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Fernanda Abreu: “Brasil não quer enxergar que é funk e favela”

Cantora lança álbum Amor Geral depois de 12 anos sem inéditas

Fernanda Abreu está nua. Não como na capa de Da Lata, seu maior êxito comercial, de 1995. Ela expõe a dor da perda da mãe e do fim de um casamento de 27 anos em seu mais recente disco, Amor Geral, distribuído pela Sony Music. As dez músicas condensam os 12 anos que Abreu ficou sem lançar um álbum de estúdio — Na Paz é de 2004. Nesse intervalo, sofreu os abalos que povoam os 36 minutos do disco.

“As vezes para o artista é meio difícil, porque é muita exposição. Meus discos anteriores tinham muita crônica, da relação do homem com a cidade. Aqui, as músicas são feitas para cada pessoa. Tem música que fiz para o Luiz [Stein], meu ex-marido, para minha mãe, para o Tuto [Ferraz, atual marido]”.

Fernanda conviveu com a mãe em coma por seis anos em casa, enquanto costurava as indagações de um longo casamento que chegava ao fim. Aos 50 anos, procurou pela primeira vez a análise. “Estava tentando entender como iria fazer. Minha mãe não tinha morrido, mas também não estava lá. Primeiro você acha que vai voltar; depois, quando vai se tornando impossível, você fica no limbo — você tem, mas não tem”.

Era então o momento de apanhar os lenços e livrar-se das lágrimas. Sentou no divã da analista e questionou a separação e a situação da mãe. Saiu com respostas diferentes das que apontavam antes da experiência — o amor geral, que dá nome ao álbum.

“Percebi que o amor é uma forma muita vigorosa e potente e ele é a resistência da pessoa” diz. “Aí entra aceitar o outro, as situações como elas são”.

O longo hiato sem discos era levado para as sessões de psicanálise. O material surgia, mas não de forma organizada e objetiva. Não sentava para compor até conhecer o baterista Tuto Ferraz. “Aí sim a força que vem da paixão, do encontro importante na vida, sacudiu. O Tuto falava: ‘Vejo você sempre se cobrando. E aí, vamos fazer?’ Ele montou a bateria, tirou meu teclado da caixa e começamos a ouvir músicas e compor e cantar. Do caos interno, há a transformação, o gatilho do começo de alguma coisa”.

“Outrossim”, a faixa de abertura, sintetiza a mudança. É pessoal, ao mesmo tempo que não é – já havia uma base de música e letra quando recebeu um telefonema de um de seus autores, Jovi Joviniano. “Ele cantou para mim no telefone e falei que era incrível”, lembra. “Contei minha história e disse que ela bateu de forma espetacular. Perguntei se incomodaria se mexesse um pouco na letra, na melodia, montar o refrão. E disseram para ir em frente. O sentimento era cotidiano, mas faltava a possiblidade – algo subjetivo, mais possível do que apenas ‘querer dar’ [no sentido sexual]”.

Foi a deixa para que a música sintetizasse suas dores e esperanças, seus fracassos e suas lições. “Veio outro negócio. ‘Outra cabeça, sentença/Outro recanto, encanto/Outra viagem, vertigem em outro mar/Outro sentido ou saída/Outra maneira ou medida/De dar a volta por cima, querendo dar.’ É o que quer quando se separa. É tão dolorido que outro recanto é tudo que você procura, porque você fica sem chão. E é uma vertigem – alguns dias, você nem sabe onde está. E achar essa medida de dar a volta por cima. É se ressignificar. É encontrar outros padrões e encontrar novas maneiras de ficar livre. Buscar outras medidas, outros ‘sims’, é a graça da vida”.

O desafio pessoal da ressignificação – um termo que Fernanda costuma repetir ao longo da entrevista — também entregou a acústica “Antídoto”, balada que expõe os conflitos internos diante da doença e da perda da mãe. Um dos trechos da letra diz querer “um antídoto que cure a tristeza/tarja preta não”.  “Em um determinando momento achei que era melhor tomar um Rivotril”, diz. “Não conseguia dormir. Meu médico falou: ‘toma um uisquinho, fuma um baseado’. Essa letra veio disso. Eu não sei tocar quase nada – sei um violão básico. Aí vêm essa melodia e a letra juntas. Totalmente Chico Xavier”.

A música, que expõe o sofrimento daqueles dias, teve a aprovação do irmão, Felipe. “Eu tinha acabado de falar na análise essa história de ir nas profundezas do mundo, tocar o fundo e subir. Não dá para sair de alguma coisa fingindo que não está acontecendo nada. Só não fiquei mais feliz porque a minha mãe não pode ouvir”.

