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Não é samba, não é rock. É Filipe Catto

por em 08/09/2015
P
or Marcos Lauro
O cantor gaúcho Filipe Catto apareceu na cena musical brasileira em 2011. Com uma voz extremamente singular e um visual andrógino, arrebatou de cara um grande público com um repertório sem um gênero musical estabelecido: MPB, tango, pop? Agora, Catto aparece com seu segundo disco, Tomada. “Não é samba, não é rock. É Filipe Catto”, afirma, seguro, o cantor. No repertório, além de músicas próprias, composições de nomes de peso como Marina Lima e Pedro Luis. A Billboard Brasil conversou com Filipe sobre a “maldição do segundo disco”, os anos que separam os dois trabalhos e o mercado da música no Brasil. https://open.spotify.com/album/3VTeIY1TBbCDCH4Em5afXm Como encarou a “maldição do segundo disco”? Pois é! Eu nem pensei muito nisso. Porque nem sei se é meu terceiro, quarto disco... Você foi se envolvendo em outros projetos no meio do caminho, né? Eu fiquei sem medo desse bicho papão aí. Você soube aproveitar esse espaço entre os dois discos. Isso foi uma estratégia ou foi acontecendo? Na verdade teve muita demanda de público mesmo. Quando a gente lançou Fôlego, em 2011, era um tiro no escuro, não sabíamos o que íamos encontrar. E, de repente, a gente começou a ver que o trabalho gerou frutos. O DVD [gravado na turnê do disco] fez com que circulássemos mais. Então eu tô com a agenda do disco anterior até agora! As pessoas não chegaram a se cansar e ir embora do projeto. Eu jamais faria algo por pressão de ter um disco novo... é orgânico. Todos os meus projetos têm uma necessidade artística. E foi legal porque deu tempo de maturar bem o trabalho, de compor, pesquisar, de burilar o que eu queria passar pras pessoas. Tem alguns compositores de peso no disco. Como você foi chegando até eles? É um disco de encontros, as pessoas foram chegando. O Pedro Luis eu conheci há um tempo e adoro o jeito como ele escreve. Pensei nele e mandei uma música pra gente pensar junto. O Moska também. Participei do programa dele [Zoombido] e tivemos uma afinidade musical muito grande. Aí mandei “Depois De Amanhã” pra ele e ele me devolveu pronta. Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro, Ava Rocha, Carlini tocando guitarra... Isso traz uma riqueza muito grande pra mim nesse momento. As parcerias trazem frescor e tesão pra continuar, assumir as mudanças naturais. Foi muito bacana e é um aval ter a Marina Lima oferecendo uma grande canção pro disco. Eu fiquei muito feliz porque são pessoas que me formaram. São nomes populares, no sentido de que as pessoas cantam o que eles compõem... E o disco tem um pouco esse lugar. Da forma como você conduz sua carreira, às vezes dá a impressão de que você já tem uns 20 anos de estrada. Você sente isso? [risos] Eu também acho às vezes, me sinto com uns 69 anos [risos]! Mas eu tenho 27. E tem o Clube dos 27, né?  Eu penso: “Gente, o clube dos 27... eu vou ter um troço, morrer, tenho que fazer algo legal [risos]!” O que acontece é que eu tenho um rigor com a coisa do lançamento, da capa. Eu sou um esteta póstumo. Eu penso nisso, mas eu não sou um marqueteiro, entendeu? Nada contra, eu acho importante quem sabe vender a sua música. Cada vez mais eu tô cercado de pessoas que vendem meu trabalho da forma que ele merece. Mas o que me motiva não é o que está fora, tudo tem que surgir da música. Por isso esse tempo! Eu preciso de tempo pra viver o que acontece entre um disco e outro. Pra você ter o que dizer pras pessoas, sabe? Eu sinto que conquistei uma autonomia de palco muito grande. Eu tenho meus projetos “paralelos” que me permitem experimentar e tal. Então tem sim esse sentimento de uma “carreira longa”. Muitos artistas tratam a música apenas como um acessório do seu trabalho, a imagem conta mais. Você percebe isso? Sim, mas eu não acho que seja um demérito. Tem vários modelos para se fazer isso. Mas a gente está num mercado que é difícil para aparecer. Então, às vezes, você precisa