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Leandro Lehart quer modernizar com o Sambadelik

Novo trabalho mistura samba, black music e música eletrônica

por Marcos Lauro em 30/06/2016

Leandro Lehart é um cara que gosta de agregar. Nos seus 31 anos de carreira (ele tem só 44), o sambista agregou ritmos (quando foi um dos primeiros a juntar o samba com a black music no Art Popular), pessoas (quando uniu ritmistas de todas as escolas de samba de São Paulo e entrou para o livro dos recordes) e, ainda que indiretamente, agregou a internet em torno de um vídeo da então desconhecida Carreta Furacão: a música que embala o grupo de dançarinos de Ribeirão Preto é “Vem Dançar O Mestiço”, que não havia conseguido grande repercussão até aparecer no vídeo.

Contrariando a onda revival do samba dos anos 1990, Lehart lança Sambadelik, um projeto em CD e DVD que, segundo o próprio, atualiza o ritmo com beats e efeitos e o aproxima do público jovem. “A gente tem que criar possibilidades pro samba se modernizar e não perder o público jovem, não virar uma salsa, um ritmo folclórico, sabe?”, diz ele, que optou por trabalhar o áudio na pós-produção do DVD: “O samba é algo acústico e os DJs acabam remixando – e aí vira a verdade do DJ, não a do artista. Então fiquei cinco, seis anos fazendo esse som e tentando traduzir toda a bagagem do Art Popular, de escola de samba, de ritmo”, explica.

Leandro Lehart recebeu a Billboard Brasil em sua residência, na zona norte de São Paulo, e nos contou sobre sua trajetória, as vezes em que agregou pessoas e ritmos e sobre a dificuldade de ser um artista solo no samba. E mais: por enquanto, ele nem pensa em fazer turnê revival dos anos 1990:

Você começou muito novo, cresceu em ambiente de escola de samba e é autodidata. Que época você encara como o início da sua carreira profissional?
Em 1985. Um ano antes da Copa do México, me lembro como se fosse hoje. A gente tocava num lugar chamado Casa do Terror, na Parada Inglesa [bairro da zona norte de São Paulo] [risos]. Tinham acabado de lançar uma compilação chamada Raça Brasileira com o pagode do Rio de Janeiro: Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra… Já tinha os discos do Fundo de Quintal e do Almir Guineto – os dois tinham acabado de sair do grupo. Ele tinha lançado aquela música “Jiboia”, que a gente cantava: “Depois que mataram a jiboia/jararaca deita e rola…”. E só tinha percussionista nos grupinhos, estávamos precisando de um cavaquinho e eu fui aprender. O grupo só se formava quando tinha um instrumento de corda. O pessoal dos Racionais ia lá, o KL Jay e o Edi Rock, que são da zona norte. Um, dois anos depois a gente começou a tocar nos bailes de Santana e rolou também uma casa chamada Só Pra Contrariar, na Bela Vista. Lá os artistas do Rio iam tocar e, às vezes, chegavam sem a banda, aí a gente entrava pra acompanhar e acabávamos sendo convidados pra fazer mini turnês pelo interior. Isso em 1987. Aí, em 1990/1991, veio o estouro mesmo. As equipes de bailes, como Chic Show e Zimbabwe, lançavam discos com música americana e começaram a lançar compilações de grupos de pagode. Tudo isso independente. O movimento que explodiu no Brasil todo começou aí, no meio independente.

E como foi o caminho pro Art Popular chegar ao primeiro disco?
A gente produziu o primeiro disco, Canto Da Razão, em 1991, e bancou do bolso. Eu levei pra Kaskata’s, que era outra equipe de baile. Me lembro até hoje: eu trabalhava na Secretaria da Fazenda, no centro da cidade, e levei pra eles na Xavier de Toledo. Ali já ficaram impressionados com a mistura do som: “Pô, tem um suingue Fundo de Quintal misturado com black music… Vamos lançar isso!”. Aí foi pro rádio e estourou! Logo depois a gravadora EMI contratou a gente. Aí você tem o Art Popular, Katinguelê, Raça Negra, Só Pra Contrariar, Negritude Junior, todos nessa história… O Art foi um dos que pôs a cara na frente ali. Depois a gravadora quis aproveitar a onda e começou a criar grupos com essa mesma cara, virou uma cena. A gente ouvia R&B, hip-hop, black music, gostava de Stevie Wonder, Kool & The Gang… Então a gente misturava tudo isso. Somos da zona norte, da época dos bailes. Tinha baile no quintal. O cara colocava uma lona e fazia as festas, com funk, soul, disco. A gente vem dessa mistura.

E você consegue explicar esse fenômeno todo? O povo estava precisando de um som novo ou foi a cena que cresceu e tomou conta na marra?
É a pergunta da galinha e do ovo – qual veio primeiro?

