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Feliz o povo que tem Caetano e Gil há 50 anos

por em 21/08/2015
C
aetano Veloso & Gilberto Gil - 20 de agosto - Citibank Hall/São Paulo
Por Lucas Borges Teixeira   Muito se falou sobre a turnê de comemoração de 50 anos de carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil antes mesmo de sua estreia no Brasil. A carta aberta de Roger Waters, em que pedia o cancelamento do show em Israel, deu à turnê grande repercussão internacional. Caetano respondeu e a dupla lotou teatros de Tel Aviv a Paris. Depois de dois meses na Europa, os baianos estrearam em solo tupiniquim nesta quinta-feira (20/08), no Citibank Hall, em São Paulo. Com trânsito carregado na capital, o público demorou a chegar e o show atrasou 30 min. Enquanto isso, quem já estava lá podia desfrutar dos preços pouco razoáveis da casa (R$ 10 por uma lata de cerveja ou R$ 40 por uma porção de fritas com queijo). A dupla entrou às 22h com "Back in Bahia" (Expresso 2222, 1972), animada e angustiante canção de Gil sobre o exílio em Londres, repaginada para dois violões e duas vozes. Caetano saudou o público e a garoa, que há tempos não dava as caras na cidade. Duas horas de show tentam a tarefa impossível de abordar um século de carreiras somadas. Há canções de todas as décadas: de "É de Manhã" (de Caetano, gravada por Bethânia em 1964) a "Não Tenho Medo da Morte", de Gil (Banda Larga Cordel, 2008). A novidade da noite, no entanto, foi a inédita "As Camélias do Quilombo do Leblon", uma marchinha de carnaval animada que faz referência à flor símbolo do movimento abolicionista. "Fizemos nessa madrugada, não sei se vamos lembrar a letra", avisou Caetano. Ao final, Gil, feliz, faz um sinal ao amigo. "Não é que foi?" Aos poucos, a felicidade baiana quebrou a seriedade da capital túmulo do samba, destacada pela excelente acústica do local. Toda a timidez do público já havia esvaecido quando, lá para o meio, Gil puxou "Toda Menina Baiana". A terra natal de ambos, inclusive, estava, como em suas obras, presente em todo momento. No cenário, a bandeira azul, vermelha e branca centralizada explicava "Eu Vim da Bahia" (de Gil, gravada por João Gilberto em 1973) e "Filhos de Gandhi" (Gil & Jorge, 1975). Teve até "Nossa Gente (Avisa Lá)", do Olodum. A sintonia da dupla assusta. Cinquenta anos depois de terem se conhecido em Salvador, é difícil imaginar o que seria da obra de um sem o outro. Talvez seja difícil pensar se haveria tais obras se eles nunca tivessem se cruzado. Por isso é tão impactante ver a felicidade de Caetano ao fazer a vez dos Mutantes quando Gil toca "Domingo no Parque" (1967) ou o rosto de admiração de Gil, com sorriso sereno, enquanto Caetano relembra "Nine Out of Ten" (Transa, 1972). Parte das canções não entrava no repertório de ambos há um tempo, caso de "Coração Vagabundo", que abre o primeiro disco de Caetano, com Gal Costa, em 1967. Mas as músicas não foram apenas resgatadas, foram repaginadas para a proposta mais intimista de apenas dois instrumentos. Como a versão carregada de Caetano em "Terra" (Muito, 1978) e da performance quase teatral de Gil em "Não Tenho Medo da Morte", só com batuque no violão. Violão este que foi um dos grandes destaques da noite, como em qualquer palco em que Gilberto Gil pisa. Ao contrário da voz, que mostra certos traços da idade, seu dedilhar é tão preciso e envolvente quanto há 30, 40 anos. Enquanto Caetano entoava a emblemática "Tropicália" (Caetano Veloso, 1968), com uma força que lembrou a irmã Bethânia, a viola do conterrâneo fazia um espetáculo à parte. Eles não ficaram apenas em composições próprias. Teve música em espanhol, em italiano, João Gilberto e Bob Marley (em inglês mesmo). Dos Doces Bárbaros (1976), teve a belíssima "Esotérico", de Gil, na época gravada por Bethânia e Gal Costa, e "São João, Xangô Menino", de ambos. E, do Tropicália 2, última das tantas reuniões dos dois, em 1993, "Desde que o Samba É Samba", de Caetano. Com cenário novo inspirado nas diferentes regiões do Brasil e um repertório que faz referência a diversas culturas do globo, a dupla mostra, com o suíngue baiano, a grandiosidade de um país que passa por uma leve crise de identidade. Feliz é o povo que tem Caetano Veloso e Gilberto Gil há 50 anos.
