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Leia entrevista exclusiva com Ney Matogrosso

por em 27/12/2014
ong>Por Maurício Amendola Com mais de 40 anos de carreira e 21 álbuns solo de estúdio lançados, Ney Matogrosso é um dos nomes mais significativos da história da música brasileira. Performático e marcante desde a época do Secos & Molhados, Ney é devoto dos palcos e colocou nas prateleiras, em novembro, a edição ao vivo, em CD e DVD, do registro Atento Aos Sinais, que virara turnê em 2013 e transformou-se em disco de estúdio no mesmo ano. Gravado no HSBC Tom Brasil, em São Paulo, o projeto traz canções de autoria dos consagrados Caetano Veloso, Lenine e Arnaldo Antunes, mas também destaca composições de novos nomes como Criolo e Zabomba. Em entrevista à Billboard Brasil, Ney Matogrosso comentou sobre o novo trabalho, mas também falou de política, comportamento, sexualidade e a, segundo ele, inédita “falta de pressa” para realizar novos projetos. “É a primeira vez que eu não tenho claro na cabeça o que eu vou fazer daqui para frente”, disse. Além disso, o icônico artista de 73 anos falou sobre a experiência de ter recebido, no mês passado, o prêmio do Grammy Latino pelo conjunto de sua obra. Confira! Você fez a turnê de Atento Aos Sinais em 2013 e depois gravou o disco em estúdio. A apresentação ao vivo sempre vem antes na sua cabeça? Em tudo o que eu faço, penso no espetáculo ao vivo primeiro. É a primeira coisa no que penso. Quando gravei o disco,  o show já estava na minha cabeça. Nesse caso, eu já tinha feito o show antes de tudo, mas fazer o show e depois gravar o disco no estúdio é o mais comum para mim e o que mais gosto de fazer. Porque assim eu já testei as músicas ao vivo, já criei intimidade com o repertório. Você modifica muitas coisas das performances ao vivo para o estúdio? Em questão de arranjo, harmonia? Não, depois que está pronto, está pronto. Isso tudo é durante os ensaios. É a hora em que a gente experimenta e procura coisas. O ensaio é o momento de experimentar. Você parece ser um artista que prefere o palco ao estúdio. É isso mesmo? Quais são as vantagens de cada ambiente na sua opinião? Hoje em dia, eu compreendo melhor o estúdio. Antigamente, achava que eu não rendia e não gostava nunca do resultado. Quase sempre ficava insatisfeito. Agora eu entendo melhor, já sei que é outra maneira. No estúdio, você pode refazer várias vezes, pegar no requinte dos detalhes. Grava uma vez e uma frase saiu muito boa. Grava outra que não sai tão boa, e você ainda pode escolher aquela primeira. Mas não é uma coisa que eu faço com regularidade. No palco, você fez e pronto. Mesmo que não saia como você imaginava, não tem como fazer de novo. Esse improviso é um dos grandes prazeres do palco.  E é a minha grande paixão. Recentemente, você disse que tem o desejo de gravar um disco com músicas do Caetano Veloso. Essa ideia amadureceu? São ideias apenas, não existe nada certo. O que está me surpreendendo, na verdade, é que, ultimamente, eu não ando tendo pressa para pensar num próximo projeto. Não tenho noção de qual será o próximo passo. É a primeira vez que eu não tenho claro na cabeça o que eu vou fazer. O que me espanta é o fato de eu não estar preocupado com essa falta de clareza. Eu tinha uma ansiedade de colocar tudo para fora, que simplesmente passou. Se a banda Cê, que gravou os três discos mais recentes do Caetano, estiver disponível, o que acharia de uma parceria? Eu gosto da Cê, mas realmente não sei. Não posso ficar liberando possibilidades sendo que eu nem estou pensando nisso agora. Como eu disse, o que está me surpreendendo é o fato de eu nem estar preocupado. Como foi receber a notícia do prêmio no Grammy Latino? Para mim, foi uma surpresa. Não imaginei que o Grammy Latino estivesse de olho no meu trabalho. É lógico que eu fico muito feliz por esse reconhecimento. Mas, de maneira nenhuma, é algo que mude a minha cabeça e que tenha sido meu objetivo. Eu continuo fazendo tudo igual. Lá fora, esse tipo de prêmio modifica uma carreira. Aqui no Brasil, nem tanto. Não alivia nada. Então, tudo bem. Fico contente, recebo o prêmio, volto para casa, guardo