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Mano Brown: “Não preciso gravar disco sobre luta para lutar”

Líder dos Racionais MC's fala sobre Boogie Naipe, seu álbum solo, e também sobre rap, pop e mais

por Marcos Lauro em 15/02/2017

O final de 2016 foi de muito trabalho e expectativa para Mano Brown, líder dos Racionais MCs. Seu tão comentado álbum solo, Boogie Naipe, foi lançado e confirmou os boatos: o rap combativo dava lugar ao som das festas black dos anos 1970 e 1980.

A ESTÉTICA DOS BAILES BLACK ESTÁ DE VOLTA COM O ÁLBUM BOOGIE NAIPE, DE MANO BROWN

Boogie Naipe foi muito criticado, antes mesmo de sair, por alguns fãs de rap. Como assim Mano Brown falando de festa? Cadê a política? E o social? “Eu não preciso gravar um disco falando disso pra ser isso, eu posso viver. Posso ser um cara totalmente envolvido com as questões. Ou então cê pode cantar sobre aquilo durante uma hora e viver uma vida serena, fora daquilo. Eu não preciso cantar pra fazer as coisas”, disse Mano Brown em conversa com a Billboard Brasil.

E o álbum surpreendeu. Sem as limitações sonoras que o rap impõe, Mano Brown, o vocalista Lino Krizz e seus convidados puderam alçar voos sonoros mais altos, com influências tanto de música brasileira quanto, claro, da soul music e do funk norte-americanos. Contrariando as críticas negativas pré-lançamento, o retorno nas mídias sociais do rapper foi positivo. “Eu não esperava essa aceitação. Porque a gente perdeu um pouco a noção do que é e o que não é música”, disse.

Leia abaixo a conversa com Mano Brown:

Em 2008, vi um show dos Racionais com a Banda Black Rio e já existia “Mulher Elétrica”. É a música mais antiga desse repertório?
Sim, foi a primeira. Ela foi feita avulsa, né? O disco dos Racionais [Nada Como Um Dia após o Outro Dia] já tinha saído há uns seis anos e eu tô aí sempre procurando um caminho, uma inspiração pra fazer um som e apareceu esse som baseado numa música antiga, de 1984 [Con Funk Shun, “Electric Lady”]. Ali foi a primeira, não tinha ideia de fazer um disco, nada. Foi só por gostar de música mesmo e fazer uma alusão à música original.

E quando o disco virou uma ideia?
Na real essas músicas iam entrar num disco da Banda Black Rio e elas acabaram não entrando, tendeu? Sobrou, eram músicas minhas, parcerias, letras minhas que outros cantaram e tal. Eu não tinha feito pra mim, mas quando fui ver já tinha oito músicas. Pensei na hora: vou fazer um disco. Tinha letra, refrão e tudo. Mas queria fazer uma coisa melhor, como se eu pudesse explicar através das músicas o que eu tava fazendo. Quando caiu na rua, causou estranheza. Ninguém sabia se tava à frente ou se tava fora de época [risos].

Esse disco recebeu muita crítica antes de sair. O fã de rap, por natureza, faz muita cobrança...
É limitador, né?

Sim... o rap fala da vida das pessoas, das necessidades, e todo mundo se acha um pouquinho dono do rap. Como você vê isso?
Eu acho isso bom, tem seu lado positivo sim. Isso é fidelidade! É um exemplo de fidelidade. As palavras é que fazem a cobrança e eu não acho que devo estar isento delas ou imune, tendeu? Eu não quero imunidade. Eu não tô acima da crítica. Eu compreendi isso rápido ainda com os Racionais, onde eu sempre fui alvo de crítica. Porque as pessoas pensam que a gente vai pra um lado e vai pra outro, aí causa estranheza. Às vezes elas não entendem e caem pra crítica. E eu acho importante. Nosso movimento é um movimento crítico, ele tende a alimentar esse lado crítico, inteligente... a gente não quer exército, “faça o que eu faço”. Prefiro do jeito que está, com crítica, análise... isso é pra saúde do movimento. Isso serve pra manter o que é preciso, que é o compromisso. Mas no Brasil as pessoas têm muito medo da corrupção, então todo mundo acha que todo mundo a qualquer momento vai se corromper. A caça às bruxas tá aberta o tempo inteiro, a peneira não para. Mas eu já sou um cara dinossauro nesse barato aí [risos].