Além da exposição de dramas pessoas, Fernanda Abreu voltou às referências de seus primeiros discos na faixa “Tambor”, em que divide os vocais com Afrika Bambaataa, considerado um dos “pais” do funk carioca. “Fomos no sentido contrário do funk de hoje, ‘despopizamos’. Juntamos uma ode ao tambor, o instrumento de comunicação entre as tribos, que está no candomblé e nas coisas mais essenciais e urbanas de batuque, e botamos uma levada daquela época mesmo, bem crua”.

A combinação é o eixo entre a produção atual e a discografia de Fernanda. Desde a estreia, com SLA Radical Dance Disco Club, de 1990, ela faz a conexão entre os ritmos urbanos e o pop. Desde a época, foi uma defensora do funk carioca, que acredita ter virado algo “mais butique” recentemente, com a ascensão de Anitta e Ludmilla.

“Sempre fui uma defensora do funk carioca. O que me incomodava era o preconceito. ‘Aquilo não é música, né?’. O funk carioca é uma expressão autêntica do morro. Fala de comportamento, de identidade. Senti que era um preconceito contra preto e contra pobre. A Anitta cantou uma MPB qualquer e vi ‘agora provou que é cantora’. A gente tenta ser mais próximo da Europa, dos EUA. Os caras na favela cantando funk é a cultura mais viva que a gente tem, e esse espelho o brasileiro não quer enxergar”.

Essa mistura enjaulada nos 54 anos de Fernanda é o que faz de Amor Geral o álbum mais pessoal da cantora. Há exposição e posição, ritmo e letra. “Eu não tinha saída. Esse era o disco que eu tinha que escrever. É a quantidade de vida vivida. Uma vez, perguntaram à [bailarina] Pina Bausch por que seus bailarinos tinham mais de 30 anos. E ela falou que não conseguiria fazer coreografias com quem não tivesse uma quantidade de vida vivida para dançar o que queria que dançassem e expressassem. A cidade me afeta, e as pessoas da cidade me afetam. A relação do homem com a cidade é muito rica. É igual à capa do disco: é a história da gente impressa, e a do mundo também, porque a gente afeta e é afetado. Eu quero ser afetada pelas coisas”.

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Fernanda Abreu: “Brasil não quer enxergar que é funk e favela”

Cantora lança álbum Amor Geral depois de 12 anos sem inéditas

por Marcos Sergio Silva em 07/07/2016

Fernanda Abreu está nua. Não como na capa de Da Lata, seu maior êxito comercial, de 1995. Ela expõe a dor da perda da mãe e do fim de um casamento de 27 anos em seu mais recente disco, Amor Geral, distribuído pela Sony Music. As dez músicas condensam os 12 anos que Abreu ficou sem lançar um álbum de estúdio — Na Paz é de 2004. Nesse intervalo, sofreu os abalos que povoam os 36 minutos do disco.

“As vezes para o artista é meio difícil, porque é muita exposição. Meus discos anteriores tinham muita crônica, da relação do homem com a cidade. Aqui, as músicas são feitas para cada pessoa. Tem música que fiz para o Luiz [Stein], meu ex-marido, para minha mãe, para o Tuto [Ferraz, atual marido]”.

Fernanda conviveu com a mãe em coma por seis anos em casa, enquanto costurava as indagações de um longo casamento que chegava ao fim. Aos 50 anos, procurou pela primeira vez a análise. “Estava tentando entender como iria fazer. Minha mãe não tinha morrido, mas também não estava lá. Primeiro você acha que vai voltar; depois, quando vai se tornando impossível, você fica no limbo — você tem, mas não tem”.

Era então o momento de apanhar os lenços e livrar-se das lágrimas. Sentou no divã da analista e questionou a separação e a situação da mãe. Saiu com respostas diferentes das que apontavam antes da experiência — o amor geral, que dá nome ao álbum.

“Percebi que o amor é uma forma muita vigorosa e potente e ele é a resistência da pessoa” diz. “Aí entra aceitar o outro, as situações como elas são”.

O longo hiato sem discos era levado para as sessões de psicanálise. O material surgia, mas não de forma organizada e objetiva. Não sentava para compor até conhecer o baterista Tuto Ferraz. “Aí sim a força que vem da paixão, do encontro importante na vida, sacudiu. O Tuto falava: ‘Vejo você sempre se cobrando. E aí, vamos fazer?’ Ele montou a bateria, tirou meu teclado da caixa e começamos a ouvir músicas e compor e cantar. Do caos interno, há a transformação, o gatilho do começo de alguma coisa”.

