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Marcelo Nova: “Não saio de casa pra votar desde 1989”

Líder do Camisa de Vênus fala sobre o show em homenagem a Raul Seixas - e o que mais lhe veio à telha

por Marcos Lauro em 16/08/2017

“Quando o cara chega nessa idade ele não conta mais quanto tem, ele só fica preocupado em quanto falta”. Assim, Marcelo Nova atende a reportagem da Billboard Brasil na manhã dessa quarta-feira (16/08), dia em que completa 66 anos de idade – quase 40 deles dedicados a uma única banda, Camisa de Vênus.

A ideia inicial era conversar com Vossa Marceleza sobre o show Toca Raul, que será realizado em São Paulo no próximo sábado (19/08), no Teatro Bradesco. Nova e a atual formação do Camisa de Vênus vão tocar Raul Seixas e, claro, alguns de seus próprios hits. Além de Nova, sobem ao palco Robério Santana (baixista, também fundador da banda) Drake Nova (guitarrista e filho de Marcelo), Leandro Dalle (guitarra) e Célio Glouster (bateria).

Mas é uma missão impossível falar com Nova apenas sobre música. De maneira natural, o papo vai para a filosofia, política, sociedade, nostalgia dos anos 1980 e o que mais estiver ao alcance dos 66 anos do baiano.

Leia a conversa e, abaixo, as informações sobre o show.

Como é o repertório desse show Toca Raul?
Em teatros, o show tem dois sets diferentes. O primeiro é acústico só com Raul, mas só as mais rock. Não tem “Gita” nem “A Maçã”, é só “Rock do Diabo”, “Rock Das Aranha”. Tem também músicas que fizemos juntos, como “Pastor João e a Igreja Invisível”, enfim. Depois, a segunda parte do show é elétrica com os clássicos do Camisa de Vênus.

Você consegue fazer um exercício de imaginar o que Raul estaria fazendo hoje, musicalmente?
Eu não pratico futurologia não. Mas uma coisa me parece clara por ter trabalhado e convivido com ele tanto tempo: ele continuaria sendo Raul Seixas [risos]. Com toda aquela carga de imprevisibilidade contida nisso. Até porque quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas, né? No sentido tecnológico, é algo que você incorpora ao trabalho se for produtivo. Te dou um exemplo que tem a ver com o meu trabalho, não teria como falar por ele: quando eu formei o Camisa de Vênus, nós estávamos atrelados a um esquema de gravadora que nos proporcionava estúdios caros com produtores nos nossos calcanhares, acelerando tudo pra acabarmos logo o trabalho e diminuir custos, essa coisa toda. Hoje, meu filho, Drake Nova, tem um estúdio em casa. Então é muito mais prático. Eu quero gravar uma demo, vou até a casa dele e gravo a hora que eu quiser. Não existe mais aquela obrigatoriedade. Hoje, sem perda de qualidade e investindo relativamente pouco em comparação com antigamente, muita gente consegue produzir. O outro lado da moeda disso é que você tem inúmeros canais de distribuição de música – eu não acompanho isso de perto mas me vem a informação. Na época das gravadoras atuantes, nós reclamávamos da dificuldade de ter acesso à prestação de conta, de quanto vendeu, isso e aquilo. Hoje, isso nem mais é questionável. Esses novos veículos pulverizaram tudo. Você não tem a quem cobrar, como aferir... virou uma coisa perdida num emaranhado de redes sociais e de comunicação. É como quase tudo na nossa existência, você tem que observar o lado positivo das coisas, sem esse delírio de modernidade, e perceber que nem tudo é tão bom quanto às vezes parece ser. Me desviei muito da sua pergunta, né [risos]?

