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Marcello Gugu fala sobre crise de ansiedade em “New Orleans”

Rapper prepara segundo álbum com produção mais cuidadosa

por Marcos Lauro em 13/07/2016

As rinhas – ou batalhas – são eventos em que rappers se encontram pra disputar com rimas, sempre um contra o outro e no improviso. Não há tempo pra titubear, pensar melhor ou treinar em casa: o tema é dado e o rapper tem que se sobressair em relação ao seu opositor.

A atual geração do rap brasileiro tem diversos rimadores formados nesse ambiente. Um deles é Marcello Gugu. Em 2013, ele lançou seu álbum de estreia, Até Que Enfim Gugu. O rapper mostrava a urgência que tinha em falar e, naquele momento, priorizou as letras (enormes) em vez das melodias (simples). Agora, se depender do primeiro single do próximo álbum, a coisa mudou: “New Orleans” traz mais melodia, um som orgânico e uma letra mais pontual. O tema: crise de ansiedade. “Ainda tenho crise de ansiedade... Hoje mais controlada, mas ainda incomoda muito. Fiquei dois dias sem dormir quando fui lançar a música”, conta Gugu a Billboard Brasil. A música, que tem participação de Vanessa Jackson e de Srta. Paola, veio acompanhada de um minidocumentário sobre o tema.

Conversamos com Marcello Gugu sobre o universo das rinhas, a nova música e o álbum que está por vir:

O mundo das rinhas se refletiu no seu primeiro álbum. Mas seu single novo tem mais melodia, o lance musical mais trabalhado. Como vem rolando essa evolução pra você?
Quem fez o primeiro disco foi o DJ Du, do Inquérito, e ele está nesse trabalho novo também. A gente sempre conversou sobre isso e buscou esse tipo de transformação. Eu acredito muito nisso, em inventar coisas novas a cada lançamento. Você pega um Kanye West da vida... Nunca se sabe o que ele vai fazer no próximo álbum... Tem essa coisa de não perder o que já foi feito e ousar. E não só o lance da melodia... A produção nessa música foi muito mais orgânica, com músicos no estúdio e tal, tem guitarra, baixo... Foi um lance mais em grupo mesmo. Toda a estrutura da música foi pensada nesse sentido.

Nas rinhas era só você e sua voz, um lance bem cru.
E a galera dando risada da sua cara [risos]. Eu batalhei de 2005 a 2010. Em 2010 eu ganhei a Batalha do Conhecimento Rio Contra São Paulo e meu primeiro disco é reflexo das batalhas. Eu me aposentei em 2010, saí por cima [risos]. Continuo indo, mas só pra me divertir. Vou pra dar risada dos moleques, ficar falando: “Iéééééé...” [risos].

Só botando pilha!
Lógico. É meu trabalho agora [risos]. Eu acho uma vitrine muito louca. Você vê uns moleques que têm fome, sabe?Que querem muito ver o lance acontecer. Tanto que apareceu muita gente das rimas: Emicida, Rashid, Projota, eu...Boa parte dessa geração que faz rap hoje passou por lá. Mas o cara pode ser um excelente rapper de batalha e não ser um bom compositor. Aí é exercício: compor mais do que improvisar. A mentalidade pra batalhar é uma. A mentalidade pra compor é quase o oposto. Você tem que pensar que gente que nunca ouviu rap pode ouvir sua música, tem que pensar nos temas. E na música você tem o tempo de refletir, de maturar... Na rinha é tudo na hora.

Às vezes dá a impressão de que um cara que faz muito improviso tem a tendência de mudar as letras, ou seja, se ele for gravar de novo a mesma música meia hora depois, ele vai querer gravar outra coisa. Como é com você? Não rola uma vontade de improvisar toda hora?
Exato, eu tive que me doutrinar. Eu escrevia o verso e beleza. Dois dias depois, eu olhava e pensava: “Pô, podia mudar essa palavra aqui”. Mas aí eu entro no estúdio e acabou. Decorei pra gravar, não mudo mais. Eu acho que precisa ter o desapego, caso contrário você fica mexendo na música a vida inteira. O Sabotage era assim, né? Ele escrevia a parada, decorava e perdia. Quando ia gravar, saía outra coisa. Quando o Ganjaman pedia pra regravar um trecho, ele fazia outro verso. Ele nem lembrava mais [risos].

