com Jimi Hendrix e já estavam sacando uma coisa um pouquinho mais a frente da época. Esse som foi parar na minha mão muito rápido. Então eu já tinha um repertório na minha casa que eu conhecia bem: Led Zeppelin, Black Sabbath, já tinha até algumas coisas mais sofisticadas, como o King Crimson. Aos dez anos eu ouvia King Crimson. Isso tudo me influenciou muito. Eu comecei a tocar vendo esses ensaios, de ouvido. Meu irmão me ensinou uns dois, três acordes, e eu comecei a pegar o instrumento canhoto, tocar do meu jeito o violão do meu irmão, e aí comecei a desenvolver as minhas músicas. Com 15 anos formei minha primeira banda, o Subúrbio, que durou uns quatro anos, até quando entrei no exército. Logo depois formei o Ira!, junto com o Nasi, que já era meu amigo desde o colegial e que também chegou a fazer uma participação no Subúrbio. O Ira! foi uma outra realidade da música brasileira, quando o rock estava mais em evidência, existiam muitas bandas, havia toda aquela cena do punk de Brasília, de São Paulo, de Recife, Porto Alegre, e aí eu comecei a gravar mesmo.

Falando da cena rock and roll dos anos 80, você foi um dos músicos mais ativos, tocando em bandas como Smask, Ultraje A Rigor, Mercenárias e o próprio Ira!. Na sua opinião, qual é a principal diferença entre a cena dos anos 80 e a cena atual? 

Tem algumas semelhanças. Eu acho que a maior delas é que, naquela época, eu era um dos poucos que tinha essa opção em trabalhar com muita gente, de tocar em quatro, cinco bandas. Hoje eu vejo que isso faz parte da realidade das bandas. Eu vejo, por exemplo, que o baterista que toca com a Karina Buhr é o mesmo que toca com a Céu, que também toca com o Lucas Santtana. Isso hoje é uma coisa normal no meio artístico.

Mas eu também acho que hoje em dia tem uma preocupação das bandas em achar alternativas pra fazer coisas em conjunto. Eu acho que nos anos 80 a coisa era um pouquinho mais individualista, cada banda procurava seguir o seu caminho. Existiam muito mais bandas do que artistas solo, era uma cena mais rock and roll. Hoje é um pouco mais misturado com uma coisa MPB, então a gente tem muitos expoentes solo, tem muitos nomes isolados que trabalham com grandes nomes. O rock dos anos 80 – apesar de ter produzido uma música muito marcante – tinha uma dose grande de ingenuidade. Eu acho a música atual mais elaborada, mais sofisticada, com mudanças de arranjo, elementos instrumentais que fogem da guitarra, baixo, batera e teclado. Hoje vejo o uso da sanfona, flauta. Além da presença feminina que é muito grande. Praticamente de dez grandes nomes da música atual, seis serão de garotas.

Eu acho que talvez o glamour dos anos 80 é que tenha se perdido. Existia uma música mais popular atrás das bandas que estavam fazendo sons novos naquela época. Hoje, acho que em função de tantas mídias, tem muita coisa, então perde um pouco do glamour e da duração do trabalho da banda. Antes você podia fazer um disco a cada dois anos, e você ia ter uma estrada bacana pra esse trabalho. Hoje, a impressão que me dá é que você tem que fazer um trabalho por ano.

Daquela cena formada por bandas como Fellini, Smack, Mercenárias, Akira S E As Garotas Que Erraram e muitas outras, o Ira! foi talvez a que se tornou mais conhecida, mas muitas delas ainda continuam na ativa, com muitos de seus músicos realizando diversos tipos de projetos. Você acha que o movimento pós-punk de São Paulo não teve o devido reconhecimento na época?