E na real quando o disco saiu, eu vi muitos elogios nos comentários do seu Facebook e no seu Instagram.
É verdade, eu me surpreendi. Me surpreendi bem. Eu não esperava essa aceitação. Porque a gente perdeu um pouco a noção do que é e o que não é música. Eu tô na rua, eu respiro o mesmo ar do povo. E eu vejo o povo ouvindo muita música diferente das que eu ouço. E a gente convive, e compreende, respeita... eu ouço, gostando ou não. Nem sempre me expresso se eu gosto ou não. Boogie Naipe continua sendo do povo. O que as pessoas estão querendo ouvir? O que estão precisando ouvir? Tem essa também... Nem sempre o que elas estão ouvindo é o que elas precisam. Vem um cara de fora e fala: “Ah, não, o povo tá muito alienado”. Cê não sabe! Tendeu? Cê não sabe! A política é falar com o povo, se comunicar... não adianta falar sozinho. Cê tem que arrumar um jeito de falar com o povo, de estar próximo, que é o papel do Mano Brown como compositor, articulador, artista, terrorista [risos] e o que mais colocarem aí pra mim, eu sempre estive muito perto do povo. Inclusive quando as músicas mudaram de batida era de acordo com o que eu tava vendo o povo vivendo. Boogie Naipe tá muito perto do povo. Perto mesmo!

Hoje rola um revival dos anos 1970 no pop, com Bruno Mars, The Weeknd...
Dentro do Boogie Naipe tem influência do The Weeknd. “Nova Jerusalém” é The Weeknd. Assim como tem Genesis, Phil Collins, banda de rock dos anos 1970, tá tudo ali nas ideias e intenções...

“Dance, Dance, Dance” também é The Weeknd?
Pode ser ele, mas na real a música é de antes dele aparecer na cena, tem uns seis anos já. Essa música, esse ritmo tava fora do mercado, saca? Não tinha lugar pra ela quando foi feita, não tinha nada parecido. Já tinha tido Daft Punk e só. Aí mostrei pra algumas pessoas, que falaram: “Esse som é dance!”. “Esse som é pop!”. “Esse som é house!”. Eu falei: “Não, esse som é rap! É funk!”. Tem uma batida do Prince de fundo, “When Doves Cry”, morô? Tá ali. É assim que eu faço música. Tem Chic, com Seu Jorge cantando por cima, brilhando. Tem o William Magalhães com as harmonias profundas de voz dele. Tem um compositor chamado Bapt, que deu toda a linha melódica dessa música e a gente foi escrevendo a letra por cima. Então tem várias pessoas envolvidas nesse som, foi do caralho. E foi antes do The Weeknd, mas tem outros sons que têm influência dele sim.

Em Boogie Naipe tem uma homenagem ao rádio com a participação da locutora Vitoria Rios, que apresentava um programa de disco music na Alpha FM. Como é seu relacionamento com o rádio hoje?
Quando eu quero estar conectado com o mundo, sentir o que está acontecendo agora, em tempo real, é rádio. Eu passo muito tempo ouvindo o mesmo CD no carro, às vezes uma mesma faixa, e eu me desconecto. Aí quando eu quero me ligar, é rádio. Política, futebol... quero saber. Quando eu vejo que tô vazio de informação, é isso... se não é dois meses ouvindo o mesmo CD no carro [risos].

Ouvir coisas que você já conhece também ajuda a inspirar?
Eu gosto de antigas novidades. Coisas antigas que eu não conheço. Mas tem as novidades também, apoiar os mais novos, abrir espaço pras novas vertentes, pra geração que tá aprendendo... filhos de amigos meus aprendendo guitarra, baixo...

Falando em geração mais nova, ano passado você participou da faixa “Ruaterapia”, do Rashid, que já tem o clima do seu disco solo. Como rolou essa participação?
Quando acabamos o trampo do Cores e Valores dos Racionais, ele me chamou, deu a ideia e queria uma terceira pessoa. Falei pra chamar o Max de Castro e ele topou. Max produziu o som, fez trinta partes pra gente escolher o que queria. Levei o instrumental pra casa pra fazer a letra e o nome veio quando tava todo mundo no estúdio. A gente queria algo que tinha a ver com terapia e tal... veio “Ruaterapia”. Max de Castro é sem palavras. Funk boy. Sangue, né... herança. Filho de quem ele é...

No final do Cores e Valores tem um sampler de “Felizes”. Ali já tinha uma dica, um link, de como seria seu disco, certo?
É, foi uma brincadeira. Tem duas músicas ali que eram pro Boogie Naipe, “Eu Te Proponho” e “Coração Barrabáz”. Tava pensando nas músicas pra pôr ali e pensei: “Porque não, né?”. Porque não uma música abordando um outro assunto? A sonoridade é Racionais, mas é outro assunto. Já “Eu Te Proponho” é Boogie Naipe mesmo. Inspirada em Roberto Carlos, nessa ideia de imaginar cidades históricas de Minas Gerais, um casal procurando começar do zero, tudo de novo, procurando consertar os erros do passado pra começar uma vida nova com respeito, lealdade, fidelidade... coisas assim, né, que se pode falar numa música que fala de amor, né? Utopias e realidades. Uma fuga pela 381, aquela estrada que liga o Rio de Janeiro a Minas Gerais, já dou a localização do Waze ali [risos]. Uma música interessante, tem umas rimas legais esse som.