de um gancho, de uma plataforma. Eu acho que comigo a coisa foi diferente porque eu chamei a atenção, sei lá se por causa da minha voz, da minha imagem... Tem um estranhamento. E eu acho legal, nesse sentido. Gosto quando a música traz algo inesperado. Mas também não dá pra virar algo só em cima disso. E tem grandes artistas que conseguem fazer um trabalho estético junto com uma boa música. E as comparações com o Ney Matogrosso, já diminuíram? Já, eu acho que já! Isso pra mim é super tranquilo e sempre foi, na verdade. E eu fico feliz em estar fazendo esse disco nesse momento. Eu fico feliz quando ouço os discos anteriores, porque eu vejo que era aquela pessoa mesmo, era aquele momento. E era natural que, só com um disco de estúdio, as pessoas comparassem. Um homem com uma androginia absoluta como eu vai ser automaticamente comparado ao Ney, porque ele é o único. E não seria saudável se eu comprasse essa ideia e me aproveitasse disso, porque seria medíocre. E eu reconheço que o Ney é uma entidade da música e nada pode ser parecido com ele. E a gente já cantou junto, é uma gracinha [risos]! É uma força da natureza, né? Sim. Acho muito foda. Um Deus! Ele é uma coisa que não existe... E a participação do Carlini, como rolou? Ele é amigo do Caio, que tocava comigo na banda. Eu sempre o admirei muito e era um sonho ter um cara como ele no meu disco. O Caio sugeriu e eu topei na hora. Quando a gente ligou pra ele, ficou sabendo que ele conhecia o trabalho e acabamos ficando amigos. A gente mais conversou do que tocou [risos]. O Carlini ajudou a formatar o rock nacional. Ele faz parte do que você sempre ouviu ou você descobriu depois de um tempo? O Carlini representa a gênese de tudo que eu sou. Eu venho do Rio Grande do Sul e o rock nacional é o motor de tudo que eu faço. O Tomada tem muitas camadas. A primeira semente era: um disco de rock. Eu queria a energia do rock. Eu não estava preocupado com a estética e o timbre do rock, eu queria a energia, a densidade, o tesão de cantar do roqueiro. Porque isso chega onde me interessa: a essência. E aí, quanto tem o Carlini tocando, eu tô dialogando com isso, com a coisa mais verdadeira da música. E quando eu vejo isso acontecer é de uma realização absurda. É um disco que tem a vontade que eu tinha de quebrar com os gêneros, destruir o gênero e a referência. O nome “tomada” vem do “ato de tomar’, parte pra assinatura de uma coisa que é absolutamente autoral, no repertório, no conceito. Afirmação mesmo: eu canto isso! Não é samba, não é rock. É Felipe Catto. E é o comportamento de muitos ouvintes hoje, né? As pessoas ouvem tudo misturado... Sim. E a MPB que a gente conhece tem muito disso. O Gil tem reggae, rock, bossa... o Gil é o Gil. A Marina Lima já cantou de “Fulgás” a “Emoções”, do Roberto. E tem identidade na voz, na postura. O Tomada chegou nesse lugar pra mim agora. As pessoas já identificam a minha voz. E quando chegou nesse ponto em que as pessoas reconheciam a minha voz, virou uma responsabilidade! E no Tomada, apesar de ter regravações, não tem nenhum clássico, nenhum standard... É um repertório todo em primeira pessoa. Eu sou um cantor de 27 anos, em 2015, então eu quis falar sobre isso, é a minha identidade. Eu tenho uma intensidade cantando que eu gosto e eu quis mostrar isso, o repertório me permite cantar, me jogar, sem ser nostálgico, antigo... Vivendo o hoje, é isso? Sim. Dentro desse processo todo eu entrei em contato com tudo isso naturalmente. Você se preocupa muito com a estética do show. A turnê do Tomada já está formatada? A turnê começa no fim de outubro e o show vai seguir o conceito do disco. São músicas muito diretas. Na escolha do repertório houve essa preocupação em ser impactante, um tiro certo, músicas muito diretas. E o show vai seguir essa ideia, trazendo músicas mais antigas que dialogam com esse momento. Mas a gente não começou a trabalhar nele ainda. Eu tenho tudo desenhado na cabeça e a ideia é ter uma estética forte. É um tesão poder fazer isso [risos]!
