NOTÍCIAS

Novos projetos, rap nacional e favela. Mv Bill soltou o verbo para a Billboard

por em 13/05/2015

Na terça-feira, 12/05, a Billboard Brasil recebeu o rapper MV Bill em seu grupo aberto no Viber. Veja como foi o bate-papo:

O rap passa por uma mudança hoje em dia, com letras que falam menos de questões sociais e mais de consumo. O que você acha disso?
O crescimento do Rap no Brasil é notório. Hoje tem bandas e Mcs que falam de tudo, da festa até a ostentação, mas a veia política social continua forte e presente. Eu tenho músicas que falam de outros assuntos, mas o que caracteriza meu trabalho são as músicas mais sérias.

No seu caso é uma escolha mesmo, de falar sobre coisas mais sérias? Ou é porque a sociedade ainda precisa de músicas desse tipo?
As duas coisas. Eu gosto de tocar em assuntos que ainda são tabus e acho que esse tipo de música também precisa existir.

O pessoal estranha, te cobra, quando você aborda assuntos menos politizados?
Às vezes há uma cobrança, sim, por músicas mais politizadas. Eu aceito essa cobrança de forma bem tranquila, mas quando estou compondo tento não deixar interferir na composição.

Como a série de livros e a série de documentários Falcão mudaram sua carreira?
Mudaram de forma bem significativa, as pessoas passaram a compreender melhor aquilo que eu cantava nas letras. Sem dúvida, o documentário e os livros ajudaram a elucidar muita coisa.

Nessa época você conseguiu uma boa entrada na TV, sua imagem ficou mais forte e tal... Pensa em algum desdobramento disso? Mais um documentário, de repente?
Fiquei bastante conhecido sim, mas muito mais pela área social. Hoje minha música é bem mais conhecida, aliás, musicalmente é o momento que me sinto mais reconhecido, mesmo sem tocar em radio ou frequentar programas na TV aberta. Os desdobramentos de tudo isso são os cursos que a CUFA [Central Única das Favelas] oferece gratuitamente aos jovens das favelas, é a nossa contra partida.

Seu último livro, Falcão - Mulheres e o Tráfico, foi lançado em 2007. Você pensa em escrever mais?
Sim! Estou escrevendo um novo livro com meu parceiro dos trabalhos anteriores (Celso Athayde) e estou fazendo mais dois EP’s.

Pode adiantar sobre o que é o livro?
O título provisório é Os Invisíveis. Celso e eu iremos contar um pouco de nossa historia e do nosso encontro na vida.

Você tem investido agora nesse formato de EP. Como tem sido o retorno? Acha que as pessoas absorvem melhor menos músicas, nesse momento em que todo mundo ouve de tudo?
Estamos num momento em que as pessoas têm muita pressa, o formato EP permite que as pessoas possam dar uma atenção melhor às musicas. E isso não significa ter letras com pouco aprofundamento... só são menos músicas. E eu consegui fazer um lance inédito: eu não vendo os EPs físicos, eu distribuo nos shows. E dá super certo! Assim consigo fazer minha musica chegar às pessoas.

Você viveu a era pré e pós internet. Você sente que mudou muito para a divulgação do artista? O lance agora é mais a arrecadação com shows do que com o próprio CD físico?
CD não vende mais, quase não existe loja de disco mais. Aí a internet entra como uma grande plataforma de divulgação e aproximação entre artista e publico. O "jabá", que as gravadoras pagavam e pagam ainda nas rádios pop, já não são mais garantia de sucesso.

E o que é sucesso hoje? Dá pra medir?
Tem ainda as bandas que vivem de tocar em radio, mas tem muuuuuuitas outras que não tocam em rádio, não vão à TV, não passam na MTV, mas são conhecidas e respeitadas por uma legião de fãs.

O rapper geralmente tem uma imagem mais séria. O que você faz pra se divertir?
Gosto de malhar na praça, ir a praia, ficar conversando com meus amigos das antigas aqui na Cidade de Deus... Coisas simples, mas que, além de me divertir, servem de combustível para o meu trabalho.

