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Leia entrevista com João Donato, que completa 80 anos hoje

por em 17/08/2014
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evista publicada na edição nº 48 da Billboard Brasil.   DONATO ELÉTRICO POR JOSÉ FLÁVIO JÚNIOR Prestes a fazer 80 anos, o genial pianista fala de religião, trânsito, Uruguai, Holanda e seu jeito zen Em 17 de agosto, João Donato completa 80 anos de vida. A data redonda já motiva shows e discos novos, como era de se esperar de um artista tão ativo. O projeto mais quente – e ainda longe de ser concluído – é o álbum de temas inéditos Donato Elétrico, gestado em São Paulo. Por intermédio do jornalista Ronaldo Evangelista, o pianista nascido no Acre se conectou com a turma do Bixiga 70, combo instrumental paulistano com dois discos celebrados no currículo. Se o material ainda não tem data para chegar ao mercado, a química dos músicos já foi testada nos palcos. Donato e seus novos parceiros apresentaram a íntegra do clássico Quem É Quem (1973) em duas noites no SESC Pinheiros (com canjas de Tulipa Ruiz, Mariana Aydar e Marcos Valle, produtor do LP) e uma no festival pernambucano Rec-Beat (com Tulipa) no último carnaval. O calor com que os espetáculos foram recebidos indica um ano formidável para o gênio da música brasileira e todos que veneram sua música. Viver na mesma época em que Donato já é uma dádiva. Ligar para ele de tarde para trocar uma ideia, um orgulho que nem todos podem ter, como diz o hino do Santos Futebol Clube. A seguir, os trechos de uma conversa que pretendia fazer uma retrospectiva da trajetória do músico. O fluxo de consciência, marca do discurso de Donato, pode ter frustrado um pouco a pauta, mas ajuda a entender um pouco mais quem é esse artista fabuloso, que interferiu de maneira singular na bossa nova, entendeu o funk americano num segundo momento, entabulou diálogos inesquecíveis com tropicalistas (produzindo Gal, dividindo composições com Gil e Caetano), e nunca abandonou o jazz, seu gênero predileto. Prepare-se para improvisos desconcertantes, solos fora da casinha, e algumas lições de vida. Como você está cheio de novos projetos, e nem todos são de revisita, é certo dizer que está completando 80 anos, porém olhando para o futuro? É isso. Eu vivo no futuro, apesar de trazer a energia do passado. Vivo uns 10, 40 anos na frente. É como o Stan Kenton [1911-1979, pianista e band leader americano, cujos arranjos foram grande infl uência na bossa nova]. Até hoje, você coloca um disco dele e tem essa sensação também. A coisa não tem começo nem meio nem fi m. Se você está escrevendo uma matéria, um arranjo ou uma poesia, até pode ter. Mas nem garanto que seja somente isso. Pode começar em outro lugar, e o meio pode ir para o fi nal ou para o início. Isso é uma espécie de loucura, mas uma loucura gostosa de lidar, porque você lida com você mesmo. Posso enganar todo mundo, mas a mim eu não consigo. Já tentei várias vezes! Já enganei vários amigos, namoradas, pais, mães [gargalha]. Mas a mim, não consigo. Sou muito verdadeiro, transparente, cristalino. Não penso se estou na presença do rei para dizer alguma coisa que não gostei a respeito dele. Tem gente que se guarda. “Não, mas eu não podia falar isso, ele é uma autoridade!” Que autoridade, rapaz? Não tem autoridade maior do que o poder sagrado, que vem de um lugar para onde tudo vai e de onde tudo vem, que é chamado por várias palavras: Alá, Deus, Jeová, a luz, o sol... Tudo isso é igual a tudo isso. Tudo vai dar no mesmo lugar, naquele camarada que não te deixa sozinho nunca. Tenho experiência própria de ter passado por lugares não muito aconchegantes. Mas, tão distraído eu estava que, quando me dei conta, já tinha passado para o outro lado. Alguém diz: “Mas você passou por ali? Ali era o inferno”. Digo: “Nem reparei!” Muito bom! Muito bom, mas isso nem é de minha autoria. Vem da Bíblia. Quando a gente está com desejo de aprender, a Bíblia vem e ensina. É como se fosse um manual do ser humano. Assim