o troféu e toco a minha vida. ney Há alguns meses, você foi entrevistado em um programa português e suas declarações sobre o governo brasileiro repercutiram muito por aqui. O que achou do resultado das eleições? Olha... Vamos esperar um tempo para expressar alguma opinião. E a campanha eleitoral... A campanha foi sórdida. Depois de ver a repercussão das suas declarações, você se arrependeu de algo que disse? Não me arrependo de nada, eu falei o que penso. Acho que eu errei uma estatística, se não me engano. E eu nem fui para aquela entrevista com a intenção de falar de política. Fui chamado lá para falar sobre o meu trabalho. Surgiu o assunto e eu dei a minha opinião. Como é a sua relação com a política atualmente? Você se identifica com a dita esquerda? Eu sempre tive uma tendência à esquerda. Mas eu não considero nem o PT, nem Venezuela e nem Bolívia como sendo a esquerda. Nunca tive nenhuma relação com partido político, não gosto dessa possibilidade e não me interessa. Porque, se você é de algum partido, você está limitado. Não quero me submeter a isso. Eu sou livre, meu pensamento é livre e quero continuar decidindo pela minha cabeça. Na época do Secos & Molhados, eu tive a ilusão de achar que a esquerda entendia o que eu estava fazendo e me apoiaria. Fui tão rejeitado pela direita quanto pela esquerda. Fiquei pensando que eu era um ET no Brasil. Mas fiz as coisas da minha maneira e mantive a minha liberdade de pensamento. Você acha que a arte pode promover até mais rupturas do que um movimento político? Sim! Eu não tenho nenhuma ilusão com relação à política partidária. Essa história de esquerda e direita é um papo furado. Não existe. Quando eles chegam lá, são todos iguais. O que acha de parte dos jovens brasileiros carregar uma mentalidade conservadora atualmente? Eu acho uma coisa assustadora. Não entendo... Como jovem pode ser conservador? Desde o início de sua carreira, você foi um transgressor no que diz respeito às normas de gênero. Como vê a evolução dessa questão nos dias atuais? Hoje em dia é muito mais arejado. Mas, naturalmente, o “outro lado” também reage de maneira muito mais forte. Ainda que o caminho esteja sendo percorrido, é muito mais saudável não cairmos na inocência de achar que estamos caminhando livremente. A repressão aumenta muito com as vitórias. Suas performances ao vivo são sempre arrebatadoras. Você pensa em “ter que virar a chave” e fazer shows mais intimistas e calmos por conta da sua idade? Em algum momento deve acontecer, mas, não, ainda não é a hora. As pessoas pensam “Ah, com mais de 70 anos, a pessoa tem que estar em casa, de pantufinha, assistindo à televisão”. Não é o meu caso. No documentário Olho Nu, lançado neste ano, sua vida e sua obra são desnudadas. Como é a sua relação com esse olhar ao passado? Eu adorei o documentário. Mas, para mim, o passado é o passado, eu nem fico falando muito disso. O meu negócio é o agora. Sou zero nostalgia. Mais de 40 anos depois do lançamento, como é a sua relação com o disco de estreia do Secos & Molhados? Eu adoro os dois, o primeiro e o segundo. São dois grandes discos. Acho que eles são prestigiados da forma que merecem. O que você pensa sobre redes sociais? Tem vontade de estar conectado a esse mundo? Olha, o fato das pessoas poderem se comunicar e se aproximar cada vez mais eu acho saudável. Mas eu não tenho rede social, não me interessa nem um pouco. Não pretendo entrar nesse mundo, não quero mesmo. Quando alguma coisa relacionada a mim repercute por lá, como foi o caso daquela entrevista, eu fico sabendo, porque não tem como escapar. Mas nunca sou eu quem vai atrás. Meus amigos que me contam. Eu não tenho interesse mesmo. Nas redes sociais, as pessoas se ocultam atrás de uma identidade e aí elas são muito malignas. E as coisas que são ditas também. A letra da música “Fala”, do Secos & Molhados, expressa um pouco a dinâmica das redes sociais, você não acha? Ah, sim! Acho que poderia ser o tema das redes sociais [risos]. https://www.youtube.com/watch?v=bAdlGZSaQRg
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Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
