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"Estão passando ódio para nós", afirma Criolo

Em entrevista à Billboard Brasil, Criolo fala do projeto, de sua criação, influências musicais e explica ainda por que acredita que o país ainda tem muito a melhorar e por que não podemos esperar nada de quem esteja no poder.

Criolo ainda levava o sobrenome artístico de Doido quando lançou seu primeiro disco, Ainda Há Tempo, em 2006. De lá para cá, muita coisa mudou: lançou mais dois discos, tornou-se uma celebridade nacional e é um dos rappers mais respeitados no país hoje.

Mas, para ele, isso não faz muita diferença. "A força de vontade é a mesma, o sonho é o mesmo, a necessidade de se expressar, de desabafar e de mandar uma energia boa pro mundo é a mesma", explica o rapper. Com uma nova roupagem, menos músicas e artistas convidados, Ainda Há Tempo foi relançado on-line na semana passada para celebrar seus 10 anos. "Não podia passar batido".

Em entrevista à Billboard Brasil, Criolo fala do projeto, de sua criação, influências musicais e explica ainda por que acredita que o país ainda tem muito a melhorar e por que não podemos esperar nada de quem esteja no poder. Veja a seguir:

Você acaba de relançar o Ainda Há Tempo com uma nova roupagem. Como é o projeto?
Eu e o Dan Dan sempre conversávamos que um dia a gente poderia fazer de verdade um show do Ainda Há Tempo, porque esse disco nunca teve um show. As masters se perderam no estúdio, então não tinha os instrumentais de todas as músicas, não dava para fazer nem que a gente quisesse. Também não tinha condição naquela época. Era tudo bem difícil. Aí, quando foi chegando perto da data de dez anos do nosso primeiro disco, a gente pensou que tinha que fazer alguma coisa para celebrar isso. Não podia passar batido. Tive a ideia de fazer um show e isso foi tomando corpo. O Ganja [Daniel Ganjaman, produtor] teve a ideia de chamar jovens beatmakers e produtores pra cada um entrar em contato com uma faixa específica. Nesse caminho também teve a ideia de chamar o Alexandre Orion para fazer a direção de arte. Depois de toda essa energia criada, acho que vale registrar fonograficamente.

Você regravou a voz também?
Regravei tudo. A ideia era criar um ambiente para celebrar os dez anos desse disco, da importância dele, toda a história que ele tem pra gente, a energia que ele traz para mim, em particular. Aí, aos poucos isso foi se tecendo.

Ele continua atual para você? Em dez anos mudou tanto a sua vida, quanto o país, enfim...
É, mas o abismo social ainda continua, né? Ainda persiste. Isso não mudou. Talvez por isso ele seja tão atual, tão emergente, porque ele retrata um tanto do nosso cotidiano e, infelizmente, algumas coisas não mudaram. Respiro música 24h por dia desde que eu vi um amigo rimando com 11 anos de idade. Aquilo se chamava rap. Depois eu escutei o som: oito minutos tinha a música, tudo rimava. É assim até hoje, né? Desde os 11, 12 anos de idade eu não consigo me ver diferente. Eu vivo esse dia a dia de respirar música.

O seu primeiro disco tem uma sonoridade muito diferente, ele é mais cru que os dois outros. Com essa nova roupagem, ele ganha esses elementos?
Assim, é muito louco porque ele carrega, em 2016, uma mágica que o hip hop proporciona. Ele carrega essa mesma magia de intenção e força coletiva pra fazer ele acontecer, como foi em 2006.

Por quê?
Porque, em determinado momento da minha vida, decidi fazer o registro fonográfico de algumas canções que eu tenho. Então, visitei alguns amigos, cantei meu rap e falei "pode fazer o instrumental disso aqui?" Assim foi indo, trabalho de formiguinha, demorou dois anos. Depois mais dois anos pra pagar o estúdio, ia pagando aos pouquinhos. Hoje, mesmo com as músicas já prontas, o flow já tá ali, a levada, a melodia, a intenção e a ideia de juntar mais energias, mais pessoas, é a mesma. Nesse sentido, ele carrega essa essência.

É como se fosse um disco novo?
É diferente do outro, né? Ele vai ser diferente porque hoje eu tenho 40 anos, é um outro momento, mas ele vem carregado também do olhar dessas outras pessoas que foram convidadas. É um recorte também: no outro disco, foram 22 faixas, nesse são oito.