como tem um manual de como fritar um ovo, de como ligar um automóvel. Você é religioso? É católico? Eu não sou nada. Eu sou tudo. Quem me falou da Bíblia pela primeira vez foi o Dizzy Gillespie [1917-1993, legendário jazzista americano]. Eu o conheci num quarto de hotel, na época em que ele tocava com o pianista [argentino, 81 anos] Lalo Schifrin, que foi quem me levou lá. O Dizzy era o meu trompetista favorito, por causa da relação dele com o bebop. Eu amo bebop. Papo vai, papo vem, ele me perguntou se eu lia a Bíblia. Disse que não, e ele: “Pois devia ler! Tá tudo lá. Tem os salmos para os grandes músicos. Se tacar uma música em cima de um salmo, já tá bom demais.” [risos]. Então, não é nem um aspecto religioso, é um aspecto bíblico. Posso ser judeu, fariseu, ateu. Católico restringe muito. Sou católico inclusive. Respeito a missa, a liturgia, a água benta naquela piazinha, o Vaticano, que lida com riquezas inimagináveis, dinheiro é o que não falta lá. Mas também tem os espertinhos, os padres que querem comer as crianças. Mas isso existe em qualquer lugar. Existe coronel da polícia viado. Meu pai era da polícia e sabia que tinha. Você acompanha o presidente do Uruguai, o Pepe Mujica, que avançou na questão da legalização da maconha? Eu o aplaudo. Concordo muito com ele. Ganhei uma revista da KLM, a companhia aérea holandesa que vai completar 100 anos logo mais... Amsterdã é maravilhosa. Você faz o que quiser. Todo mundo se entende, não existe problema de comportamento. Não vi um disse--me-disse. Ninguém discute, nenhum carro bate no outro, ninguém se joga nos canais... Quero voltar lá. Nunca vi algo tão bonito na minha vida. Tanto faz se você quiser ou não quiser, não muda nada. Todos convivem pacifi camente, de uma maneira transparente. A matéria da KLM tinha como título “Diminua seu ritmo no Uruguai”. Não li ainda, porque não tenho tempo de ler tudo, mas quero. Também quero ler outra revista que tem uma matéria que diz “Copie seu cérebro e viva para sempre”. Estão guardadinhas na minha cabeceira. Quando eu não tiver mais nada para fazer, lerei. E quero passar uns dias no Uruguai. Podem ser umas férias, pode ser meia hora. Você é uma pessoa bastante zen, e tem o hábito de simplificar as coisas. Acha que isso se reflete na sua música? Faz parte do pacote... A música é um ingrediente da vida. Tem a letra, que influencia muito a música. Às vezes, um título já induz o ouvinte. “A Paz”, por exemplo. É a letra dela que dá vontade de você escutar. Aliás, ela será tocada no Grand Palais, em Paris, na inauguração da exposição [dos painéis monumentais] Guerra e Paz, do Portinari. Fui convidado pela Marta Suplicy para esta performance agora em maio. Uma entrevista que fiz com você em 2008, na Folha de S. Paulo, repercutiu muito por causa da sua declaração de que não aguentava mais falar de bossa nova, já que gostava mesmo era de jazz. O que você tirou disso? Continuo achando a mesma coisa. Como era o ano comemorativo dos 50 anos da bossa nova, viajei muito. Mas eu sou fundamentado no jazz. A bossa é um pouquinho do samba. Não diziam que a bossa era um samba tocado baixinho, para o vizinho do apartamento do lado não reclamar? A questão é o volume. Se você aumenta o volume de um disco do Shorty Rogers [1924-1974, trompetista e arranjador americano, um dos pioneiros do jazz West Coast], ele vai nivelar por baixo com qualquer música brega. Se você pegar umamúsica brega e tocá-la baixinho, vai notar que tem algo bonito ali. Nem que seja um acorde que tenha passado despercebido por causa do volume alto. Ando vivendo esta experiência agora. Pego os discos da minha coleção e tento ouvi-los de uma forma como nunca os ouvi. É verdade que a única coisa que faz você não simpatizar mais, e até não vir morar em São Paulo é o trânsito? É verdade. Mas eu já não estou me incomodando tanto com esse trânsito, não. Já está me lembrando o trânsito de Tóquio, com aqueles ônibus andando do lado errado. Lá, é um carro atrás do outro, formando quase que o desenho da ilha. É aquele