Quando as pessoas começaram a falar que viria um Mano Brown romântico por aí, todo mundo ligou isso ao fato de falar de amor. Mas o romantismo não é só amor, certo? “Fórmula Mágica da Paz”, por exemplo, é romântica.
Claro que é, lógico que é. “Homem na Estrada” é romântica.

Como é o Mano Brown romântico?
Esse cara romântico é o mesmo de sempre, daquela época. A gente substitui umas palavras do vocabulário por outras. Pode ser um cara romântico sonhando com coisas que o dinheiro não compra. O dinheiro é sempre pouco, né? A gente quer outras coisas... o dinheiro é a cereja. A gente quer felicidade, os amigos firmão também, família, ficar com a mulher que ama, morar onde quer, vestir o que quer... cê quer viver 120 anos do lado dos seus amigos. Viver bem, dar risada sempre. Ser feliz em bloco. A gente não quer ser feliz sozinho, quer ser feliz em bloco. E aí o romantismo pode expressar tudo isso aí. Aí vem as eleições, vem o impeachment da Dilma, cê vê o povo perdido nos ideais, alienado... todo mundo procurando a liberdade, né? Sem jamais esquecer dos compromissos firmados com si mesmo diante do espelho e com Deus. É o compromisso maior, entende? E todo mundo que correu a vida toda com os Racionais, eu tenho Deus no céu e eles na terra. Respeito profundo por eles. Racionais é o que é e eu sou o que eu sou por causa deles, nunca vou ignorar uma crítica. Só crítica violenta e covarde que eu devolvo à altura. De resto, a gente tá aí pra aprender e corrigir.

E rede social, hoje em dia, é terreno pra esse tipo de crítica. Você fica ligado nos seus perfis?
Às vezes eu lido na internet da mesma forma que eu lido na rua. Eu mando tomar no cu e já era [risos]. Quando o cara sai da crítica da música e vai pro pessoal, vai ter que ler uma resposta que geral vai ler também. Eu tenho quase um milhão de seguidores, um milhão de gente lendo aquela porra lá. Se mexer ali, tá ligado, né? É papo de leão, mano [risos]. Eu sou respeitador, tá ligado? Mas também não sou um cara fácil, não tô aqui pra fazer média com ninguém. Minhas opiniões e posicionamentos desagradam alguns, assim como vários também não me agradam. Mas tá tudo aí, suave.

Você tem a participação do Leon Ware no disco, um cara que já trabalhou com Marvin Gaye. Como chegou nele?
Leon é o rei do underground, é o underground mais pavoroso do planeta, mano. Cê é louco, mano, como vou explicar esse cara? [risos]. Cê pergunta pra músico americano, não conhece. Produtor americano, não conhece. Rapper americano, não conhece. Cê fala: “Caraio, mano, como assim os caras não conhecem o cara?” [risos]. Então o cara é o rei do underground, cê é louco [risos]! O cara é muito poderoso, já produziu Michael Jackson, Marvin Gaye... mora ali, há alguns milhares de quilômetros e milhares de dólares [risos]. Alguns milhares de dólares e de quilômetros nos separam, mas eu vou ter que chegar nesse cara. Cheguei.

Cês gravaram juntos?
Não, ele mandou. Eu já tava com o rap pronto e pensei: “Não posso perder essa”. Eu já tinha falado com ele pra pedir uma outra música e ele ficou surpreso que eu conhecia e gostava dessa música que eu pedi. Aí ele respeitou, viu que eu conheço o trabalho dele profundamente. É uma obra... o cara que gosta de fazer música tem que fazer uma faculdade de Leon Ware. Cê é louco. Ele tá aí, há alguns milhares de dólares daqui [risos].