Sim!
[risos] É difícil explicar. Eu acho que o jovem vinha de uma ressaca danada do rock, que estourou nos anos 1980, dominou. E tinha o samba tradicional ainda ali, sobrevivendo, com Roberto Ribeiro, Agepê, Luiz Ayrão, Antonio Carlos & Jocafi. E acho que faltava uma cena que aproximasse o samba da juventude, com um jeito de se vestir diferente, jeito de tocar, que falasse com a juventude. E que fosse brasileiro. Foi a oportunidade pra gente sair do underground e conquistar o mainstream, com níveis sociais bem diferentes. Todo mundo ouvia e se sentia representado. Mas a gente impôs um som nosso, uma verdade nossa, que as pessoas abraçaram. Acho que quando as pessoas descobrem essa verdade, consomem de um jeito desenfreado. A demanda era muito grande! Tocava em todas as regiões, nas grandes e pequenas cidades.

O Thiaguinho, só pra citar um nome da geração atual, tem você como uma grande referência. Você observa essa cena de hoje?
Observo e sou bastante regravado. Eu acho que a gente conseguiu uma coisa legal: levar o samba do Fundo de Quintal pra massa. Eu produzi o Jorge Aragão há pouco tempo e ele me disse que o nosso movimento foi um divisor de água pra eles também. Eles eram artistas grandes, claro, mas estavam presos num “clube” do samba.  E como a gente falava deles nas nossas entrevistas, o público foi atrás. Então conseguimos fazer uma ponte entre os jovens e os artistas que vieram antes de nós. Ali foi o começo de um jeito diferente de fazer samba e quem veio depois talvez não conseguisse fazer essa ponte, ia ficar sem referências.

Eu vi que o Sambadelik existe desde 2009. Por que esse tempo todo para ele aparecer em DVD?
O mercado independente é difícil, então esperei o timing correto. OSambadelik traz uma possibilidade de um som novo, de colocar a música eletrônica de uma forma como a gente nunca conseguiu traduzir. O sampler e os beats são artifícios americanos, tudo do jeito deles, então a gente tem que ficar adaptando pro nosso som, pro nosso jeito de tocar. No DVD, não. É a nossa verdade, brasileira, com uma linguagem atual. E eu não vou parar nele… As pessoas precisam assimilar e isso demora. Não é um artista só que vai criar uma cena nova, são várias pessoas e esse é o caminho.

Percebi que você trabalhou muito no som na pós-produção, rolou adição de beats, efeitos. Foi uma opção ou as ideias surgiram no meio do caminho?
Sim, foi uma opção. É até difícil a gente falar sobre algo que não é catalogado ainda, né? No Brasil é tudo muito intuitivo. Imagine que você receba uma herança cultural e que você tenha que seguir à risca: “O samba é surdo, pandeiro, cavaquinho, melodias poéticas, intuitivo, festeiro etc”. E aí você pensa em como transformar essa embalagem em outra coisa, mas com uma verdade. Não é transformar o samba em algo que ele não é. É tentar pegar a linguagem que você herdou e modernizar com novas tecnologias. O samba é acústico e os DJ acabam remixando – e aí vira a verdade do DJ, não a do artista. Então fiquei cinco, seis anos fazendo esse som e tentando traduzir toda a bagagem do Art Popular, de escola de samba, de ritmo. O samba precisa se modernizar. Não dá pra viver de coisas que já aconteceram. Tem muito artista que não consegue se modernizar e a sonoridade é outra… Cê tá no Spotify, no iTunes, ouvindo, sei lá, uma Nicki Minaj, um Drake, e você precisa ter um som que seja próximo daquele, que não seja datado. E, quando eu fiz esse trabalho, eu queria que ele se comunicasse com outras linguagens, que não ficasse tão distante. Essa é a pretensão. É pretencioso. Mas tem que ser, se não a gente não consegue nada.

É como se fosse, então, um remix seu do seu próprio som…
Exatamente! É uma sonoridade nova e a minha intenção é levar pros lugares em que as pessoas gostam do meu som. Tem Brasil, mas é um Brasil diferente.

Quando o Fundo de Quintal apareceu, lá nos anos 1970, ele foi criticado por puritanos que não aceitavam aquelas mudanças todas. Nos anos 1990, o chamado pagode foi muito criticado também. Você sente isso no seu trabalho, já que muda muito as estruturas do samba?
Muito pouco, viu? Eu até desconfio dessa unanimidade [risos]. Porque hoje as pessoas têm opinião sobre tudo… De dez assuntos, o cara entende de um, mas opina sobre os dez. Mas acho que as pessoas sabem que não é forçação de barra, é uma verdade minha, da minha história. Mesmo que as pessoas não gostem, elas respeitam. “Pô, não curto, mas ele não tá se aventurando, é de coração”.

