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Linn da Quebrada: “Entre ser homem e ser mulher, sou eu"

Cantora carrega em suas letras as dores e as delícias de ser quem é

por Rebecca Silva em 22/05/2017

Bicha, trans, preta e periférica. É dessa forma direta que a cantora Linn da Quebrada se define, antes mesmo que qualquer um pense em descrevê-la. Há um ano, ela surgiu na internet ao lançar o clipe de "Enviadescer" e de lá para cá, ganhou espaço e voz. Apesar de bem firme em sua própria definição, ela admite que está em período de transição: "Estou em negociação para dar forma a quem eu sou. Complexa é como me sinto".

No último final de semana, Linn se apresentou pela primeira vez na Virada Cultural, no palco Cabaré Queer, montado no tradicional edifíco Copan, algo que ela vê como conquista. "É especial para muitas como eu, com experiências como as minhas. É importante para formar redes, ter uma troca, compartilhar minha música com essas pessoas é especial".

Para Linn, a apresentação no evento foi a oportunidade de dividir sua solidão com outras pessoas e encontrar, nelas, outras formas de solidão. "É tudo que sempre esperei, me sentir menos sozinha. É por isso que faço música". A solidão e a incompreensão são temas muito presentes na vida de pessoas transgênero. "É cruel. Toleram a nossa existência, mas poucos se envolvem, poucos fogem do que foram ensinados a gostar, desejar. Estamos sempre em negociação pela estética, pela vida, pelos afetos".

Filha de mãe Testemunha de Jeová, nascida e criada no interior de São Paulo, Linn enfrentou dificuldades. Viu, primeiramente no teatro, depois na música, formas de se expressar. "Existi e coexisti com a minha mãe. Ela foi entendendo o que aquilo significava. A maior preocupação dela é com a hostilidade contra nós. Fazendo performances, percebi a voz como parte do meu corpo também. Vi que o funk era usado para construir desejo, sensualidade. Percebi que não contemplava meu corpo bicha travesti. Comecei a escrever, mostrar para os outros". Na época em que fez teatro em Santo André, Grande São Paulo, Linn dividiu o mesmo teto com outro nome bastante conhecido e que também carrega esse discurso, Liniker.

Em suas letras, Linn canta muito sobre o feminino e o empoderamento, falando de forma bem direta, assim como gosta de se descrever, sobre a sua realidade. "Canto o que eu precisava ouvir para me fazer existir e acreditar em mim. Agora, já trabalhando, percebo a importância de cantar sobre nossas vivências". Linn defende a individualidade independentemente dos padrões impostos, admitindo que está, ela mesma, em um período de transição. "Existem muitas formas de ser seu corpo. Prefiro pensar que existem ‘N’ sexos, como existem ‘N’ corpos no mundo. Somos ensinados sobre o que é homem, o que é mulher, o que é trans. Se foge dessa imagem pré-criada, há negação. Hoje, estou satisfeita com meu corpo. Entre ser homem e ser mulher, sou eu".

Linn da Quebrada está com um projeto de financiamento coletivo para a produção de seu primeiro disco, Pajubá. A pouco menos de um mês do fim do processo, a cantora admite que não alcançaram a metade da meta estipulada ainda. "Quero muito materializar essa obra. Quero que se torne maior e circule além de mim, que outras pessoas tenham contato e seja motor de outras ações.". Linn acredita que a fase pela qual estamos passando, com um maior espaço para artistas LGBT, seja o momento perfeito para o lançamento, aproveitando que as vozes estão ganhando peso. "Eu sou eco de muitas vozes, canal de histórias como a minha. O Pajubá é nosso".

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Bicha, trans, preta e periférica. É dessa forma direta que a cantora Linn da Quebrada se define, antes mesmo que qualquer um pense em descrevê-la. Há um ano, ela surgiu na internet ao lançar o clipe de "Enviadescer" e de lá para cá, ganhou espaço e voz. Apesar de bem firme em sua própria definição, ela admite que está em período de transição: "Estou em negociação para dar forma a quem eu sou. Complexa é como me sinto".

No último final de semana, Linn se apresentou pela primeira vez na Virada Cultural, no palco Cabaré Queer, montado no tradicional edifíco Copan, algo que ela vê como conquista. "É especial para muitas como eu, com experiências como as minhas. É importante para formar redes, ter uma troca, compartilhar minha música com essas pessoas é especial".

Para Linn, a apresentação no evento foi a oportunidade de dividir sua solidão com outras pessoas e encontrar, nelas, outras formas de solidão. "É tudo que sempre esperei, me sentir menos sozinha. É por isso que faço música". A solidão e a incompreensão são temas muito presentes na vida de pessoas transgênero. "É cruel. Toleram a nossa existência, mas poucos se envolvem, poucos fogem do que foram ensinados a gostar, desejar. Estamos sempre em negociação pela estética, pela vida, pelos afetos".

Filha de mãe Testemunha de Jeová, nascida e criada no interior de São Paulo, Linn enfrentou dificuldades. Viu, primeiramente no teatro, depois na música, formas de se expressar. "Existi e coexisti com a minha mãe. Ela foi entendendo o que aquilo significava. A maior preocupação dela é com a hostilidade contra nós. Fazendo performances, percebi a voz como parte do meu corpo também. Vi que o funk era usado para construir desejo, sensualidade. Percebi que não contemplava meu corpo bicha travesti. Comecei a escrever, mostrar para os outros". Na época em que fez teatro em Santo André, Grande São Paulo, Linn dividiu o mesmo teto com outro nome bastante conhecido e que também carrega esse discurso, Liniker.

Em suas letras, Linn canta muito sobre o feminino e o empoderamento, falando de forma bem direta, assim como gosta de se descrever, sobre a sua realidade. "Canto o que eu precisava ouvir para me fazer existir e acreditar em mim. Agora, já trabalhando, percebo a importância de cantar sobre nossas vivências". Linn defende a individualidade independentemente dos padrões impostos, admitindo que está, ela mesma, em um período de transição. "Existem muitas formas de ser seu corpo. Prefiro pensar que existem ‘N’ sexos, como existem ‘N’ corpos no mundo. Somos ensinados sobre o que é homem, o que é mulher, o que é trans. Se foge dessa imagem pré-criada, há negação. Hoje, estou satisfeita com meu corpo. Entre ser homem e ser mulher, sou eu".

Linn da Quebrada está com um projeto de financiamento coletivo para a produção de seu primeiro disco, Pajubá. A pouco menos de um mês do fim do processo, a cantora admite que não alcançaram a metade da meta estipulada ainda. "Quero muito materializar essa obra. Quero que se torne maior e circule além de mim, que outras pessoas tenham contato e seja motor de outras ações.". Linn acredita que a fase pela qual estamos passando, com um maior espaço para artistas LGBT, seja o momento perfeito para o lançamento, aproveitando que as vozes estão ganhando peso. "Eu sou eco de muitas vozes, canal de histórias como a minha. O Pajubá é nosso".