caos, com automóveis bonitinhos, parecendo brinquedo. As portas abrem sozinhas, fecham sozinhas... E todo mundo sereno. Olha para um lado, um rosto sereno. Olha para o outro, a mesma coisa. Você pensa: “Só me resta ficar sereno também...” Aqui no Rio é um tal de buzinar, como se fosse resolver alguma coisa. O japonês espera. Tem o tsunami, o terremoto, o ciclone, o tufão, o vendaval, mas eu estou doido para voltar para lá. É um povo muito querido. Eles me param na rua e me perguntam se eu sou eu. O Japão é pequenininho, menor do que São Paulo. A impaciência das pessoas me chateia muito. Gente com pressa de chegar, atropelando os outros. Isso me incomoda, me faz passar mal. Se tem alguém apressado atrás de mim, eu saio para o lado. Qual a sua expectativa para a Copa do Mundo? Está preocupado? Estou nada. E parece que seremos campeões. Um motorista lá em Bruges, cidade medieval linda da Bélgica, me falou isso. O Brasil é um especialista em futebol, ele disse. Perguntei se a Bélgica tinha time. Ele respondeu que sim, mas que o Brasil ganharia. Acreditei nele, só porque foi um rapaz de Bruges que falou. E minha filha, Joana, me ligou e descobri que ela estava no Brasil. Deu tudo errado. Então, hoje, ela me ligou e disse que tinha uma notícia péssima: “Você vai ser avô”. Imagina quais seriam as notícias boas? Ela falou: “Vai nascer um tatuzinho”. Quando a Joana nasceu, minha tia falou: “Mas parece um tatuzinho, João”. Passei a chama-la de tatuzinho. Vai ser meu primeiro neto. Vem aí mais um tatuzinho. Fiquei exultante. É uma benção de Deus. E como foi seu contato com a Tulipa? Parece que você se identificou muito com ela... [Rindo] É que ela se parece muito comigo. Eu gosto muito de mim. A Tulipa faz um bocado de coisas que eu gosto. Ela assobia como passarinho, coisa que faço também. Nas horas que é para fazer, ela faz. Nas horas que não é, ela não faz. Não sei como isso acontece. É engraçado. O jornal disse que ela cantando “Até Quem Sabe”, no show do Quem É Quem, foi o ponto alto. Quero a Tulipa no time. Se eu fosse o Bernardinho do vôlei, diria isso. E não se esqueça da Mariana Aydar, que também participou do show. Toquei trombone no primeiro disco dela, numa outra época, mais medieval. O Marcos Valle também participou do show, e foi um incentivador do Quem É Quem... Sim, me levou para a gravadora em que ele estava, no começo dos anos 70. Ele se comprometeu a ser meu orientador. Mas, como o disco não vendeu nada, meu contrato não foi renovado. Só que eu já tinha combinado com o Guilherme Araújo que faria um disco na Polygram. O Mariozinho Rocha se arrependeu de ter me deixado ir embora da Odeon. Disse que era um prestígio para a companhia me ter lá, mesmo com o disco vendendo pouco. Eu disse: “Agora é tarde, Mariozinho, estou comprometido com a Polygram”. Aí fiz o Lugar Comum, cheio de letras do Gilberto Gil, do Caetano... Mencionei o Marcos porque dele se fala algo que também é muito dito sobre você: que tem espírito jovem, se dá bem com a nova geração. Vocês sempre tiveram essa afinidade, sempre estiveram abertos ao novo? É, são poucos os que conseguem falar com adultos e jovens. O Marcos tem essa qualidade. Sou fã dele. Desde quando o vi pela primeira vez, gravando com o Eumir Deodato. Aquela combinação era uma coisa... Morria de inveja da química daqueles dois meninos. Mas sempre compreendi as coisas. Agora, nem procuro mais compreender. Deixo mesmo sem compreender. Eu e o Marcos, a gente copia coisas um do outro. Tem hora que ele rouba um pedaço de uma música minha, tem hora que sou eu quem faz isso. Tem hora que o Deodato é que mete a mão. E fica por isso mesmo. O que é bonito é de todos. Achava que você tinha alguma restrição ao Deodato... Que nada! A coisa que eu mais gosto no mundo é o Eumir. A primeira vez que ele esteve lá em casa, em Los Angeles, a gente gravou o A Bad Donato. Ele veio de Nova York para me ajudar, para fazermos uma coisa bonita. E fizemos. Ele parou em casa uma semana, fizemos os arranjos todos, foi uma coisa de