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Henrique Andrade, o brasileiro que trabalhou com Bieber, Zayn e Fifth Harmony

Produtor musical e engenheiro de som, ele largou tudo no Brasil e foi atrás da carreira em Los Angeles, onde conseguiu emprego no tradicional estúdio Record Plant

por Rebecca Silva em 28/05/2018

O desafio de romper barreiras físicas, linguísticas e culturais costuma seduzir apenas alguns brasileiros que anseiam o sucesso internacional. A lista não é muito extensa. Poucos são os artistas que se tornaram reconhecidos pelo seu trabalho em terras estrangeiras, sendo Anitta a mais recente adição à lista. Mas, enquanto todos se distraem com os holofotes dos clipes super produzidos, premiações e entrevistas com grandes veículos, tem brasileiro comendo quieto nos bastidores e indo longe.

Um exemplo é Henrique Andrade, produtor musical e engenheiro de som, ganhador de dois Grammy Latino pelo trabalho com Juanes e com o nome creditado em álbuns de figurinhas importantes para o pop atual, como Justin Bieber, Zayn, Fifth Harmony, Rita Ora e Carly Rae Jepsen. É dele, inclusive, a produção de "Entertainer", single mais recente do ex-One Direction. “O Zayn é um gênio que sempre desafia a música pop e foi uma honra quando ele me convidou para ajudar a produzir”, disse o brasileiro.

Nascido em Manaus, Andrade cresceu envolvido no mundo da música. Dos familiares instrumentistas ao tio materno produtor de eventos, ele sempre se viu rodeado - e encantado - pela música. Na adolescência, já em Brasília, começou a montar bandinhas de garagem, como muitos outros garotos da sua idade. Os bicos como locutor o levaram para dentro do estúdio e, de lá, ele não saiu mais.

Depois de trabalhar na cidade produzindo os discos de pequenas bandas como hobby, Andrade percebeu que estava chegando ao seu limite como profissional. Precisava expandir, estudar produção musical, crescer e não via a possibilidade de fazer isso no Brasil. Então, largou a faculdade de Administração, vendeu tudo o que tinha e embarcou para os Estados Unidos. Lá, o jovem que nunca tinha conseguido se enquadrar no sistema escolar se tornou o melhor aluno, com direito a estágio em um dos mais tradicionais estúdios de Los Angeles, o Record Plant. Começou como “faz tudo” e foi crescendo.

Na doida falta de rotina da indústria, com seus horários nada comerciais, Andrade topou conversar com a Billboard Brasil sobre suas experiências com grandes nomes da música mundial, os desafios da profissão e o cenário atual da música brasileira, tudo depois de uma sessão de estúdio com ninguém menos que Nicole Scherzinger (ex-Pussycat Dolls):

Quais são os maiores desafios de trabalhar nos bastidores da indústria musical?

No estúdio, a gente começa como “runner”, um tipo de “faz tudo”. Fui o melhor aluno da escola, tinha background do Brasil no currículo, mas todos começam do mesmo modo. Meu papel era comprar comida, limpar banheiro e estúdio, enrolar cabo. É um processo interessante. Chato para quem está passando, mas é impossível conhecer alguém o suficiente para colocar na sala com um artista desse porte sem ver como a pessoa se comporta, como lida com problemas. Quando eu consegui esse emprego, eu tinha certeza de que minha vida estava resolvida. Vi várias pessoas que passaram por esse mesmo caminho, que começaram como “faz tudo”, viraram assistentes, depois engenheiros e tiveram uma carreira absurda. Meus ídolos fizeram isso e alguns no mesmo estúdio. Se permitir começar do nada, abaixar a cabeça e fazer algo “baixo”, como isso, poucas pessoas querem. Não é todo mundo que está disposto a trabalhar das 00h às 9h, no sol quente, comprando batata frita no McDonald's e Coca-Cola no Burger King para levar em uma bandeja de prata para o amigo do rapper. Não era nem para o artista! [risos] Esse foi o momento mais legal. Hoje é bacana olhar pra trás e ver tudo isso, mas foram uns dois anos fazendo nada. Meus amigos do Brasil me ligavam perguntando “e aí, está gravando quem aí?” e eu estava limpando banheiro, comprando esmalte, meia, microfone, qualquer coisa que precisassem na sessão. Ter tido paciência e humildade para passar por esse momento garantiram a relação que tenho na indústria hoje. O Record Plant é um polo de artistas, compositores, produtores. Mesmo como“faz tudo”, você está no mesmo prédio do Top 40 da Billboard, você desenvolve relações com essas pessoas.