Seu disco tem clima de festa black. Existe um revival das festas black por aí ou foi o centro que deixou de ver?
Eu acho que o centro não ouvia falar porque a informação não chegava. Os caras sempre estiveram aí trabalhando, têm uma caminhada. Às vezes emerge e aparece, né? Mas nunca deixou de estar ali. Existe um povo que gosta disso, os herdeiros... é um povo grande. E eu falei pro Lino Krizz: “A única coisa que a gente tem que fazer é fazer tudo em português!”. A maioria quando faz soul music quer cantar em inglês. Isso dificulta o acesso, elitiza, isola o povo e a gente não chega a lugar nenhum. A comunicação é tudo, mano. Quem não se comunica, se trumbica, mano. Um pouco do que cê falou no começo de aceitação do disco é devido ao entendimento da letra, tendeu? Dentro de um ritmo, de um conceito, contexto, de uma roupa, de uma intenção. Uma letra em português que aproxima o povo da gente. A gente ama música em inglês, mas a gente fala português. Esse foi o primeiro conceito. Ideia central: soul, R&B, funk cantado com as nossas expressões. E aí fui procurar umas referências mais antigas e tem de tudo lá. Tem Cazuza, Fafá de Belém, Neguinho da Beija-Flor, Zeca Pagodinho, Carlos Dafé, Gil, Tim Maia... tem pedaço de letra de vários artistas. Tem até Nico Rezende, Marina Lima... Roberto Carlos tem várias, Erasmo. É um disco brasileiro mesmo. E Jorge Ben, né? Não tem como.

Jorge Ben é a base, né, não tem como fugir...
Daqui a pouco eu tenho que parar de falar essas coisas pra não virar clichezão chato. “Tá querendo ser dono dos caras?” [risos]. Não é isso não... é aprendizado e tem que divulgar o nome dos caras pra coisa reviver e viver mais.

Quando a gente ouve alguma música lá do comecinho dos Racionais, o seu vocal é quase gritado. Foi mudando com o tempo e você canta em algumas faixas de Boogie Naipe. Você chegou a fazer aula de canto em algum momento?
Aula de canto eu nunca fiz. Na real eu sempre gostei de cantar as músicas desse caras, inspiração em soul. James Brown, Marvin Gaye... tinha os bailes da Chic Show e da Zimbabwe e essa era a referência. Clara Nunes, os caras do samba. Sempre gostei de música com suingue. No rap, a linguagem era mais crua e não tinha estrutura. Eu tinha caneta, papel e, se desse sorte, um disco instrumental. Eu poderia ter feito uma música romântica naquela época também, se eu tivesse acesso. Sempre gostei. O que me levou pra música foi a própria música, não foi a revolta. Aí depois veio o compromisso, o amadurecimento, a leitura, o conhecimento, envolvimento político... não com políticos, mas com professores, militantes, gente que pensava e falava sobre Bob Marley, James Brown. E eu também fazia parte daquele povo, a causa é uma vitamina pra você quando você não tem nada. Cê tem a sua luta pessoal e vai atrás de uma causa linda que é lutar pelos oprimidos. Pô, isso é lindo! Não é rótulo. Eu não preciso gravar um disco falando disso pra ser isso, eu posso viver. Posso ser um cara totalmente envolvido com as questões todas fora dos holofotes. Ou então cê pode cantar sobre aquilo durante uma hora e viver uma vida serena, fora daquilo. Eu não preciso cantar pra fazer as coisas. É isso que eu quero falar.

E como serão os shows solo? Já montou banda?
Acabei de montar a banda. Reuni uma rapaziada, fiz o reconhecimento, mostrei os sons... alguns já conheciam. É uma banda de 10 pessoas. Agora é a luta pra ir pra pista, porque os caras pensam que a vida tá ganha e não é assim não, tudo é luta. Cê grava um disco, monta uma banda... mas e agora pra pagar a banda, vai fazer como? Vou passar a bombeta na Praça da Sé [risos]? Os bico não entende, a chapelândia não entende... é os cara que eu tenho raiva, da chapelândia.

A galera que pensa que tá tudo fácil, na mão?
Ah, é... “gravou o disco e já tá na vida serena”! É só o começo, é uma luta, mano.

O rap vem dominando o Hot 100 da Billboard e, muitas vezes, se fundindo com o pop. Como você vê isso?
Veja bem, mano. O que que é o pop? O que eu vejo como pop? Popular todos nós somos. A intenção é ser popular, não é isso?

Sim, cê solta um disco e quer que as pessoas ouçam.
Tem que agradar. O Corinthians é grande porque é popular, certo? O pop não é depreciativo, tem que rever até o conceito de algumas palavras. Música é mistura, a gente não consegue evitar. As pessoas se procuram, os músicos se procuram, as músicas se procuram. Acabei de ler que o samba tem raízes na polca austríaca. O Hitler nasceu na Áustria. Veja bem... quer dizer que o samba e o Hitler tem a mesma raiz. Aí cê fala: “Pô, Mano Brown, cê dá uma dessa?” [risos]. Pode não ser verdade, não sei... era a música que se ouvia na corte aqui no Brasil. Isso é Brasil, né? Cê tem uma mãe austríaca e um pai africano. Tá no livro, não fui eu que escrevi...