louco. Aí, ele voltou para Nova York e gravou “Also Sprach Zarathustra”, que ficou linda. Você não cultivou inimizades na sua carreira? Nunca. De pessoa nenhuma. Não entendo esse troço! Nem de vocês, jornalistas. Procure uma matéria que fale mal de mim. Não encontra. Nem no Acre – o Acre é metido a ser diferente dos outros. Pode ter uma materiazinha, de uma pessoa que estava de mau humor, de veículo inexpressivo. Mas isso fica tão pequeno que parece bula de remédio. Por qual música você gostaria de ser lembrado? São filhos, rapaz! Como vou determinar unzinho? É o conjunto da obra, igual quando fui homenageado no Grammy Latino. Talvez “Surpresa” seja a música pela qual eu gostaria de ser lembrado. Conhece? Mas por que essa? Porque metade é música, metade é letra. Enquanto o Guilherme Araújo conversava com o Caetano, eu ficava no piano. E querendo que o Caetano colocasse uma letra numa melodia que eu tinha. Mostrei e ele cantou: “Que surpresa, beleza”. Só que o Guilherme interrompia para reclamar de umas camisetas que estavam sendo produzidas com o nome do Caetano. “Que absurdo, estão ganhando dinheiro às suas custas.” Aí, o Caetano voltava para a música: “Que saudade/ verdade”. Depois, encontrei com o Abel Silva, que escreveu a letra de “Simples Carinho”, e mostrei o que eu já tinha. Perguntei se ele não me ajudaria a completar os espaços, que eram os momentos em que o Guilherme distraía o Caetano falando das camisetas. Mas o Abel disse: “Você quer mais o quê, rapaz?”. Em vez de entrar na parceria e colocar mais umas palavrinhas naquelas reticências, ele falou que as reticências faziam parte da música. Arrependimento, você tem algum? Como diria Chico Anysio, só tenho um arrependimento: ter fumado. Ele morreu mais cedo por causa disso. Eu parei de fumar no dia 4 do 4 de 2014. Foi uma determinação. Minha psiquiatra, doutora Regina, me falou para marcar uma data e parar, que não era para eu ir devagarinho. Olhei para o calendário e escolhi essa data, que fica fácil de lembrar.
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Amor Da Sua Cama
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por em 17/08/2014
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evista publicada na edição nº 48 da Billboard Brasil.   DONATO ELÉTRICO POR JOSÉ FLÁVIO JÚNIOR Prestes a fazer 80 anos, o genial pianista fala de religião, trânsito, Uruguai, Holanda e seu jeito zen Em 17 de agosto, João Donato completa 80 anos de vida. A data redonda já motiva shows e discos novos, como era de se esperar de um artista tão ativo. O projeto mais quente – e ainda longe de ser concluído – é o álbum de temas inéditos Donato Elétrico, gestado em São Paulo. Por intermédio do jornalista Ronaldo Evangelista, o pianista nascido no Acre se conectou com a turma do Bixiga 70, combo instrumental paulistano com dois discos celebrados no currículo. Se o material ainda não tem data para chegar ao mercado, a química dos músicos já foi testada nos palcos. Donato e seus novos parceiros apresentaram a íntegra do clássico Quem É Quem (1973) em duas noites no SESC Pinheiros (com canjas de Tulipa Ruiz, Mariana Aydar e Marcos Valle, produtor do LP) e uma no festival pernambucano Rec-Beat (com Tulipa) no último carnaval. O calor com que os espetáculos foram recebidos indica um ano formidável para o gênio da música brasileira e todos que veneram sua música. Viver na mesma época em que Donato já é uma dádiva. Ligar para ele de tarde para trocar uma ideia, um orgulho que nem todos podem ter, como diz o hino do Santos Futebol Clube. A seguir, os trechos de uma conversa que pretendia fazer uma retrospectiva da trajetória do músico. O fluxo de consciência, marca do discurso de Donato, pode ter frustrado um pouco a pauta, mas ajuda a entender um pouco mais quem é esse artista fabuloso, que interferiu de maneira singular na bossa nova, entendeu o funk americano num segundo momento, entabulou diálogos inesquecíveis com tropicalistas (produzindo Gal, dividindo composições com Gil e Caetano), e nunca abandonou