Nesse meio tempo, eu pirei, tive altos momentos de crise. Teve várias momentos em que sentei na calçada e pensei: “Chega, não aguento mais”. Recebia ligação de madrugada. Passei dois anos trabalhando no disco do Justin Bieber e recebia ligação que dizia: “Ele está a 20 minutos do estúdio”. Largava tudo e saía correndo. Nessa fase, perdi coisas incríveis que não têm volta. Tem que colocar na conta do sacrifício. O nível de estresse... Antes eu não sabia o que era estresse. Pela minha imaturidade, não lidei de forma correta com várias coisas. Perdi um relacionamento incrível, altas brigas com pais e amigos. Por uns seis, sete anos, você fica rejeitado dos eventos sociais. É um preço muito caro que pouca gente quer pagar. Eu também não queria, mas tive que aprender. Foram essas oportunidades que me tornaram estatística de vir pra cá e dar certo.

Como foi esse caminho de “faz tudo” até engenheiro assistente em sessões de nomes como Justin Bieber, Zayn e Fifth Harmony?

Depois de ser “faz tudo”, você vira o recepcionista do estúdio. É um lugar comum onde essas pessoas sentam pra conversar. Eu sabia que aquele não era o meu fim, eu não vim fazer serviço de limpeza. É mais fácil quando você acredita, está focado, se vê no próximo passo. Estou começando a perceber mais e mais que os resultados se deram por essas relações. Na época que eu entrei na sessão do Bieber, ele tinha mandado embora cinco assistentes do estúdio. O que acontece nas sessões é que o Bieber traz o engenheiro dele e precisa de um assistente no estúdio para ajudar em qualquer coisa, caso precisem. Você aprende muito. Ele tinha rejeitado cinco pessoas antes de mim e, quando me colocaram na sessão, fiquei o dia inteiro lá. Acho que foi a parada de ficar confortável com as pessoas, de quebrar a ideia do ídolo, entender que todos estão ali trabalhando. Não é o que se vê no Instagram, é um ser humano normal. Tem conta bancária e uma fama bem diferente da gente, mas é fruto das mesmas coisas. Eu consegui cativar as pessoas.

A fama é algo construído. Essas pessoas viram marcas, produtos. São colocadas no mercado depois de análises de potencial que definem a estrutura que vai ser dada. Esses artistas “teen” são os mais legais. O que é mais impressionante com essa galera é a maturidade, o que eles evoluem como pessoa estando nesse mercado. O Bieber virou empresa aos 13 anos de idade e isso é muito doido, o impacto que isso causa na pessoa... Ele era responsável por trazer o dinheiro para casa. Ele é uma vítima do próprio talento. É um cara absurdamente talentoso. Toca bateria, guitarra, baixo, piano, canta muito bem. Tem um timbre que é dócil, não é uma voz forte masculina, nem feminina. Me disseram uma vez que é angelical e eu concordo. Ele é uma pessoa ambiciosa, né? Ambição faz as pessoas se dedicarem. Ele teve a oportunidade de aprender e se dedicar e acho que ele conquistou tudo com muito mérito.

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Alguma história de bastidores de gravações interessante ou curiosa?