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3
Saudade
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4
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Maiara & Maraisa
5
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Marília Mendonça
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Feliz o povo que tem Caetano e Gil há 50 anos

por em 21/08/2015
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aetano Veloso & Gilberto Gil - 20 de agosto - Citibank Hall/São Paulo
Por Lucas Borges Teixeira   Muito se falou sobre a turnê de comemoração de 50 anos de carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil antes mesmo de sua estreia no Brasil. A carta aberta de Roger Waters, em que pedia o cancelamento do show em Israel, deu à turnê grande repercussão internacional. Caetano respondeu e a dupla lotou teatros de Tel Aviv a Paris. Depois de dois meses na Europa, os baianos estrearam em solo tupiniquim nesta quinta-feira (20/08), no Citibank Hall, em São Paulo. Com trânsito carregado na capital, o público demorou a chegar e o show atrasou 30 min. Enquanto isso, quem já estava lá podia desfrutar dos preços pouco razoáveis da casa (R$ 10 por uma lata de cerveja ou R$ 40 por uma porção de fritas com queijo). A dupla entrou às 22h com "Back in Bahia" (Expresso 2222, 1972), animada e angustiante canção de Gil sobre o exílio em Londres, repaginada para dois violões e duas vozes. Caetano saudou o público e a garoa, que há tempos não dava as caras na cidade. Duas horas de show tentam a tarefa impossível de abordar um século de carreiras somadas. Há canções de todas as décadas: de "É de Manhã" (de Caetano, gravada por Bethânia em 1964) a "Não Tenho Medo da Morte", de Gil (Banda Larga Cordel, 2008). A novidade da noite, no entanto, foi a inédita "As Camélias do Quilombo do Leblon", uma marchinha de carnaval animada que faz referência à flor símbolo do movimento abolicionista. "Fizemos nessa madrugada, não sei se vamos lembrar a letra", avisou Caetano. Ao final, Gil, feliz, faz um sinal ao amigo. "Não é que foi?" Aos poucos, a felicidade baiana quebrou a seriedade da capital túmulo do samba, destacada pela excelente acústica do local. Toda a timidez do público já havia esvaecido quando, lá para o meio, Gil puxou "Toda Menina Baiana". A terra natal de ambos, inclusive, estava, como em suas obras, presente em todo momento. No cenário, a bandeira azul, vermelha e branca centralizada explicava "Eu Vim da Bahia" (de Gil, gravada por João Gilberto em 1973) e "Filhos de Gandhi" (Gil & Jorge, 1975). Teve até "Nossa Gente (Avisa Lá)", do Olodum. A sintonia da dupla assusta. Cinquenta anos depois de terem se conhecido em Salvador, é difícil imaginar o que seria da obra de um sem o outro. Talvez seja difícil pensar se haveria tais obras se eles nunca tivessem se cruzado. Por isso é tão impactante ver a felicidade de Caetano ao fazer a vez dos Mutantes quando Gil toca "Domingo no Parque" (1967) ou o rosto de admiração de Gil, com sorriso sereno, enquanto Caetano relembra "Nine Out of Ten" (Transa, 1972). Parte das canções não entrava no repertório de ambos há um tempo, caso de "Coração Vagabundo", que abre o primeiro disco de Caetano, com Gal Costa, em 1967. Mas as músicas não foram apenas resgatadas, foram repaginadas para a proposta mais intimista de apenas dois instrumentos. Como a versão carregada de Caetano em "Terra" (Muito, 1978) e da performance quase teatral de Gil em "Não Tenho Medo da Morte", só com batuque no violão. Violão este que foi um dos grandes destaques da noite, como em qualquer palco em que Gilberto Gil pisa. Ao contrário da voz, que mostra certos traços da idade, seu dedilhar é tão preciso e envolvente quanto há 30, 40 anos. Enquanto Caetano entoava a emblemática "Tropicália" (Caetano Veloso, 1968), com uma força que lembrou a irmã Bethânia, a viola do conterrâneo fazia um espetáculo à parte. Eles não ficaram apenas em composições próprias. Teve música em espanhol, em italiano, João Gilberto e Bob Marley (em inglês mesmo). Dos Doces Bárbaros (1976), teve a belíssima "Esotérico", de Gil, na época gravada por Bethânia e Gal Costa, e "São João, Xangô Menino", de ambos. E, do Tropicália 2, última das tantas reuniões dos dois, em 1993, "Desde que o Samba É Samba", de Caetano. Com cenário novo inspirado nas diferentes regiões do Brasil e um repertório que faz referência a diversas culturas do globo, a dupla mostra, com o suíngue baiano, a grandiosidade de um país que passa por uma leve crise de identidade. Feliz é o povo que tem Caetano Veloso e Gilberto Gil há 50 anos.