Numa entrevista anterior, você disse que a internet é uma desconhecida pra você. Já se acostumou com a rede?
No começo foi um choque, né? Eu saí da banda em 2005, 2006, e a internet já estava forte… Começou a explodir em 2000, por aí. E você fica meio que perdido, porque era um mundo novo e dava a impressão de que esse mundo novo não me conhecia. A gente fez uma carreira grande na EMI, tinha um jeito de trabalhar… O disco ia pras Lojas Americanas e vendia 100 mil num dia, já saía com disco de ouro. Hoje é tudo calculado de forma diferente. Eu tenho uma relação com a internet de descoberta, não de sobrevivência… O lance do ”Vem Dançar O Mestiço”, mesmo, com a Carreta Furacão… A música explodiu sem a mídia tradicional com a qual eu estava acostumado. Eu não sabia que dava pra estourar sem a mídia tradicional: disco na loja, entrevista, Faustão etc.

E como foi quando rolou esse lance da Carreta Furacão?
Um amigo me mandou. Esse disco é de 2007 e eu fiz um filme chamado Mestiço – O Novo Ritmo do Brasil. O filme demorou pra acontecer, porque eu fiz de forma independente. Depois rolou ANCINE e ele entrou em alguns festivais, foi bem. A ideia era misturar músicas regionais com a música moderna. Eu queria conhecer a molecada que fazia maracatu, jongo, samba de roda etc. E esse projeto é isso, um disco e um filme com essa mistura. Mestiço é um ritmo que eu criei e mistura maracatu, jongo, samba de roda e partido alto. Toquei o disco inteiro sozinho. Depois de três, quatro anos, alguém postou essa galera de Ribeirão Preto dançando a música, que era conhecida só em alguns lugares onde toquei ao vivo. É uma música extremamente brasileira, que não é pagode, não é samba, não é funk, mas é rítmica, pra dançar. Tá nas paradas, sem nada de grana ou de imposição, e hoje virou uma coisa absurda que eu nem sei onde vai dar.

QUARUP LANÇA CLIPE COM CARRETA FURACÃO; VEJA

Você tem essa característica de agregar pessoas e, por isso, entrou no Guinness como a maior bateria do mundo. Como foi isso?
Eu fiz um disco chamado Ensaio De Escola De Samba, no qual eu fazia os enredos de São Paulo. E, nesse mundo de escola de samba, todos sempre foram muito rivais. Eu, como comentarista de Carnaval da Globo, tinha que ir em todas as quadras. E eu percebi que nunca ninguém lançou essa ideia de reunir todo mundo. Como eu tinha lançado esse disco e a Virada Cultural tinha me contratado pra fazer um show na Praça da República, eu pensei: “Bom, vou pegar essa grana do show, alugar os ônibus e vou chamar todo mundo”. Fiquei sabendo que o Guinness já tinha esse recorde, mas era com 600, 700 pessoas. Tava fácil [risos]. Se eu pegasse três baterias, já daria. Mas pegar ritmistas de 24 agremiações era desafiador. Liguei pra todos os mestres de bateria, todos vieram aqui em casa e eu fiz a proposta. O dinheiro do show dava 24 ônibus, certinho, e a gente ainda conseguiu as camisetas. Aí chegou o domingo de manhã e eu fiquei tenso, porque tinha Gaviões da Fiel, Mancha Verde e não sei o quê, a maior rivalidade. Cheguei na Praça da República ao meio-dia e estava lá o Quinteto em Branco e Preto fazendo aquele show com o Paulo Miklos, que cantava Noel Rosa. Aí os mestres das baterias começaram a me procurar: “Bicho, tenho uma má notícia: dos 50 que eu prometi, só consegui 45!” [risos]. Outro: “Putz, em vez de trazer 50 eu trouxe 62!” [risos]. Meu Deus, estava todo mundo ali… Eles fizeram a formação da bateria no outro quarteirão e, só a passagem deles, já conseguiu abafar o show do Quinteto. Tinha, sei lá, 400 surdos [risos]. Lembro que o Rappin’ Wood estava apresentando as atrações do palco e tinha umas 15 mil pessoas na praça. Ele falou pro público: “Gente, tá vindo aí a maior bateria do mundo, vocês vão ter que dar uma afastadinha” [risos]. Efeito Mar Vermelho, sabe? Eu olhando do palco e vinha aquela imensidão de ritmistas. E deu certo. Fizemos uma hora de show juntos e foi todo mundo embora tocando sem nenhum incidente. Aquele dia foi foda! E tem gente que fala pra fazer de novo… Eu só respondo: “Não, não” [risos]. Um pessoal do Rio de Janeiro me chamou pra fazer lá também, mas lá é outra realidade, né? E eu nem conheço todo mundo lá. Recusei.