Quando se faz um disco, tem muito choro, muita psicologia, criamos uma relação de intimidade. Na minha primeira sessão de engenheiro com o Biebe conversamos por umas seis horas e gravamos por duas, acho. Assistir de perto essa galera crescer dá o maior orgulho, aquela sensação de quem ajudou de alguma forma. Esse momento de transição tem muita frustração, mas tem muito orgulho. Eles são internacionalmente famosos, mas vivem uma parada limitante, querem ter autonomia.

Vivi meses com o Bieber em que ele estava indo pra igreja, dormindo cedo, não estava tão rockstar e ninguém queria saber. Ele teve uma lucidez que não vi muitos adultos terem até hoje. Nas últimas semanas, ele estava evitando gravar, ficava dando desculpas, enrolou muito. Ele foi muito eloquente de falar, em uma reunião pedida pelos empresários dele para saber o que estava acontecendo, que a partir do momento que ele lançasse o disco, ia voltar pra estrada, trabalhar, ser popstar de novo. Ele tinha 21 anos. Queria viver. Eu recebi vários cartões de paparazzi, pedindo pra eu dar dicas, me oferecendo dinheiro e tal. É ridículo, mas é uma indústria e eu entendo. 

Ter meu nome nos créditos desse álbum é surreal. Cheguei em Brasília, saí pra almoçar com uns amigos, entramos na loja de disco. Meu amigo falou para a vendedora que eu tinha trabalhado com o Bieber e ela não acreditou. Até aquele momento, eu não tinha comprado o disco. Rolou um orgulho muito grande nessa hora.

Essa procura por autonomia e amadurecimento é algo notável nos discos de Bieber e Zayn.

A coisa que eles mais queriam era autonomia, queriam escrever, participar da escolha de cada beat. Começamos o disco do Bieber com muito trap, que estava começando a virar mainstream nos EUA. Ele se influenciou muito no R&B, gosta muito de cantar, trazer essas melodias. Em termos musicais, as coisas foram mudando. Até um dia que a gente estava ouvindo as músicas e o Skrillex disse que seria referência musical por muito tempo. O processo todo demorou muito, foram 117 faixas pra virar 18. Ele trabalhou com muitos produtores, teve muita música que não saiu, muita coisa pessoal que não estava no momento certo de sair. Tem coisas que ele escreveu que são incríveis e que o mundo precisa ouvir. Algumas, o Poo Bear está lançando em seu novo projeto. Foi muito legal participar dessa transição e ver o Bieber se provar como adulto e não apenas um menininho de cara bonita.

No Brasil, você trabalhou em Brasília, onde morava. Teve a oportunidade de produzir no eixo Rio-São Paulo, onde ficam concentrados os maiores estúdios, gravadoras e, é claro, o dinheiro?

Quando acabou meu visto, eu voltei pro Brasil para renovar e mixei o último disco do Móveis Coloniais de Acaju, que foi produzido pelo Miranda. Nessa época, foi quando eu mais me aproximei do mainstream, do eixo Rio-SP. Ouvi as histórias, conheci as pessoas, entendi a indústria. Entendi que os limites eram muito pequenos no Brasil para o que eu queria. As coisas acontecem, no meu ponto de vista, de forma amadora. A gente perde muito por ter uma burocracia absurda. O Brasil é muito pequeno ainda, infelizmente. Precisa crescer, se renovar. O potencial artístico e de pessoas é absurdo, mas não tem estrutura. Quando cheguei aqui, foi esse o choque. A maior porrada que já vi. Numa dessas sessões que eu estava, chegou um famoso DJ e produtor e disse que tinha acabado de chegar do Brasil, uma das maiores economias musicais do mundo e que não sabíamos tirar proveito disso. Acho que é um reflexo da economia. Desigualdade social não é só financeira, é cultural. No Brasil, só existem polos, não tem meio do caminho. Um dos efeitos colaterais disso é a falta de talento. A gente é ceifado, limitado. Você impede que uma estrutura grande exista.

