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Nasi revela forte lado espiritual em novo disco

por em 12/11/2015
P
or Lucas Borges Teixeira
Aos 53 anos, Nasi é um novo homem. Longe das drogas há oito anos, 42 kg mais magro e iniciado no Templo dos Orixás desde 2009, o músico paulistano está mais de bem com a vida do que nunca: com muita energia vital, ou axé, como anda definindo. Não à toa, deu ao seu novo álbum solo, Ègbé, o nome do orixá ligado à alegria, às crianças, à música. "[O disco] reúne o meu Égbé: os músicos que fazem parte da minha comunidade musical, as referências que fazem parte do meu imaginário musical", explica o cantor. A gravação do disco faz parte do programa Faixa Musical, do Canal Brasil, que será exibido neste sábado (14/11). Os shows, no entanto, só começam no ano que vem. A agenda do Ira! está lotada até o final de 2015. Em entrevista a Billboard Brasil, Nasi contou um pouco mais sobre sua nova fase, sobre a perda de peso e uso de drogas, além de comentar situação política e social do Brasil: Estou com o seu disco na mão, o Ègbé. É assim que se fala? Fala "Ébé". É uma palavra yorubana, então o "g" mudo antes do "b" reforça o "b". Aquele jogador, chamam Drogbá, mas é Dróbá. E o que significa? Ègbé significa, ao mesmo tempo, comunidade ou associação de pessoas, seja ela religiosa, profissional, e dá nome a um orixá. É o orixá das luzes, dos amigos, das crianças, muito ligado à música, alegria, comunhão, dança... Então, como eu fiz uma adaptação do canto yoruba "Ègbé Onire" [última faixa], deu esse sentido ao disco. Ele reúne o meu Égbé: os músicos que fazem parte da minha comunidade musical, as referências que fazem parte do meu imaginário musical... É mais ou menos esse o sentido. Você falou em referências, é por isso que você abre o disco com "Dois Animais na Selva Suja da Rua", do Taiguara, que fez sucesso com o Erasmo Carlos, e depois toca Alceu Valença ["Sol e Chuva"]? Por que gravar essas músicas dos anos 70 em meio a inéditas hoje? Apesar de o Ira! ter muita relação com os rocks dos anos 50 e 60, cheguei à conclusão de que os anos 70 são a década que mais aparece na minha memória afetiva. O hard rock é dos anos 70, a soul music... Deve ser a década mais incrível de explosões musicais. E o que eu gosto muito no Brasil está nos anos 70: Raul Seixas, Tim Maia, Tony Tornado, Alceu Valença. Eu gostava muito do "Vivo!" (1976), tenho até hoje. Na minha adolescência, acompanhava os shows dele [Alceu] no Tuca e tal. O disco passa uma espiritualidade muito forte, de energia positiva. É assim que você definiria a sua fase atual? É por aí mesmo. Minha relação com a umbanda, com o candomblé vem desde de a minha juventude. Mesmo em casa - meu pai é espírita - sempre frequentei muito a umbanda. Mas tinha me desligado disso. Agora, eu me aprofundei mais. Iniciado eu nunca fui, era interessado, lia muito, às vezes frequentava, como cliente ou curioso. Em 2009, eu me iniciei: sou um dos filhos do Templo dos Orixás, sediado aqui em Mongaguá, no interior de São Paulo. Ao que você deve essa nova fase? Já contou que largou as drogas, perdeu muito peso desde a volta do Ira!... Como diz a música: “cabeça, afasta de mim qualquer doença pra que sobre um corpo que ainda pensa”. Tô procurando, né? Eu realmente perdi controle sobre o meu peso, começou tudo meio como uma coisa idiota, que foi virando, literalmente, uma bola de neve [risos]. Quando fui ver, já tava, sei lá, do tamanho do Tim Maia [mais risos]. Eu esperei a hora para isso. Não estava conseguindo nada com dietas restritivas, então pesquisei até encontrar a cirurgia bariátrica. Meus índices de saúde estavam alarmantes. Eu não fiz isso na volta do Ira! porque ia ser muita coisa ao mesmo tempo, sabe? Então eu esperei e em outubro fez um ano. Operei 27 de outubro de 2014. Hoje, eu tô com 72 kg, perdi 42 kg. Engraçado que antes as pessoas se assustavam o quanto eu tava gordo, agora