E o que você acha desse lance de ter Gaviões, Mancha, escolas ligadas a torcidas de futebol, aqui em São Paulo?
Cara, eu vim de uma realidade em que a escola de samba era uma comunidade, de quermesse, de rua… A escola de samba nasceu assim, né? O povo da rua se junta e faz festa, levanta grana pra fazer o Carnaval etc. Mas essas mudanças são coisas do mundo moderno, né? Essas escolas juntaram pessoas que tinham o mesmo sentimento por algo. É diferente da história, mas é difícil criticar isso… O tempo transforma as coisas e você tem que se adaptar ao que está rolando. Eu respeito, os caras são músicos e estão fazendo o som deles.

O samba ainda sofre preconceito?
Virou clássico, né? [risos] A gente estava muito na mídia e em todos os lugares, isso criou uma resistência da elite que formava opinião. As gravadoras inventavam um monte de grupo que nunca tocou junto, sugou tudo o que podia e rolou uma superexposição. Eu me sinto privilegiado por fazer parte de uma leva desse movimento que as pessoas respeitam. Conseguimos balancear a coisa da poesia, da diversão, do ritmo. Tinha uma harmonia legal, um ritmo bem trabalhado… Tocava “Utopia” no rádio e ganhava da Madonna, do Duran Duran. Tinha também “No Compasso Do Criador”, do Katinguelê… Era uma musicalidade que a gente não percebia na época.

Hoje estão rolando diversas turnês de revival do samba dos anos 1990. Você chegou a receber proposta?
Rolou proposta sim. Não sei se é o mundo que é muito veloz, muito rápido, mas os artistas da minha geração têm 40 anos. A gente é novo pros mais velhos e velhos pros mais novos. Acho que é muito cedo pra um revival… Esses artistas ainda têm fôlego pra coisas novas, entendeu? Acho que os artistas tinham que estar mais abertos pro futuro, eles são referência. Mas nada contra, cada um faz o que acredita.

E o que você ouve hoje?
Ouço muita coisa. Eu acho que a música americana se renova muito em relação ao mainstream. Se você pega um Drake, por exemplo, ele consegue se recriar, trazer elementos novos pra um som que já existia. E eu não vejo isso aqui, fico um pouco aflito. A gente tem uma musicalidade enorme, mas nosso som ainda é datado, não conversa com as novas tecnologias. O funk faz um pouco isso, mas ainda é muito intuitivo… A molecada tem essa liberdade de fazer a música num laptop e levar pro baile. Aqui no Brasil a gente vive cercado de mitos, né? Muito mito, muita coisa intocável. Então eu ouço Drake, Brian Culbertson, o disco novo do D’Angelo, o novo do Diogo Nogueira e tô ouvindo meu disco pra caramba [risos]!

É mesmo? Você tem essa coisa de ouvir seus discos?
Sim, ele me dá possibilidades, um lance de “pô, tô no caminho certo”. E eu gosto de receber a galera em casa pra isso também. Esses dias chamei só DJ de drum and bass: o Patife, Mad Zoo, Ramilson Maia… Ficamos aqui trocando ideia. Num outro dia chamei o povo do rap: DJ Cia, Helião, Ice Blue… A galera do samba, mesma coisa. Boto os discos aqui e a gente ouve, troca ideia. Gosto de agregar as pessoas.

O público está preparado para novidades?
Olha, quem partir pra carreira solo no samba tá morto [risos]! Existe um mito de que o samba é feito em grupo. As pessoas estranham, têm preguiça de ouvir… A juventude quer consumir muito e de forma rápida. O funk carioca é fruto disso. A juventude não se sentia mais representada pelo samba nos morros, queria algo diferente e que fosse consumida ali, naquela atmosfera. O samba ficou datado e a juventude foi pra outro caminho. A gente tem que criar possibilidades pro samba se modernizar e não perder o público jovem, não virar uma salsa, folclórica, sabe? Você vai pra Cuba, Porto Rico, e a salsa é música pra turista. Você chega em Salvador e na entrada do aeroporto tá a galera tocando samba-reggae pro holandês ouvir… Aí ele ouve aquilo, come um vatapá, vai pro Pelourinho, virou música folclórica. Se a gente não se ligar, o samba vira música folclórica, pra ouvir e comer feijoada.

Você é um cara muito ligado a projetos sociais também. Tem algum vindo por aí?
Eu estou sempre envolvido com algum projeto social, gosto de estar perto das escolas de música que não recebem dinheiro de governo. Mas o maior dele é O Samba Cura, que eu fiz em 1997. Vamos reeditar o evento agora no hospital que construímos. Em 1997, tinha só o terreno, anexo ao Hospital das Clínicas, e fizemos O Samba Cura: 35 artistas doaram os fonogramas e vendemos 150 mil cópias. A prefeitura doou o terreno, o governo fez o hospital e o dinheiro do disco e das doações bancou. Então a gente vai reunir todo mundo de novo, agora com o hospital funcionando, junto com gente mais nova que veio depois. Serão 45 artistas. Imagina você estar no hospital que ajudou a construir? E o mais legal é o samba ter feito isso.