A música latina está crescendo. Acha que a música brasileira tem chance de se destacar e virar tendência, como foi com o reggaeton?

O maior desafio para a música brasileira é a língua, somos muito ilhados, o português nos isola, além da estrutura de mercado que não conquistamos ainda no melhor cenário. O nosso mercado é muito grande, o Brasil é um dos maiores consumidores de música do mundo. A gente tem uma identidade, um público que consome nosso produto de forma gigantesca. Tem coisas muito legais vindo do Brasil, acho que tem que ter muito mais coisa local, uma valorização do que temos do ponto de vista rítmico, do que herdamos. O Brasil é bonito por ser muito plural, mas temos que ser competitivos tecnicamente.

É isso que todo mundo dos Estados Unidos está querendo. O que eu vejo, artisticamente, é que querem ver o brasileiro como brasileiro. É muito difícil, mas a gente precisa ter orgulho de fazer produções com a nossa cara. O funk é incrível, é uma parada muito boa e que tem evoluído muito em termos de produção e artistas. Vamos abraçar o que é nosso. Queria que o Brasil tivesse a autoestima para ter o mercado que merece.

Como foi receber a notícia das indicações ao Grammy e, depois, das vitórias? Uma delas foi justamente pela parte técnica no álbum do Juanes, Mis Planes Son Amarte, certo?

O Grammy foi uma parada muito doida, de verdade. Essa sessão toda foi o maior surto. Eu achei que ia gravar a voz do Juanes. A sessão foi marcada com antecedência, lógico, mas os detalhes não chegaram a tempo. Duas horas antes de ir para o estúdio, recebi os e-mails dizendo que era baixo, guitarra, bateria, piano, tudo, e precisava correr atrás, tentar empréstimos com as empresas do setor. Tive que fazer correndo e, pela relação de longa data que temos com a galera, eles trouxeram. Cheguei um pouco antes para preparar e ele chegou absurdamente no horário. Rolou uma interação, nos conhecemos, aí ele virou e falou: “Vamos começar”. Os assistentes ainda estavam trazendo cabos, não tinha um instrumento na sala. Expliquei para ele o problema de comunicação, que ia receber as coisas com atraso. Na hora, pensei que dizer isso para alguém como Juanes significaria o meu fim. “Ele vai pensar que não sei fazer o que fui contratado para fazer", pensei. Rolou um momento de tensão. Numa sessão dessas, normalmente vamos no dia anterior, checamos tudo, escolhemos microfone, decidimos a cara do disco. Ter feito tudo isso com ele atrás de mim, na hora, sem chance de pensar com calma,foi um desafio absurdo. Fazer todas as escolhas ali e gravar na mesma hora... Foi uma das coisas mais legais que já aconteceram comigo. Um pouco como eram as gravações antes, orgânicas. O pouco que conversamos e com o pouco que eu tinha, conseguimostransformar o resultado em algo incrível. Usei todo o meu aprendizado com um artista daquele tamanho e um projeto daquele tamanho.

Acordei com o Josh [produtor com quem Andrade também trabalhou no disco de Bieber] me mandando mensagem de texto. Eu sou muito avoado. Não sigo essas coisas, não compro os discos nos quais trabalhei, não sou nada supersticioso... Acho que sou doido [risos]. Não estava acreditando que fui nomeado ao Grammy. A coisa mais legal para mim, sem papo humilde, foi meus pais. Eles vieram para cá, foram na premiação comigo. Foi muito incrível. Minhas maiores memórias são da cara dos dois, como duas crianças chocadas, deslumbradas, não entendendo como a vida podia ser tão legal. Nesse sentido, por todo o esforço que tiveram comigo na vida acadêmica, que mandei mal, meu maior orgulho foi dar pra eles em vida essa homenagem, que o trabalho deles, eu, foi honrado com a premiação máxima da música. É mais para eles do que para mim. Tenho que continuar trabalhando, é um copo d’água no início da maratona. Eles merecem mais do que eu, vou trabalhar mais um pouco.