A música nova, “New Orleans”, fala sobre crise de ansiedade. É uma experiência própria?
Sim. Eu durmo muito pouco, de quatro a cinco horas por noite só. Sou muito hiperativo, e quando você é moleque,o pessoal fala que é “energia”, bota pra fazer esporte, né? Ainda tenho crise de ansiedade... Hoje mais controlada, mas incomoda muito. Fiquei dois dias sem dormir quando fui lançar a música. Sem dormir mesmo. E conversando com os amigos pro minidocumentário, eu percebi que todo mundo sofre disso num determinado ponto da vida. Nessa vida atual, tá todo mundo a milhão... E quando a gente lançou o minidocumentário e a música, eu recebi muito e-mail, muita mensagem de gente que eu nem imaginava e que também sofre com isso. Foram uns 100 e-mails logo que a música saiu, de gente contando suas experiências. E ainda é um tabu, né? As pessoas têm vergonha de falar sobre isso... Uma galera tá vivendo isso aí e ninguém fala. As pessoas precisam se ajudar e essa música é um jeito de fazer isso. E não é egotrip, saca? O próximo disco vai ter essa característica, de falar coisas pessoais, mas que não são só minhas. Vai ter uma música sobre feminismo, “Milagres”... Vai ser um disco voltado pra isso.

E como tá a produção do disco? Já tem data?
A gente tá experimentando muita coisa e essa música mostrou que muita coisa mudou desde o disco passado. Textura, compasso, timbres... Estamos fazendo 16 ou 17 músicas. Eu queria 18, mas me falaram que é muita coisa, tô brigando [risos].

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Saudade
Eduardo Costa
3
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
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Marcello Gugu fala sobre crise de ansiedade em “New Orleans”

Rapper prepara segundo álbum com produção mais cuidadosa

por Marcos Lauro em 13/07/2016

As rinhas – ou batalhas – são eventos em que rappers se encontram pra disputar com rimas, sempre um contra o outro e no improviso. Não há tempo pra titubear, pensar melhor ou treinar em casa: o tema é dado e o rapper tem que se sobressair em relação ao seu opositor.

A atual geração do rap brasileiro tem diversos rimadores formados nesse ambiente. Um deles é Marcello Gugu. Em 2013, ele lançou seu álbum de estreia, Até Que Enfim Gugu. O rapper mostrava a urgência que tinha em falar e, naquele momento, priorizou as letras (enormes) em vez das melodias (simples). Agora, se depender do primeiro single do próximo álbum, a coisa mudou: “New Orleans” traz mais melodia, um som orgânico e uma letra mais pontual. O tema: crise de ansiedade. “Ainda tenho crise de ansiedade... Hoje mais controlada, mas ainda incomoda muito. Fiquei dois dias sem dormir quando fui lançar a música”, conta Gugu a Billboard Brasil. A música, que tem participação de Vanessa Jackson e de Srta. Paola, veio acompanhada de um minidocumentário sobre o tema.

Conversamos com Marcello Gugu sobre o universo das rinhas, a nova música e o álbum que está por vir:

O mundo das rinhas se refletiu no seu primeiro álbum. Mas seu single novo tem mais melodia, o lance musical mais trabalhado. Como vem rolando essa evolução pra você?
Quem fez o primeiro disco foi o DJ Du, do Inquérito, e ele está nesse trabalho novo também. A gente sempre conversou sobre isso e buscou esse tipo de transformação. Eu acredito muito nisso, em inventar coisas novas a cada lançamento. Você pega um Kanye West da vida... Nunca se sabe o que ele vai fazer no próximo álbum... Tem essa coisa de não perder o que já foi feito e ousar. E não só o lance da melodia... A produção nessa música foi muito mais orgânica, com músicos no estúdio e tal, tem guitarra, baixo... Foi um lance mais em grupo mesmo. Toda a estrutura da música foi pensada nesse sentido.

