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Maria Bethânia mostra em São Paulo que está no melhor momento da carreira

Perfeccionista, baiana ensina que ser diva não tem a ver com ?lacrar?, mas sim com um grande espetáculo

Maria Bethânia - Citibank Hall/São Paulo - 30/06/2007

O palco é sagrado. Esta máxima para qualquer artista é uma religião para Maria Bethânia. A cantora baiana é conhecida por suas apresentações impecáveis, seja com cenário ou qualidade da banda. Nada pode atrapalhar o momento em que ela expõe sua arte.

A cantora subiu ao seu templo na noite desta sexta-feira (30) como quem entra em um culto: sorrindo, toda brilhante, de braços abertos. A proposta é tocar seus maiores sucessos de mais de 50 anos de carreira. Ovacionada, ela vai direto ao assunto com “Diamante Verdadeiro”, emendada com “O Quereres”  e “Dona do Raio: O Vento”.

Animada, ela sorri, agradece e finalmente fala. “Não ensaiaram a cortina, quebraram minha entrada”, protestou a cantora. “Não tem como dar certo se não ensaia cortina, banda”. Mais de que uma simples reclamação, a fala tem uma mensagem importante: lembrar a todos que nada pode atrapalhar seu momento sagrado.

maria-bethania

E, se o objetivo é percorrer sua carreira, estão lá sucessos que têm 40 anos de diferença, como de “Volta Por Cima”, de Paulo Vanzolini, gravada no Drama - Anjo Exterminado (1972) e “Lágrima”, de Oásis de Bethânia (2012). Lá também estavam os compositores que marcaram sua trajetória: Chico Buarque (“Olhos Nos Olhos”), Vinicius de Moraes (“Samba Da Benção”), Roberto Carlos (“Fera Ferida”), Paulo Vanzolini (“Ronda”) e o irmão Caetano Veloso (“O Quereres”).

Bethânia fala pouco. Mas basta reparar na ordem nas músicas e na escolha das poesias para captar a mensagem. “Ultimatum”, poema do heterônimo Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa, contra a burocracia, o militarismo e o abuso de poder, foi seguido por “Cálice”, música de Chico Buarque e Gilberto Gil contra a censura na época da Ditadura Militar brasileira.

A baiana não desafia só na estética. Ela sempre cantou o que gosta e nunca se importou com patrulha intelectual. Em 1978, gravou “Negue”, até então conhecida na voz de Nelson Gonçalves e considerada uma música velha, cafona até. O mesmo aconteceu no final dos anos 1990, quando gravou “É O Amor”, de Zezé Di Camargo & Luciano. Bethânia não só cantou as duas como, na segunda, fez um breve pot-pourri sertanejo com “Vai Dar Namoro”, da dupla Bruno & Marrone.

Aos 71 anos, Bethânia desafiou o senso comum: sua voz não está menos potente, está melhor. A intensidade com que a baiana consegue cantar as músicas hoje supera em grande parte as gravações originais, caso de “Diamante Verdadeiro”, gravada originalmente em 1978, no Álibi. A versão de “Estado De Poesia”, de Chico César, encaixou tão bem na sua performance que parece que o músico paraibano compôs para que ela cantasse.

Bethânia é a diva que não lacra. Depois de cantar “Meu Amor É Marinheiro”, canção portuguesa gravada no seu mais recente disco Abraçar E Agradecer (2016), única do repertório, a cantora foi mais uma vez aplaudida de pé. Em meio a gritos de “diva”, “maravilhosa” e “gostosa”, ela agradeceu. Os aplausos aumentaram. Agradeceu de novo. Os gritos aumentaram. “Eu gosto”, brincou. As palmas não cessaram. Ela tentava falar, mas era interrompida por gritos de “lacradora”. Com a personalidade que lhe é peculiar, a baiana questionou: “Eu falo ou não falo?”, com um sorriso levemente sério.

Este conflito de gerações e comportamento quanto ao espetáculo fica claro nos momentos em que Bethânia recitava poemas. Não foi um grito isolado de “linda” ou “maravilhosa” que rompia o silêncio enquanto ela declamava, foram vários – algo que não parecia entreter a cantora.

Esta devoção ao espetáculo, tão profissional e séria, é, por sua vez, a fundação da cantora como artista. Bethânia não está apenas em um show, ela não cumpre tabela. A baiana se doa e se emociona com cada palavra que sai de sua boca. No já conhecido pot-pourri “Santo Amaro Ê Ê/Quixabeira/Reconvexo/Minha Senhora/Viola, Meu Bem”, introduzido desta vez por “A Menina dos Olhos de Oyá”, samba-enredo da Mangueira em sua homenagem que ganhou o Carnaval do Rio no ano passado, ela requebra, corre para os lados e sente cada nota executada pela excelente banda que a acompanha.

Ao final, quando canta “Je Ne Regrette Rien”, eternizada por Edith Piaf, e declama a tradução em português, Bethânia fecha os olhos e bate no peito. A experiência de seus shows vai muito além da sua poderosa voz: tudo é intenso, tudo é belo, tudo é perfeitamente ensaiado, tudo respira poesia. Elegante, forte e autocentrada, a baiana ensina que ser diva não tem a ver com chamar atenção simplesmente, mas com criar um espetáculo que emocione.