 

 

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Produtor musical e engenheiro de som, ele largou tudo no Brasil e foi atrás da carreira em Los Angeles, onde conseguiu emprego no tradicional estúdio Record Plant

por Rebecca Silva em 28/05/2018

O desafio de romper barreiras físicas, linguísticas e culturais costuma seduzir apenas alguns brasileiros que anseiam o sucesso internacional. A lista não é muito extensa. Poucos são os artistas que se tornaram reconhecidos pelo seu trabalho em terras estrangeiras, sendo Anitta a mais recente adição à lista. Mas, enquanto todos se distraem com os holofotes dos clipes super produzidos, premiações e entrevistas com grandes veículos, tem brasileiro comendo quieto nos bastidores e indo longe.

Um exemplo é Henrique Andrade, produtor musical e engenheiro de som, ganhador de dois Grammy Latino pelo trabalho com Juanes e com o nome creditado em álbuns de figurinhas importantes para o pop atual, como Justin Bieber, Zayn, Fifth Harmony, Rita Ora e Carly Rae Jepsen. É dele, inclusive, a produção de "Entertainer", single mais recente do ex-One Direction. “O Zayn é um gênio que sempre desafia a música pop e foi uma honra quando ele me convidou para ajudar a produzir”, disse o brasileiro.

Nascido em Manaus, Andrade cresceu envolvido no mundo da música. Dos familiares instrumentistas ao tio materno produtor de eventos, ele sempre se viu rodeado - e encantado - pela música. Na adolescência, já em Brasília, começou a montar bandinhas de garagem, como muitos outros garotos da sua idade. Os bicos como locutor o levaram para dentro do estúdio e, de lá, ele não saiu mais.

Depois de trabalhar na cidade produzindo os discos de pequenas bandas como hobby, Andrade percebeu que estava chegando ao seu limite como profissional. Precisava expandir, estudar produção musical, crescer e não via a possibilidade de fazer isso no Brasil. Então, largou a faculdade de Administração, vendeu tudo o que tinha e embarcou para os Estados Unidos. Lá, o jovem que nunca tinha conseguido se enquadrar no sistema escolar se tornou o melhor aluno, com direito a estágio em um dos mais tradicionais estúdios de Los Angeles, o Record Plant. Começou como “faz tudo” e foi crescendo.

Na doida falta de rotina da indústria, com seus horários nada comerciais, Andrade topou conversar com a Billboard Brasil sobre suas experiências com grandes nomes da música mundial, os desafios da profissão e o cenário atual da música brasileira, tudo depois de uma sessão de estúdio com ninguém menos que Nicole Scherzinger (ex-Pussycat Dolls):

Quais são os maiores desafios de trabalhar nos bastidores da indústria musical?

No estúdio, a gente começa como “runner”, um tipo de “faz tudo”. Fui o melhor aluno da escola, tinha background do Brasil no currículo, mas todos começam do mesmo modo. Meu papel era comprar comida, limpar banheiro e estúdio, enrolar cabo. É um processo interessante. Chato para quem está passando, mas é impossível conhecer alguém o suficiente para colocar na sala com um artista desse porte sem ver como a pessoa se comporta, como lida com problemas. Quando eu consegui esse emprego, eu tinha certeza de que minha vida estava resolvida. Vi várias pessoas que passaram por esse mesmo caminho, que começaram como “faz tudo”, viraram assistentes, depois engenheiros e tiveram uma carreira absurda. Meus ídolos fizeram isso e alguns no mesmo estúdio. Se permitir começar do nada, abaixar a cabeça e fazer algo “baixo”, como isso, poucas pessoas querem. Não é todo mundo que está disposto a trabalhar das 00h às 9h, no sol quente, comprando batata frita no McDonald's e Coca-Cola no Burger King para levar em uma bandeja de prata para o amigo do rapper. Não era nem para o artista! [risos] Esse foi o momento mais legal. Hoje é bacana olhar pra trás e ver tudo isso, mas foram uns dois anos fazendo nada. Meus amigos do Brasil me ligavam perguntando “e aí, está gravando quem aí?” e eu estava limpando banheiro, comprando esmalte, meia, microfone, qualquer coisa que precisassem na sessão. Ter tido paciência e humildade para passar por esse momento garantiram a relação que tenho na indústria hoje. O Record Plant é um polo de artistas, compositores, produtores. Mesmo como“faz tudo”, você está no mesmo prédio do Top 40 da Billboard, você desenvolve relações com essas pessoas.