elas se assustam o quanto eu tô magro [risos]. Você lança esse disco agora em meio à retomada do Ira!. Como funciona? Olha, show [do disco novo] só no ano que vem. Esse projeto começa, inicialmente, com um convite do Canal Brasil para fazer parte do Faixa Musical, que, na grade deles, é a parte de especiais para a TV. Nesse ano, eu não faço show de lançamento, não. Vou cumprir datas com o Ira! até o final do ano. Teve uma coincidência, uma sincronicidade bacana porque o Edgard [Scandurra] também está lançando um CD novo com a cantora Silvia Tape. Então é bom que nós estamos, nesse momento, criativamente, mobilizados numa carreira solo. Quando isso terminar, essa fase de divulgação, fazer show no começo do ano, obviamente a gente vai se voltar pra algo inédito do Ira!. Uma possibilidade que existe bacana, estamos vendo de viabilizar, é lançar como registro da nova fase o show que a gente fez no Rock in Rio. Vamos ver se a nossa vontade se junta ao interesse de gravadoras, dos detentores de imagem do Rock in Rio... Acho que a gente pode, quem sabe, no começo do ano, após o carnaval, ter uma novidade. Já pode ser um aperitivo. E o que você achou do show? Demais. O Sunset entrou em contato com a gente e falou: “olha, sugiram nomes”. Eles não chegaram com nada pronto, em termos de parceria, que é a marca do palco. A gente sugeriu o Tony Tornado e o Rappin' Hood pensado que eles escolheriam um, mas falaram “por que não os dois?”. Assim como o Tony é um pioneiro do black brasileiro, da soul music, o Rappin' também é um pioneiro do rap brasileiro. São dois representantes do que existe de melhor da música nacional. O ambiente dos ensaios foi incrível, cara. O Tony às vezes parecia que tava naquele programa Ensaio, da TV Cultura. Ele acabava de tocar uma música, sentava na cadeira e contava uma história. Porra, cara. Foi uma experiência de vida, uma emoção e uma responsabilidade pra gente. Sim ou não, o Rock in Rio é uma exposição muito grande, tem que fazer as coisas bem feitas. Não seria mais um disco ao vivo de uma banda com 30 anos de carreira, seria o registro de um momento que foi muito especial. E o Ira! tem algo inédito? Ah, sim. Só estou dizendo que a gente não está trabalhando isso agora. A nossa vida é fazer música. Mas tem os projetos paralelos. Esse foi um problema do Ira! no passado. Naquela época, saía o trabalho solo de alguém, mas tinha que se dedicar pra banda e a gravadora batia na porta e falava “cadê o disco?”. Isso causava uma tensão que era meio frustrante. Agora, como estamos bem, a gente não tem contrato com ninguém que nos cobre. Quando nós éramos da Sony, da Universal, produtor ligava: “Pô, vocês me devem um disco, é contrato”.  É normal, é assim que funciona. Mas, hoje, depois da volta, somos independentes. Nós podemos até assinar com uma gravadora, mas não ter essa pressão é bom para o momento. Não tem pressa, sabe? Não vai sair um disco por que tem que sair, mas porque é bom. Como você vê o rock no Brasil atualmente? Vocês surgiram numa época em que o gênero era mais popular. Olha, cara, sem falsa demagogia, isso não afeta muito o meu dia a dia, não. O Ira! é uma banda com uma agenda de shows bem concorrida, fruto de um patrimônio que a gente adquiriu. Agora, vou te falar um negócio, toda vez que você tem hegemonia de um movimento musical, não faz bem para ele, seja rock, seja axé, seja sertanejo... Vem muita porcaria, né? Na época em que o rock nacional era a música do poder, vamos falar a verdade: tinha seis, sete e o resto era uma porcaria. Fora que todo mundo era rock... Tem coisas muito importantes, mas, se você for ver, era 20%. Muito artista ruim no meio, muito Dr. Silvana [& Cia]. Tem uns que eu não vou falar porque eu não gosto de ficar criando... Deixa pro Lobão essas coisas [risos]. Mas não só no Brasil, acho que o mundo não vive um bom momento de rock. Mas tem. O Terno achei muito legal, Garotas Suecas, sou superfã, Cachorro