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Leandro Lehart quer modernizar com o Sambadelik

Novo trabalho mistura samba, black music e música eletrônica

por Marcos Lauro em 30/06/2016

Leandro Lehart é um cara que gosta de agregar. Nos seus 31 anos de carreira (ele tem só 44), o sambista agregou ritmos (quando foi um dos primeiros a juntar o samba com a black music no Art Popular), pessoas (quando uniu ritmistas de todas as escolas de samba de São Paulo e entrou para o livro dos recordes) e, ainda que indiretamente, agregou a internet em torno de um vídeo da então desconhecida Carreta Furacão: a música que embala o grupo de dançarinos de Ribeirão Preto é “Vem Dançar O Mestiço”, que não havia conseguido grande repercussão até aparecer no vídeo.

Contrariando a onda revival do samba dos anos 1990, Lehart lança Sambadelik, um projeto em CD e DVD que, segundo o próprio, atualiza o ritmo com beats e efeitos e o aproxima do público jovem. “A gente tem que criar possibilidades pro samba se modernizar e não perder o público jovem, não virar uma salsa, um ritmo folclórico, sabe?”, diz ele, que optou por trabalhar o áudio na pós-produção do DVD: “O samba é algo acústico e os DJs acabam remixando – e aí vira a verdade do DJ, não a do artista. Então fiquei cinco, seis anos fazendo esse som e tentando traduzir toda a bagagem do Art Popular, de escola de samba, de ritmo”, explica.

Leandro Lehart recebeu a Billboard Brasil em sua residência, na zona norte de São Paulo, e nos contou sobre sua trajetória, as vezes em que agregou pessoas e ritmos e sobre a dificuldade de ser um artista solo no samba. E mais: por enquanto, ele nem pensa em fazer turnê revival dos anos 1990:

Você começou muito novo, cresceu em ambiente de escola de samba e é autodidata. Que época você encara como o início da sua carreira profissional?
Em 1985. Um ano antes da Copa do México, me lembro como se fosse hoje. A gente tocava num lugar chamado Casa do Terror, na Parada Inglesa [bairro da zona norte de São Paulo] [risos]. Tinham acabado de lançar uma compilação chamada Raça Brasileira com o pagode do Rio de Janeiro: Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra… Já tinha os discos do Fundo de Quintal e do Almir Guineto – os dois tinham acabado de sair do grupo. Ele tinha lançado aquela música “Jiboia”, que a gente cantava: “Depois que mataram a jiboia/jararaca deita e rola…”. E só tinha percussionista nos grupinhos, estávamos precisando de um cavaquinho e eu fui aprender. O grupo só se formava quando tinha um instrumento de corda. O pessoal dos Racionais ia lá, o KL Jay e o Edi Rock, que são da zona norte. Um, dois anos depois a gente começou a tocar nos bailes de Santana e rolou também uma casa chamada Só Pra Contrariar, na Bela Vista. Lá os artistas do Rio iam tocar e, às vezes, chegavam sem a banda, aí a gente entrava pra acompanhar e acabávamos sendo convidados pra fazer mini turnês pelo interior. Isso em 1987. Aí, em 1990/1991, veio o estouro mesmo. As equipes de bailes, como Chic Show e Zimbabwe, lançavam discos com música americana e começaram a lançar compilações de grupos de pagode. Tudo isso independente. O movimento que explodiu no Brasil todo começou aí, no meio independente.

E como foi o caminho pro Art Popular chegar ao primeiro disco?
A gente produziu o primeiro disco, Canto Da Razão, em 1991, e bancou do bolso. Eu levei pra Kaskata’s, que era outra equipe de baile. Me lembro até hoje: eu trabalhava na Secretaria da Fazenda, no centro da cidade, e levei pra eles na Xavier de Toledo. Ali já ficaram impressionados com a mistura do som: “Pô, tem um suingue Fundo de Quintal misturado com black music… Vamos lançar isso!”. Aí foi pro rádio e estourou! Logo depois a gravadora EMI contratou a gente. Aí você tem o Art Popular, Katinguelê, Raça Negra, Só Pra Contrariar, Negritude Junior, todos nessa história… O Art foi um dos que pôs a cara na frente ali. Depois a gravadora quis aproveitar a onda e começou a criar grupos com essa mesma cara, virou uma cena. A gente ouvia R&B, hip-hop, black music, gostava de Stevie Wonder, Kool & The Gang… Então a gente misturava tudo isso. Somos da zona norte, da época dos bailes. Tinha baile no quintal. O cara colocava uma lona e fazia as festas, com funk, soul, disco. A gente vem dessa mistura.

E você consegue explicar esse fenômeno todo? O povo estava precisando de um som novo ou foi a cena que cresceu e tomou conta na marra?
É a pergunta da galinha e do ovo – qual veio primeiro?