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Maria Bethânia mostra em São Paulo que está no melhor momento da carreira

Perfeccionista, baiana ensina que ser diva não tem a ver com ?lacrar?, mas sim com um grande espetáculo

por Lucas Borges Teixeira em 01/07/2017

Maria Bethânia - Citibank Hall/São Paulo - 30/06/2007

O palco é sagrado. Esta máxima para qualquer artista é uma religião para Maria Bethânia. A cantora baiana é conhecida por suas apresentações impecáveis, seja com cenário ou qualidade da banda. Nada pode atrapalhar o momento em que ela expõe sua arte.

A cantora subiu ao seu templo na noite desta sexta-feira (30) como quem entra em um culto: sorrindo, toda brilhante, de braços abertos. A proposta é tocar seus maiores sucessos de mais de 50 anos de carreira. Ovacionada, ela vai direto ao assunto com “Diamante Verdadeiro”, emendada com “O Quereres”  e “Dona do Raio: O Vento”.

Animada, ela sorri, agradece e finalmente fala. “Não ensaiaram a cortina, quebraram minha entrada”, protestou a cantora. “Não tem como dar certo se não ensaia cortina, banda”. Mais de que uma simples reclamação, a fala tem uma mensagem importante: lembrar a todos que nada pode atrapalhar seu momento sagrado.

maria-bethania

E, se o objetivo é percorrer sua carreira, estão lá sucessos que têm 40 anos de diferença, como de “Volta Por Cima”, de Paulo Vanzolini, gravada no Drama - Anjo Exterminado (1972) e “Lágrima”, de Oásis de Bethânia (2012). Lá também estavam os compositores que marcaram sua trajetória: Chico Buarque (“Olhos Nos Olhos”), Vinicius de Moraes (“Samba Da Benção”), Roberto Carlos (“Fera Ferida”), Paulo Vanzolini (“Ronda”) e o irmão Caetano Veloso (“O Quereres”).

Bethânia fala pouco. Mas basta reparar na ordem nas músicas e na escolha das poesias para captar a mensagem. “Ultimatum”, poema do heterônimo Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa, contra a burocracia, o militarismo e o abuso de poder, foi seguido por “Cálice”, música de Chico Buarque e Gilberto Gil contra a censura na época da Ditadura Militar brasileira.

A baiana não desafia só na estética. Ela sempre cantou o que gosta e nunca se importou com patrulha intelectual. Em 1978, gravou “Negue”, até então conhecida na voz de Nelson Gonçalves e considerada uma música velha, cafona até. O mesmo aconteceu no final dos anos 1990, quando gravou “É O Amor”, de Zezé Di Camargo & Luciano. Bethânia não só cantou as duas como, na segunda, fez um breve pot-pourri sertanejo com “Vai Dar Namoro”, da dupla Bruno & Marrone.

Aos 71 anos, Bethânia desafiou o senso comum: sua voz não está menos potente, está melhor. A intensidade com que a baiana consegue cantar as músicas hoje supera em grande parte as gravações originais, caso de “Diamante Verdadeiro”, gravada originalmente em 1978, no Álibi. A versão de “Estado De Poesia”, de Chico César, encaixou tão bem na sua performance que parece que o músico paraibano compôs para que ela cantasse.

Bethânia é a diva que não lacra. Depois de cantar “Meu Amor É Marinheiro”, canção portuguesa gravada no seu mais recente disco Abraçar E Agradecer (2016), única do repertório, a cantora foi mais uma vez aplaudida de pé. Em meio a gritos de “diva”, “maravilhosa” e “gostosa”, ela agradeceu. Os aplausos aumentaram. Agradeceu de novo. Os gritos aumentaram. “Eu gosto”, brincou. As palmas não cessaram. Ela tentava falar, mas era interrompida por gritos de “lacradora”. Com a personalidade que lhe é peculiar, a baiana questionou: “Eu falo ou não falo?”, com um sorriso levemente sério.

Este conflito de gerações e comportamento quanto ao espetáculo fica claro nos momentos em que Bethânia recitava poemas. Não foi um grito isolado de “linda” ou “maravilhosa” que rompia o silêncio enquanto ela declamava, foram vários – algo que não parecia entreter a cantora.

Esta devoção ao espetáculo, tão profissional e séria, é, por sua vez, a fundação da cantora como artista. Bethânia não está apenas em um show, ela não cumpre tabela. A baiana se doa e se emociona com cada palavra que sai de sua boca. No já conhecido pot-pourri “Santo Amaro Ê Ê/Quixabeira/Reconvexo/Minha Senhora/Viola, Meu Bem”, introduzido desta vez por “A Menina dos Olhos de Oyá”, samba-enredo da Mangueira em sua homenagem que ganhou o Carnaval do Rio no ano passado, ela requebra, corre para os lados e sente cada nota executada pela excelente banda que a acompanha.

Ao final, quando canta “Je Ne Regrette Rien”, eternizada por Edith Piaf, e declama a tradução em português, Bethânia fecha os olhos e bate no peito. A experiência de seus shows vai muito além da sua poderosa voz: tudo é intenso, tudo é belo, tudo é perfeitamente ensaiado, tudo respira poesia. Elegante, forte e autocentrada, a baiana ensina que ser diva não tem a ver com chamar atenção simplesmente, mas com criar um espetáculo que emocione.