Não, é ótimo... o Camisa tem quase 40 anos, você viveu muitas fases desse mercado. É uma visão que interessa sim.
Ah, e pra fechar: O último trabalho do Camisa, Dançando na Lua, foi lançado no ano passado depois de 20 anos de gravar. A receptividade por parte da crítica foi, quase num ponto comum, ressaltando a evidente qualidade sonora do álbum, tudo muito bem registrado. E foi coproduzido pelo Drake, gravado na casa dele. Então eu tô falando isso e vivi isso.

Hoje [16/08] e seu aniversário e também lembramos 40 anos sem Elvis Presley...
A vida é assim. Morrem reis e nascem outros [risos].

Você se lembra do dia da morte dele? Você comemorando aniversário e tendo a notícia?
Rapaz, eu só fui saber no dia seguinte ou dois dias depois. Naquela época não havia essa proliferação imediata de informações, né? Tinha lá a televisão, mas se você não tivesse com a TV ligada naquele dia, cê não ficava sabendo. Não era como agora que o cara nem peidou e você já tá com o odor [risos]. Hoje a comunicação foi banalizada a tal ponto que transformou qualquer acontecimento numa vulgaridade. Nada mais é visto com profundidade, analisado, questionado, porque logo atrás, na fila da notícia, já tem uma outra informação pra ser dada, e outra, e outra. Essa ideia da interação social, vista sob uma ótica de esquerda, da igualdade de todos, em tese, é mais ou menos como se sonhava no início do século passado com o comunismo. Mas quem construiu essa tese e a moldou se esqueceu de um detalhe importantíssimo: nós não somos iguais na essência. Então não podemos ter os mesmos direitos. Porque? Um é inteligente e o outro é burro. Um é esforçado e o outro é burro. Um é estritamente honesto e o outro é ladrão. Não existe essa unidade pressuposta na raça humana! Isso é uma burrice ideológica e foi alçada ao nível político-partidarista. Então é preciso olhar as coisas com um certo distanciamento antes de ficarmos promovendo a felicidade global.

CAMISA-TOCA-RAULFormação atual do Camisa de Vênus, com Marcelo Nova ao centro - Foto: Carina Zarati

Mas existe uma diferença clara quando falamos sobre oportunidades, não?
Se você tá colocando a coisa em relação a castas econômicas, culturais ou sociais, você pode pegar um grupo da elite – e falo em relação ao verdadeiro sentido da palavra “elite”, que foi deturpada no Brasil, deixou de ser um grupo realmente merecedor de reconhecimento e passou a ser um grupo de cretinos, de ricos – e comparar com um grupo de pessoas pobres e é uma verdade sim, mas parcial. Você não pode minimizar a capacidade individual, que talvez esteja impressa no DNA. Silvio Santos era um camelô, só pra ficar num exemplo. Eu tenho a impressão de que a questão é mais profunda do que aparenta ser. Nós somos um país atrasado, a verdade é essa. Meu pai, por exemplo, me deixou há mais de 30 anos. Ele viu Getúlio Vargas, Café Filho, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Ditadura Militar, Sarney... depois ele faleceu. E aí a história continua até Dilma, certo? E aí da guerrilheira Dilma ao repressor Médici, nós passamos por tudo! Pelo neoliberalismo de FHC, pelas doses etílicas de Jânio, pelo espírito empreendedor de Juscelino, que queria transformar o Brasil num polo industrial mundial, pelo “playboyismo” do Collor, que ficou encantado com uma BMW quando pilotou numa autobahn alemã e voltou falando que carro brasileiro era carroça... enfim. Nós percorremos, meu amigo, todas as linhas ideológicas. Todas elas. E o que mudou? Nada. Nós continuamos carentes de cultura, segurança, educação, saúde, oportunidades... ou seja: a esperança de um futuro melhor reside apenas na chegada de futuras gerações que vão tendo novas ideias. Algumas dessas ideias vão se amalgamar com ideias que foram plantadas no século passado. E nessas você tem aquela dança do “dois passos pra frente, um passo pra trás”. Você tem momentos de avanços e retrocesso. E é isso que faz o povo mudar. A solução não está em fulano ou sicrano. Nós ainda estamos na figura de um candidato que pode nos resgatar e isso é de uma imaturidade espantosa!