Sim!
[risos] É difícil explicar. Eu acho que o jovem vinha de uma ressaca danada do rock, que estourou nos anos 1980, dominou. E tinha o samba tradicional ainda ali, sobrevivendo, com Roberto Ribeiro, Agepê, Luiz Ayrão, Antonio Carlos & Jocafi. E acho que faltava uma cena que aproximasse o samba da juventude, com um jeito de se vestir diferente, jeito de tocar, que falasse com a juventude. E que fosse brasileiro. Foi a oportunidade pra gente sair do underground e conquistar o mainstream, com níveis sociais bem diferentes. Todo mundo ouvia e se sentia representado. Mas a gente impôs um som nosso, uma verdade nossa, que as pessoas abraçaram. Acho que quando as pessoas descobrem essa verdade, consomem de um jeito desenfreado. A demanda era muito grande! Tocava em todas as regiões, nas grandes e pequenas cidades.

O Thiaguinho, só pra citar um nome da geração atual, tem você como uma grande referência. Você observa essa cena de hoje?
Observo e sou bastante regravado. Eu acho que a gente conseguiu uma coisa legal: levar o samba do Fundo de Quintal pra massa. Eu produzi o Jorge Aragão há pouco tempo e ele me disse que o nosso movimento foi um divisor de água pra eles também. Eles eram artistas grandes, claro, mas estavam presos num “clube” do samba.  E como a gente falava deles nas nossas entrevistas, o público foi atrás. Então conseguimos fazer uma ponte entre os jovens e os artistas que vieram antes de nós. Ali foi o começo de um jeito diferente de fazer samba e quem veio depois talvez não conseguisse fazer essa ponte, ia ficar sem referências.

Eu vi que o Sambadelik existe desde 2009. Por que esse tempo todo para ele aparecer em DVD?
O mercado independente é difícil, então esperei o timing correto. OSambadelik traz uma possibilidade de um som novo, de colocar a música eletrônica de uma forma como a gente nunca conseguiu traduzir. O sampler e os beats são artifícios americanos, tudo do jeito deles, então a gente tem que ficar adaptando pro nosso som, pro nosso jeito de tocar. No DVD, não. É a nossa verdade, brasileira, com uma linguagem atual. E eu não vou parar nele… As pessoas precisam assimilar e isso demora. Não é um artista só que vai criar uma cena nova, são várias pessoas e esse é o caminho.

Percebi que você trabalhou muito no som na pós-produção, rolou adição de beats, efeitos. Foi uma opção ou as ideias surgiram no meio do caminho?
Sim, foi uma opção. É até difícil a gente falar sobre algo que não é catalogado ainda, né? No Brasil é tudo muito intuitivo. Imagine que você receba uma herança cultural e que você tenha que seguir à risca: “O samba é surdo, pandeiro, cavaquinho, melodias poéticas, intuitivo, festeiro etc”. E aí você pensa em como transformar essa embalagem em outra coisa, mas com uma verdade. Não é transformar o samba em algo que ele não é. É tentar pegar a linguagem que você herdou e modernizar com novas tecnologias. O samba é acústico e os DJ acabam remixando – e aí vira a verdade do DJ, não a do artista. Então fiquei cinco, seis anos fazendo esse som e tentando traduzir toda a bagagem do Art Popular, de escola de samba, de ritmo. O samba precisa se modernizar. Não dá pra viver de coisas que já aconteceram. Tem muito artista que não consegue se modernizar e a sonoridade é outra… Cê tá no Spotify, no iTunes, ouvindo, sei lá, uma Nicki Minaj, um Drake, e você precisa ter um som que seja próximo daquele, que não seja datado. E, quando eu fiz esse trabalho, eu queria que ele se comunicasse com outras linguagens, que não ficasse tão distante. Essa é a pretensão. É pretencioso. Mas tem que ser, se não a gente não consegue nada.

É como se fosse, então, um remix seu do seu próprio som…
Exatamente! É uma sonoridade nova e a minha intenção é levar pros lugares em que as pessoas gostam do meu som. Tem Brasil, mas é um Brasil diferente.

Quando o Fundo de Quintal apareceu, lá nos anos 1970, ele foi criticado por puritanos que não aceitavam aquelas mudanças todas. Nos anos 1990, o chamado pagode foi muito criticado também. Você sente isso no seu trabalho, já que muda muito as estruturas do samba?
Muito pouco, viu? Eu até desconfio dessa unanimidade [risos]. Porque hoje as pessoas têm opinião sobre tudo… De dez assuntos, o cara entende de um, mas opina sobre os dez. Mas acho que as pessoas sabem que não é forçação de barra, é uma verdade minha, da minha história. Mesmo que as pessoas não gostem, elas respeitam. “Pô, não curto, mas ele não tá se aventurando, é de coração”.