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
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Marília Mendonça
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Mano Brown: “Não preciso gravar disco sobre luta para lutar”

Líder dos Racionais MC's fala sobre Boogie Naipe, seu álbum solo, e também sobre rap, pop e mais

por Marcos Lauro em 15/02/2017

O final de 2016 foi de muito trabalho e expectativa para Mano Brown, líder dos Racionais MCs. Seu tão comentado álbum solo, Boogie Naipe, foi lançado e confirmou os boatos: o rap combativo dava lugar ao som das festas black dos anos 1970 e 1980.

A ESTÉTICA DOS BAILES BLACK ESTÁ DE VOLTA COM O ÁLBUM BOOGIE NAIPE, DE MANO BROWN

Boogie Naipe foi muito criticado, antes mesmo de sair, por alguns fãs de rap. Como assim Mano Brown falando de festa? Cadê a política? E o social? “Eu não preciso gravar um disco falando disso pra ser isso, eu posso viver. Posso ser um cara totalmente envolvido com as questões. Ou então cê pode cantar sobre aquilo durante uma hora e viver uma vida serena, fora daquilo. Eu não preciso cantar pra fazer as coisas”, disse Mano Brown em conversa com a Billboard Brasil.

E o álbum surpreendeu. Sem as limitações sonoras que o rap impõe, Mano Brown, o vocalista Lino Krizz e seus convidados puderam alçar voos sonoros mais altos, com influências tanto de música brasileira quanto, claro, da soul music e do funk norte-americanos. Contrariando as críticas negativas pré-lançamento, o retorno nas mídias sociais do rapper foi positivo. “Eu não esperava essa aceitação. Porque a gente perdeu um pouco a noção do que é e o que não é música”, disse.

Leia abaixo a conversa com Mano Brown:

Em 2008, vi um show dos Racionais com a Banda Black Rio e já existia “Mulher Elétrica”. É a música mais antiga desse repertório?
Sim, foi a primeira. Ela foi feita avulsa, né? O disco dos Racionais [Nada Como Um Dia após o Outro Dia] já tinha saído há uns seis anos e eu tô aí sempre procurando um caminho, uma inspiração pra fazer um som e apareceu esse som baseado numa música antiga, de 1984 [Con Funk Shun, “Electric Lady”]. Ali foi a primeira, não tinha ideia de fazer um disco, nada. Foi só por gostar de música mesmo e fazer uma alusão à música original.

E quando o disco virou uma ideia?
Na real essas músicas iam entrar num disco da Banda Black Rio e elas acabaram não entrando, tendeu? Sobrou, eram músicas minhas, parcerias, letras minhas que outros cantaram e tal. Eu não tinha feito pra mim, mas quando fui ver já tinha oito músicas. Pensei na hora: vou fazer um disco. Tinha letra, refrão e tudo. Mas queria fazer uma coisa melhor, como se eu pudesse explicar através das músicas o que eu tava fazendo. Quando caiu na rua, causou estranheza. Ninguém sabia se tava à frente ou se tava fora de época [risos].

Esse disco recebeu muita crítica antes de sair. O fã de rap, por natureza, faz muita cobrança...
É limitador, né?

Sim... o rap fala da vida das pessoas, das necessidades, e todo mundo se acha um pouquinho dono do rap. Como você vê isso?
Eu acho isso bom, tem seu lado positivo sim. Isso é fidelidade! É um exemplo de fidelidade. As palavras é que fazem a cobrança e eu não acho que devo estar isento delas ou imune, tendeu? Eu não quero imunidade. Eu não tô acima da crítica. Eu compreendi isso rápido ainda com os Racionais, onde eu sempre fui alvo de crítica. Porque as pessoas pensam que a gente vai pra um lado e vai pra outro, aí causa estranheza. Às vezes elas não entendem e caem pra crítica. E eu acho importante. Nosso movimento é um movimento crítico, ele tende a alimentar esse lado crítico, inteligente... a gente não quer exército, “faça o que eu faço”. Prefiro do jeito que está, com crítica, análise... isso é pra saúde do movimento. Isso serve pra manter o que é preciso, que é o compromisso. Mas no Brasil as pessoas têm muito medo da corrupção, então todo mundo acha que todo mundo a qualquer momento vai se corromper. A caça às bruxas tá aberta o tempo inteiro, a peneira não para. Mas eu já sou um cara dinossauro nesse barato aí [risos].