Mas esse momento de caos político não favorece justamente algum aventureiro ou algum maluco que pode ser alçado a herói?
Não, não existe essa figura única. O maluco que você sugere vai ter uma ideia que vai se misturar com outras. Isso é o nosso passar através do tempo, é o nosso caminhar. As ideias que tivemos no passado e que pareceram tolice vão ser utilizadas amanhã de uma maneira mais criativa. Isso é o que muda o mundo, velho! Não é votar num ou em outro. Eu tô falando com ares de sexagenário [risos], mas eu não saio de casa pra votar desde 1989. Votei em Mário Covas [para presidente], mas não me pergunte o porquê [risos]. Naquela briga entre Lula e Collor, Covas não foi pro segundo turno e nem fui mais votar. De lá pra cá eu só vou à Zona Eleitora pra pagar as multas por causa do meu passaporte. Eu vou sair de casa pra votar? Nem faria sentido! Se exercer a cidadania é votar num idiota cercado de interesses obscuros, pra dizer o mínimo, e guinda-lo a uma posição de poder... Ora, que cidadania é essa?

O Camisa tem muitas músicas que seriam combatidas se lançadas hoje, muito por conta da questão do politicamente correto. O que acha disso?
Antes de tudo, o politicamente correto é um chato de galocha. Numa das minhas idas para os Estados Unidos, eu fiz amizade com um taxista haitiano que trabalha em Nova York. Hoje, toda vez que eu vou, eu ligo pra ele. Já fui à casa dele, conheci a família e tudo, somos amgos agora. Gostamos de blues e tal. Eu o chamava de “nigga”, brincando com a expressão que os negros usam entre si. E ele me chamava de “whitey”. Estava na casa dele e tinha outros amigos dele lá. O chamei do nosso jeito, de “my nigga” e os amigos ficaram bravos, foram tomar satisfação com ele, como ele me deixava chama-lo daquele jeito. O cara virou na porra [risos]. Falou que éramos amigos e eles não tinham o direito de reclamar da forma como a gente se tratava. Aqui no Brasil também, hoje você tem que chamar negro de “afro-americano”. Tive um baixista fenomenal, foi da banda por nove anos, o Carlos Alberto Calazans. Eu o chamava abertamente de “negão” e ele me chamava de “branquelo”. Então fica essa coisa pequena, mesquinha, de tenta compartimentar sentimentos, ideias, dentro de um parâmetro que só cabe na cabeça de gente pequena, que só se sente segura dentro de uma jaula. Ora, vá pro zoológico.

Você acha que as Silvias do Brasil já te perdoaram?
Olha, eu encontro com várias! Porque elas continuam indos aos shows, né [risos]? Aliás, sãos as filhas das Silvias. A essa alturas, as Silvias já são senhoras [risos]. E o mais interessante. Elas me dizem: “Poxa, você estragou minha adolescência, o que eu ouvi de piada, de grosseria... mas faz um favor, toca ela hoje pra mim [risos]?”.

E “Só o Fim”, pode ser um retrato do caos político de hoje em dia?
Rapaz, sempre fez sentido. Essa ideia da falta de segurança, né?

Se o chão abriu sob os seus pés
E a segurança, ela sumiu da faixa
Se as peças estão todas soltas
E nada mais encaixa

Deve ser uma radiografia de hoje, mas, sem dúvida, era uma radiografia dos anos 1980, dessa luta constante nossa em busca de uma possibilidade maior. Uma possibilidade! Talvez seja uma vantagem do meu trabalho: é atemporal. Eu não falo da internet, eu não escrevo sobre o São Paulo Fashion Week [risos]. As questões são ancestrais, que o meu tataravô já falava. Eu falo sobre poder, inveja, depressão, alegria, tristeza... fazem parte do ser humano. Você projeta daqui cinco gerações vai ter gente querendo trepar, vai ter gente triste, vai ter gente querendo poder. Então talvez o meu trabalho tenha essa durabilidade por causa disso. Uma letra de 1985 parece que foi escrita ontem.