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Saudade
Eduardo Costa
3
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
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Leia entrevista exclusiva com Ney Matogrosso

por em 27/12/2014
ong>Por Maurício Amendola Com mais de 40 anos de carreira e 21 álbuns solo de estúdio lançados, Ney Matogrosso é um dos nomes mais significativos da história da música brasileira. Performático e marcante desde a época do Secos & Molhados, Ney é devoto dos palcos e colocou nas prateleiras, em novembro, a edição ao vivo, em CD e DVD, do registro Atento Aos Sinais, que virara turnê em 2013 e transformou-se em disco de estúdio no mesmo ano. Gravado no HSBC Tom Brasil, em São Paulo, o projeto traz canções de autoria dos consagrados Caetano Veloso, Lenine e Arnaldo Antunes, mas também destaca composições de novos nomes como Criolo e Zabomba. Em entrevista à Billboard Brasil, Ney Matogrosso comentou sobre o novo trabalho, mas também falou de política, comportamento, sexualidade e a, segundo ele, inédita “falta de pressa” para realizar novos projetos. “É a primeira vez que eu não tenho claro na cabeça o que eu vou fazer daqui para frente”, disse. Além disso, o icônico artista de 73 anos falou sobre a experiência de ter recebido, no mês passado, o prêmio do Grammy Latino pelo conjunto de sua obra. Confira! Você fez a turnê de Atento Aos Sinais em 2013 e depois gravou o disco em estúdio. A apresentação ao vivo sempre vem antes na sua cabeça? Em tudo o que eu faço, penso no espetáculo ao vivo primeiro. É a primeira coisa no que penso. Quando gravei o disco,  o show já estava na minha cabeça. Nesse caso, eu já tinha feito o show antes de tudo, mas fazer o show e depois gravar o disco no estúdio é o mais comum para mim e o que mais gosto de fazer. Porque assim eu já testei as músicas ao vivo, já criei intimidade com o repertório. Você modifica muitas coisas das performances ao vivo para o estúdio? Em questão de arranjo, harmonia? Não, depois que está pronto, está pronto. Isso tudo é durante os ensaios. É a hora em que a gente experimenta e procura coisas. O ensaio é o momento de experimentar. Você parece ser um artista que prefere o palco ao estúdio. É isso mesmo? Quais são as vantagens de cada ambiente na sua opinião? Hoje em dia, eu compreendo melhor o estúdio. Antigamente, achava que eu não rendia e não gostava nunca do resultado. Quase sempre ficava insatisfeito. Agora eu entendo melhor, já sei que é outra maneira. No estúdio, você pode refazer várias vezes, pegar no requinte dos detalhes. Grava uma vez e uma frase saiu muito boa. Grava outra que não sai tão boa, e você ainda pode escolher aquela primeira. Mas não é uma coisa que eu faço com regularidade. No palco, você fez e pronto. Mesmo que não saia como você imaginava, não tem como fazer de novo. Esse improviso é um dos grandes prazeres do palco.  E é a minha grande paixão. Recentemente, você disse que tem o desejo de gravar um disco com músicas do Caetano Veloso. Essa ideia amadureceu? São ideias apenas, não existe nada certo. O que está me surpreendendo, na verdade, é que, ultimamente, eu não ando tendo pressa para pensar num próximo projeto. Não tenho noção de qual será o próximo passo. É a primeira vez que eu não tenho claro na cabeça o que eu vou fazer. O que me espanta é o fato de eu não estar preocupado com essa falta de clareza. Eu tinha uma ansiedade de colocar tudo para fora, que simplesmente passou. Se a banda Cê, que gravou os três discos mais recentes do Caetano, estiver disponível, o que acharia de uma parceria? Eu gosto da Cê, mas realmente não sei. Não posso ficar liberando possibilidades sendo que eu nem estou pensando nisso agora. Como eu disse, o que está me surpreendendo é o fato de eu nem estar preocupado. Como foi receber a notícia do prêmio no Grammy Latino? Para mim, foi uma surpresa. Não imaginei que o Grammy Latino estivesse de olho no meu trabalho. É lógico que eu fico muito feliz por esse reconhecimento. Mas, de maneira nenhuma, é algo que mude a minha cabeça e que tenha sido meu objetivo. Eu continuo fazendo tudo igual. Lá fora, esse tipo de prêmio modifica uma