Você é um cara ligado ao basquete, aparece em eventos da CUFA. Você joga também?
Eu tenho cara de jogador de basquete: tamanho, tatuagens, roupas, mas NÃO JOGO NADA!! hahahahaha Só sei jogar com quem não sabe.

Você falou dos amigos das antigas na Cidade De Deus e tal... Quando a situação fica tensa, você costuma relatar no Twitter. Você se sente um pouco mais protegido nesses momentos por ser o MV Bill ou não tem isso?
Ser o MV BILL me livra de algumas situações sim, mas quando a chapa tá quente por aqui eu não fico de bobeira na pista não. Mesmo com UPP, às vezes o bagulho fica doido. Aí não é  bom ficar na rua não. Mas quando tá tranquila, a Cidade de Deus parece um paraíso.

E como você avalia as UPPs [Unidade de Polícia Pacificadora] no Rio de Janeiro, 7 anos após a instalação da primeira unidade, em Dona Marta?
As UPPs sozinhas não vão resolver a grande quantidade de problemas que existem nas favelas cariocas. É preciso que os outros tentáculos governamentais também entrem na mesma proporção policial, senão estaremos fadados ao fracasso.

Muitos artistas, quando ganham dinheiro e fama, escolhem ir morar em bairros nobres, como na Zona Sul do Rio. Você pode falar um pouco sobre sua opção em continuar morando na Cidade de Deus?
Continuar na CDD é uma opção minha, mas não condeno nem critico quem ganha dinheiro e vai morar em outra lugar com melhor estrutura. Eu tenho dois apartamentos: um no miolo da CDD e outro na beirada, dá pra viver tranquilo aqui. E essa vivência também alimenta meu trabalho.

No fim de semana teve em SP o show do Bone Thugs 'n' Harmony, com abertura do KL Jay, e você estava lá. Parece que o show atrasou e começaram a vaiar o KL Jay. Vimos umas postagens suas sobre o fato. O que rolou lá, exatamente?
Atrasou o show, a plateia estava impaciente e faltou comunicação. E o público também foi com o KL Jay, que merece todo o respeito. Eu fui embora sem assistir ao show. Como eu já sabia que o Bone faz playback nos shows, acabei voltando para o hotel sem assistir, mas valeu estar na rua Augusta mais uma vez [risos].

Tem boas recordações da Augusta?
Me amarro nesse lugar! Bons hotéis, boa gastronomia e um agito noturno que acho ducaralho.

E agora, no próximo fim de semana, você toca no Rio junto com os Racionais. Vocês se conhecem faz tempo?
Eles vão lançar o novo álbum e me convidaram pra tocar antes, me sinto honrado com o convite. O primeiro show dos Racionais no RJ eu ajudei a organizar (1995 se não me engano), então já nos conhecemos há muito tempo.

Tem um movimento agora que fala em "profissionalização do rap" no Brasil. Basicamente é olhar o que rola lá fora, aprender e reproduzir aqui. Principalmente nos EUA, que é o meio mercado de rap e tal, acha isso válido?
Ser profissional é preciso, mas os americanos não precisam ser a referência.

Mal-entendidos como esse com o KL Jay podem ser evitados se o lance for mais profissional?
Profissionalismo e um papo no público pode ajudar a resolver uma situação dessas, senão uma carreira de 28 anos como a dele pode ser jogada por água abaixo. Tem que ter respeito mútuo.

O que você destaca da nova cena do rap nacional?
Tem vários novos nomes bons. Como eu faço um programa de rádio diário e vou começar um programa de TV só passando clipes de rap nacional, eu acabo conhecendo muita coisa, mas nem tudo é bom. Gosto do Rapadura, que é do Ceará, Rafuagi, de Rio Grande do Sul, e Antiéticos, aqui do Rio de Janeiro, só pra destacar alguns bons nomes.