 

Voltando no Elvis, ele tem um peso entre as suas influências? Ou Lou Reed é mais relevante pra sua trajetória?
Bom, é preciso ver isso com um certo cuidado. O maior no campo das palavras é Dylan. Até o surgimento dele, a música, o cancioneiro popular, dava ênfase ao romantismo. Então você tinha os irmãos Gershwin, que faziam canções fantásticas mas românticas, todas elas. Sem tirar o mérito. Você tinha Hank Williams e Woody Guthrie, já com uma veia de protesto. Woody se colocava como um intérprete de desejos reprimidos. Mas aí veio o Dylan, juntou o romantismo dos Gershwin com o lado do protesto. Dylan expandiu os horizontes do texto porque passou a cantar sobre qualquer coisa que passasse pela cabeça. Ele cruzou todas as linhas, bagunçou tudo de forma brilhante. Ele revolucionou a comunicação através das canções. O Lou Reed, que você citou, também é fantástico, parece um fotógrafo, detalhista nas imagens que ele relata. Você tem um Leonard Cohen, que tem caminhos que levam ao sublime. Mas se tivéssemos que fazer uma relação entre rock e literatura, o Shakespeare do rock é Dylan. Já no campo instrumental, é Jimi Hendrix. Um menino, morreu aos 27. Em quatro anos de carreira autoral ele transformou a sonoridade da guitarra, foi um divisor de águas. Agora a gente volta naquela conversa das oportunidades: Hendrix era filho de um alcolatra com uma prostituta, não teve educação formal, foi pro exército pra ser paraquedista e, saído do nada, toma o mundo de assalto. Como explicar isso? A mágica e o mistério contidos no DNA. Por isso que o politicamente correto é burro, porque ele quer igualar a todos. Nós só parecemos iguais. O que está dentro da caixa é neblina. Não dá pra compartimentar neblina, não dá pra pegar névoa. É como música. Eu faço uma música hoje e amanhã vou toca-la diferente, não me interessa compartimentar. Cê esquece a letra, desafina...

Já pensou em fazer algum tributo a Dylan, já que é sua principal referência?
Olha, eu já havia pensado nisso e escrevi algumas versões. Mas quando pensei em levar adiante, o Zé Ramalho havia lançado um disco de versões. Aí pensei que era demais. As minhas estão gravadas e estão aí, não sei o que vai ser...

Não me lembro de ter te visto muito nesses eventos de revival dos anos 1980. O que você acha desse movimento nostálgico que toma conta da cena em alguns momentos?
Rapaz, eu participei de poucos, principalmente porque estavam envolvidas figuras como Clemente, Nasi... pessoas que são amigas. Aí fica aquela coisa de camarim, brincadeira e tal... era divertido. Agora, a nostalgia por si é deplorável. Cê lembrou da “Só O Fim”, né? Num show, já faz um tempo, um fã entrou no camarim e veio me dizer que eu cantei a música toda diferente e que tinha conhecido a mulher da vida num show meu e tal, tava indignado porque eu mudei a música. Aí falei: “Bom, em primeiro lugar eu não tenho nada a ver com o chifre que você levou [risos]. Depois, não é que nos anos 1980 era uma maravilha, é que sua vida atual é que tá uma merda. Cê tá em busca de algo que não existe mais”. Perdi um fã, né? [risos]. Mas a vida também é feita de perdas.

Serviço:
Camisa de Vênus – Toca Raul
Teatro Bradesco – São Paulo/SP
19/08 – 21h
Ingressos: de R$ 35 a R$ 110, nas bilheterias ou pelo site www.teatrobradesco.com.br.

