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“Eu sempre pensei que B.B. King fosse morrer no palco. O palco cura”, diz Nuno Mindelis

por em 15/05/2015
E
m depoimento a Marcos Lauro
Eu conheci B.B. King muito cedo. Morava em Angola e minha mãe foi ao Canadá... os pais dela, meu avós, moravam lá. Eu tinha nove anos. Um primo já tinha uma banda de blues em Montreal e sabia que eu, um moleque em Luanda, já era muito interessado em música, tocava violão, etc. Ele me mandou vários discos compactos, singles. E tinha um compacto do B.B. King com “You're Mean” e “So Excited” [lançado em 1969]. Me lembro que tinha um selo da [gravadora] Atlantic, um selo lindo. Ouvi aquilo e foi uma sensação similar a essa sensação de ouvir algo de outro planeta. Junto com o compacto, meu primo mandou uma carta que dizia: “Preste atenção nesse. É promissor”! Era o começo meteórico e infernal dele. Foi quando começou a estourar pra plateias brancas. Mudou a minha vida. Em todo show que faço eu brinco com B.B. King, pergunto quem gosta, imito e tal. Ele foi minha escola e comecei a tocar copiando seu estilo nota por nota. Falo isso em todos os meus shows e ainda mostro como eu copiava. Costumo dedicar esse momento aos jovens que querem tocar blues. Digo: “copiem B.B. nota por nota”. Mas nunca tive coragem pra pedir pra dar uma canja com ele nas vezes em que o encontrei. Era meu maior sonho de todos os tempos. Num dos encontros, estava recomendado pelo dono da Alligator Records de Chicago... ele me elogiou e tudo. Disso eu me arrependo. Eu não peço pra dar canja... isso não existe. Você deve ser convidado. Mas no caso do B.B. King eu chego a me arrepender. Era o B.B. King! Pessoalmente ele era um doce. Tenho fotos com ele e só pelas fotos você já vê. Quem é de verdade é assim. Me lembro da estreia do B.B. King no Bourbon Street, aqui em São Paulo [13 de dezembro de 1993]. Casa abarrotada. O amplificador no máximo e ele tocando com velocidade, o que era muito raro. Ele usava notas curtas (dizia, brincando, que era pra economizar a guitarra). Mas lá a técnica dele estava diferente, o timbre bem saturado. Ele foi se empolgando e solando muito rápido. Nem sabia que o B.B. fazia aquilo! O solo econômico era uma marca. Ele queria ser T-Bone Walker, mas ele mesmo falava que não ia conseguir e arranjou seu próprio jeito. Quando ele apareceu com aquele fraseado novo, diferente, foi um choque! Tal qual Jimi Hendrix. B.B. foi revolucionário. Não há um guitarrista no planeta que toque blues e que não tenha o DNA dele. Que pena. Estou muito triste. Ele podia estar aí até os 100 anos. Ele ia morrer quando parasse de tocar. Toquei em Montreal em 2014 e ele estava lá. Houve críticas impiedosas...  disseram que ele estava desapontando a plateia, que falava muito nos shows. Pô, mas era o B.B.! Eu sempre pensei que B.B. King fosse morrer no palco. Porque o palco cura. Mas ele não conseguiu. ---------------------------------- Nuno Mindelis é reconhecido como um dos maiores guitarristas de blues do mundo. Seu disco mais recente é Angels & Clowns, de 2013. Morre, aos 89 anos, a lenda do blues B.B. King De catador de algodão a lenda do Blues; conheça a trajetória de B. B. King Saiba como foi um dos últimos shows de B. B. King no Brasil “Perdi aquele tio mais chegado, sabe?”, diz André Christovam sobre B.B. King
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“Eu sempre pensei que B.B. King fosse morrer no palco. O palco cura”, diz Nuno Mindelis

por em 15/05/2015
E
m depoimento a Marcos Lauro
Eu conheci B.B. King muito cedo. Morava em Angola e minha mãe foi ao Canadá... os pais dela, meu avós, moravam lá. Eu tinha nove anos. Um primo já tinha uma banda de blues em Montreal e sabia que eu, um moleque em Luanda, já era muito interessado em música, tocava violão, etc. Ele me mandou vários discos compactos, singles. E tinha um compacto do B.B. King com “You're Mean” e “So Excited” [lançado em 1969]. Me lembro que tinha um selo da [gravadora] Atlantic, um selo lindo. Ouvi aquilo e foi uma sensação similar a essa sensação de ouvir algo de outro planeta. Junto com o compacto, meu primo mandou uma carta que dizia: “Preste atenção nesse. É promissor”! Era o começo meteórico e infernal dele. Foi quando começou a estourar pra plateias brancas. Mudou a minha vida. Em todo show que faço eu brinco com B.B. King, pergunto quem gosta, imito e tal. Ele foi minha escola e comecei a tocar copiando seu estilo nota por nota. Falo isso em todos os meus shows e ainda mostro como eu copiava. Costumo dedicar esse momento aos jovens que querem tocar blues. Digo: “copiem B.B. nota por nota”. Mas nunca tive coragem pra pedir pra dar uma canja com ele nas vezes em que o encontrei. Era meu maior sonho de todos os tempos. Num dos encontros, estava recomendado pelo dono da Alligator Records de Chicago... ele me elogiou e tudo. Disso eu me arrependo. Eu não peço pra dar canja... isso não existe. Você deve ser convidado. Mas no caso do B.B. King eu chego a me arrepender. Era o B.B. King! Pessoalmente ele era um doce. Tenho fotos com ele e só pelas fotos você já vê. Quem é de verdade é assim. Me lembro da estreia do B.B. King no Bourbon Street, aqui em São Paulo [13 de dezembro de 1993]. Casa abarrotada. O amplificador no máximo e ele tocando com velocidade, o que era muito raro. Ele usava notas curtas (dizia, brincando, que era pra economizar a guitarra). Mas lá a técnica dele estava diferente, o timbre bem saturado. Ele foi se empolgando e solando muito rápido. Nem sabia que o B.B. fazia aquilo! O solo econômico era uma marca. Ele queria ser T-Bone Walker, mas ele mesmo falava que não ia conseguir e arranjou seu próprio jeito. Quando ele apareceu com aquele fraseado novo, diferente, foi um choque! Tal qual Jimi Hendrix. B.B. foi revolucionário. Não há um guitarrista no planeta que toque blues e que não tenha o DNA dele. Que pena. Estou muito triste. Ele podia estar aí até os 100 anos. Ele ia morrer quando parasse de tocar. Toquei em Montreal em 2014 e ele estava lá. Houve críticas impiedosas...  disseram que ele estava desapontando a plateia, que falava muito nos shows. Pô, mas era o B.B.! Eu sempre pensei que B.B. King fosse morrer no palco. Porque o palco cura. Mas ele não conseguiu. ---------------------------------- Nuno Mindelis é reconhecido como um dos maiores guitarristas de blues do mundo. Seu disco mais recente é Angels & Clowns, de 2013. Morre, aos 89 anos, a lenda do blues B.B. King De catador de algodão a lenda do Blues; conheça a trajetória de B. B. King Saiba como foi um dos últimos shows de B. B. King no Brasil “Perdi aquele tio mais chegado, sabe?”, diz André Christovam sobre B.B. King