E qual a principal diferença entre o Criolo que lançou o Ainda Há Tempo em 2006 e o que está relançando agora?
Cara, eu não vejo muita diferença porque a força de vontade é a mesma, o sonho é o mesmo, a necessidade de se expressar, de desabafado, de mandar uma energia boa pro mundo é a mesma. A diferença é que, agora, eu tô com 40 anos, né? Talvez não tenha o mesmo pique. Todos nós somos um conjunto de situações nossas, criadas por nós, e situações que nos visitam: algumas agradáveis, outras extremamente desagradáveis. Hoje com 40, eu enxergo que tenho muito mais pra aprender do que o tanto de coisas que tinha quando tinha 30, cê vai aprendendo a ver as coisas de muitas outras formas.

Você tem composto?
Sim, tô compondo, é um processo de vida. É uma coisa de essência minha, de necessidade da minha alma, se não eu vou ficar... sei lá o que vai acontecer.

Tem plano para o lançamento de inéditas?
Ainda não. Dia 14 de novembro, o Convoque Seu Buda [2014] faz dois anos, começa a engatinhar e tal. É uma parada que foi muito intensa em nossas vidas, minha, do [Marcelo] Cabral, do Ganja... Quando você para para mexer com as suas energias e recebe as energias dos outros no processo de criação, isso é muito intenso.

Você é o rapper que, hoje no Brasil, mais mexe com uma musicalidade diferente, seja no flow, ao cantar, quando coloca instrumentos. Você acredita que essa é uma espécie de avanço no gênero, é um caminho a seguir, ou não, é algo seu?
Não, acho que o avanço é você preservar sua verdade, sua sinceridade, aquilo que você faz. Não quer dizer que trazer sofisticação e uma gama de outras situações pro seu trampo você tá sendo X ou Y. Pode ser uma coisa que alguém arquitetou. Quando você diz a sua verdade, esse será o avanço. Quantas canções à capela a gente não escuta, se emociona e chora? Não é para fazer uma dicotomia: agora, com instrumentos, é bom, isso aqui não é tão bom assim. Nas artes, não é o caminho que você projeta em uma matemática exata. É a emoção que te toma. Porque essa matemática vem para, com sua engenharia, escrever esses processos do pensar, de criação, a emoção que você leva para o mundo. Você tem alguma fórmula ali para te ajudar nisso. Não pode ser o contrário, entende?

Então o impacto que o Nó Na Orelha [2011], em especial, trouxe para o rap nacional foi um caminho natural?
O Nó Na Orelha não era nem para ser um disco. Era um grupo de canções que eu ia gravar e iam ficar para mim e para a minha família. O Ricardo [Costa] da Matilha [Cultural], que é um bom amigo, falou "eu gostaria que você gravasse algumas canções, essa que você fica cantando toda hora e a gente não aguenta mais ouvir, com um amigo meu". Conheci o Marcelo, ele chamou o Ganjaman. Os três fizeram a reunião ali: "po, vamo gravar as músicas desse menino". No meio do caminho, "Criolo, aqui pode virar um disco". Aí veio o Nó Na Orelha, totalmente despretensioso. Então, sabe? Chegar ao ponto do que aconteceu ali foi muito por tudo que eu vivi e aprendi dentro do rap nacional, que desaguou no Ainda Há Tempo. Ele só nasceu depois de 17, 18 anos de caminhada.

Quais suas principais referências?
Sempre muita música nordestina. Norte e Nordeste brasileiro, principalmente por conta dos meus pais, que são cearenses. Então, em casa eu sempre escutei Luiz Gonzaga e tantos outros. Samba de breque... Tudo o que rolava na favela é referência. Eu cresci num barraco durante seis anos, na Favela das Imbuias, onde as barracas eram de parede de pau e uma colada na outra. Então você escuta o que todo mundo tá escutando. Você cresce com essa influência, com música do Brasil todo. Até que, mais tarde, quando eu ouvi alguém fazendo uma rima, achei mágica aquela junção de palavras e, um ano depois, ouvi alguém cantando uma música gigantesca e o locutor falou que aquilo chamava rap. Aquele texto descrevia praticamente a minha rua, meu bairro, minha situação, e rolou esse encontro.