Nesse meio tempo, eu pirei, tive altos momentos de crise. Teve várias momentos em que sentei na calçada e pensei: “Chega, não aguento mais”. Recebia ligação de madrugada. Passei dois anos trabalhando no disco do Justin Bieber e recebia ligação que dizia: “Ele está a 20 minutos do estúdio”. Largava tudo e saía correndo. Nessa fase, perdi coisas incríveis que não têm volta. Tem que colocar na conta do sacrifício. O nível de estresse... Antes eu não sabia o que era estresse. Pela minha imaturidade, não lidei de forma correta com várias coisas. Perdi um relacionamento incrível, altas brigas com pais e amigos. Por uns seis, sete anos, você fica rejeitado dos eventos sociais. É um preço muito caro que pouca gente quer pagar. Eu também não queria, mas tive que aprender. Foram essas oportunidades que me tornaram estatística de vir pra cá e dar certo.

Como foi esse caminho de “faz tudo” até engenheiro assistente em sessões de nomes como Justin Bieber, Zayn e Fifth Harmony?

Depois de ser “faz tudo”, você vira o recepcionista do estúdio. É um lugar comum onde essas pessoas sentam pra conversar. Eu sabia que aquele não era o meu fim, eu não vim fazer serviço de limpeza. É mais fácil quando você acredita, está focado, se vê no próximo passo. Estou começando a perceber mais e mais que os resultados se deram por essas relações. Na época que eu entrei na sessão do Bieber, ele tinha mandado embora cinco assistentes do estúdio. O que acontece nas sessões é que o Bieber traz o engenheiro dele e precisa de um assistente no estúdio para ajudar em qualquer coisa, caso precisem. Você aprende muito. Ele tinha rejeitado cinco pessoas antes de mim e, quando me colocaram na sessão, fiquei o dia inteiro lá. Acho que foi a parada de ficar confortável com as pessoas, de quebrar a ideia do ídolo, entender que todos estão ali trabalhando. Não é o que se vê no Instagram, é um ser humano normal. Tem conta bancária e uma fama bem diferente da gente, mas é fruto das mesmas coisas. Eu consegui cativar as pessoas.

A fama é algo construído. Essas pessoas viram marcas, produtos. São colocadas no mercado depois de análises de potencial que definem a estrutura que vai ser dada. Esses artistas “teen” são os mais legais. O que é mais impressionante com essa galera é a maturidade, o que eles evoluem como pessoa estando nesse mercado. O Bieber virou empresa aos 13 anos de idade e isso é muito doido, o impacto que isso causa na pessoa... Ele era responsável por trazer o dinheiro para casa. Ele é uma vítima do próprio talento. É um cara absurdamente talentoso. Toca bateria, guitarra, baixo, piano, canta muito bem. Tem um timbre que é dócil, não é uma voz forte masculina, nem feminina. Me disseram uma vez que é angelical e eu concordo. Ele é uma pessoa ambiciosa, né? Ambição faz as pessoas se dedicarem. Ele teve a oportunidade de aprender e se dedicar e acho que ele conquistou tudo com muito mérito.

henriquegrammy2

Alguma história de bastidores de gravações interessante ou curiosa?