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Novos projetos, rap nacional e favela. Mv Bill soltou o verbo para a Billboard

por em 13/05/2015

Na terça-feira, 12/05, a Billboard Brasil recebeu o rapper MV Bill em seu grupo aberto no Viber. Veja como foi o bate-papo:

O rap passa por uma mudança hoje em dia, com letras que falam menos de questões sociais e mais de consumo. O que você acha disso?
O crescimento do Rap no Brasil é notório. Hoje tem bandas e Mcs que falam de tudo, da festa até a ostentação, mas a veia política social continua forte e presente. Eu tenho músicas que falam de outros assuntos, mas o que caracteriza meu trabalho são as músicas mais sérias.

No seu caso é uma escolha mesmo, de falar sobre coisas mais sérias? Ou é porque a sociedade ainda precisa de músicas desse tipo?
As duas coisas. Eu gosto de tocar em assuntos que ainda são tabus e acho que esse tipo de música também precisa existir.

O pessoal estranha, te cobra, quando você aborda assuntos menos politizados?
Às vezes há uma cobrança, sim, por músicas mais politizadas. Eu aceito essa cobrança de forma bem tranquila, mas quando estou compondo tento não deixar interferir na composição.

Como a série de livros e a série de documentários Falcão mudaram sua carreira?
Mudaram de forma bem significativa, as pessoas passaram a compreender melhor aquilo que eu cantava nas letras. Sem dúvida, o documentário e os livros ajudaram a elucidar muita coisa.

Nessa época você conseguiu uma boa entrada na TV, sua imagem ficou mais forte e tal... Pensa em algum desdobramento disso? Mais um documentário, de repente?
Fiquei bastante conhecido sim, mas muito mais pela área social. Hoje minha música é bem mais conhecida, aliás, musicalmente é o momento que me sinto mais reconhecido, mesmo sem tocar em radio ou frequentar programas na TV aberta. Os desdobramentos de tudo isso são os cursos que a CUFA [Central Única das Favelas] oferece gratuitamente aos jovens das favelas, é a nossa contra partida.

Seu último livro, Falcão - Mulheres e o Tráfico, foi lançado em 2007. Você pensa em escrever mais?
Sim! Estou escrevendo um novo livro com meu parceiro dos trabalhos anteriores (Celso Athayde) e estou fazendo mais dois EP’s.

Pode adiantar sobre o que é o livro?
O título provisório é Os Invisíveis. Celso e eu iremos contar um pouco de nossa historia e do nosso encontro na vida.

Você tem investido agora nesse formato de EP. Como tem sido o retorno? Acha que as pessoas absorvem melhor menos músicas, nesse momento em que todo mundo ouve de tudo?
Estamos num momento em que as pessoas têm muita pressa, o formato EP permite que as pessoas possam dar uma atenção melhor às musicas. E isso não significa ter letras com pouco aprofundamento... só são menos músicas. E eu consegui fazer um lance inédito: eu não vendo os EPs físicos, eu distribuo nos shows. E dá super certo! Assim consigo fazer minha musica chegar às pessoas.

Você viveu a era pré e pós internet. Você sente que mudou muito para a divulgação do artista? O lance agora é mais a arrecadação com shows do que com o próprio CD físico?
CD não vende mais, quase não existe loja de disco mais. Aí a internet entra como uma grande plataforma de divulgação e aproximação entre artista e publico. O "jabá", que as gravadoras pagavam e pagam ainda nas rádios pop, já não são mais garantia de sucesso.

E o que é sucesso hoje? Dá pra medir?
Tem ainda as bandas que vivem de tocar em radio, mas tem muuuuuuitas outras que não tocam em rádio, não vão à TV, não passam na MTV, mas são conhecidas e respeitadas por uma legião de fãs.

O rapper geralmente tem uma imagem mais séria. O que você faz pra se divertir?
Gosto de malhar na praça, ir a praia, ficar conversando com meus amigos das antigas aqui na Cidade de Deus... Coisas simples, mas que, além de me divertir, servem de combustível para o meu trabalho.