Grande não é nenhuma novidade, mas é rock... Eu acho que seja cíclico, logo vem uma nova era, de Londres ou nos Estados Unidos... Você acredita que o país passa por um momento de intolerância? Eu vejo isso com muita tristeza. Em nome da religião, algumas pessoas têm feito coisas horríveis, né? Em nome de Jesus, em nome de Alá... matam pessoas, crianças. A gente nem gosta de falar de religião de orixá, a gente prefere filosofia de orixá. E a nossa filosofia é a da tolerância. Numa casa de orixá você entra católico e sai católico, ninguém vai pregar. Você pode entrar mulçumano e comer com a gente, dançar, cantar. É assim que a gente encara o mundo. O importante não é a religião, o importante é o ser humano. Deus, para mim, é o próximo, está no próximo: na pessoa do meu vizinho, nas pessoas que vão ao show, no cara da padaria que eu compro pão. Eu falo disso porque nesse disco essas coisas estão inerentes. [As pessoas] vêm com estereótipo de quem é de orixá e me perguntam: "Mas falar sobre essas coisas... você não pode perder público?" Cara, se tiver gente que quer ser meu público e tenha intolerância sobre as coisas que eu acredito, eu abro mão. Nunca precisei. Você é a favor da legalização da maconha? Sou a favor, sim. Não que eu ache que nós não vamos ter problemas com isso. Primeiro a descriminalização já deveria ser, né? O usuário tem que ser tratado como um doente, como eu já fui. Eu me tratei em 1997 contra a dependência química, por causa da cocaína. Depois voltei a usar maconha em 2001, parei em 2007 e, agora, tenho a certeza de que não retorno mais. Só cigarro e uma bebidinha, que, por sinal, tá bom porque às vezes eu dou um vexamezinhos [risos]. Agora, é aquela coisa, né? Tem que tirar um pouquinho o moralismo do assunto. A maconha fez parte de momentos bons da minha vida, mas também teve parte de momentos não tão bons: me tirou concentração, me tirou axé, a energia vital de acordar e fazer as coisas. Não acho que maconha seja tudo de bom. No caso de outras drogas, pior ainda, porque elas podem levar à morte. Eu acho que isso deveria ter uma discussão ampla na sociedade. Você não pode impedir uma pessoa de usar droga, mas a gente pode ajudar quem quer se tratar. Há um moralismo: lembro que, quando saí da clínica, as pessoas ficavam mais chocadas comigo do que quando eu usava. Ao mesmo tempo, as pessoas que usam drogas, como eu usei, também têm que saber que - e o filme do [José] Padilha [Tropa de Elite, 2007] fala muito bem - fazem parte de uma pirâmide, de um ecossistema que bota arma na mão de bandido. A gente precisa pensar nisso também. O passo é a descriminalização, sem dúvida. Não ser preso por ser usuário e, dependendo do caso, até ser conduzido a um tratamento. Depois, a legalização, pra ver se a gente consegue de alguma forma acertar o coração desse monstro, o mundo do tráfico, que não é só o bandido que está na favela, é o deputado sentado na assembleia, o policial que preside uma delegacia. Uma sociedade livre de hipocrisia e de moralismo tem que conversar de uma maneira adulta e eficaz. Falando nisso, muita gente poderosa está sendo presa nos últimos tempos. Como você vê isso? Está esperançoso? Para ter um pouquinho de humor, é falar "eu quero ver se vai sobrar alguém que não vai ser preso nesse país" [risos]. É o meu medo, daqui a pouco fecha o Congresso e não entra ninguém. O duro é você ver que não é mais só uma fatia de picaretas. Estamos estarrecidos, tristes, decepcionados, revoltados com tudo isso, mas faz parte de um novo momento, eu espero. Precisamos passar, ao meu ver, por uma reforma constitucional. Como assim? Não um plebiscito, acho que deveria haver uma constituinte popular. Tudo isso passa por uma reforma política, que ninguém faz. Todo governo promete que vai fazer. E, se ela for feita, é pelos políticos. Bom, mas aí é entregar o galinheiro para a raposa. Não podem ser os políticos a fazerem a reforma política, tem que ser a sociedade. Para isso, teríamos que ter um debate, o que eles chamam de constituinte, né? Setores da sociedade - estudantes, trabalhadores, movimentos sociais, políticos -  sentarem numa mesa e rever, por exemplo, a situação de 35 partidos. 