o jazz, seu gênero predileto. Prepare-se para improvisos desconcertantes, solos fora da casinha, e algumas lições de vida. Como você está cheio de novos projetos, e nem todos são de revisita, é certo dizer que está completando 80 anos, porém olhando para o futuro? É isso. Eu vivo no futuro, apesar de trazer a energia do passado. Vivo uns 10, 40 anos na frente. É como o Stan Kenton [1911-1979, pianista e band leader americano, cujos arranjos foram grande infl uência na bossa nova]. Até hoje, você coloca um disco dele e tem essa sensação também. A coisa não tem começo nem meio nem fi m. Se você está escrevendo uma matéria, um arranjo ou uma poesia, até pode ter. Mas nem garanto que seja somente isso. Pode começar em outro lugar, e o meio pode ir para o fi nal ou para o início. Isso é uma espécie de loucura, mas uma loucura gostosa de lidar, porque você lida com você mesmo. Posso enganar todo mundo, mas a mim eu não consigo. Já tentei várias vezes! Já enganei vários amigos, namoradas, pais, mães [gargalha]. Mas a mim, não consigo. Sou muito verdadeiro, transparente, cristalino. Não penso se estou na presença do rei para dizer alguma coisa que não gostei a respeito dele. Tem gente que se guarda. “Não, mas eu não podia falar isso, ele é uma autoridade!” Que autoridade, rapaz? Não tem autoridade maior do que o poder sagrado, que vem de um lugar para onde tudo vai e de onde tudo vem, que é chamado por várias palavras: Alá, Deus, Jeová, a luz, o sol... Tudo isso é igual a tudo isso. Tudo vai dar no mesmo lugar, naquele camarada que não te deixa sozinho nunca. Tenho experiência própria de ter passado por lugares não muito aconchegantes. Mas, tão distraído eu estava que, quando me dei conta, já tinha passado para o outro lado. Alguém diz: “Mas você passou por ali? Ali era o inferno”. Digo: “Nem reparei!” Muito bom! Muito bom, mas isso nem é de minha autoria. Vem da Bíblia. Quando a gente está com desejo de aprender, a Bíblia vem e ensina. É como se fosse um manual do ser humano. Assim como tem um manual de como fritar um ovo, de como ligar um automóvel. Você é religioso? É católico? Eu não sou nada. Eu sou tudo. Quem me falou da Bíblia pela primeira vez foi o Dizzy Gillespie [1917-1993, legendário jazzista americano]. Eu o conheci num quarto de hotel, na época em que ele tocava com o pianista [argentino, 81 anos] Lalo Schifrin, que foi quem me levou lá. O Dizzy era o meu trompetista favorito, por causa da relação dele com o bebop. Eu amo bebop. Papo vai, papo vem, ele me perguntou se eu lia a Bíblia. Disse que não, e ele: “Pois devia ler! Tá tudo lá. Tem os salmos para os grandes músicos. Se tacar uma música em cima de um salmo, já tá bom demais.” [risos]. Então, não é nem um aspecto religioso, é um aspecto bíblico. Posso ser judeu, fariseu, ateu. Católico restringe muito. Sou católico inclusive. Respeito a missa, a liturgia, a água benta naquela piazinha, o Vaticano, que lida com riquezas inimagináveis, dinheiro é o que não falta lá. Mas também tem os espertinhos, os padres que querem comer as crianças. Mas isso existe em qualquer lugar. Existe coronel da polícia viado. Meu pai era da polícia e sabia que tinha. Você acompanha o presidente do Uruguai, o Pepe Mujica, que avançou na questão da legalização da maconha? Eu o aplaudo. Concordo muito com ele. Ganhei uma revista da KLM, a companhia aérea holandesa que vai completar 100 anos logo mais... Amsterdã é maravilhosa. Você faz o que quiser. Todo mundo se entende, não existe problema de comportamento. Não vi um disse--me-disse. Ninguém discute, nenhum carro bate no outro, ninguém se joga nos canais... Quero voltar lá. Nunca vi algo tão bonito na minha vida. Tanto faz se você quiser ou não quiser, não muda nada. Todos convivem pacifi camente, de uma maneira transparente. A matéria da KLM tinha como título “Diminua seu ritmo no Uruguai”. Não li ainda, porque não tenho tempo de ler tudo, mas quero. Também quero ler outra revista que tem uma matéria que diz “Copie seu cérebro e viva para sempre”. Estão