E na real quando o disco saiu, eu vi muitos elogios nos comentários do seu Facebook e no seu Instagram.
É verdade, eu me surpreendi. Me surpreendi bem. Eu não esperava essa aceitação. Porque a gente perdeu um pouco a noção do que é e o que não é música. Eu tô na rua, eu respiro o mesmo ar do povo. E eu vejo o povo ouvindo muita música diferente das que eu ouço. E a gente convive, e compreende, respeita... eu ouço, gostando ou não. Nem sempre me expresso se eu gosto ou não. Boogie Naipe continua sendo do povo. O que as pessoas estão querendo ouvir? O que estão precisando ouvir? Tem essa também... Nem sempre o que elas estão ouvindo é o que elas precisam. Vem um cara de fora e fala: “Ah, não, o povo tá muito alienado”. Cê não sabe! Tendeu? Cê não sabe! A política é falar com o povo, se comunicar... não adianta falar sozinho. Cê tem que arrumar um jeito de falar com o povo, de estar próximo, que é o papel do Mano Brown como compositor, articulador, artista, terrorista [risos] e o que mais colocarem aí pra mim, eu sempre estive muito perto do povo. Inclusive quando as músicas mudaram de batida era de acordo com o que eu tava vendo o povo vivendo. Boogie Naipe tá muito perto do povo. Perto mesmo!

Hoje rola um revival dos anos 1970 no pop, com Bruno Mars, The Weeknd...
Dentro do Boogie Naipe tem influência do The Weeknd. “Nova Jerusalém” é The Weeknd. Assim como tem Genesis, Phil Collins, banda de rock dos anos 1970, tá tudo ali nas ideias e intenções...

“Dance, Dance, Dance” também é The Weeknd?
Pode ser ele, mas na real a música é de antes dele aparecer na cena, tem uns seis anos já. Essa música, esse ritmo tava fora do mercado, saca? Não tinha lugar pra ela quando foi feita, não tinha nada parecido. Já tinha tido Daft Punk e só. Aí mostrei pra algumas pessoas, que falaram: “Esse som é dance!”. “Esse som é pop!”. “Esse som é house!”. Eu falei: “Não, esse som é rap! É funk!”. Tem uma batida do Prince de fundo, “When Doves Cry”, morô? Tá ali. É assim que eu faço música. Tem Chic, com Seu Jorge cantando por cima, brilhando. Tem o William Magalhães com as harmonias profundas de voz dele. Tem um compositor chamado Bapt, que deu toda a linha melódica dessa música e a gente foi escrevendo a letra por cima. Então tem várias pessoas envolvidas nesse som, foi do caralho. E foi antes do The Weeknd, mas tem outros sons que têm influência dele sim.

Em Boogie Naipe tem uma homenagem ao rádio com a participação da locutora Vitoria Rios, que apresentava um programa de disco music na Alpha FM. Como é seu relacionamento com o rádio hoje?
Quando eu quero estar conectado com o mundo, sentir o que está acontecendo agora, em tempo real, é rádio. Eu passo muito tempo ouvindo o mesmo CD no carro, às vezes uma mesma faixa, e eu me desconecto. Aí quando eu quero me ligar, é rádio. Política, futebol... quero saber. Quando eu vejo que tô vazio de informação, é isso... se não é dois meses ouvindo o mesmo CD no carro [risos].

Ouvir coisas que você já conhece também ajuda a inspirar?
Eu gosto de antigas novidades. Coisas antigas que eu não conheço. Mas tem as novidades também, apoiar os mais novos, abrir espaço pras novas vertentes, pra geração que tá aprendendo... filhos de amigos meus aprendendo guitarra, baixo...

Falando em geração mais nova, ano passado você participou da faixa “Ruaterapia”, do Rashid, que já tem o clima do seu disco solo. Como rolou essa participação?
Quando acabamos o trampo do Cores e Valores dos Racionais, ele me chamou, deu a ideia e queria uma terceira pessoa. Falei pra chamar o Max de Castro e ele topou. Max produziu o som, fez trinta partes pra gente escolher o que queria. Levei o instrumental pra casa pra fazer a letra e o nome veio quando tava todo mundo no estúdio. A gente queria algo que tinha a ver com terapia e tal... veio “Ruaterapia”. Max de Castro é sem palavras. Funk boy. Sangue, né... herança. Filho de quem ele é...

No final do Cores e Valores tem um sampler de “Felizes”. Ali já tinha uma dica, um link, de como seria seu disco, certo?
É, foi uma brincadeira. Tem duas músicas ali que eram pro Boogie Naipe, “Eu Te Proponho” e “Coração Barrabáz”. Tava pensando nas músicas pra pôr ali e pensei: “Porque não, né?”. Porque não uma música abordando um outro assunto? A sonoridade é Racionais, mas é outro assunto. Já “Eu Te Proponho” é Boogie Naipe mesmo. Inspirada em Roberto Carlos, nessa ideia de imaginar cidades históricas de Minas Gerais, um casal procurando começar do zero, tudo de novo, procurando consertar os erros do passado pra começar uma vida nova com respeito, lealdade, fidelidade... coisas assim, né, que se pode falar numa música que fala de amor, né? Utopias e realidades. Uma fuga pela 381, aquela estrada que liga o Rio de Janeiro a Minas Gerais, já dou a localização do Waze ali [risos]. Uma música interessante, tem umas rimas legais esse som.