35 partidos! Não pode, a única ideologia que permanece é a ideologia do fisiologismo. Você já chegou a opinar sobre o impeachment? Não, não cheguei porque eu não sei o que é pior: com Dilma ou sem Dilma. Não pela Dilma em si, eu tenho uma opinião sobre ela que não é positiva. Acho que de ninguém é, né? Acabou com a economia de Brasil e está pisando em ovos a todo instante. Agora, eu também não sei se a melhor solução é passar por um traumático impeachment, que vai gerar rachas na sociedade. E quem entraria no lugar? A raposa? Se a gente visse uma luz... Eu não vejo nesse Congresso, nem nas lideranças políticas. A gente vai ter que fazer uma grande reflexão para as próximas eleições. Votar melhor. Acreditar menos em marketing político. Não pode vender candidato como se vende biscoito. Porque as últimas eleições, especialmente a última, foi um estelionato eleitoral. E não é privilégio do governo Dilma, todos fazem isso. Eles têm dinheiro, contratam os melhores marqueteiros. De tanta maquiagem, fica difícil saber o que vem dentro do pacote. Você falou que turnê do disco é só no ano que vem. Vai ter show de lançamento? Olha, não tá marcado ainda, mas deve ser em São Paulo. O Ira! tem atividade de shows até mais ou menos a metade do mês de dezembro, depois temos um mês de férias. Aí volta, mas carnaval é no começo de fevereiro. Brasil vai voltar a funcionar na segunda quinzena, vamos dizer assim. Então, tô pensando por volta do início de março em São Paulo, mas não tenho nada marcado, não. Serviço: Ègbé - programa Faixa Musical Canal Brasil 14/11 - 18h
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Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Saudade
Eduardo Costa
3
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
4
Dona Maria (Part. Jorge)
Thiago Brava
5
Não Era Você
João Bosco & Vinicius
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Nasi revela forte lado espiritual em novo disco

por em 12/11/2015
P
or Lucas Borges Teixeira
Aos 53 anos, Nasi é um novo homem. Longe das drogas há oito anos, 42 kg mais magro e iniciado no Templo dos Orixás desde 2009, o músico paulistano está mais de bem com a vida do que nunca: com muita energia vital, ou axé, como anda definindo. Não à toa, deu ao seu novo álbum solo, Ègbé, o nome do orixá ligado à alegria, às crianças, à música. "[O disco] reúne o meu Égbé: os músicos que fazem parte da minha comunidade musical, as referências que fazem parte do meu imaginário musical", explica o cantor. A gravação do disco faz parte do programa Faixa Musical, do Canal Brasil, que será exibido neste sábado (14/11). Os shows, no entanto, só começam no ano que vem. A agenda do Ira! está lotada até o final de 2015. Em entrevista a Billboard Brasil, Nasi contou um pouco mais sobre sua nova fase, sobre a perda de peso e uso de drogas, além de comentar situação política e social do Brasil: Estou com o seu disco na mão, o Ègbé. É assim que se fala? Fala "Ébé". É uma palavra yorubana, então o "g" mudo antes do "b" reforça o "b". Aquele jogador, chamam Drogbá, mas é Dróbá. E o que significa? Ègbé significa, ao mesmo tempo, comunidade ou associação de pessoas, seja ela religiosa, profissional, e dá nome a um orixá. É o orixá das luzes, dos amigos, das crianças, muito ligado à música, alegria, comunhão, dança... Então, como eu fiz uma adaptação do canto yoruba "Ègbé Onire" [última faixa], deu esse sentido ao disco. Ele reúne o meu Égbé: os músicos que fazem parte da minha comunidade musical, as referências que fazem parte do meu imaginário musical... É mais ou menos esse o sentido. Você falou em referências, é por isso que você abre o disco com "Dois Animais na Selva