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    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
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Não é samba, não é rock. É Filipe Catto

por em 08/09/2015
P
or Marcos Lauro
O cantor gaúcho Filipe Catto apareceu na cena musical brasileira em 2011. Com uma voz extremamente singular e um visual andrógino, arrebatou de cara um grande público com um repertório sem um gênero musical estabelecido: MPB, tango, pop? Agora, Catto aparece com seu segundo disco, Tomada. “Não é samba, não é rock. É Filipe Catto”, afirma, seguro, o cantor. No repertório, além de músicas próprias, composições de nomes de peso como Marina Lima e Pedro Luis. A Billboard Brasil conversou com Filipe sobre a “maldição do segundo disco”, os anos que separam os dois trabalhos e o mercado da música no Brasil. https://open.spotify.com/album/3VTeIY1TBbCDCH4Em5afXm Como encarou a “maldição do segundo disco”? Pois é! Eu nem pensei muito nisso. Porque nem sei se é meu terceiro, quarto disco... Você foi se envolvendo em outros projetos no meio do caminho, né? Eu fiquei sem medo desse bicho papão aí. Você soube aproveitar esse espaço entre os dois discos. Isso foi uma estratégia ou foi acontecendo? Na verdade teve muita demanda de público mesmo. Quando a gente lançou Fôlego, em 2011, era um tiro no escuro, não sabíamos o que íamos encontrar. E, de repente, a gente começou a ver que o trabalho gerou frutos. O DVD [gravado na turnê do disco] fez com que circulássemos mais. Então eu tô com a agenda do disco anterior até agora! As pessoas não chegaram a se cansar e ir embora do projeto. Eu jamais faria algo por pressão de ter um disco novo... é orgânico. Todos os meus projetos têm uma necessidade artística. E foi legal porque deu tempo de maturar bem o trabalho, de compor, pesquisar, de burilar o que eu queria passar pras pessoas. Tem alguns compositores de peso no disco. Como você foi chegando até eles? É um disco de encontros, as pessoas foram chegando. O Pedro Luis eu conheci há um tempo e adoro o jeito como ele escreve. Pensei nele e mandei uma música pra gente pensar junto. O Moska também. Participei do programa dele [Zoombido] e tivemos uma afinidade musical muito grande. Aí mandei “Depois De Amanhã” pra ele e ele me devolveu pronta. Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro, Ava Rocha, Carlini tocando guitarra... Isso traz uma riqueza muito grande pra mim nesse momento. As parcerias trazem frescor e tesão pra continuar, assumir as mudanças naturais. Foi muito bacana e é um aval ter a Marina Lima oferecendo uma grande canção pro disco. Eu fiquei muito feliz porque são pessoas que me formaram. São nomes populares, no sentido de que as pessoas cantam o que eles compõem... E o disco tem um pouco esse lugar. Da forma como você conduz sua carreira, às vezes dá a impressão de que você já tem uns 20 anos de estrada. Você sente isso? [risos] Eu também acho às vezes, me sinto com uns 69 anos [risos]! Mas eu tenho 27. E tem o Clube dos 27, né?  Eu penso: “Gente, o clube dos 27... eu vou ter um troço, morrer, tenho que fazer algo legal [risos]!” O que acontece é que eu tenho um rigor com a coisa do lançamento, da capa. Eu sou um esteta póstumo. Eu penso nisso, mas eu não sou um marqueteiro, entendeu? Nada contra, eu acho importante quem sabe vender a sua música. Cada vez mais eu tô cercado de pessoas que vendem meu trabalho da forma que ele merece. Mas o que me motiva não é o que está fora, tudo tem que surgir da música. Por isso esse tempo! Eu preciso de tempo pra viver o que acontece entre um disco e outro. Pra você ter o que dizer pras pessoas, sabe? Eu sinto que conquistei uma autonomia de palco muito grande. Eu tenho meus projetos “paralelos” que me permitem experimentar e tal. Então tem sim esse sentimento de uma “carreira longa”. Muitos artistas tratam a música apenas como um acessório do seu trabalho, a imagem conta mais. Você percebe isso? Sim, mas eu não acho que seja um demérito. Tem vários modelos para se fazer isso. Mas a gente está num mercado que