Eu acho que houve alguns problemas. A falta de união dessas bandas era um deles. As pessoas tinham opiniões muito fortes, a Sandrá Coutinho era uma pessoa muito forte, Ciro Pessoa, do Cabine C, era um cara muito forte, Thomas Pappon, Cadão Volpato, do Fellini. Tanta personalidade dificultava o diálogo. E a qualidade das coisas era outro ponto. A gente tinha a Baratos e Afins, que era uma gravadora super envolvida com todos esses artistas, querendo mostrar trabalho, querendo divulgar e produzir, mas a qualidade deixava a desejar, não por parte deles, mas por parte de nós músicos também, dos estúdios da época, do know-how que as pessoas tinham de produção. Você ouve os discos dessa época e reconhece que o som é precário. Os dois discos das Mercenárias são dois discos incríveis que eu acho que pecam no som. O Voluntários da Pátria, que era uma banda também alternativa dessa época, eu acho que peca no som. O Smack, que tem um disco que eu acho uma obra de arte, o Ao Vivo No Mosh, eu acho que poderia ter uma qualidade muito maior de som do que teve. Enfim, eu acho que isso abalou muito a estrutura do pós-punk aqui de São Paulo, enquanto que a música pop e o rock passava pelas gravadoras. Isso desanimou um pouco, todo mundo tinha que viver, trabalhar, nem todo mundo conseguiu segurar a bronca na música, uns foram pro jornalismo, outros foram para outras áreas, e a cena foi acabando. Mas eu acho que deixou uma semente bacana para as gerações seguintes. Eu vejo um monte de garotos hoje que falam do Akira S com intimidade, e o Akira não mora no Brasil há mais de dez anos. As pessoas foram pesquisar essa época, e quem pesquisou viu que era uma cena muito bonita, muito autêntica, muito urbana, e eu tive muito orgulho de participar dela.

No primeiro álbum do Ira! vocês cantavam a música “Ninguém Entende um Mod!”. Como foi sua relação com os movimentos culturais urbanos?

O primeiro disco que eu comprei com o meu dinheiro foi a coletânea A Revista Pop Apresenta o Punk Rock, e lá eu vi várias bandas com as quais eu me identificava totalmente na sonoridade, mesmo que antes eu tenha tido muito mais influência do hard rock, do heavy metal, de Led Zeppelin, Jimi Hendrix principalmente. Acho que o punk veio pra me abrir uma perspectiva musical de mais simplicidade de execução, de uma timbragem mais próxima do equipamento que eu tinha na época, que era uma guitarra e um amplificador. E tinha a possibilidade de compor no início de uma abertura política no nosso país, começava a ter espaço para letras com uma preocupação mais social, com um protesto, às vezes até ingênuo, pueril, mas já era uma forma de a gente se expressar. Eu acho que o mod já era uma coisa que vinha comigo desde criança, desde que eu via os ensaios da banda do meu irmão nos anos 60. Eu tinha uma ligação muito forte com aquela cena, com aquela atitude dos anos 60 e com aquela estética: o terno, a gravata fininha, as roupas bem cortadas, a sonoridade de The Who, depois o The Jam. E o fato também de poder contar nos dedos os números de mods que existiam em São Paulo naqueles dias [risos]. Eu achei que era uma coisa legal e um desafio. Por isso que tem essa música “Ninguém Entende um Mod”, porque parecia que era uma ilha. Uma ilha cercada por punks, new wavers, enfim, era um terninho cercado por aquelas roupas horríveis dos anos 80 [Risos].

Aí foi surgindo uma cena pequena de mods, algumas bandas como Faces e Fases, e anos depois, com o Orkut, eu fiquei super feliz de ver uma comunidade mod que faz festas, que combina encontros e que fala de mim como um pioneiro da cena. Isso tudo é muito bacana, porque mod pra mim é muito sentimentalista, existencialista, tem questões internas relacionadas à vida, ao amor, ao trabalho, à família, e isso tudo era um mote da minha razão de compor.

Você é frequentemente listado como um dos maiores guitarristas do rock brasileiro. Esse tipo de comparação exerce alguma influência em você? Há alguma pressão baseada no que você já fez no passado?

A maior pressão que eu tive foi quando eu descobri a música eletrônica, no projeto Benzina. Aquilo era uma pressão dos dois lados. Foi uma relação tribal que eu tive com a moçada que gostava de música eletrônica, porque nessa época eles tinham o rock como um inimigo, como uma música conservadora que torcia o nariz pra música eletrônica, que via na música eletrônica um mero bate-estaca, que via aquela coisa mais ligada à diversão e não tanto uma música pra você prestar atenção e ouvir. Então nessa época eu tive que botar a cara pra bater pra turma do rock, onde alguns me viam como um traidor da cena, e pra música eletrônica, que me via como um invasor roqueiro nas pistas dos clubes. Acho que foi um momento difícil pra mim, onde eu tive que realmente me dobrar, mostrar que minha música transcendia o fato de eu ser guitarrista e que essa música eletrônica também não ia tirar de mim uma coisa orgânica que era minha grande herança do rock.