Você é um cara ligado ao basquete, aparece em eventos da CUFA. Você joga também?
Eu tenho cara de jogador de basquete: tamanho, tatuagens, roupas, mas NÃO JOGO NADA!! hahahahaha Só sei jogar com quem não sabe.

Você falou dos amigos das antigas na Cidade De Deus e tal... Quando a situação fica tensa, você costuma relatar no Twitter. Você se sente um pouco mais protegido nesses momentos por ser o MV Bill ou não tem isso?
Ser o MV BILL me livra de algumas situações sim, mas quando a chapa tá quente por aqui eu não fico de bobeira na pista não. Mesmo com UPP, às vezes o bagulho fica doido. Aí não é  bom ficar na rua não. Mas quando tá tranquila, a Cidade de Deus parece um paraíso.

E como você avalia as UPPs [Unidade de Polícia Pacificadora] no Rio de Janeiro, 7 anos após a instalação da primeira unidade, em Dona Marta?
As UPPs sozinhas não vão resolver a grande quantidade de problemas que existem nas favelas cariocas. É preciso que os outros tentáculos governamentais também entrem na mesma proporção policial, senão estaremos fadados ao fracasso.

Muitos artistas, quando ganham dinheiro e fama, escolhem ir morar em bairros nobres, como na Zona Sul do Rio. Você pode falar um pouco sobre sua opção em continuar morando na Cidade de Deus?
Continuar na CDD é uma opção minha, mas não condeno nem critico quem ganha dinheiro e vai morar em outra lugar com melhor estrutura. Eu tenho dois apartamentos: um no miolo da CDD e outro na beirada, dá pra viver tranquilo aqui. E essa vivência também alimenta meu trabalho.

No fim de semana teve em SP o show do Bone Thugs 'n' Harmony, com abertura do KL Jay, e você estava lá. Parece que o show atrasou e começaram a vaiar o KL Jay. Vimos umas postagens suas sobre o fato. O que rolou lá, exatamente?
Atrasou o show, a plateia estava impaciente e faltou comunicação. E o público também foi com o KL Jay, que merece todo o respeito. Eu fui embora sem assistir ao show. Como eu já sabia que o Bone faz playback nos shows, acabei voltando para o hotel sem assistir, mas valeu estar na rua Augusta mais uma vez [risos].

Tem boas recordações da Augusta?
Me amarro nesse lugar! Bons hotéis, boa gastronomia e um agito noturno que acho ducaralho.

E agora, no próximo fim de semana, você toca no Rio junto com os Racionais. Vocês se conhecem faz tempo?
Eles vão lançar o novo álbum e me convidaram pra tocar antes, me sinto honrado com o convite. O primeiro show dos Racionais no RJ eu ajudei a organizar (1995 se não me engano), então já nos conhecemos há muito tempo.

Tem um movimento agora que fala em "profissionalização do rap" no Brasil. Basicamente é olhar o que rola lá fora, aprender e reproduzir aqui. Principalmente nos EUA, que é o meio mercado de rap e tal, acha isso válido?
Ser profissional é preciso, mas os americanos não precisam ser a referência.

Mal-entendidos como esse com o KL Jay podem ser evitados se o lance for mais profissional?
Profissionalismo e um papo no público pode ajudar a resolver uma situação dessas, senão uma carreira de 28 anos como a dele pode ser jogada por água abaixo. Tem que ter respeito mútuo.

O que você destaca da nova cena do rap nacional?
Tem vários novos nomes bons. Como eu faço um programa de rádio diário e vou começar um programa de TV só passando clipes de rap nacional, eu acabo conhecendo muita coisa, mas nem tudo é bom. Gosto do Rapadura, que é do Ceará, Rafuagi, de Rio Grande do Sul, e Antiéticos, aqui do Rio de Janeiro, só pra destacar alguns bons nomes.