guardadinhas na minha cabeceira. Quando eu não tiver mais nada para fazer, lerei. E quero passar uns dias no Uruguai. Podem ser umas férias, pode ser meia hora. Você é uma pessoa bastante zen, e tem o hábito de simplificar as coisas. Acha que isso se reflete na sua música? Faz parte do pacote... A música é um ingrediente da vida. Tem a letra, que influencia muito a música. Às vezes, um título já induz o ouvinte. “A Paz”, por exemplo. É a letra dela que dá vontade de você escutar. Aliás, ela será tocada no Grand Palais, em Paris, na inauguração da exposição [dos painéis monumentais] Guerra e Paz, do Portinari. Fui convidado pela Marta Suplicy para esta performance agora em maio. Uma entrevista que fiz com você em 2008, na Folha de S. Paulo, repercutiu muito por causa da sua declaração de que não aguentava mais falar de bossa nova, já que gostava mesmo era de jazz. O que você tirou disso? Continuo achando a mesma coisa. Como era o ano comemorativo dos 50 anos da bossa nova, viajei muito. Mas eu sou fundamentado no jazz. A bossa é um pouquinho do samba. Não diziam que a bossa era um samba tocado baixinho, para o vizinho do apartamento do lado não reclamar? A questão é o volume. Se você aumenta o volume de um disco do Shorty Rogers [1924-1974, trompetista e arranjador americano, um dos pioneiros do jazz West Coast], ele vai nivelar por baixo com qualquer música brega. Se você pegar umamúsica brega e tocá-la baixinho, vai notar que tem algo bonito ali. Nem que seja um acorde que tenha passado despercebido por causa do volume alto. Ando vivendo esta experiência agora. Pego os discos da minha coleção e tento ouvi-los de uma forma como nunca os ouvi. É verdade que a única coisa que faz você não simpatizar mais, e até não vir morar em São Paulo é o trânsito? É verdade. Mas eu já não estou me incomodando tanto com esse trânsito, não. Já está me lembrando o trânsito de Tóquio, com aqueles ônibus andando do lado errado. Lá, é um carro atrás do outro, formando quase que o desenho da ilha. É aquele caos, com automóveis bonitinhos, parecendo brinquedo. As portas abrem sozinhas, fecham sozinhas... E todo mundo sereno. Olha para um lado, um rosto sereno. Olha para o outro, a mesma coisa. Você pensa: “Só me resta ficar sereno também...” Aqui no Rio é um tal de buzinar, como se fosse resolver alguma coisa. O japonês espera. Tem o tsunami, o terremoto, o ciclone, o tufão, o vendaval, mas eu estou doido para voltar para lá. É um povo muito querido. Eles me param na rua e me perguntam se eu sou eu. O Japão é pequenininho, menor do que São Paulo. A impaciência das pessoas me chateia muito. Gente com pressa de chegar, atropelando os outros. Isso me incomoda, me faz passar mal. Se tem alguém apressado atrás de mim, eu saio para o lado. Qual a sua expectativa para a Copa do Mundo? Está preocupado? Estou nada. E parece que seremos campeões. Um motorista lá em Bruges, cidade medieval linda da Bélgica, me falou isso. O Brasil é um especialista em futebol, ele disse. Perguntei se a Bélgica tinha time. Ele respondeu que sim, mas que o Brasil ganharia. Acreditei nele, só porque foi um rapaz de Bruges que falou. E minha filha, Joana, me ligou e descobri que ela estava no Brasil. Deu tudo errado. Então, hoje, ela me ligou e disse que tinha uma notícia péssima: “Você vai ser avô”. Imagina quais seriam as notícias boas? Ela falou: “Vai nascer um tatuzinho”. Quando a Joana nasceu, minha tia falou: “Mas parece um tatuzinho, João”. Passei a chama-la de tatuzinho. Vai ser meu primeiro neto. Vem aí mais um tatuzinho. Fiquei exultante. É uma benção de Deus. E como foi seu contato com a Tulipa? Parece que você se identificou muito com ela... [Rindo] É que ela se parece muito comigo. Eu gosto muito de mim. A Tulipa faz um bocado de coisas que eu gosto. Ela assobia como passarinho, coisa que faço também. Nas horas que é para fazer, ela faz. Nas horas que não é, ela não faz. Não sei como isso acontece. É engraçado. O jornal disse que ela cantando “Até Quem Sabe”, no show do Quem É Quem, foi o