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Líder do Camisa de Vênus fala sobre o show em homenagem a Raul Seixas - e o que mais lhe veio à telha

por Marcos Lauro em 16/08/2017

“Quando o cara chega nessa idade ele não conta mais quanto tem, ele só fica preocupado em quanto falta”. Assim, Marcelo Nova atende a reportagem da Billboard Brasil na manhã dessa quarta-feira (16/08), dia em que completa 66 anos de idade – quase 40 deles dedicados a uma única banda, Camisa de Vênus.

A ideia inicial era conversar com Vossa Marceleza sobre o show Toca Raul, que será realizado em São Paulo no próximo sábado (19/08), no Teatro Bradesco. Nova e a atual formação do Camisa de Vênus vão tocar Raul Seixas e, claro, alguns de seus próprios hits. Além de Nova, sobem ao palco Robério Santana (baixista, também fundador da banda) Drake Nova (guitarrista e filho de Marcelo), Leandro Dalle (guitarra) e Célio Glouster (bateria).

Mas é uma missão impossível falar com Nova apenas sobre música. De maneira natural, o papo vai para a filosofia, política, sociedade, nostalgia dos anos 1980 e o que mais estiver ao alcance dos 66 anos do baiano.

Leia a conversa e, abaixo, as informações sobre o show.

Como é o repertório desse show Toca Raul?
Em teatros, o show tem dois sets diferentes. O primeiro é acústico só com Raul, mas só as mais rock. Não tem “Gita” nem “A Maçã”, é só “Rock do Diabo”, “Rock Das Aranha”. Tem também músicas que fizemos juntos, como “Pastor João e a Igreja Invisível”, enfim. Depois, a segunda parte do show é elétrica com os clássicos do Camisa de Vênus.

Você consegue fazer um exercício de imaginar o que Raul estaria fazendo hoje, musicalmente?
Eu não pratico futurologia não. Mas uma coisa me parece clara por ter trabalhado e convivido com ele tanto tempo: ele continuaria sendo Raul Seixas [risos]. Com toda aquela carga de imprevisibilidade contida nisso. Até porque quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas, né? No sentido tecnológico, é algo que você incorpora ao trabalho se for produtivo. Te dou um exemplo que tem a ver com o meu trabalho, não teria como falar por ele: quando eu formei o Camisa de Vênus, nós estávamos atrelados a um esquema de gravadora que nos proporcionava estúdios caros com produtores nos nossos calcanhares, acelerando tudo pra acabarmos logo o trabalho e diminuir custos, essa coisa toda. Hoje, meu filho, Drake Nova, tem um estúdio em casa. Então é muito mais prático. Eu quero gravar uma demo, vou até a casa dele e gravo a hora que eu quiser. Não existe mais aquela obrigatoriedade. Hoje, sem perda de qualidade e investindo relativamente pouco em comparação com antigamente, muita gente consegue produzir. O outro lado da moeda disso é que você tem inúmeros canais de distribuição de música – eu não acompanho isso de perto mas me vem a informação. Na época das gravadoras atuantes, nós reclamávamos da dificuldade de ter acesso à prestação de conta, de quanto vendeu, isso e aquilo. Hoje, isso nem mais é questionável. Esses novos veículos pulverizaram tudo. Você não tem a quem cobrar, como aferir... virou uma coisa perdida num emaranhado de redes sociais e de comunicação. É como quase tudo na nossa existência, você tem que observar o lado positivo das coisas, sem esse delírio de modernidade, e perceber que nem tudo é tão bom quanto às vezes parece ser. Me desviei muito da sua pergunta, né [risos]?

