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“O brasileiro precisa parar de se diminuir”, diz Angel B

Cantora brasileira enfrenta os obstáculos de início da carreira em Los Angeles, Estados Unidos

por Rebecca Silva em 12/07/2017

Há seis anos, Angel B embarcou para os Estados Unidos com um contrato assinado com uma empresa de agenciamento de artistas, pronta para dar o pontapé definitivo na sua carreira de cantora em Los Angeles. Mas o sonho não viria tão fácil assim. A empresa a deixou na mão, com apenas US$ 1.000 e ela precisou tomar uma decisão: voltar para o Brasil, para a família e para a carreira já consolidada como dançarina e coreógrafa profissional ou arriscar tudo e começar do zero em Los Angeles, sem contatos, sem amigos e sem nenhuma garantia?

Hoje, já com green card, Angel divide seu tempo entre turnês de grandes artistas em que trabalha como dançarina, como o rapper Snoop Dogg, e suas sessões em estúdio, trabalhando em seus singles. No ano passado, lançou seu primeiro EP com três singles: “Don`t Touch It”, que ganhou versão em português com Lorena Simpson, “FOH F#*! Outta Here” e “Should’ve Known”.

Durante passagem pelo país, a cantora visitou a redação da Billboard Brasil para falar um pouco sobre os desafios da profissão e desabafou sobre a desconfiança do público e as críticas sofridas por quem decide seguir carreira fora do país.

Você se mudou para os Estados Unidos já pensando em seguir carreira ou foi algo que aconteceu durante o percurso?

Eu já cantava, já fazia minhas coisas no Brasil. Quando eu fui para Los Angeles, tinha um contrato com uma empresa de produtores que ia cuidar da minha carreira. Como não é só no Brasil que tem gente picareta e mentirosa, quando eu cheguei lá em LA, tive reuniões, mas eles disseram que era muito caro. Eu já tinha visto de trabalho porque trabalhei e coreografei o filme Entre Nesta Dança [You Got Served Beat The World, no original], já fazia minhas coisas por mim. Mas quando essa empresa me convidou, fiquei animada porque iria poder focar só na música. Fiquei muito decepcionada, mas resolvi tentar ficar lá e arriscar. Minha mãe me chamou de louca [risos], mas quis ficar para ver o que ia dar. Eu tinha mil dólares comigo. Tive que começar do zero. Já tinha uma carreira no Brasil, mas me arrisquei. Hoje tenho minha casa, meu carro. Foi Deus que abriu as portas, conheci as pessoas certas, os projetos foram aparecendo. 

Como foi esse começo da carreira no Brasil?

Eu comecei cantando, sempre foi meu primeiro sonho. Comecei a escrever músicas com uns 10, 11 anos. Fazia versões de músicas em inglês para o português. Tive um grupo com amigas do condomínio e a primeira música que ensaiamos foi escrita por mim, com uma base das Spice Girls. Acabou não rolando muito, mas eu sempre queria estudar, aprender, organizava festa para arrecadar dinheiro e pagar aula de canto, teclado. Sempre dancei, mas nunca pensei numa carreira de dançarina. Fiz parte de outros projetos musicais. Com a dança, me profissionalizei, entrei em um grupo de dança. Comecei a coreografar e trabalhei com a Negra Li, Cabal, Wanessa Camargo, fiz um projeto com a Ivete Sangalo também. Foi assim que rolou o convite para o filme porque eu coreografava artistas famosos, viajava o Brasil dando aula e eles me acharam no YouTube.

Quando você saiu do Brasil, há seis anos, o pop não era forte como é hoje. Você fez o caminho contrário: foi lá para fora antes de conseguir o sucesso na música no próprio país. Como vê o cenário hoje?

Agora o pop explodiu, né? Tinham alguns artistas já, com os produtores com que eu trabalhava antes de ir para lá, mas não dava em nada, as pessoas não tinham oportunidade para seguir nesse estilo. Sempre teve público, mas as gravadoras não queriam arriscar. Eu sempre falava que os artistas de fora vinham pra cá e os shows lotavam, mas o pessoal daqui não abria a cabeça para o pop brasileiro. Era frustrante. Rolou lá fora, eu fui para aprender. O estilo vem de lá, as técnicas, os produtores são de lá.

Você chegou a trabalhar com a Wanessa Camargo na época que ela teve uma fase mais pop, quando cantava em inglês. O pop que bomba hoje veio, em grande parte, dos artistas que cantavam funk...