carreira. Aqui no Brasil, nem tanto. Não alivia nada. Então, tudo bem. Fico contente, recebo o prêmio, volto para casa, guardo o troféu e toco a minha vida. ney Há alguns meses, você foi entrevistado em um programa português e suas declarações sobre o governo brasileiro repercutiram muito por aqui. O que achou do resultado das eleições? Olha... Vamos esperar um tempo para expressar alguma opinião. E a campanha eleitoral... A campanha foi sórdida. Depois de ver a repercussão das suas declarações, você se arrependeu de algo que disse? Não me arrependo de nada, eu falei o que penso. Acho que eu errei uma estatística, se não me engano. E eu nem fui para aquela entrevista com a intenção de falar de política. Fui chamado lá para falar sobre o meu trabalho. Surgiu o assunto e eu dei a minha opinião. Como é a sua relação com a política atualmente? Você se identifica com a dita esquerda? Eu sempre tive uma tendência à esquerda. Mas eu não considero nem o PT, nem Venezuela e nem Bolívia como sendo a esquerda. Nunca tive nenhuma relação com partido político, não gosto dessa possibilidade e não me interessa. Porque, se você é de algum partido, você está limitado. Não quero me submeter a isso. Eu sou livre, meu pensamento é livre e quero continuar decidindo pela minha cabeça. Na época do Secos & Molhados, eu tive a ilusão de achar que a esquerda entendia o que eu estava fazendo e me apoiaria. Fui tão rejeitado pela direita quanto pela esquerda. Fiquei pensando que eu era um ET no Brasil. Mas fiz as coisas da minha maneira e mantive a minha liberdade de pensamento. Você acha que a arte pode promover até mais rupturas do que um movimento político? Sim! Eu não tenho nenhuma ilusão com relação à política partidária. Essa história de esquerda e direita é um papo furado. Não existe. Quando eles chegam lá, são todos iguais. O que acha de parte dos jovens brasileiros carregar uma mentalidade conservadora atualmente? Eu acho uma coisa assustadora. Não entendo... Como jovem pode ser conservador? Desde o início de sua carreira, você foi um transgressor no que diz respeito às normas de gênero. Como vê a evolução dessa questão nos dias atuais? Hoje em dia é muito mais arejado. Mas, naturalmente, o “outro lado” também reage de maneira muito mais forte. Ainda que o caminho esteja sendo percorrido, é muito mais saudável não cairmos na inocência de achar que estamos caminhando livremente. A repressão aumenta muito com as vitórias. Suas performances ao vivo são sempre arrebatadoras. Você pensa em “ter que virar a chave” e fazer shows mais intimistas e calmos por conta da sua idade? Em algum momento deve acontecer, mas, não, ainda não é a hora. As pessoas pensam “Ah, com mais de 70 anos, a pessoa tem que estar em casa, de pantufinha, assistindo à televisão”. Não é o meu caso. No documentário Olho Nu, lançado neste ano, sua vida e sua obra são desnudadas. Como é a sua relação com esse olhar ao passado? Eu adorei o documentário. Mas, para mim, o passado é o passado, eu nem fico falando muito disso. O meu negócio é o agora. Sou zero nostalgia. Mais de 40 anos depois do lançamento, como é a sua relação com o disco de estreia do Secos & Molhados? Eu adoro os dois, o primeiro e o segundo. São dois grandes discos. Acho que eles são prestigiados da forma que merecem. O que você pensa sobre redes sociais? Tem vontade de estar conectado a esse mundo? Olha, o fato das pessoas poderem se comunicar e se aproximar cada vez mais eu acho saudável. Mas eu não tenho rede social, não me interessa nem um pouco. Não pretendo entrar nesse mundo, não quero mesmo. Quando alguma coisa relacionada a mim repercute por lá, como foi o caso daquela entrevista, eu fico sabendo, porque não tem como escapar. Mas nunca sou eu quem vai atrás. Meus amigos que me contam. Eu não tenho interesse mesmo. Nas redes sociais, as pessoas se ocultam atrás de uma identidade e aí elas são muito malignas. E as coisas que são ditas também. A letra da música “Fala”, do Secos & Molhados, expressa um pouco a dinâmica das redes sociais, você não acha? Ah, sim! Acho que poderia ser o tema das redes sociais [risos]. https://www.youtube.com/watch?v=bAdlGZSaQRg