Não, é ótimo... o Camisa tem quase 40 anos, você viveu muitas fases desse mercado. É uma visão que interessa sim.
Ah, e pra fechar: O último trabalho do Camisa, Dançando na Lua, foi lançado no ano passado depois de 20 anos de gravar. A receptividade por parte da crítica foi, quase num ponto comum, ressaltando a evidente qualidade sonora do álbum, tudo muito bem registrado. E foi coproduzido pelo Drake, gravado na casa dele. Então eu tô falando isso e vivi isso.

Hoje [16/08] e seu aniversário e também lembramos 40 anos sem Elvis Presley...
A vida é assim. Morrem reis e nascem outros [risos].

Você se lembra do dia da morte dele? Você comemorando aniversário e tendo a notícia?
Rapaz, eu só fui saber no dia seguinte ou dois dias depois. Naquela época não havia essa proliferação imediata de informações, né? Tinha lá a televisão, mas se você não tivesse com a TV ligada naquele dia, cê não ficava sabendo. Não era como agora que o cara nem peidou e você já tá com o odor [risos]. Hoje a comunicação foi banalizada a tal ponto que transformou qualquer acontecimento numa vulgaridade. Nada mais é visto com profundidade, analisado, questionado, porque logo atrás, na fila da notícia, já tem uma outra informação pra ser dada, e outra, e outra. Essa ideia da interação social, vista sob uma ótica de esquerda, da igualdade de todos, em tese, é mais ou menos como se sonhava no início do século passado com o comunismo. Mas quem construiu essa tese e a moldou se esqueceu de um detalhe importantíssimo: nós não somos iguais na essência. Então não podemos ter os mesmos direitos. Porque? Um é inteligente e o outro é burro. Um é esforçado e o outro é burro. Um é estritamente honesto e o outro é ladrão. Não existe essa unidade pressuposta na raça humana! Isso é uma burrice ideológica e foi alçada ao nível político-partidarista. Então é preciso olhar as coisas com um certo distanciamento antes de ficarmos promovendo a felicidade global.

CAMISA-TOCA-RAULFormação atual do Camisa de Vênus, com Marcelo Nova ao centro - Foto: Carina Zarati

Mas existe uma diferença clara quando falamos sobre oportunidades, não?
Se você tá colocando a coisa em relação a castas econômicas, culturais ou sociais, você pode pegar um grupo da elite – e falo em relação ao verdadeiro sentido da palavra “elite”, que foi deturpada no Brasil, deixou de ser um grupo realmente merecedor de reconhecimento e passou a ser um grupo de cretinos, de ricos – e comparar com um grupo de pessoas pobres e é uma verdade sim, mas parcial. Você não pode minimizar a capacidade individual, que talvez esteja impressa no DNA. Silvio Santos era um camelô, só pra ficar num exemplo. Eu tenho a impressão de que a questão é mais profunda do que aparenta ser. Nós somos um país atrasado, a verdade é essa. Meu pai, por exemplo, me deixou há mais de 30 anos. Ele viu Getúlio Vargas, Café Filho, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Ditadura Militar, Sarney... depois ele faleceu. E aí a história continua até Dilma, certo? E aí da guerrilheira Dilma ao repressor Médici, nós passamos por tudo! Pelo neoliberalismo de FHC, pelas doses etílicas de Jânio, pelo espírito empreendedor de Juscelino, que queria transformar o Brasil num polo industrial mundial, pelo “playboyismo” do Collor, que ficou encantado com uma BMW quando pilotou numa autobahn alemã e voltou falando que carro brasileiro era carroça... enfim. Nós percorremos, meu amigo, todas as linhas ideológicas. Todas elas. E o que mudou? Nada. Nós continuamos carentes de cultura, segurança, educação, saúde, oportunidades... ou seja: a esperança de um futuro melhor reside apenas na chegada de futuras gerações que vão tendo novas ideias. Algumas dessas ideias vão se amalgamar com ideias que foram plantadas no século passado. E nessas você tem aquela dança do “dois passos pra frente, um passo pra trás”. Você tem momentos de avanços e retrocesso. E é isso que faz o povo mudar. A solução não está em fulano ou sicrano. Nós ainda estamos na figura de um candidato que pode nos resgatar e isso é de uma imaturidade espantosa!