Suja da Rua", do Taiguara, que fez sucesso com o Erasmo Carlos, e depois toca Alceu Valença ["Sol e Chuva"]? Por que gravar essas músicas dos anos 70 em meio a inéditas hoje? Apesar de o Ira! ter muita relação com os rocks dos anos 50 e 60, cheguei à conclusão de que os anos 70 são a década que mais aparece na minha memória afetiva. O hard rock é dos anos 70, a soul music... Deve ser a década mais incrível de explosões musicais. E o que eu gosto muito no Brasil está nos anos 70: Raul Seixas, Tim Maia, Tony Tornado, Alceu Valença. Eu gostava muito do "Vivo!" (1976), tenho até hoje. Na minha adolescência, acompanhava os shows dele [Alceu] no Tuca e tal. O disco passa uma espiritualidade muito forte, de energia positiva. É assim que você definiria a sua fase atual? É por aí mesmo. Minha relação com a umbanda, com o candomblé vem desde de a minha juventude. Mesmo em casa - meu pai é espírita - sempre frequentei muito a umbanda. Mas tinha me desligado disso. Agora, eu me aprofundei mais. Iniciado eu nunca fui, era interessado, lia muito, às vezes frequentava, como cliente ou curioso. Em 2009, eu me iniciei: sou um dos filhos do Templo dos Orixás, sediado aqui em Mongaguá, no interior de São Paulo. Ao que você deve essa nova fase? Já contou que largou as drogas, perdeu muito peso desde a volta do Ira!... Como diz a música: “cabeça, afasta de mim qualquer doença pra que sobre um corpo que ainda pensa”. Tô procurando, né? Eu realmente perdi controle sobre o meu peso, começou tudo meio como uma coisa idiota, que foi virando, literalmente, uma bola de neve [risos]. Quando fui ver, já tava, sei lá, do tamanho do Tim Maia [mais risos]. Eu esperei a hora para isso. Não estava conseguindo nada com dietas restritivas, então pesquisei até encontrar a cirurgia bariátrica. Meus índices de saúde estavam alarmantes. Eu não fiz isso na volta do Ira! porque ia ser muita coisa ao mesmo tempo, sabe? Então eu esperei e em outubro fez um ano. Operei 27 de outubro de 2014. Hoje, eu tô com 72 kg, perdi 42 kg. Engraçado que antes as pessoas se assustavam o quanto eu tava gordo, agora elas se assustam o quanto eu tô magro [risos]. Você lança esse disco agora em meio à retomada do Ira!. Como funciona? Olha, show [do disco novo] só no ano que vem. Esse projeto começa, inicialmente, com um convite do Canal Brasil para fazer parte do Faixa Musical, que, na grade deles, é a parte de especiais para a TV. Nesse ano, eu não faço show de lançamento, não. Vou cumprir datas com o Ira! até o final do ano. Teve uma coincidência, uma sincronicidade bacana porque o Edgard [Scandurra] também está lançando um CD novo com a cantora Silvia Tape. Então é bom que nós estamos, nesse momento, criativamente, mobilizados numa carreira solo. Quando isso terminar, essa fase de divulgação, fazer show no começo do ano, obviamente a gente vai se voltar pra algo inédito do Ira!. Uma possibilidade que existe bacana, estamos vendo de viabilizar, é lançar como registro da nova fase o show que a gente fez no Rock in Rio. Vamos ver se a nossa vontade se junta ao interesse de gravadoras, dos detentores de imagem do Rock in Rio... Acho que a gente pode, quem sabe, no começo do ano, após o carnaval, ter uma novidade. Já pode ser um aperitivo. E o que você achou do show? Demais. O Sunset entrou em contato com a gente e falou: “olha, sugiram nomes”. Eles não chegaram com nada pronto, em termos de parceria, que é a marca do palco. A gente sugeriu o Tony Tornado e o Rappin' Hood pensado que eles escolheriam um, mas falaram “por que não os dois?”