Hoje, você é uma celebridade nacional, fez turnê com a Ivete Sangalo, as pessoas lhe reconhecem. É um mundo diferente de 2006, até de 2011. Isso impacta na sua percepção de mundo?
Se você quiser mudar o seu cotidiano, sim.

Mas você não mudou?
Ué, não. É uma felicidade quando eu encontro com o Dan Dan, meu amigo há 22 anos, uma felicidade quando encontro o Nenê Partideiro, Jefferson Santiago, Ricardo Rabello, músicos do Pagode da 27, uma roda de samba de mais de 10 anos, a qual eu tenho orgulho de falar que sou da ala de compositores. Adoro estar com meu pai, quando posso ir ao jogo do Corinthians com meu pai, porque ele me levou ao estádio, agora é a minha vez de levá-lo. É bom ir numa festa de rap. É bom poder estar quieto em casa e me dedicar à música, que me deu tudo. É esse o cotidiano.

Como você lida com a fama?
Isso não chega até mim, man. Tudo é como você se coloca pro mundo. Eu tenho apreço, respeito e carinho por todas as pessoas que contribuíram e contribuem comigo, na minha pequena história de vida, as pessoas que reconhecem as coisas que eu faço, por mais que eu ainda esteja nesse processo de aprendizado. Mas isso não me faz melhor que ninguém. Eu não me vejo diferente, não vejo as pessoas diferentes, menos ou mais. Tá todo mundo junto, cada um na sua, tem seu jeito, seu modo de enxergar a vida. Eu tenho o meu.

Como você vê a situação social e política do Brasil?
Política, triste. Muito triste, medonha. Quando você tem um grupo de pessoas responsáveis por gerir uma nação e a grande preocupação é o grupo de pessoas que atendem a uma série de interesses que não têm nada a ver, não estão necessariamente ligadas à melhoria da nação. Ponto, é isso. É simples. Desde que o mundo é mundo, né? Desde que chegou o espelho e a cachaça aqui.

Socialmente, você disse que as disparidades continuam.
Olha, meu amigo, muita coisa aconteceu, mas, de longe, não é o tanto que poderia ter mudado. Você continua num país racista. Você continua num país onde as pessoas são abordadas pela cor da pele, num país onde o cara acha que tem direito de quebrar algo na cara de outro por que ele é homossexual. Você ainda vive num país onde tirar sarro de nordestino é normal. Isso é medonho, man. Isso não mudou. Eu falava disso quando tinha 15 anos de idade, 10, agora tenho 40, quando tiver 70 será que ainda vamo tá falando nisso?

Recentemente, o Mano Brown falou em um show que "o dia em que a favela faz silêncio, a elite manipula". Você acha que é por aí?
Ele elucida muitas coisas com a fala dele. Dentre esses coisas é: enquanto você achar que tudo que a mídia fala pra você é verdade, nós vamos continuar sendo oprimidos. E isso não é bom.

A luta contra o preconceito é diária?
Se você ver que, hoje, uma pessoa, pra arrumar trabalho, o currículo tem que vir com foto... Talvez seja. Isso diz muito de uma sociedade.

Como você vê o rap hoje no Brasil? Ele tem ficado cada vez mais popular...
Gigante. Ele sempre foi popular, porque vem do povo, da população. Agora, assim, existe um número maior de pessoas entrando em contato com sons, com expressões de arte que vão além da música. Por conta de um novo momento de comunicação, a internet ajuda muito nisso. Mas o rap, pra mim, sempre foi algo muito forte, positivo e grandioso. Brown, Edi Rock, KL Jay, Ice Blue são pessoas fortes. Eles têm força. Essa energia, a história de vida desses caras vai pra voz deles. Quando chega aos seus ouvidos, vai lhe causar impacto, é natural. É como um espetáculo de dança cuja companhia as pessoas se entregam de corpo e alma praquele trabalho, você também vai se sentir diferente. Não dá pra se imaginar algo plastificado quando você vê uma construção real, pautada em verdade. Essas pessoas têm isso. São pessoas especiais.