Quando as pessoas começaram a falar que viria um Mano Brown romântico por aí, todo mundo ligou isso ao fato de falar de amor. Mas o romantismo não é só amor, certo? “Fórmula Mágica da Paz”, por exemplo, é romântica.
Claro que é, lógico que é. “Homem na Estrada” é romântica.

Como é o Mano Brown romântico?
Esse cara romântico é o mesmo de sempre, daquela época. A gente substitui umas palavras do vocabulário por outras. Pode ser um cara romântico sonhando com coisas que o dinheiro não compra. O dinheiro é sempre pouco, né? A gente quer outras coisas... o dinheiro é a cereja. A gente quer felicidade, os amigos firmão também, família, ficar com a mulher que ama, morar onde quer, vestir o que quer... cê quer viver 120 anos do lado dos seus amigos. Viver bem, dar risada sempre. Ser feliz em bloco. A gente não quer ser feliz sozinho, quer ser feliz em bloco. E aí o romantismo pode expressar tudo isso aí. Aí vem as eleições, vem o impeachment da Dilma, cê vê o povo perdido nos ideais, alienado... todo mundo procurando a liberdade, né? Sem jamais esquecer dos compromissos firmados com si mesmo diante do espelho e com Deus. É o compromisso maior, entende? E todo mundo que correu a vida toda com os Racionais, eu tenho Deus no céu e eles na terra. Respeito profundo por eles. Racionais é o que é e eu sou o que eu sou por causa deles, nunca vou ignorar uma crítica. Só crítica violenta e covarde que eu devolvo à altura. De resto, a gente tá aí pra aprender e corrigir.

E rede social, hoje em dia, é terreno pra esse tipo de crítica. Você fica ligado nos seus perfis?
Às vezes eu lido na internet da mesma forma que eu lido na rua. Eu mando tomar no cu e já era [risos]. Quando o cara sai da crítica da música e vai pro pessoal, vai ter que ler uma resposta que geral vai ler também. Eu tenho quase um milhão de seguidores, um milhão de gente lendo aquela porra lá. Se mexer ali, tá ligado, né? É papo de leão, mano [risos]. Eu sou respeitador, tá ligado? Mas também não sou um cara fácil, não tô aqui pra fazer média com ninguém. Minhas opiniões e posicionamentos desagradam alguns, assim como vários também não me agradam. Mas tá tudo aí, suave.

Você tem a participação do Leon Ware no disco, um cara que já trabalhou com Marvin Gaye. Como chegou nele?
Leon é o rei do underground, é o underground mais pavoroso do planeta, mano. Cê é louco, mano, como vou explicar esse cara? [risos]. Cê pergunta pra músico americano, não conhece. Produtor americano, não conhece. Rapper americano, não conhece. Cê fala: “Caraio, mano, como assim os caras não conhecem o cara?” [risos]. Então o cara é o rei do underground, cê é louco [risos]! O cara é muito poderoso, já produziu Michael Jackson, Marvin Gaye... mora ali, há alguns milhares de quilômetros e milhares de dólares [risos]. Alguns milhares de dólares e de quilômetros nos separam, mas eu vou ter que chegar nesse cara. Cheguei.

Cês gravaram juntos?
Não, ele mandou. Eu já tava com o rap pronto e pensei: “Não posso perder essa”. Eu já tinha falado com ele pra pedir uma outra música e ele ficou surpreso que eu conhecia e gostava dessa música que eu pedi. Aí ele respeitou, viu que eu conheço o trabalho dele profundamente. É uma obra... o cara que gosta de fazer música tem que fazer uma faculdade de Leon Ware. Cê é louco. Ele tá aí, há alguns milhares de dólares daqui [risos].