Mas esse momento de caos político não favorece justamente algum aventureiro ou algum maluco que pode ser alçado a herói?
Não, não existe essa figura única. O maluco que você sugere vai ter uma ideia que vai se misturar com outras. Isso é o nosso passar através do tempo, é o nosso caminhar. As ideias que tivemos no passado e que pareceram tolice vão ser utilizadas amanhã de uma maneira mais criativa. Isso é o que muda o mundo, velho! Não é votar num ou em outro. Eu tô falando com ares de sexagenário [risos], mas eu não saio de casa pra votar desde 1989. Votei em Mário Covas [para presidente], mas não me pergunte o porquê [risos]. Naquela briga entre Lula e Collor, Covas não foi pro segundo turno e nem fui mais votar. De lá pra cá eu só vou à Zona Eleitora pra pagar as multas por causa do meu passaporte. Eu vou sair de casa pra votar? Nem faria sentido! Se exercer a cidadania é votar num idiota cercado de interesses obscuros, pra dizer o mínimo, e guinda-lo a uma posição de poder... Ora, que cidadania é essa?

O Camisa tem muitas músicas que seriam combatidas se lançadas hoje, muito por conta da questão do politicamente correto. O que acha disso?
Antes de tudo, o politicamente correto é um chato de galocha. Numa das minhas idas para os Estados Unidos, eu fiz amizade com um taxista haitiano que trabalha em Nova York. Hoje, toda vez que eu vou, eu ligo pra ele. Já fui à casa dele, conheci a família e tudo, somos amgos agora. Gostamos de blues e tal. Eu o chamava de “nigga”, brincando com a expressão que os negros usam entre si. E ele me chamava de “whitey”. Estava na casa dele e tinha outros amigos dele lá. O chamei do nosso jeito, de “my nigga” e os amigos ficaram bravos, foram tomar satisfação com ele, como ele me deixava chama-lo daquele jeito. O cara virou na porra [risos]. Falou que éramos amigos e eles não tinham o direito de reclamar da forma como a gente se tratava. Aqui no Brasil também, hoje você tem que chamar negro de “afro-americano”. Tive um baixista fenomenal, foi da banda por nove anos, o Carlos Alberto Calazans. Eu o chamava abertamente de “negão” e ele me chamava de “branquelo”. Então fica essa coisa pequena, mesquinha, de tenta compartimentar sentimentos, ideias, dentro de um parâmetro que só cabe na cabeça de gente pequena, que só se sente segura dentro de uma jaula. Ora, vá pro zoológico.

Você acha que as Silvias do Brasil já te perdoaram?
Olha, eu encontro com várias! Porque elas continuam indos aos shows, né [risos]? Aliás, sãos as filhas das Silvias. A essa alturas, as Silvias já são senhoras [risos]. E o mais interessante. Elas me dizem: “Poxa, você estragou minha adolescência, o que eu ouvi de piada, de grosseria... mas faz um favor, toca ela hoje pra mim [risos]?”.

E “Só o Fim”, pode ser um retrato do caos político de hoje em dia?
Rapaz, sempre fez sentido. Essa ideia da falta de segurança, né?

Se o chão abriu sob os seus pés
E a segurança, ela sumiu da faixa
Se as peças estão todas soltas
E nada mais encaixa

Deve ser uma radiografia de hoje, mas, sem dúvida, era uma radiografia dos anos 1980, dessa luta constante nossa em busca de uma possibilidade maior. Uma possibilidade! Talvez seja uma vantagem do meu trabalho: é atemporal. Eu não falo da internet, eu não escrevo sobre o São Paulo Fashion Week [risos]. As questões são ancestrais, que o meu tataravô já falava. Eu falo sobre poder, inveja, depressão, alegria, tristeza... fazem parte do ser humano. Você projeta daqui cinco gerações vai ter gente querendo trepar, vai ter gente triste, vai ter gente querendo poder. Então talvez o meu trabalho tenha essa durabilidade por causa disso. Uma letra de 1985 parece que foi escrita ontem.