é difícil para aparecer. Então, às vezes, você precisa de um gancho, de uma plataforma. Eu acho que comigo a coisa foi diferente porque eu chamei a atenção, sei lá se por causa da minha voz, da minha imagem... Tem um estranhamento. E eu acho legal, nesse sentido. Gosto quando a música traz algo inesperado. Mas também não dá pra virar algo só em cima disso. E tem grandes artistas que conseguem fazer um trabalho estético junto com uma boa música. E as comparações com o Ney Matogrosso, já diminuíram? Já, eu acho que já! Isso pra mim é super tranquilo e sempre foi, na verdade. E eu fico feliz em estar fazendo esse disco nesse momento. Eu fico feliz quando ouço os discos anteriores, porque eu vejo que era aquela pessoa mesmo, era aquele momento. E era natural que, só com um disco de estúdio, as pessoas comparassem. Um homem com uma androginia absoluta como eu vai ser automaticamente comparado ao Ney, porque ele é o único. E não seria saudável se eu comprasse essa ideia e me aproveitasse disso, porque seria medíocre. E eu reconheço que o Ney é uma entidade da música e nada pode ser parecido com ele. E a gente já cantou junto, é uma gracinha [risos]! É uma força da natureza, né? Sim. Acho muito foda. Um Deus! Ele é uma coisa que não existe... E a participação do Carlini, como rolou? Ele é amigo do Caio, que tocava comigo na banda. Eu sempre o admirei muito e era um sonho ter um cara como ele no meu disco. O Caio sugeriu e eu topei na hora. Quando a gente ligou pra ele, ficou sabendo que ele conhecia o trabalho e acabamos ficando amigos. A gente mais conversou do que tocou [risos]. O Carlini ajudou a formatar o rock nacional. Ele faz parte do que você sempre ouviu ou você descobriu depois de um tempo? O Carlini representa a gênese de tudo que eu sou. Eu venho do Rio Grande do Sul e o rock nacional é o motor de tudo que eu faço. O Tomada tem muitas camadas. A primeira semente era: um disco de rock. Eu queria a energia do rock. Eu não estava preocupado com a estética e o timbre do rock, eu queria a energia, a densidade, o tesão de cantar do roqueiro. Porque isso chega onde me interessa: a essência. E aí, quanto tem o Carlini tocando, eu tô dialogando com isso, com a coisa mais verdadeira da música. E quando eu vejo isso acontecer é de uma realização absurda. É um disco que tem a vontade que eu tinha de quebrar com os gêneros, destruir o gênero e a referência. O nome “tomada” vem do “ato de tomar’, parte pra assinatura de uma coisa que é absolutamente autoral, no repertório, no conceito. Afirmação mesmo: eu canto isso! Não é samba, não é rock. É Felipe Catto. E é o comportamento de muitos ouvintes hoje, né? As pessoas ouvem tudo misturado... Sim. E a MPB que a gente conhece tem muito disso. O Gil tem reggae, rock, bossa... o Gil é o Gil. A Marina Lima já cantou de “Fulgás” a “Emoções”, do Roberto. E tem identidade na voz, na postura. O Tomada chegou nesse lugar pra mim agora. As pessoas já identificam a minha voz. E quando chegou nesse ponto em que as pessoas reconheciam a minha voz, virou uma responsabilidade! E no Tomada, apesar de ter regravações, não tem nenhum clássico, nenhum standard... É um repertório todo em primeira pessoa. Eu sou um cantor de 27 anos, em 2015, então eu quis falar sobre isso, é a minha identidade. Eu tenho uma intensidade cantando que eu gosto e eu quis mostrar isso, o repertório me permite cantar, me jogar, sem ser nostálgico, antigo... Vivendo o hoje, é isso? Sim. Dentro desse processo todo eu entrei em contato com tudo isso naturalmente. Você se preocupa muito com a estética do show. A turnê do Tomada já está formatada? A turnê começa no fim de outubro e o show vai seguir o conceito do disco. São músicas muito diretas. Na escolha do repertório houve essa preocupação em ser impactante, um tiro certo, músicas muito diretas. E o show vai seguir essa ideia, trazendo músicas mais antigas que dialogam com esse momento. Mas a gente não começou a trabalhar nele ainda. Eu tenho tudo desenhado na cabeça e a ideia é ter uma estética forte. É um tesão poder fazer isso [risos]!