Seu disco tem clima de festa black. Existe um revival das festas black por aí ou foi o centro que deixou de ver?
Eu acho que o centro não ouvia falar porque a informação não chegava. Os caras sempre estiveram aí trabalhando, têm uma caminhada. Às vezes emerge e aparece, né? Mas nunca deixou de estar ali. Existe um povo que gosta disso, os herdeiros... é um povo grande. E eu falei pro Lino Krizz: “A única coisa que a gente tem que fazer é fazer tudo em português!”. A maioria quando faz soul music quer cantar em inglês. Isso dificulta o acesso, elitiza, isola o povo e a gente não chega a lugar nenhum. A comunicação é tudo, mano. Quem não se comunica, se trumbica, mano. Um pouco do que cê falou no começo de aceitação do disco é devido ao entendimento da letra, tendeu? Dentro de um ritmo, de um conceito, contexto, de uma roupa, de uma intenção. Uma letra em português que aproxima o povo da gente. A gente ama música em inglês, mas a gente fala português. Esse foi o primeiro conceito. Ideia central: soul, R&B, funk cantado com as nossas expressões. E aí fui procurar umas referências mais antigas e tem de tudo lá. Tem Cazuza, Fafá de Belém, Neguinho da Beija-Flor, Zeca Pagodinho, Carlos Dafé, Gil, Tim Maia... tem pedaço de letra de vários artistas. Tem até Nico Rezende, Marina Lima... Roberto Carlos tem várias, Erasmo. É um disco brasileiro mesmo. E Jorge Ben, né? Não tem como.

Jorge Ben é a base, né, não tem como fugir...
Daqui a pouco eu tenho que parar de falar essas coisas pra não virar clichezão chato. “Tá querendo ser dono dos caras?” [risos]. Não é isso não... é aprendizado e tem que divulgar o nome dos caras pra coisa reviver e viver mais.

Quando a gente ouve alguma música lá do comecinho dos Racionais, o seu vocal é quase gritado. Foi mudando com o tempo e você canta em algumas faixas de Boogie Naipe. Você chegou a fazer aula de canto em algum momento?
Aula de canto eu nunca fiz. Na real eu sempre gostei de cantar as músicas desse caras, inspiração em soul. James Brown, Marvin Gaye... tinha os bailes da Chic Show e da Zimbabwe e essa era a referência. Clara Nunes, os caras do samba. Sempre gostei de música com suingue. No rap, a linguagem era mais crua e não tinha estrutura. Eu tinha caneta, papel e, se desse sorte, um disco instrumental. Eu poderia ter feito uma música romântica naquela época também, se eu tivesse acesso. Sempre gostei. O que me levou pra música foi a própria música, não foi a revolta. Aí depois veio o compromisso, o amadurecimento, a leitura, o conhecimento, envolvimento político... não com políticos, mas com professores, militantes, gente que pensava e falava sobre Bob Marley, James Brown. E eu também fazia parte daquele povo, a causa é uma vitamina pra você quando você não tem nada. Cê tem a sua luta pessoal e vai atrás de uma causa linda que é lutar pelos oprimidos. Pô, isso é lindo! Não é rótulo. Eu não preciso gravar um disco falando disso pra ser isso, eu posso viver. Posso ser um cara totalmente envolvido com as questões todas fora dos holofotes. Ou então cê pode cantar sobre aquilo durante uma hora e viver uma vida serena, fora daquilo. Eu não preciso cantar pra fazer as coisas. É isso que eu quero falar.

E como serão os shows solo? Já montou banda?
Acabei de montar a banda. Reuni uma rapaziada, fiz o reconhecimento, mostrei os sons... alguns já conheciam. É uma banda de 10 pessoas. Agora é a luta pra ir pra pista, porque os caras pensam que a vida tá ganha e não é assim não, tudo é luta. Cê grava um disco, monta uma banda... mas e agora pra pagar a banda, vai fazer como? Vou passar a bombeta na Praça da Sé [risos]? Os bico não entende, a chapelândia não entende... é os cara que eu tenho raiva, da chapelândia.

A galera que pensa que tá tudo fácil, na mão?
Ah, é... “gravou o disco e já tá na vida serena”! É só o começo, é uma luta, mano.

O rap vem dominando o Hot 100 da Billboard e, muitas vezes, se fundindo com o pop. Como você vê isso?
Veja bem, mano. O que que é o pop? O que eu vejo como pop? Popular todos nós somos. A intenção é ser popular, não é isso?

Sim, cê solta um disco e quer que as pessoas ouçam.
Tem que agradar. O Corinthians é grande porque é popular, certo? O pop não é depreciativo, tem que rever até o conceito de algumas palavras. Música é mistura, a gente não consegue evitar. As pessoas se procuram, os músicos se procuram, as músicas se procuram. Acabei de ler que o samba tem raízes na polca austríaca. O Hitler nasceu na Áustria. Veja bem... quer dizer que o samba e o Hitler tem a mesma raiz. Aí cê fala: “Pô, Mano Brown, cê dá uma dessa?” [risos]. Pode não ser verdade, não sei... era a música que se ouvia na corte aqui no Brasil. Isso é Brasil, né? Cê tem uma mãe austríaca e um pai africano. Tá no livro, não fui eu que escrevi...