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Mais que um sobrenome honrado

por em 09/04/2013
H
erdeiro de Fela Kuti (fundador do afrobeat) mantém visão crítica e musicalidade afiadas, por Lucas Borges Teixeira
O sobrenome Kuti remete ao afrobeat em todo o mundo. Fela Kuti (1938-1997), o lendário multi-instrumentista e compositor nigeriano, popularizou o gênero em músicas com mensagens políticas e pelos direitos humanos. Nos anos 70 e 80, foi perseguido e torturado pela ditadura que comandava seu país. Hoje, é a maior referência global da música africana, cultuado e influente até mesmo na fechada música brasileira (Afrika Gumbe, Bixiga 70, Metá Metá, Abayomy Afrobeat Orquestra...). Femi Kuti, 51 anos, filho mais velho de Fela, carrega a bandeira do afrobeat com personalidade, o que o leva além da sombra do pai. No Brasil pela segunda vez, em novembro, ele protagonizou a mais elogiada apresentação no festival Black2Black, no Rio de Janeiro (mesmo em meio a nomes legendários como Bobby Womack e a Orchestra Baobab). Femi também é politicamente engajado, mas à sua maneira, sem intenção de entrar para a política. “Eu luto pelo meu povo e luto por mim, mas só quero tocar música”, conta ele à Billboard Brasil. Embora tenha lançado álbum em 2013, o No Place For My Dream (Knitting Factory Records), ele já está compondo canções para um próximo. “É muito difícil quando você tem que compor tantas músicas, porque elas soam diferentes a todo o momento.” Confira os principais tópicos da conversa por telefone com o músico. Experiência - São quase 30 anos de estrada. Para Femi, a principal diferença dele nos anos 80/90 para hoje é que atualmente sabe o que quer. “Eu sei como levar, sei gerenciar melhor meu ritmo, minha banda, a mim mesmo, minha voz. É preciso entender que ao vivo é bem diferente do estúdio. O estúdio é mais sensível. Não dá pra errar, entende?”, diz ele, que faz todas as suas gravações em estúdio como se fossem ao vivo, com todos os músicos tocando ao mesmo tempo. Nigéria Femi - Não parece muito confortável ao falar da situação atual do seu país de origem. Ele tem seus motivos. Segundo a Secretaria de Segurança da Nigéria, nos últimos dois anos, quase três mil pessoas morreram em virtude de violência sectária (conflitos entre tribos e etnias), e mais três mil por atentados terroristas do grupo fundamentalista islâmico Boko Haram, atuante no país. “Está horrível, há muitos suicidas com bombas por lá”, conta Kuti. Outro problema recorrente é o desvio de dinheiro público. “A corrupção está horrível como sempre, se não pior. Para onde vai todo o dinheiro que some toda hora? Antes de deixar Lagos [cidade mais populosa da Nigéria], as universidades estavam em greve há quatro meses. Estávamos sem energia. Não há saúde pública de qualidade.” Segundo pesquisa anual que mede a prosperidade dos países, do respeitado Instituto Legatum Prosperity, a Nigéria é o 20º pior país para se viver no mundo, entre 142 pesquisados. Futebol - Segundo Femi, a única coisa boa que ele tem a falar da Nigéria atualmente é que a sua seleção de futebol se classificou para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Um comentário político, mas vindo de um músico que jogava como goleiro quando jovem. Videogame - Quando não está tocando ou compondo, Femi Kuti, 51 anos, gosta de jogar video game com seus filhos. “Meu filho é viciado no Fifa. Como estou rodando o mundo, jogo com o pessoal da minha banda.” A música de Femi é tocada em uma das rádios do jogo Grand Theft Auto V. “Entraram em contato, e o meu filho me explicou. Mas não achei isso grande coisa, só deixei porque ele me convenceu.” África - O músico vê o aumento da atuação das empresas chinesas como mais uma relação danosa para o continente. “Não confio nos acordos feitos com os chineses. Está tudo sendo dado a eles. São como os que já fizemos com os EUA e a Europa. A África precisa de bons acordos, que protejam o povo africano, não destes que os governantes estão firmando.” Espiritual -  “Eu acredito nos deuses, nos meus ancestrais, no Criador Supremo, mas quase não vou à igreja.” Por isso, Femi se define como um homem espiritual, não religioso. “Acredito que a pessoa tem de fazer o máximo do bem que ela puder. Você não tem que se ajoelhar e rezar”. Femi conclui: “Tocar é a minha forma de rezar. *matéria publicada na edição 46 da Billboard Brasil, em novembro de 2013