Você falou na importância da internet, ela, às vezes, tem um papel...
A internet tem o papel que você dá pra ela. A gente se redime muito, né? "Que papel que tem..." É o papel que você também dá. Se você quer um bagulho para montar uma bomba, você vai digitar lá. Mas um bagulho de aprender um modo mais saudável para mexer com a terra vai estar lá também.

As piadas e os memes que viralizaram da sua entrevista para o Lázaro Ramos lhe incomodam?
Magina! Isso só demonstra o quanto nosso povo é extremamente criativo, sagaz e rápido. Já dá o retorno rápido de como aquilo mexeu com ele. Isso é bem louco.

O país passa por um momento extremamente delicado politicamente. Qual o melhor caminho que você vislumbra?
Vamos ser bem inocentes na nossa resposta? Porque não existe. Existem muitos caminhos, mas nenhum que eles vão deixar que aconteça. Simples assim. Enquanto existir impunidade, vai existir corrupção, enquanto existir corrupção, vai existir impunidade. Enquanto existir um grupo de pessoas detentoras de todo o poder da nação, [elas] vão fazer todos os caminhos, subterfúgios possíveis para passar suas ideias à nação, e o que sobra? Uma pessoa batendo na outra na rua, saindo na mão com outra. Tão passando ódio pra nós, para fazer o serviço que eles querem fazer, porque, para eles, a favela que se exploda. Aí as pessoas ficam assim: "olha, ele bateu em mim por causa da cor da minha roupa", mas, na favela, o cara é assassinado pela cor da pele, irmão! Não é novidade pra gente. Infelizmente.

Que medidas sociais você acredita que podem melhorar esta realidade?
Vamo perguntar pro ministro da educação, pro ministro da cultura. Vamo perguntar pr’esses caras que têm que resolver isso. O que eu sei é que eu cresci num ambiente completamente hostil, de pobreza extrema. Mas rodeado de pessoas que fizeram de tudo para mudar a realidade. Talvez essa seja a resposta. Mas talvez não seja aceita, porque somos de favelas e não temos diplomas. E aí vão achar que é um discurso de um "não sei que lá", tá ligado? Porque tudo é desculpa para desmoralizar o cidadão brasileiro, mas a minha realidade é essa. Enquanto houver corrupção, não existe diálogo. É inocência falar de qualquer parada, "qual é o caminho", "qual a resposta"... É inocência, man. Já falei outra vez: 'cada corrupto que se dá bem, é um milhão que morre e nem se ligou'. É real isso. É em tudo. Por que o povo vai ficar saudável? Pra indústria farmacêutica não ganhar mais dinheiro? E aí a gente vai começar a puxar e vai vir um par de fita. Quem ganha com um cara com a autoestima lá pra baixo? Porque ele não vai lutar por um salário melhor... Quem ganha com a desmoralização das empresas que a União é dona? Quem vai ganhar muito dinheiro com isso? São muitos detalhes escancarados e muitos que não são vistos. Como tá a CLT? Como tá a lei de trabalho? "Opa, enquanto a gente mantém o povo um tretando com o outro, a gente vai resolvendo as fitas pequenas aqui!" Que não é tão pequena, não! A preocupação dos caras é manter o poder deles, custe o que custar. Isso tá bem claro. De todos os lados. Corrupção não tem partido. É uma coisa à parte disso. Corrupção é apartidária, é da essência humana.

A revelia de qualquer governo, você acredita que, como sociedade, o país tem melhorado?
Você vê cada vez mais os jovens no Brasil se organizando e lutando pelos seus direitos e direitos do outro também. Acho que isso é algo extremamente positivo, tem que ser valorizado, falado, propagado. Eu acho que cada vez mais as pessoas estão se organizando, dialogando, criando caminhos, opções, formas, jeitos de como se encaminhar nossa sociedade para algo melhor.

Você vê a música como um instrumento de mudança social?
Todas as expressões de arte vão contribuir com energia pro ser, com a música não seria diferente. É isso.

É o que você procura fazer?
Eu procuro viver a minha história, fazer minha vida.

E nesse ano, show do Ainda Há Tempo?
E do Convoque, né? Nós temos pouquíssimos shows do Ainda Há Tempo, uma celebração de dez anos desse disco e é isso.

Você vai tocar todas as músicas?
É, a espinha dorsal do número são as músicas do Ainda Há Tempo, mas tem de outras fases também.