Quando se faz um disco, tem muito choro, muita psicologia, criamos uma relação de intimidade. Na minha primeira sessão de engenheiro com o Biebe conversamos por umas seis horas e gravamos por duas, acho. Assistir de perto essa galera crescer dá o maior orgulho, aquela sensação de quem ajudou de alguma forma. Esse momento de transição tem muita frustração, mas tem muito orgulho. Eles são internacionalmente famosos, mas vivem uma parada limitante, querem ter autonomia.

Vivi meses com o Bieber em que ele estava indo pra igreja, dormindo cedo, não estava tão rockstar e ninguém queria saber. Ele teve uma lucidez que não vi muitos adultos terem até hoje. Nas últimas semanas, ele estava evitando gravar, ficava dando desculpas, enrolou muito. Ele foi muito eloquente de falar, em uma reunião pedida pelos empresários dele para saber o que estava acontecendo, que a partir do momento que ele lançasse o disco, ia voltar pra estrada, trabalhar, ser popstar de novo. Ele tinha 21 anos. Queria viver. Eu recebi vários cartões de paparazzi, pedindo pra eu dar dicas, me oferecendo dinheiro e tal. É ridículo, mas é uma indústria e eu entendo. 

Ter meu nome nos créditos desse álbum é surreal. Cheguei em Brasília, saí pra almoçar com uns amigos, entramos na loja de disco. Meu amigo falou para a vendedora que eu tinha trabalhado com o Bieber e ela não acreditou. Até aquele momento, eu não tinha comprado o disco. Rolou um orgulho muito grande nessa hora.

Essa procura por autonomia e amadurecimento é algo notável nos discos de Bieber e Zayn.

A coisa que eles mais queriam era autonomia, queriam escrever, participar da escolha de cada beat. Começamos o disco do Bieber com muito trap, que estava começando a virar mainstream nos EUA. Ele se influenciou muito no R&B, gosta muito de cantar, trazer essas melodias. Em termos musicais, as coisas foram mudando. Até um dia que a gente estava ouvindo as músicas e o Skrillex disse que seria referência musical por muito tempo. O processo todo demorou muito, foram 117 faixas pra virar 18. Ele trabalhou com muitos produtores, teve muita música que não saiu, muita coisa pessoal que não estava no momento certo de sair. Tem coisas que ele escreveu que são incríveis e que o mundo precisa ouvir. Algumas, o Poo Bear está lançando em seu novo projeto. Foi muito legal participar dessa transição e ver o Bieber se provar como adulto e não apenas um menininho de cara bonita.

No Brasil, você trabalhou em Brasília, onde morava. Teve a oportunidade de produzir no eixo Rio-São Paulo, onde ficam concentrados os maiores estúdios, gravadoras e, é claro, o dinheiro?

Quando acabou meu visto, eu voltei pro Brasil para renovar e mixei o último disco do Móveis Coloniais de Acaju, que foi produzido pelo Miranda. Nessa época, foi quando eu mais me aproximei do mainstream, do eixo Rio-SP. Ouvi as histórias, conheci as pessoas, entendi a indústria. Entendi que os limites eram muito pequenos no Brasil para o que eu queria. As coisas acontecem, no meu ponto de vista, de forma amadora. A gente perde muito por ter uma burocracia absurda. O Brasil é muito pequeno ainda, infelizmente. Precisa crescer, se renovar. O potencial artístico e de pessoas é absurdo, mas não tem estrutura. Quando cheguei aqui, foi esse o choque. A maior porrada que já vi. Numa dessas sessões que eu estava, chegou um famoso DJ e produtor e disse que tinha acabado de chegar do Brasil, uma das maiores economias musicais do mundo e que não sabíamos tirar proveito disso. Acho que é um reflexo da economia. Desigualdade social não é só financeira, é cultural. No Brasil, só existem polos, não tem meio do caminho. Um dos efeitos colaterais disso é a falta de talento. A gente é ceifado, limitado. Você impede que uma estrutura grande exista.

A música latina está crescendo. Acha que a música brasileira tem chance de se destacar e virar tendência, como foi com o reggaeton?