. Assim como o Tony é um pioneiro do black brasileiro, da soul music, o Rappin' também é um pioneiro do rap brasileiro. São dois representantes do que existe de melhor da música nacional. O ambiente dos ensaios foi incrível, cara. O Tony às vezes parecia que tava naquele programa Ensaio, da TV Cultura. Ele acabava de tocar uma música, sentava na cadeira e contava uma história. Porra, cara. Foi uma experiência de vida, uma emoção e uma responsabilidade pra gente. Sim ou não, o Rock in Rio é uma exposição muito grande, tem que fazer as coisas bem feitas. Não seria mais um disco ao vivo de uma banda com 30 anos de carreira, seria o registro de um momento que foi muito especial. E o Ira! tem algo inédito? Ah, sim. Só estou dizendo que a gente não está trabalhando isso agora. A nossa vida é fazer música. Mas tem os projetos paralelos. Esse foi um problema do Ira! no passado. Naquela época, saía o trabalho solo de alguém, mas tinha que se dedicar pra banda e a gravadora batia na porta e falava “cadê o disco?”. Isso causava uma tensão que era meio frustrante. Agora, como estamos bem, a gente não tem contrato com ninguém que nos cobre. Quando nós éramos da Sony, da Universal, produtor ligava: “Pô, vocês me devem um disco, é contrato”.  É normal, é assim que funciona. Mas, hoje, depois da volta, somos independentes. Nós podemos até assinar com uma gravadora, mas não ter essa pressão é bom para o momento. Não tem pressa, sabe? Não vai sair um disco por que tem que sair, mas porque é bom. Como você vê o rock no Brasil atualmente? Vocês surgiram numa época em que o gênero era mais popular. Olha, cara, sem falsa demagogia, isso não afeta muito o meu dia a dia, não. O Ira! é uma banda com uma agenda de shows bem concorrida, fruto de um patrimônio que a gente adquiriu. Agora, vou te falar um negócio, toda vez que você tem hegemonia de um movimento musical, não faz bem para ele, seja rock, seja axé, seja sertanejo... Vem muita porcaria, né? Na época em que o rock nacional era a música do poder, vamos falar a verdade: tinha seis, sete e o resto era uma porcaria. Fora que todo mundo era rock... Tem coisas muito importantes, mas, se você for ver, era 20%. Muito artista ruim no meio, muito Dr. Silvana [& Cia]. Tem uns que eu não vou falar porque eu não gosto de ficar criando... Deixa pro Lobão essas coisas [risos]. Mas não só no Brasil, acho que o mundo não vive um bom momento de rock. Mas tem. O Terno achei muito legal, Garotas Suecas, sou superfã, Cachorro Grande não é nenhuma novidade, mas é rock... Eu acho que seja cíclico, logo vem uma nova era, de Londres ou nos Estados Unidos... Você acredita que o país passa por um momento de intolerância? Eu vejo isso com muita tristeza. Em nome da religião, algumas pessoas têm feito coisas horríveis, né? Em nome de Jesus, em nome de Alá... matam pessoas, crianças. A gente nem gosta de falar de religião de orixá, a gente prefere filosofia de orixá. E a nossa filosofia é a da tolerância. Numa casa de orixá você entra católico e sai católico, ninguém vai pregar. Você pode entrar mulçumano e comer com a gente, dançar, cantar. É assim que a gente encara o mundo. O importante não é a religião, o importante é o ser humano. Deus, para mim, é o próximo, está no próximo: na pessoa do meu vizinho, nas pessoas que vão ao show, no cara da padaria que eu compro pão. Eu falo disso porque nesse disco essas coisas estão inerentes. [As pessoas] vêm com estereótipo de quem é de orixá e me perguntam: "Mas falar sobre essas coisas... você não pode perder público?" Cara, se tiver gente que quer ser meu público e tenha intolerância sobre as coisas que eu acredito, eu abro mão. Nunca precisei. Você é a favor da legalização da maconha? Sou a favor, sim. Não que eu ache que nós não vamos ter problemas com isso. Primeiro a descriminalização já deveria ser, né? O usuário tem que ser tratado como um doente, como eu já fui. Eu me tratei em 1997 contra a dependência química, por causa da cocaína. Depois voltei a usar maconha em 2001, parei em 2007 e, agora, tenho a certeza de que não retorno mais. Só cigarro e uma bebidinha, que, por sinal, tá bom porque às vezes eu dou um vexamezinhos [risos]. Agora, é aquela coisa, né? Tem que tirar um pouquinho o moralismo do assunto. A maconha fez parte de momentos bons da minha vida, mas também