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"Estão passando ódio para nós", afirma Criolo

Em entrevista à Billboard Brasil, Criolo fala do projeto, de sua criação, influências musicais e explica ainda por que acredita que o país ainda tem muito a melhorar e por que não podemos esperar nada de quem esteja no poder.

por Lucas Borges Teixeira em 16/05/2016

Criolo ainda levava o sobrenome artístico de Doido quando lançou seu primeiro disco, Ainda Há Tempo, em 2006. De lá para cá, muita coisa mudou: lançou mais dois discos, tornou-se uma celebridade nacional e é um dos rappers mais respeitados no país hoje.

Mas, para ele, isso não faz muita diferença. "A força de vontade é a mesma, o sonho é o mesmo, a necessidade de se expressar, de desabafar e de mandar uma energia boa pro mundo é a mesma", explica o rapper. Com uma nova roupagem, menos músicas e artistas convidados, Ainda Há Tempo foi relançado on-line na semana passada para celebrar seus 10 anos. "Não podia passar batido".

Em entrevista à Billboard Brasil, Criolo fala do projeto, de sua criação, influências musicais e explica ainda por que acredita que o país ainda tem muito a melhorar e por que não podemos esperar nada de quem esteja no poder. Veja a seguir:

Você acaba de relançar o Ainda Há Tempo com uma nova roupagem. Como é o projeto?
Eu e o Dan Dan sempre conversávamos que um dia a gente poderia fazer de verdade um show do Ainda Há Tempo, porque esse disco nunca teve um show. As masters se perderam no estúdio, então não tinha os instrumentais de todas as músicas, não dava para fazer nem que a gente quisesse. Também não tinha condição naquela época. Era tudo bem difícil. Aí, quando foi chegando perto da data de dez anos do nosso primeiro disco, a gente pensou que tinha que fazer alguma coisa para celebrar isso. Não podia passar batido. Tive a ideia de fazer um show e isso foi tomando corpo. O Ganja [Daniel Ganjaman, produtor] teve a ideia de chamar jovens beatmakers e produtores pra cada um entrar em contato com uma faixa específica. Nesse caminho também teve a ideia de chamar o Alexandre Orion para fazer a direção de arte. Depois de toda essa energia criada, acho que vale registrar fonograficamente.

Você regravou a voz também?
Regravei tudo. A ideia era criar um ambiente para celebrar os dez anos desse disco, da importância dele, toda a história que ele tem pra gente, a energia que ele traz para mim, em particular. Aí, aos poucos isso foi se tecendo.

Ele continua atual para você? Em dez anos mudou tanto a sua vida, quanto o país, enfim...
É, mas o abismo social ainda continua, né? Ainda persiste. Isso não mudou. Talvez por isso ele seja tão atual, tão emergente, porque ele retrata um tanto do nosso cotidiano e, infelizmente, algumas coisas não mudaram. Respiro música 24h por dia desde que eu vi um amigo rimando com 11 anos de idade. Aquilo se chamava rap. Depois eu escutei o som: oito minutos tinha a música, tudo rimava. É assim até hoje, né? Desde os 11, 12 anos de idade eu não consigo me ver diferente. Eu vivo esse dia a dia de respirar música.

O seu primeiro disco tem uma sonoridade muito diferente, ele é mais cru que os dois outros. Com essa nova roupagem, ele ganha esses elementos?
Assim, é muito louco porque ele carrega, em 2016, uma mágica que o hip hop proporciona. Ele carrega essa mesma magia de intenção e força coletiva pra fazer ele acontecer, como foi em 2006.

Por quê?
Porque, em determinado momento da minha vida, decidi fazer o registro fonográfico de algumas canções que eu tenho. Então, visitei alguns amigos, cantei meu rap e falei "pode fazer o instrumental disso aqui?" Assim foi indo, trabalho de formiguinha, demorou dois anos. Depois mais dois anos pra pagar o estúdio, ia pagando aos pouquinhos. Hoje, mesmo com as músicas já prontas, o flow já tá ali, a levada, a melodia, a intenção e a ideia de juntar mais energias, mais pessoas, é a mesma. Nesse sentido, ele carrega essa essência.