O maior desafio para a música brasileira é a língua, somos muito ilhados, o português nos isola, além da estrutura de mercado que não conquistamos ainda no melhor cenário. O nosso mercado é muito grande, o Brasil é um dos maiores consumidores de música do mundo. A gente tem uma identidade, um público que consome nosso produto de forma gigantesca. Tem coisas muito legais vindo do Brasil, acho que tem que ter muito mais coisa local, uma valorização do que temos do ponto de vista rítmico, do que herdamos. O Brasil é bonito por ser muito plural, mas temos que ser competitivos tecnicamente.

É isso que todo mundo dos Estados Unidos está querendo. O que eu vejo, artisticamente, é que querem ver o brasileiro como brasileiro. É muito difícil, mas a gente precisa ter orgulho de fazer produções com a nossa cara. O funk é incrível, é uma parada muito boa e que tem evoluído muito em termos de produção e artistas. Vamos abraçar o que é nosso. Queria que o Brasil tivesse a autoestima para ter o mercado que merece.

Como foi receber a notícia das indicações ao Grammy e, depois, das vitórias? Uma delas foi justamente pela parte técnica no álbum do Juanes, Mis Planes Son Amarte, certo?

O Grammy foi uma parada muito doida, de verdade. Essa sessão toda foi o maior surto. Eu achei que ia gravar a voz do Juanes. A sessão foi marcada com antecedência, lógico, mas os detalhes não chegaram a tempo. Duas horas antes de ir para o estúdio, recebi os e-mails dizendo que era baixo, guitarra, bateria, piano, tudo, e precisava correr atrás, tentar empréstimos com as empresas do setor. Tive que fazer correndo e, pela relação de longa data que temos com a galera, eles trouxeram. Cheguei um pouco antes para preparar e ele chegou absurdamente no horário. Rolou uma interação, nos conhecemos, aí ele virou e falou: “Vamos começar”. Os assistentes ainda estavam trazendo cabos, não tinha um instrumento na sala. Expliquei para ele o problema de comunicação, que ia receber as coisas com atraso. Na hora, pensei que dizer isso para alguém como Juanes significaria o meu fim. “Ele vai pensar que não sei fazer o que fui contratado para fazer", pensei. Rolou um momento de tensão. Numa sessão dessas, normalmente vamos no dia anterior, checamos tudo, escolhemos microfone, decidimos a cara do disco. Ter feito tudo isso com ele atrás de mim, na hora, sem chance de pensar com calma,foi um desafio absurdo. Fazer todas as escolhas ali e gravar na mesma hora... Foi uma das coisas mais legais que já aconteceram comigo. Um pouco como eram as gravações antes, orgânicas. O pouco que conversamos e com o pouco que eu tinha, conseguimostransformar o resultado em algo incrível. Usei todo o meu aprendizado com um artista daquele tamanho e um projeto daquele tamanho.

Acordei com o Josh [produtor com quem Andrade também trabalhou no disco de Bieber] me mandando mensagem de texto. Eu sou muito avoado. Não sigo essas coisas, não compro os discos nos quais trabalhei, não sou nada supersticioso... Acho que sou doido [risos]. Não estava acreditando que fui nomeado ao Grammy. A coisa mais legal para mim, sem papo humilde, foi meus pais. Eles vieram para cá, foram na premiação comigo. Foi muito incrível. Minhas maiores memórias são da cara dos dois, como duas crianças chocadas, deslumbradas, não entendendo como a vida podia ser tão legal. Nesse sentido, por todo o esforço que tiveram comigo na vida acadêmica, que mandei mal, meu maior orgulho foi dar pra eles em vida essa homenagem, que o trabalho deles, eu, foi honrado com a premiação máxima da música. É mais para eles do que para mim. Tenho que continuar trabalhando, é um copo d’água no início da maratona. Eles merecem mais do que eu, vou trabalhar mais um pouco.