Numa entrevista anterior, você disse que a internet é uma desconhecida pra você. Já se acostumou com a rede?
No começo foi um choque, né? Eu saí da banda em 2005, 2006, e a internet já estava forte… Começou a explodir em 2000, por aí. E você fica meio que perdido, porque era um mundo novo e dava a impressão de que esse mundo novo não me conhecia. A gente fez uma carreira grande na EMI, tinha um jeito de trabalhar… O disco ia pras Lojas Americanas e vendia 100 mil num dia, já saía com disco de ouro. Hoje é tudo calculado de forma diferente. Eu tenho uma relação com a internet de descoberta, não de sobrevivência… O lance do ”Vem Dançar O Mestiço”, mesmo, com a Carreta Furacão… A música explodiu sem a mídia tradicional com a qual eu estava acostumado. Eu não sabia que dava pra estourar sem a mídia tradicional: disco na loja, entrevista, Faustão etc.

E como foi quando rolou esse lance da Carreta Furacão?
Um amigo me mandou. Esse disco é de 2007 e eu fiz um filme chamado Mestiço – O Novo Ritmo do Brasil. O filme demorou pra acontecer, porque eu fiz de forma independente. Depois rolou ANCINE e ele entrou em alguns festivais, foi bem. A ideia era misturar músicas regionais com a música moderna. Eu queria conhecer a molecada que fazia maracatu, jongo, samba de roda etc. E esse projeto é isso, um disco e um filme com essa mistura. Mestiço é um ritmo que eu criei e mistura maracatu, jongo, samba de roda e partido alto. Toquei o disco inteiro sozinho. Depois de três, quatro anos, alguém postou essa galera de Ribeirão Preto dançando a música, que era conhecida só em alguns lugares onde toquei ao vivo. É uma música extremamente brasileira, que não é pagode, não é samba, não é funk, mas é rítmica, pra dançar. Tá nas paradas, sem nada de grana ou de imposição, e hoje virou uma coisa absurda que eu nem sei onde vai dar.

QUARUP LANÇA CLIPE COM CARRETA FURACÃO; VEJA

Você tem essa característica de agregar pessoas e, por isso, entrou no Guinness como a maior bateria do mundo. Como foi isso?
Eu fiz um disco chamado Ensaio De Escola De Samba, no qual eu fazia os enredos de São Paulo. E, nesse mundo de escola de samba, todos sempre foram muito rivais. Eu, como comentarista de Carnaval da Globo, tinha que ir em todas as quadras. E eu percebi que nunca ninguém lançou essa ideia de reunir todo mundo. Como eu tinha lançado esse disco e a Virada Cultural tinha me contratado pra fazer um show na Praça da República, eu pensei: “Bom, vou pegar essa grana do show, alugar os ônibus e vou chamar todo mundo”. Fiquei sabendo que o Guinness já tinha esse recorde, mas era com 600, 700 pessoas. Tava fácil [risos]. Se eu pegasse três baterias, já daria. Mas pegar ritmistas de 24 agremiações era desafiador. Liguei pra todos os mestres de bateria, todos vieram aqui em casa e eu fiz a proposta. O dinheiro do show dava 24 ônibus, certinho, e a gente ainda conseguiu as camisetas. Aí chegou o domingo de manhã e eu fiquei tenso, porque tinha Gaviões da Fiel, Mancha Verde e não sei o quê, a maior rivalidade. Cheguei na Praça da República ao meio-dia e estava lá o Quinteto em Branco e Preto fazendo aquele show com o Paulo Miklos, que cantava Noel Rosa. Aí os mestres das baterias começaram a me procurar: “Bicho, tenho uma má notícia: dos 50 que eu prometi, só consegui 45!” [risos]. Outro: “Putz, em vez de trazer 50 eu trouxe 62!” [risos]. Meu Deus, estava todo mundo ali… Eles fizeram a formação da bateria no outro quarteirão e, só a passagem deles, já conseguiu abafar o show do Quinteto. Tinha, sei lá, 400 surdos [risos]. Lembro que o Rappin’ Wood estava apresentando as atrações do palco e tinha umas 15 mil pessoas na praça. Ele falou pro público: “Gente, tá vindo aí a maior bateria do mundo, vocês vão ter que dar uma afastadinha” [risos]. Efeito Mar Vermelho, sabe? Eu olhando do palco e vinha aquela imensidão de ritmistas. E deu certo. Fizemos uma hora de show juntos e foi todo mundo embora tocando sem nenhum incidente. Aquele dia foi foda! E tem gente que fala pra fazer de novo… Eu só respondo: “Não, não” [risos]. Um pessoal do Rio de Janeiro me chamou pra fazer lá também, mas lá é outra realidade, né? E eu nem conheço todo mundo lá. Recusei.