ponto alto. Quero a Tulipa no time. Se eu fosse o Bernardinho do vôlei, diria isso. E não se esqueça da Mariana Aydar, que também participou do show. Toquei trombone no primeiro disco dela, numa outra época, mais medieval. O Marcos Valle também participou do show, e foi um incentivador do Quem É Quem... Sim, me levou para a gravadora em que ele estava, no começo dos anos 70. Ele se comprometeu a ser meu orientador. Mas, como o disco não vendeu nada, meu contrato não foi renovado. Só que eu já tinha combinado com o Guilherme Araújo que faria um disco na Polygram. O Mariozinho Rocha se arrependeu de ter me deixado ir embora da Odeon. Disse que era um prestígio para a companhia me ter lá, mesmo com o disco vendendo pouco. Eu disse: “Agora é tarde, Mariozinho, estou comprometido com a Polygram”. Aí fiz o Lugar Comum, cheio de letras do Gilberto Gil, do Caetano... Mencionei o Marcos porque dele se fala algo que também é muito dito sobre você: que tem espírito jovem, se dá bem com a nova geração. Vocês sempre tiveram essa afinidade, sempre estiveram abertos ao novo? É, são poucos os que conseguem falar com adultos e jovens. O Marcos tem essa qualidade. Sou fã dele. Desde quando o vi pela primeira vez, gravando com o Eumir Deodato. Aquela combinação era uma coisa... Morria de inveja da química daqueles dois meninos. Mas sempre compreendi as coisas. Agora, nem procuro mais compreender. Deixo mesmo sem compreender. Eu e o Marcos, a gente copia coisas um do outro. Tem hora que ele rouba um pedaço de uma música minha, tem hora que sou eu quem faz isso. Tem hora que o Deodato é que mete a mão. E fica por isso mesmo. O que é bonito é de todos. Achava que você tinha alguma restrição ao Deodato... Que nada! A coisa que eu mais gosto no mundo é o Eumir. A primeira vez que ele esteve lá em casa, em Los Angeles, a gente gravou o A Bad Donato. Ele veio de Nova York para me ajudar, para fazermos uma coisa bonita. E fizemos. Ele parou em casa uma semana, fizemos os arranjos todos, foi uma coisa de louco. Aí, ele voltou para Nova York e gravou “Also Sprach Zarathustra”, que ficou linda. Você não cultivou inimizades na sua carreira? Nunca. De pessoa nenhuma. Não entendo esse troço! Nem de vocês, jornalistas. Procure uma matéria que fale mal de mim. Não encontra. Nem no Acre – o Acre é metido a ser diferente dos outros. Pode ter uma materiazinha, de uma pessoa que estava de mau humor, de veículo inexpressivo. Mas isso fica tão pequeno que parece bula de remédio. Por qual música você gostaria de ser lembrado? São filhos, rapaz! Como vou determinar unzinho? É o conjunto da obra, igual quando fui homenageado no Grammy Latino. Talvez “Surpresa” seja a música pela qual eu gostaria de ser lembrado. Conhece? Mas por que essa? Porque metade é música, metade é letra. Enquanto o Guilherme Araújo conversava com o Caetano, eu ficava no piano. E querendo que o Caetano colocasse uma letra numa melodia que eu tinha. Mostrei e ele cantou: “Que surpresa, beleza”. Só que o Guilherme interrompia para reclamar de umas camisetas que estavam sendo produzidas com o nome do Caetano. “Que absurdo, estão ganhando dinheiro às suas custas.” Aí, o Caetano voltava para a música: “Que saudade/ verdade”. Depois, encontrei com o Abel Silva, que escreveu a letra de “Simples Carinho”, e mostrei o que eu já tinha. Perguntei se ele não me ajudaria a completar os espaços, que eram os momentos em que o Guilherme distraía o Caetano falando das camisetas. Mas o Abel disse: “Você quer mais o quê, rapaz?”. Em vez de entrar na parceria e colocar mais umas palavrinhas naquelas reticências, ele falou que as reticências faziam parte da música. Arrependimento, você tem algum? Como diria Chico Anysio, só tenho um arrependimento: ter fumado. Ele morreu mais cedo por causa disso. Eu parei de fumar no dia 4 do 4 de 2014. Foi uma determinação. Minha psiquiatra, doutora Regina, me falou para marcar uma data e parar, que não era para eu ir devagarinho. Olhei para o calendário e escolhi essa data, que fica fácil de lembrar.