  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
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Mais que um sobrenome honrado

por em 09/04/2013
H
erdeiro de Fela Kuti (fundador do afrobeat) mantém visão crítica e musicalidade afiadas, por Lucas Borges Teixeira
O sobrenome Kuti remete ao afrobeat em todo o mundo. Fela Kuti (1938-1997), o lendário multi-instrumentista e compositor nigeriano, popularizou o gênero em músicas com mensagens políticas e pelos direitos humanos. Nos anos 70 e 80, foi perseguido e torturado pela ditadura que comandava seu país. Hoje, é a maior referência global da música africana, cultuado e influente até mesmo na fechada música brasileira (Afrika Gumbe, Bixiga 70, Metá Metá, Abayomy Afrobeat Orquestra...). Femi Kuti, 51 anos, filho mais velho de Fela, carrega a bandeira do afrobeat com personalidade, o que o leva além da sombra do pai. No Brasil pela segunda vez, em novembro, ele protagonizou a mais elogiada apresentação no festival Black2Black, no Rio de Janeiro (mesmo em meio a nomes legendários como Bobby Womack e a Orchestra Baobab). Femi também é politicamente engajado, mas à sua maneira, sem intenção de entrar para a política. “Eu luto pelo meu povo e luto por mim, mas só quero tocar música”, conta ele à Billboard Brasil. Embora tenha lançado álbum em 2013, o No Place For My Dream (Knitting Factory Records), ele já está compondo canções para um próximo. “É muito difícil quando você tem que compor tantas músicas, porque elas soam diferentes a todo o momento.” Confira os principais tópicos da conversa por telefone com o músico. Experiência - São quase 30 anos de estrada. Para Femi, a principal diferença dele nos anos 80/90 para hoje é que atualmente sabe o que quer. “Eu sei como levar, sei gerenciar melhor meu ritmo, minha banda, a mim mesmo, minha voz. É preciso entender que ao vivo é bem diferente do estúdio. O estúdio é mais sensível. Não dá pra errar, entende?”, diz ele, que faz todas as suas gravações em estúdio como se fossem ao vivo, com todos os músicos tocando ao mesmo tempo. Nigéria Femi - Não parece muito confortável ao falar da situação atual do seu país de origem. Ele tem seus motivos. Segundo a Secretaria de Segurança da Nigéria, nos últimos dois anos, quase três mil pessoas morreram em virtude de violência sectária (conflitos entre tribos e etnias), e mais três mil por atentados terroristas do grupo fundamentalista islâmico Boko Haram, atuante no país. “Está horrível, há muitos suicidas com bombas por lá”, conta Kuti. Outro problema recorrente é o desvio de dinheiro público. “A corrupção está horrível como sempre, se não pior. Para onde vai todo o dinheiro que some toda hora? Antes de deixar Lagos [cidade mais populosa da Nigéria], as universidades estavam em greve há quatro meses. Estávamos sem energia. Não há saúde pública de qualidade.” Segundo pesquisa anual que mede a prosperidade dos países, do respeitado Instituto Legatum Prosperity, a Nigéria é o 20º pior país para se viver no mundo, entre 142 pesquisados. Futebol - Segundo Femi, a única coisa boa que ele tem a falar da Nigéria atualmente é que a sua seleção de futebol se classificou para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Um comentário político, mas vindo de um músico que jogava como goleiro quando jovem. Videogame - Quando não está tocando ou compondo, Femi Kuti, 51 anos, gosta de jogar video game com seus filhos. “Meu filho é viciado no Fifa. Como estou rodando o mundo, jogo com o pessoal da minha banda.” A música de Femi é tocada em uma das rádios do jogo Grand Theft Auto V. “Entraram em contato, e o meu filho me explicou. Mas não achei isso grande coisa, só deixei porque ele me convenceu.” África - O músico vê o aumento da atuação das empresas chinesas como mais uma relação danosa para o continente. “Não confio nos acordos feitos com os chineses. Está tudo sendo dado a eles. São como os que já fizemos com os EUA e a Europa. A África precisa de bons acordos, que protejam o povo africano, não destes que os governantes estão firmando.” Espiritual -  “Eu acredito nos deuses, nos meus ancestrais, no Criador Supremo, mas quase não vou à igreja.” Por isso, Femi se define como um homem espiritual, não religioso. “Acredito que a pessoa tem de fazer o máximo do bem que ela puder. Você não tem que se ajoelhar e rezar”. Femi conclui: “Tocar é a minha forma de rezar. *matéria publicada na edição 46 da Billboard Brasil, em novembro de 2013