E o que você acha desse lance de ter Gaviões, Mancha, escolas ligadas a torcidas de futebol, aqui em São Paulo?
Cara, eu vim de uma realidade em que a escola de samba era uma comunidade, de quermesse, de rua… A escola de samba nasceu assim, né? O povo da rua se junta e faz festa, levanta grana pra fazer o Carnaval etc. Mas essas mudanças são coisas do mundo moderno, né? Essas escolas juntaram pessoas que tinham o mesmo sentimento por algo. É diferente da história, mas é difícil criticar isso… O tempo transforma as coisas e você tem que se adaptar ao que está rolando. Eu respeito, os caras são músicos e estão fazendo o som deles.

O samba ainda sofre preconceito?
Virou clássico, né? [risos] A gente estava muito na mídia e em todos os lugares, isso criou uma resistência da elite que formava opinião. As gravadoras inventavam um monte de grupo que nunca tocou junto, sugou tudo o que podia e rolou uma superexposição. Eu me sinto privilegiado por fazer parte de uma leva desse movimento que as pessoas respeitam. Conseguimos balancear a coisa da poesia, da diversão, do ritmo. Tinha uma harmonia legal, um ritmo bem trabalhado… Tocava “Utopia” no rádio e ganhava da Madonna, do Duran Duran. Tinha também “No Compasso Do Criador”, do Katinguelê… Era uma musicalidade que a gente não percebia na época.

Hoje estão rolando diversas turnês de revival do samba dos anos 1990. Você chegou a receber proposta?
Rolou proposta sim. Não sei se é o mundo que é muito veloz, muito rápido, mas os artistas da minha geração têm 40 anos. A gente é novo pros mais velhos e velhos pros mais novos. Acho que é muito cedo pra um revival… Esses artistas ainda têm fôlego pra coisas novas, entendeu? Acho que os artistas tinham que estar mais abertos pro futuro, eles são referência. Mas nada contra, cada um faz o que acredita.

E o que você ouve hoje?
Ouço muita coisa. Eu acho que a música americana se renova muito em relação ao mainstream. Se você pega um Drake, por exemplo, ele consegue se recriar, trazer elementos novos pra um som que já existia. E eu não vejo isso aqui, fico um pouco aflito. A gente tem uma musicalidade enorme, mas nosso som ainda é datado, não conversa com as novas tecnologias. O funk faz um pouco isso, mas ainda é muito intuitivo… A molecada tem essa liberdade de fazer a música num laptop e levar pro baile. Aqui no Brasil a gente vive cercado de mitos, né? Muito mito, muita coisa intocável. Então eu ouço Drake, Brian Culbertson, o disco novo do D’Angelo, o novo do Diogo Nogueira e tô ouvindo meu disco pra caramba [risos]!

É mesmo? Você tem essa coisa de ouvir seus discos?
Sim, ele me dá possibilidades, um lance de “pô, tô no caminho certo”. E eu gosto de receber a galera em casa pra isso também. Esses dias chamei só DJ de drum and bass: o Patife, Mad Zoo, Ramilson Maia… Ficamos aqui trocando ideia. Num outro dia chamei o povo do rap: DJ Cia, Helião, Ice Blue… A galera do samba, mesma coisa. Boto os discos aqui e a gente ouve, troca ideia. Gosto de agregar as pessoas.

O público está preparado para novidades?
Olha, quem partir pra carreira solo no samba tá morto [risos]! Existe um mito de que o samba é feito em grupo. As pessoas estranham, têm preguiça de ouvir… A juventude quer consumir muito e de forma rápida. O funk carioca é fruto disso. A juventude não se sentia mais representada pelo samba nos morros, queria algo diferente e que fosse consumida ali, naquela atmosfera. O samba ficou datado e a juventude foi pra outro caminho. A gente tem que criar possibilidades pro samba se modernizar e não perder o público jovem, não virar uma salsa, folclórica, sabe? Você vai pra Cuba, Porto Rico, e a salsa é música pra turista. Você chega em Salvador e na entrada do aeroporto tá a galera tocando samba-reggae pro holandês ouvir… Aí ele ouve aquilo, come um vatapá, vai pro Pelourinho, virou música folclórica. Se a gente não se ligar, o samba vira música folclórica, pra ouvir e comer feijoada.

Você é um cara muito ligado a projetos sociais também. Tem algum vindo por aí?
Eu estou sempre envolvido com algum projeto social, gosto de estar perto das escolas de música que não recebem dinheiro de governo. Mas o maior dele é O Samba Cura, que eu fiz em 1997. Vamos reeditar o evento agora no hospital que construímos. Em 1997, tinha só o terreno, anexo ao Hospital das Clínicas, e fizemos O Samba Cura: 35 artistas doaram os fonogramas e vendemos 150 mil cópias. A prefeitura doou o terreno, o governo fez o hospital e o dinheiro do disco e das doações bancou. Então a gente vai reunir todo mundo de novo, agora com o hospital funcionando, junto com gente mais nova que veio depois. Serão 45 artistas. Imagina você estar no hospital que ajudou a construir? E o mais legal é o samba ter feito isso.