A Anitta abriu as portas, mas veio do funk, que é um estilo brasileiro. Acho que por isso as gravadoras deram espaço, não veio querendo fazer o pop logo de cara, foi mudando aos poucos. Mas que bom que isso aconteceu. Agora tem vários artistas super legais fazendo esse trabalho, abrindo as portas para outros também. Eu fiz o mais difícil porque lá fora a concorrência é muito maior, tem gente de todos os lugares atrás do mesmo sonho com muita competência, a qualidade é outra. Aqui, se você se destacar e conseguir alguém que acredite e invista em você, dá certo. Tem muita gente que desiste do sonho. Tem que ter paciência. O Rodrigo Santoro, por exemplo, agora está bombando em Hollywood. Mas há quanto tempo ele não está lá fora tentando?

E as pessoas ficaram com pé atrás no começo, né?

Sim, criticaram. Eu não entendo. As pessoas consomem toda a cultura americana e quando alguém vai lá para fora, é criticada. Por quê? A gente não pode concorrer? Tem muitas pessoas talentosas no Brasil, não só na música, e por que não podemos nos igualar? O brasileiro precisa parar de se diminuir ou criticar aqueles que tentam ir para lá.

Depois que seu contrato em Los Angeles deu errado, o que você fez para conseguir se manter e ir atrás do seu sonho na música?

Como eu já dançava, tinha alguns contatos na dança. Eu só tinha mil dólares e meus pais disseram que se eu decidisse ficar por lá, eles não poderiam me ajudar. Falei com alguns estúdios de dança, tive oportunidades por causa do meu currículo. Daí, comecei a fazer os contatos na música: conheci produtores, ia para estúdios gravar faixas. A música não dá retorno de um dia para o outro, ainda mais se você não é conhecido ou se não vai escrever para alguém conhecido. A dança que me segurou. Assinei com uma agência de dança, lá você precisa ter uma representação para pegar trabalhos bons. Dancei para Becky G, Kanye West, que eu vim para o SWU aqui no Brasil, Cee Lo Green, Pharrell Williams.

Seu foco era lançar suas músicas para o público brasileiro?

Meu single "Don't Touch It" eu fiz versão em inglês e português, focada aqui porque estava abrindo o mercado. As pessoas não estão acostumadas a me ver cantando em português porque meus outros dois singles foram lançados só em inglês. Tenho outras letras escritas em português que quero gravar, acho que gera uma identificação. Em inglês, consigo atingir mais gente.

A sonoridade mais latina está na moda agora e muitos artistas do pop e também do hip hop estão fazendo parcerias e trazendo toques latinos para seus singles. Como é para você, como brasileira, ver esse sucesso lá fora?

Eu adoro músicas latinas, mas gosto mais do dancehall jamaicano. Até fiz uma nova música que tem uma pegada de dancehall, em parceria com um artista jamaicano que entrou em contato comigo. Pegamos um produtor da Jamaica, cada um escreveu sua parte. Será meu próximo single.

Pretende trazer um pouquinho do Brasil para as suas músicas e suas coreografias?

Sim. No meu single “FOH F#*! Outta Here”, tem berimbau. Eu quis trazer algo de diferente e incorporar no beat, acrescentar nossas raízes de uma forma que combinasse na música. Normalmente, quando tem algo novo, dão uma pausa na música para dar destaque nisso. Eu quis fazer tudo junto. Tenho várias outras ideias.

Recentemente, você esteve na turnê do Snoop Dogg. Conta um pouquinho sobre essa experiência.

É super tranquilo trabalhar com o Snoop, ele é sossegado. Maconha o dia inteiro [risos]. Não só ele, todo mundo da banda. Eu nem fumo, mas sinto o cheiro de tabela [risos]. É bem legal porque os músicos dele trabalham com outros artistas grandes. É um aprendizado, me conecto com essas pessoas, mostro meu trabalho. Ele não para, emenda uma turnê na outra.

Tem alguma história com algum famoso que te marcou?

Nunca esqueço de quando trabalhei com o Ne-Yo. Ele fez parceria com uma cantora do Oriente Médio e participei da gravação do clipe. Eles estavam gravando a cena deles e eu estava pronta, esperando minha vez, olhando meu celular. Eu adoro o Ne-Yo, fiquei olhando eles lá e pensei "a gente trabalha com quem admira e nem tem oportunidade de conversar". Estava com a cabeça baixa, olhando para o celular e alguém se aproximou. Era ele. Se apresentou e começou a puxar assunto comigo. Eu achei muito humilde. Tinham outras dançarinas lá, mas eu acredito que pensei e atraí isso.

Do que você mais sente falta do Brasil, tirando família e amigos?

Da coxinha e do pastel [risos]. Tem um lugar em Los Angeles que vende, mas não é tão boa, então eu tive que aprender a fazer! Meus amigos brasileiros aprovaram [risos].