E qual foi sua grande inspiração para o Benzina?

A minha inspiração para o Benzina foram os DJs, principalmente o Mau Mau, porque raríssimas vezes tinha uma guitarra nas músicas que ele tocava. Às vezes podia ter, mas era tudo tão distorcido, tão transformado, que podia ser um sintetizador. Então eu ficava ouvindo aquela música toda, era uma música que me tirava do chão. Eu pensei: “Tenho que participar dessa cena, mas eu quero que minha guitarra seja o meu diferencial”. Aí comecei a fazer os projetos todos. Fiz três discos do Benzina e achei que foi uma conquista, porque essa desconfiança toda que existia está caindo por terra. A cena eletrônica abraçou o Benzina, toquei em grandes festivais para públicos muito animados.

O Charles Gavin já tocou no Ira!, assim como você fez parte do Ultraje a Rigor, e muitos outros músicos desta época tocaram em diversas bandas diferentes. Na época vocês imaginavam que bandas como Titãs, Ira! e Ultraje A Rigor se tornariam algumas das maiores do rock brasileiro?

Eu vou falar por mim. Eu acho que antes do Ira!, com o Subúrbio, eu tinha a impressão que a gente ia deixar uma marca na música brasileira. Agora, quando a gente começou a gravar os discos, tanto o Ira!, como o Ultraje, a gente tinha uma certa desconfiança daquilo, por causa das gravadoras. Principalmente eu e a moçada do Ira! tínhamos uma origem dentro do punk, do pós-punk, então essa coisa de assinar contrato com gravadora nos dava uma certa insegurança, a gente achava que ia ficar na geladeira. Mas quando a gente viu que o Ultraje, os Titãs, começaram a despontar, e a surgir outras bandas fazendo um trabalho popular dentro do rock, aí deu pra acreditar mais no que ia acontecer. Agora é incrível o quanto essas bandas ficaram marcadas para essa geração. Até hoje, 30 anos depois, as pessoas ainda vão se referir ao rock falando dos Titãs, do Ira!, do Ultraje. E aconteceu tanta coisa bacana e rica depois também.

Suas músicas tinham ao mesmo tempo o espírito de revolta típico do rock e a poesia juvenil que ajudou a transformá-las em clássicos da época. Quais eram suas inspirações para a criação?

Era uma coisa muito do meu dia a dia, muito da minha vida mesmo. Eu sempre fui um cara muito passional nos meus relacionamentos, e eu devo isso para todas as minhas ex-namoradas, ex-esposas e amigas, enfim, devo muito das minhas músicas aos meus desamores, às minhas desventuras. Tenho minhas preocupações sociais também, mas sempre com um ponto de vista juvenil.  “Pobre Paulista”, por exemplo, é uma música que gera polêmica, e eu entendo a polêmica dela por causa dos versos, que são um pouco fortes. Mas no momento que eu a fiz eu achava que estava falando para todo mundo, eu não pensava em transformar a música num hino da cidade ou coisa assim. Eu via São Paulo como uma cidade repleta de brasileiros, então se eu falava sobre São Paulo eu estava falando sobre o Brasil. Era uma coisa um pouco mais leve, dentro da minha realidade de um menino simples. Eu estudei até o colegial, nunca fui um cara de ler muitos livros, tenho uma educação baseada no ensino público, então acho que tudo que eu escrevi foi baseado na minha vida mesmo. “Dias De Luta” é uma música com a qual as pessoas se identificam até hoje, assim como “Envelheço Na Cidade” e “Flores Em Você”. Tem coisas muito despretensiosas que ficaram marcantes. E tem coisas que passaram batidas. Eu tenho quase 200 músicas compostas e apenas 30 ficaram marcadas. Acho que aí tem um trabalho incrível que pode ser redescoberto. E a coisa de continuar trabalhando, continuar pesquisando, continuar pensando em novos trabalhos. Isso pra mim é um grande desafio, porque são outros tempos, vou fazer 50 anos. As inspirações são outras, os motivos para escrever são outros, e eu pretendo trabalhar isso para que a minha música seja importante para as pessoas.