“Outrossim”, a faixa de abertura, sintetiza a mudança. É pessoal, ao mesmo tempo que não é – já havia uma base de música e letra quando recebeu um telefonema de um de seus autores, Jovi Joviniano. “Ele cantou para mim no telefone e falei que era incrível”, lembra. “Contei minha história e disse que ela bateu de forma espetacular. Perguntei se incomodaria se mexesse um pouco na letra, na melodia, montar o refrão. E disseram para ir em frente. O sentimento era cotidiano, mas faltava a possiblidade – algo subjetivo, mais possível do que apenas ‘querer dar’ [no sentido sexual]”.

Foi a deixa para que a música sintetizasse suas dores e esperanças, seus fracassos e suas lições. “Veio outro negócio. ‘Outra cabeça, sentença/Outro recanto, encanto/Outra viagem, vertigem em outro mar/Outro sentido ou saída/Outra maneira ou medida/De dar a volta por cima, querendo dar.’ É o que quer quando se separa. É tão dolorido que outro recanto é tudo que você procura, porque você fica sem chão. E é uma vertigem – alguns dias, você nem sabe onde está. E achar essa medida de dar a volta por cima. É se ressignificar. É encontrar outros padrões e encontrar novas maneiras de ficar livre. Buscar outras medidas, outros ‘sims’, é a graça da vida”.

O desafio pessoal da ressignificação – um termo que Fernanda costuma repetir ao longo da entrevista — também entregou a acústica “Antídoto”, balada que expõe os conflitos internos diante da doença e da perda da mãe. Um dos trechos da letra diz querer “um antídoto que cure a tristeza/tarja preta não”.  “Em um determinando momento achei que era melhor tomar um Rivotril”, diz. “Não conseguia dormir. Meu médico falou: ‘toma um uisquinho, fuma um baseado’. Essa letra veio disso. Eu não sei tocar quase nada – sei um violão básico. Aí vêm essa melodia e a letra juntas. Totalmente Chico Xavier”.

A música, que expõe o sofrimento daqueles dias, teve a aprovação do irmão, Felipe. “Eu tinha acabado de falar na análise essa história de ir nas profundezas do mundo, tocar o fundo e subir. Não dá para sair de alguma coisa fingindo que não está acontecendo nada. Só não fiquei mais feliz porque a minha mãe não pode ouvir”.

Além da exposição de dramas pessoas, Fernanda Abreu voltou às referências de seus primeiros discos na faixa “Tambor”, em que divide os vocais com Afrika Bambaataa, considerado um dos “pais” do funk carioca. “Fomos no sentido contrário do funk de hoje, ‘despopizamos’. Juntamos uma ode ao tambor, o instrumento de comunicação entre as tribos, que está no candomblé e nas coisas mais essenciais e urbanas de batuque, e botamos uma levada daquela época mesmo, bem crua”.

A combinação é o eixo entre a produção atual e a discografia de Fernanda. Desde a estreia, com SLA Radical Dance Disco Club, de 1990, ela faz a conexão entre os ritmos urbanos e o pop. Desde a época, foi uma defensora do funk carioca, que acredita ter virado algo “mais butique” recentemente, com a ascensão de Anitta e Ludmilla.

“Sempre fui uma defensora do funk carioca. O que me incomodava era o preconceito. ‘Aquilo não é música, né?’. O funk carioca é uma expressão autêntica do morro. Fala de comportamento, de identidade. Senti que era um preconceito contra preto e contra pobre. A Anitta cantou uma MPB qualquer e vi ‘agora provou que é cantora’. A gente tenta ser mais próximo da Europa, dos EUA. Os caras na favela cantando funk é a cultura mais viva que a gente tem, e esse espelho o brasileiro não quer enxergar”.

Essa mistura enjaulada nos 54 anos de Fernanda é o que faz de Amor Geral o álbum mais pessoal da cantora. Há exposição e posição, ritmo e letra. “Eu não tinha saída. Esse era o disco que eu tinha que escrever. É a quantidade de vida vivida. Uma vez, perguntaram à [bailarina] Pina Bausch por que seus bailarinos tinham mais de 30 anos. E ela falou que não conseguiria fazer coreografias com quem não tivesse uma quantidade de vida vivida para dançar o que queria que dançassem e expressassem. A cidade me afeta, e as pessoas da cidade me afetam. A relação do homem com a cidade é muito rica. É igual à capa do disco: é a história da gente impressa, e a do mundo também, porque a gente afeta e é afetado. Eu quero ser afetada pelas coisas”.