É como se fosse um disco novo?
É diferente do outro, né? Ele vai ser diferente porque hoje eu tenho 40 anos, é um outro momento, mas ele vem carregado também do olhar dessas outras pessoas que foram convidadas. É um recorte também: no outro disco, foram 22 faixas, nesse são oito.

E qual a principal diferença entre o Criolo que lançou o Ainda Há Tempo em 2006 e o que está relançando agora?
Cara, eu não vejo muita diferença porque a força de vontade é a mesma, o sonho é o mesmo, a necessidade de se expressar, de desabafado, de mandar uma energia boa pro mundo é a mesma. A diferença é que, agora, eu tô com 40 anos, né? Talvez não tenha o mesmo pique. Todos nós somos um conjunto de situações nossas, criadas por nós, e situações que nos visitam: algumas agradáveis, outras extremamente desagradáveis. Hoje com 40, eu enxergo que tenho muito mais pra aprender do que o tanto de coisas que tinha quando tinha 30, cê vai aprendendo a ver as coisas de muitas outras formas.

Você tem composto?
Sim, tô compondo, é um processo de vida. É uma coisa de essência minha, de necessidade da minha alma, se não eu vou ficar... sei lá o que vai acontecer.

Tem plano para o lançamento de inéditas?
Ainda não. Dia 14 de novembro, o Convoque Seu Buda [2014] faz dois anos, começa a engatinhar e tal. É uma parada que foi muito intensa em nossas vidas, minha, do [Marcelo] Cabral, do Ganja... Quando você para para mexer com as suas energias e recebe as energias dos outros no processo de criação, isso é muito intenso.

Você é o rapper que, hoje no Brasil, mais mexe com uma musicalidade diferente, seja no flow, ao cantar, quando coloca instrumentos. Você acredita que essa é uma espécie de avanço no gênero, é um caminho a seguir, ou não, é algo seu?
Não, acho que o avanço é você preservar sua verdade, sua sinceridade, aquilo que você faz. Não quer dizer que trazer sofisticação e uma gama de outras situações pro seu trampo você tá sendo X ou Y. Pode ser uma coisa que alguém arquitetou. Quando você diz a sua verdade, esse será o avanço. Quantas canções à capela a gente não escuta, se emociona e chora? Não é para fazer uma dicotomia: agora, com instrumentos, é bom, isso aqui não é tão bom assim. Nas artes, não é o caminho que você projeta em uma matemática exata. É a emoção que te toma. Porque essa matemática vem para, com sua engenharia, escrever esses processos do pensar, de criação, a emoção que você leva para o mundo. Você tem alguma fórmula ali para te ajudar nisso. Não pode ser o contrário, entende?

Então o impacto que o Nó Na Orelha [2011], em especial, trouxe para o rap nacional foi um caminho natural?
O Nó Na Orelha não era nem para ser um disco. Era um grupo de canções que eu ia gravar e iam ficar para mim e para a minha família. O Ricardo [Costa] da Matilha [Cultural], que é um bom amigo, falou "eu gostaria que você gravasse algumas canções, essa que você fica cantando toda hora e a gente não aguenta mais ouvir, com um amigo meu". Conheci o Marcelo, ele chamou o Ganjaman. Os três fizeram a reunião ali: "po, vamo gravar as músicas desse menino". No meio do caminho, "Criolo, aqui pode virar um disco". Aí veio o Nó Na Orelha, totalmente despretensioso. Então, sabe? Chegar ao ponto do que aconteceu ali foi muito por tudo que eu vivi e aprendi dentro do rap nacional, que desaguou no Ainda Há Tempo. Ele só nasceu depois de 17, 18 anos de caminhada.

Quais suas principais referências?
Sempre muita música nordestina. Norte e Nordeste brasileiro, principalmente por conta dos meus pais, que são cearenses. Então, em casa eu sempre escutei Luiz Gonzaga e tantos outros. Samba de breque... Tudo o que rolava na favela é referência. Eu cresci num barraco durante seis anos, na Favela das Imbuias, onde as barracas eram de parede de pau e uma colada na outra. Então você escuta o que todo mundo tá escutando. Você cresce com essa influência, com música do Brasil todo. Até que, mais tarde, quando eu ouvi alguém fazendo uma rima, achei mágica aquela junção de palavras e, um ano depois, ouvi alguém cantando uma música gigantesca e o locutor falou que aquilo chamava rap. Aquele texto descrevia praticamente a minha rua, meu bairro, minha situação, e rolou esse encontro.