teve parte de momentos não tão bons: me tirou concentração, me tirou axé, a energia vital de acordar e fazer as coisas. Não acho que maconha seja tudo de bom. No caso de outras drogas, pior ainda, porque elas podem levar à morte. Eu acho que isso deveria ter uma discussão ampla na sociedade. Você não pode impedir uma pessoa de usar droga, mas a gente pode ajudar quem quer se tratar. Há um moralismo: lembro que, quando saí da clínica, as pessoas ficavam mais chocadas comigo do que quando eu usava. Ao mesmo tempo, as pessoas que usam drogas, como eu usei, também têm que saber que - e o filme do [José] Padilha [Tropa de Elite, 2007] fala muito bem - fazem parte de uma pirâmide, de um ecossistema que bota arma na mão de bandido. A gente precisa pensar nisso também. O passo é a descriminalização, sem dúvida. Não ser preso por ser usuário e, dependendo do caso, até ser conduzido a um tratamento. Depois, a legalização, pra ver se a gente consegue de alguma forma acertar o coração desse monstro, o mundo do tráfico, que não é só o bandido que está na favela, é o deputado sentado na assembleia, o policial que preside uma delegacia. Uma sociedade livre de hipocrisia e de moralismo tem que conversar de uma maneira adulta e eficaz. Falando nisso, muita gente poderosa está sendo presa nos últimos tempos. Como você vê isso? Está esperançoso? Para ter um pouquinho de humor, é falar "eu quero ver se vai sobrar alguém que não vai ser preso nesse país" [risos]. É o meu medo, daqui a pouco fecha o Congresso e não entra ninguém. O duro é você ver que não é mais só uma fatia de picaretas. Estamos estarrecidos, tristes, decepcionados, revoltados com tudo isso, mas faz parte de um novo momento, eu espero. Precisamos passar, ao meu ver, por uma reforma constitucional. Como assim? Não um plebiscito, acho que deveria haver uma constituinte popular. Tudo isso passa por uma reforma política, que ninguém faz. Todo governo promete que vai fazer. E, se ela for feita, é pelos políticos. Bom, mas aí é entregar o galinheiro para a raposa. Não podem ser os políticos a fazerem a reforma política, tem que ser a sociedade. Para isso, teríamos que ter um debate, o que eles chamam de constituinte, né? Setores da sociedade - estudantes, trabalhadores, movimentos sociais, políticos -  sentarem numa mesa e rever, por exemplo, a situação de 35 partidos. 35 partidos! Não pode, a única ideologia que permanece é a ideologia do fisiologismo. Você já chegou a opinar sobre o impeachment? Não, não cheguei porque eu não sei o que é pior: com Dilma ou sem Dilma. Não pela Dilma em si, eu tenho uma opinião sobre ela que não é positiva. Acho que de ninguém é, né? Acabou com a economia de Brasil e está pisando em ovos a todo instante. Agora, eu também não sei se a melhor solução é passar por um traumático impeachment, que vai gerar rachas na sociedade. E quem entraria no lugar? A raposa? Se a gente visse uma luz... Eu não vejo nesse Congresso, nem nas lideranças políticas. A gente vai ter que fazer uma grande reflexão para as próximas eleições. Votar melhor. Acreditar menos em marketing político. Não pode vender candidato como se vende biscoito. Porque as últimas eleições, especialmente a última, foi um estelionato eleitoral. E não é privilégio do governo Dilma, todos fazem isso. Eles têm dinheiro, contratam os melhores marqueteiros. De tanta maquiagem, fica difícil saber o que vem dentro do pacote. Você falou que turnê do disco é só no ano que vem. Vai ter show de lançamento? Olha, não tá marcado ainda, mas deve ser em São Paulo. O Ira! tem atividade de shows até mais ou menos a metade do mês de dezembro, depois temos um mês de férias. Aí volta, mas carnaval é no começo de fevereiro. Brasil vai voltar a funcionar na segunda quinzena, vamos dizer assim. Então, tô pensando por volta do início de março em São Paulo, mas não tenho nada marcado, não. Serviço: Ègbé - programa Faixa Musical Canal Brasil 14/11 - 18h