Falando dos seus projetos atuais, você toca com a Karina Buhr, já tocou com a Tulipa Ruiz, Barbara Eugênia e muita gente dessa nova geração. O que você acha desse movimento batizado como “novos paulistas” e o que te atraiu para fazer parte disso?

São Paulo está num momento muito bacana porque está com uma cena de músicos vindos do Brasil inteiro, como sempre foi, mas dessa vez é muito mais evidente. Então esses “novos paulistas” são, na verdade, brasileiros que vivem em São Paulo, que mostram seu trabalho aqui. Eu fiquei muito feliz em poder tocar, principalmente com a Karina Buhr, com quem eu já estou no segundo disco, e eu percebo uma identificação muito grande com coisas como Mercenárias, com o Smack, e não só na identidade sonora, mas na atitude mesmo, de não estar sempre sorrindo pras pessoas, de ser verdadeira. Eu fico feliz de ser chamado por essa geração e não me sentir em nenhum momento um cara tão mais velho que todos eles. Eu percebo que eu ainda tenho muita informação pra passar, mas que também aprendo muito. Quando eu toco, por exemplo, com um cara como o Marcelo Jeneci, jovem, mas com uma bagagem musical incrível.

E quais são seus próximos planos?

Eu tenho três discos que talvez eu consiga lançar ainda nesse ano. Um deles é um disco instrumental, eu estou com músicas incríveis que eu acho que se resolvem sem letra. É a coisa mais pronta que eu tenho. Tem também um disco de músicas inéditas e tem esse projeto de poder trabalhar com essas meninas, de fazer parceria com elas.  Já tenho duas parcerias: uma com a Juliana R., e uma com uma menina super underground chamada Silvia Tape, que faz um trabalho incrível. E apresentei uma música pra Nina Becker, pra ela compor comigo. A Sandra Coutinho vai participar também, então eu quero fazer um disco com essas garotas. Tem a turnê de A Curva Da Cintura, que a gente vai fazer quando o Tumani chegar, mas a gente pretende seguir sem ele também.  Além disso estou acompanhando a Karina Buhr. O Arnaldo Antunes fez o disco acústico agora no final do ano, e provavelmente vai estar na estrada. Eu pretendo estar presente o máximo que conseguir. Enquanto eu puder trabalhar com o maior número possível de pessoas eu estarei muito satisfeito.

Pra finalizar, é inevitável falar com você sem perguntar sobre o Ira!. Você ainda fala com o Nasi? Existe alguma chance de os fãs voltarem a ver a banda junta algum dia?

Eu acho muito difícil. Acho que tem uma coisa muito importante, é um ditado infantil, mas eu acho que o peixe morre pela boca mesmo. Enquanto o Nasi estiver por aí falando as coisas que ele tem falado e expondo a vida íntima da banda, como se fosse uma coisa que todo mundo tem que saber, eu não tenho o menor tesão em voltar a tocar com ele. Acho que se um dia ele tomar consciência das besteiras que fez e voltar atrás, falar com a gente, comigo, com o André Jung, o batera, com quem ele foi um cara muito, muito errado, e com o Ricardo Gaspa [ex-baixista do Ira!], pode ser que a gente reate e faça algo juntos. Ou simplesmente recupere a amizade, que eu acho que é uma coisa mais importante até do que a gente voltar a tocar. Mas enquanto eu o ouvir dizendo que não gostava das minhas letras – sabendo que ele viveu dessas letras por muitos anos e que elas foram o grande cartão de visitas pra todas as garotas que ele diz que já encontrou por aí –, eu vou continuar achando injusto comigo e com a história da banda. Ele cospe no prato que comeu e fala de coisas particulares. Infelizmente essas coisas chegam pra mim, coisas que eu não gostaria nem de saber. Coisas que não me estragam a vida, mas me estragam o dia. Eu fico muito chateado de ver um cara que era meu amigo de infância, que ficou 20 e tantos anos comigo, desdenhando daquele trabalho que ajudou o cara a ter a casa que ele tem até hoje. Isso me deixa muito chateado e me faz não ter muita vontade em pensar em ter ele ao meu lado. Mas se um dia ele recuar e pedir desculpas sinceras sobre tudo isso, eu acho que pode ser que a gente volte a se falar e quem sabe até fazer um som.