 

Voltando no Elvis, ele tem um peso entre as suas influências? Ou Lou Reed é mais relevante pra sua trajetória?
Bom, é preciso ver isso com um certo cuidado. O maior no campo das palavras é Dylan. Até o surgimento dele, a música, o cancioneiro popular, dava ênfase ao romantismo. Então você tinha os irmãos Gershwin, que faziam canções fantásticas mas românticas, todas elas. Sem tirar o mérito. Você tinha Hank Williams e Woody Guthrie, já com uma veia de protesto. Woody se colocava como um intérprete de desejos reprimidos. Mas aí veio o Dylan, juntou o romantismo dos Gershwin com o lado do protesto. Dylan expandiu os horizontes do texto porque passou a cantar sobre qualquer coisa que passasse pela cabeça. Ele cruzou todas as linhas, bagunçou tudo de forma brilhante. Ele revolucionou a comunicação através das canções. O Lou Reed, que você citou, também é fantástico, parece um fotógrafo, detalhista nas imagens que ele relata. Você tem um Leonard Cohen, que tem caminhos que levam ao sublime. Mas se tivéssemos que fazer uma relação entre rock e literatura, o Shakespeare do rock é Dylan. Já no campo instrumental, é Jimi Hendrix. Um menino, morreu aos 27. Em quatro anos de carreira autoral ele transformou a sonoridade da guitarra, foi um divisor de águas. Agora a gente volta naquela conversa das oportunidades: Hendrix era filho de um alcolatra com uma prostituta, não teve educação formal, foi pro exército pra ser paraquedista e, saído do nada, toma o mundo de assalto. Como explicar isso? A mágica e o mistério contidos no DNA. Por isso que o politicamente correto é burro, porque ele quer igualar a todos. Nós só parecemos iguais. O que está dentro da caixa é neblina. Não dá pra compartimentar neblina, não dá pra pegar névoa. É como música. Eu faço uma música hoje e amanhã vou toca-la diferente, não me interessa compartimentar. Cê esquece a letra, desafina...

Já pensou em fazer algum tributo a Dylan, já que é sua principal referência?
Olha, eu já havia pensado nisso e escrevi algumas versões. Mas quando pensei em levar adiante, o Zé Ramalho havia lançado um disco de versões. Aí pensei que era demais. As minhas estão gravadas e estão aí, não sei o que vai ser...

Não me lembro de ter te visto muito nesses eventos de revival dos anos 1980. O que você acha desse movimento nostálgico que toma conta da cena em alguns momentos?
Rapaz, eu participei de poucos, principalmente porque estavam envolvidas figuras como Clemente, Nasi... pessoas que são amigas. Aí fica aquela coisa de camarim, brincadeira e tal... era divertido. Agora, a nostalgia por si é deplorável. Cê lembrou da “Só O Fim”, né? Num show, já faz um tempo, um fã entrou no camarim e veio me dizer que eu cantei a música toda diferente e que tinha conhecido a mulher da vida num show meu e tal, tava indignado porque eu mudei a música. Aí falei: “Bom, em primeiro lugar eu não tenho nada a ver com o chifre que você levou [risos]. Depois, não é que nos anos 1980 era uma maravilha, é que sua vida atual é que tá uma merda. Cê tá em busca de algo que não existe mais”. Perdi um fã, né? [risos]. Mas a vida também é feita de perdas.

Serviço:
Camisa de Vênus – Toca Raul
Teatro Bradesco – São Paulo/SP
19/08 – 21h
Ingressos: de R$ 35 a R$ 110, nas bilheterias ou pelo site www.teatrobradesco.com.br.