Nas rinhas era só você e sua voz, um lance bem cru.
E a galera dando risada da sua cara [risos]. Eu batalhei de 2005 a 2010. Em 2010 eu ganhei a Batalha do Conhecimento Rio Contra São Paulo e meu primeiro disco é reflexo das batalhas. Eu me aposentei em 2010, saí por cima [risos]. Continuo indo, mas só pra me divertir. Vou pra dar risada dos moleques, ficar falando: “Iéééééé...” [risos].

Só botando pilha!
Lógico. É meu trabalho agora [risos]. Eu acho uma vitrine muito louca. Você vê uns moleques que têm fome, sabe?Que querem muito ver o lance acontecer. Tanto que apareceu muita gente das rimas: Emicida, Rashid, Projota, eu...Boa parte dessa geração que faz rap hoje passou por lá. Mas o cara pode ser um excelente rapper de batalha e não ser um bom compositor. Aí é exercício: compor mais do que improvisar. A mentalidade pra batalhar é uma. A mentalidade pra compor é quase o oposto. Você tem que pensar que gente que nunca ouviu rap pode ouvir sua música, tem que pensar nos temas. E na música você tem o tempo de refletir, de maturar... Na rinha é tudo na hora.

Às vezes dá a impressão de que um cara que faz muito improviso tem a tendência de mudar as letras, ou seja, se ele for gravar de novo a mesma música meia hora depois, ele vai querer gravar outra coisa. Como é com você? Não rola uma vontade de improvisar toda hora?
Exato, eu tive que me doutrinar. Eu escrevia o verso e beleza. Dois dias depois, eu olhava e pensava: “Pô, podia mudar essa palavra aqui”. Mas aí eu entro no estúdio e acabou. Decorei pra gravar, não mudo mais. Eu acho que precisa ter o desapego, caso contrário você fica mexendo na música a vida inteira. O Sabotage era assim, né? Ele escrevia a parada, decorava e perdia. Quando ia gravar, saía outra coisa. Quando o Ganjaman pedia pra regravar um trecho, ele fazia outro verso. Ele nem lembrava mais [risos].

A música nova, “New Orleans”, fala sobre crise de ansiedade. É uma experiência própria?
Sim. Eu durmo muito pouco, de quatro a cinco horas por noite só. Sou muito hiperativo, e quando você é moleque,o pessoal fala que é “energia”, bota pra fazer esporte, né? Ainda tenho crise de ansiedade... Hoje mais controlada, mas incomoda muito. Fiquei dois dias sem dormir quando fui lançar a música. Sem dormir mesmo. E conversando com os amigos pro minidocumentário, eu percebi que todo mundo sofre disso num determinado ponto da vida. Nessa vida atual, tá todo mundo a milhão... E quando a gente lançou o minidocumentário e a música, eu recebi muito e-mail, muita mensagem de gente que eu nem imaginava e que também sofre com isso. Foram uns 100 e-mails logo que a música saiu, de gente contando suas experiências. E ainda é um tabu, né? As pessoas têm vergonha de falar sobre isso... Uma galera tá vivendo isso aí e ninguém fala. As pessoas precisam se ajudar e essa música é um jeito de fazer isso. E não é egotrip, saca? O próximo disco vai ter essa característica, de falar coisas pessoais, mas que não são só minhas. Vai ter uma música sobre feminismo, “Milagres”... Vai ser um disco voltado pra isso.

E como tá a produção do disco? Já tem data?
A gente tá experimentando muita coisa e essa música mostrou que muita coisa mudou desde o disco passado. Textura, compasso, timbres... Estamos fazendo 16 ou 17 músicas. Eu queria 18, mas me falaram que é muita coisa, tô brigando [risos].