Hoje, você é uma celebridade nacional, fez turnê com a Ivete Sangalo, as pessoas lhe reconhecem. É um mundo diferente de 2006, até de 2011. Isso impacta na sua percepção de mundo?
Se você quiser mudar o seu cotidiano, sim.

Mas você não mudou?
Ué, não. É uma felicidade quando eu encontro com o Dan Dan, meu amigo há 22 anos, uma felicidade quando encontro o Nenê Partideiro, Jefferson Santiago, Ricardo Rabello, músicos do Pagode da 27, uma roda de samba de mais de 10 anos, a qual eu tenho orgulho de falar que sou da ala de compositores. Adoro estar com meu pai, quando posso ir ao jogo do Corinthians com meu pai, porque ele me levou ao estádio, agora é a minha vez de levá-lo. É bom ir numa festa de rap. É bom poder estar quieto em casa e me dedicar à música, que me deu tudo. É esse o cotidiano.

Como você lida com a fama?
Isso não chega até mim, man. Tudo é como você se coloca pro mundo. Eu tenho apreço, respeito e carinho por todas as pessoas que contribuíram e contribuem comigo, na minha pequena história de vida, as pessoas que reconhecem as coisas que eu faço, por mais que eu ainda esteja nesse processo de aprendizado. Mas isso não me faz melhor que ninguém. Eu não me vejo diferente, não vejo as pessoas diferentes, menos ou mais. Tá todo mundo junto, cada um na sua, tem seu jeito, seu modo de enxergar a vida. Eu tenho o meu.

Como você vê a situação social e política do Brasil?
Política, triste. Muito triste, medonha. Quando você tem um grupo de pessoas responsáveis por gerir uma nação e a grande preocupação é o grupo de pessoas que atendem a uma série de interesses que não têm nada a ver, não estão necessariamente ligadas à melhoria da nação. Ponto, é isso. É simples. Desde que o mundo é mundo, né? Desde que chegou o espelho e a cachaça aqui.

Socialmente, você disse que as disparidades continuam.
Olha, meu amigo, muita coisa aconteceu, mas, de longe, não é o tanto que poderia ter mudado. Você continua num país racista. Você continua num país onde as pessoas são abordadas pela cor da pele, num país onde o cara acha que tem direito de quebrar algo na cara de outro por que ele é homossexual. Você ainda vive num país onde tirar sarro de nordestino é normal. Isso é medonho, man. Isso não mudou. Eu falava disso quando tinha 15 anos de idade, 10, agora tenho 40, quando tiver 70 será que ainda vamo tá falando nisso?

Recentemente, o Mano Brown falou em um show que "o dia em que a favela faz silêncio, a elite manipula". Você acha que é por aí?
Ele elucida muitas coisas com a fala dele. Dentre esses coisas é: enquanto você achar que tudo que a mídia fala pra você é verdade, nós vamos continuar sendo oprimidos. E isso não é bom.

A luta contra o preconceito é diária?
Se você ver que, hoje, uma pessoa, pra arrumar trabalho, o currículo tem que vir com foto... Talvez seja. Isso diz muito de uma sociedade.

Como você vê o rap hoje no Brasil? Ele tem ficado cada vez mais popular...
Gigante. Ele sempre foi popular, porque vem do povo, da população. Agora, assim, existe um número maior de pessoas entrando em contato com sons, com expressões de arte que vão além da música. Por conta de um novo momento de comunicação, a internet ajuda muito nisso. Mas o rap, pra mim, sempre foi algo muito forte, positivo e grandioso. Brown, Edi Rock, KL Jay, Ice Blue são pessoas fortes. Eles têm força. Essa energia, a história de vida desses caras vai pra voz deles. Quando chega aos seus ouvidos, vai lhe causar impacto, é natural. É como um espetáculo de dança cuja companhia as pessoas se entregam de corpo e alma praquele trabalho, você também vai se sentir diferente. Não dá pra se imaginar algo plastificado quando você vê uma construção real, pautada em verdade. Essas pessoas têm isso. São pessoas especiais.

Você falou na importância da internet, ela, às vezes, tem um papel...
A internet tem o papel que você dá pra ela. A gente se redime muito, né? "Que papel que tem..." É o papel que você também dá. Se você quer um bagulho para montar uma bomba, você vai digitar lá. Mas um bagulho de aprender um modo mais saudável para mexer com a terra vai estar lá também.

As piadas e os memes que viralizaram da sua entrevista para o Lázaro Ramos lhe incomodam?
Magina! Isso só demonstra o quanto nosso povo é extremamente criativo, sagaz e rápido. Já dá o retorno rápido de como aquilo mexeu com ele. Isso é bem louco.

O país passa por um momento extremamente delicado politicamente. Qual o melhor caminho que você vislumbra?
Vamos ser bem inocentes na nossa resposta? Porque não existe. Existem muitos caminhos, mas nenhum que eles vão deixar que aconteça. Simples assim. Enquanto existir impunidade, vai existir corrupção, enquanto existir corrupção, vai existir impunidade. Enquanto existir um grupo de pessoas detentoras de todo o poder da nação, [elas] vão fazer todos os caminhos, subterfúgios possíveis para passar suas ideias à nação, e o que sobra? Uma pessoa batendo na outra na rua, saindo na mão com outra. Tão passando ódio pra nós, para fazer o serviço que eles querem fazer, porque, para eles, a favela que se exploda. Aí as pessoas ficam assim: "olha, ele bateu em mim por causa da cor da minha roupa", mas, na favela, o cara é assassinado pela cor da pele, irmão! Não é novidade pra gente. Infelizmente.

Que medidas sociais você acredita que podem melhorar esta realidade?
Vamo perguntar pro ministro da educação, pro ministro da cultura. Vamo perguntar pr’esses caras que têm que resolver isso. O que eu sei é que eu cresci num ambiente completamente hostil, de pobreza extrema. Mas rodeado de pessoas que fizeram de tudo para mudar a realidade. Talvez essa seja a resposta. Mas talvez não seja aceita, porque somos de favelas e não temos diplomas. E aí vão achar que é um discurso de um "não sei que lá", tá ligado? Porque tudo é desculpa para desmoralizar o cidadão brasileiro, mas a minha realidade é essa. Enquanto houver corrupção, não existe diálogo. É inocência falar de qualquer parada, "qual é o caminho", "qual a resposta"... É inocência, man. Já falei outra vez: 'cada corrupto que se dá bem, é um milhão que morre e nem se ligou'. É real isso. É em tudo. Por que o povo vai ficar saudável? Pra indústria farmacêutica não ganhar mais dinheiro? E aí a gente vai começar a puxar e vai vir um par de fita. Quem ganha com um cara com a autoestima lá pra baixo? Porque ele não vai lutar por um salário melhor... Quem ganha com a desmoralização das empresas que a União é dona? Quem vai ganhar muito dinheiro com isso? São muitos detalhes escancarados e muitos que não são vistos. Como tá a CLT? Como tá a lei de trabalho? "Opa, enquanto a gente mantém o povo um tretando com o outro, a gente vai resolvendo as fitas pequenas aqui!" Que não é tão pequena, não! A preocupação dos caras é manter o poder deles, custe o que custar. Isso tá bem claro. De todos os lados. Corrupção não tem partido. É uma coisa à parte disso. Corrupção é apartidária, é da essência humana.

A revelia de qualquer governo, você acredita que, como sociedade, o país tem melhorado?
Você vê cada vez mais os jovens no Brasil se organizando e lutando pelos seus direitos e direitos do outro também. Acho que isso é algo extremamente positivo, tem que ser valorizado, falado, propagado. Eu acho que cada vez mais as pessoas estão se organizando, dialogando, criando caminhos, opções, formas, jeitos de como se encaminhar nossa sociedade para algo melhor.

Você vê a música como um instrumento de mudança social?
Todas as expressões de arte vão contribuir com energia pro ser, com a música não seria diferente. É isso.

É o que você procura fazer?
Eu procuro viver a minha história, fazer minha vida.

E nesse ano, show do Ainda Há Tempo?
E do Convoque, né? Nós temos pouquíssimos shows do Ainda Há Tempo, uma celebração de dez anos desse disco e é isso.

Você vai tocar todas as músicas?
É, a espinha dorsal do número são as músicas do Ainda Há Tempo, mas tem de outras fases também.