Veja "Don't Touch It":

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
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“O brasileiro precisa parar de se diminuir”, diz Angel B

Cantora brasileira enfrenta os obstáculos de início da carreira em Los Angeles, Estados Unidos

por Rebecca Silva em 12/07/2017

Há seis anos, Angel B embarcou para os Estados Unidos com um contrato assinado com uma empresa de agenciamento de artistas, pronta para dar o pontapé definitivo na sua carreira de cantora em Los Angeles. Mas o sonho não viria tão fácil assim. A empresa a deixou na mão, com apenas US$ 1.000 e ela precisou tomar uma decisão: voltar para o Brasil, para a família e para a carreira já consolidada como dançarina e coreógrafa profissional ou arriscar tudo e começar do zero em Los Angeles, sem contatos, sem amigos e sem nenhuma garantia?

Hoje, já com green card, Angel divide seu tempo entre turnês de grandes artistas em que trabalha como dançarina, como o rapper Snoop Dogg, e suas sessões em estúdio, trabalhando em seus singles. No ano passado, lançou seu primeiro EP com três singles: “Don`t Touch It”, que ganhou versão em português com Lorena Simpson, “FOH F#*! Outta Here” e “Should’ve Known”.

Durante passagem pelo país, a cantora visitou a redação da Billboard Brasil para falar um pouco sobre os desafios da profissão e desabafou sobre a desconfiança do público e as críticas sofridas por quem decide seguir carreira fora do país.

Você se mudou para os Estados Unidos já pensando em seguir carreira ou foi algo que aconteceu durante o percurso?

Eu já cantava, já fazia minhas coisas no Brasil. Quando eu fui para Los Angeles, tinha um contrato com uma empresa de produtores que ia cuidar da minha carreira. Como não é só no Brasil que tem gente picareta e mentirosa, quando eu cheguei lá em LA, tive reuniões, mas eles disseram que era muito caro. Eu já tinha visto de trabalho porque trabalhei e coreografei o filme Entre Nesta Dança [You Got Served Beat The World, no original], já fazia minhas coisas por mim. Mas quando essa empresa me convidou, fiquei animada porque iria poder focar só na música. Fiquei muito decepcionada, mas resolvi tentar ficar lá e arriscar. Minha mãe me chamou de louca [risos], mas quis ficar para ver o que ia dar. Eu tinha mil dólares comigo. Tive que começar do zero. Já tinha uma carreira no Brasil, mas me arrisquei. Hoje tenho minha casa, meu carro. Foi Deus que abriu as portas, conheci as pessoas certas, os projetos foram aparecendo. 

Como foi esse começo da carreira no Brasil?

Eu comecei cantando, sempre foi meu primeiro sonho. Comecei a escrever músicas com uns 10, 11 anos. Fazia versões de músicas em inglês para o português. Tive um grupo com amigas do condomínio e a primeira música que ensaiamos foi escrita por mim, com uma base das Spice Girls. Acabou não rolando muito, mas eu sempre queria estudar, aprender, organizava festa para arrecadar dinheiro e pagar aula de canto, teclado. Sempre dancei, mas nunca pensei numa carreira de dançarina. Fiz parte de outros projetos musicais. Com a dança, me profissionalizei, entrei em um grupo de dança. Comecei a coreografar e trabalhei com a Negra Li, Cabal, Wanessa Camargo, fiz um projeto com a Ivete Sangalo também. Foi assim que rolou o convite para o filme porque eu coreografava artistas famosos, viajava o Brasil dando aula e eles me acharam no YouTube.

Quando você saiu do Brasil, há seis anos, o pop não era forte como é hoje. Você fez o caminho contrário: foi lá para fora antes de conseguir o sucesso na música no próprio país. Como vê o cenário hoje?

Agora o pop explodiu, né? Tinham alguns artistas já, com os produtores com que eu trabalhava antes de ir para lá, mas não dava em nada, as pessoas não tinham oportunidade para seguir nesse estilo. Sempre teve público, mas as gravadoras não queriam arriscar. Eu sempre falava que os artistas de fora vinham pra cá e os shows lotavam, mas o pessoal daqui não abria a cabeça para o pop brasileiro. Era frustrante. Rolou lá fora, eu fui para aprender. O estilo vem de lá, as técnicas, os produtores são de lá.

Você chegou a trabalhar com a Wanessa Camargo na época que ela teve uma fase mais pop, quando cantava em inglês. O pop que bomba hoje veio, em grande parte, dos artistas que cantavam funk...

A Anitta abriu as portas, mas veio do funk, que é um estilo brasileiro. Acho que por isso as gravadoras deram espaço, não veio querendo fazer o pop logo de cara, foi mudando aos poucos. Mas que bom que isso aconteceu. Agora tem vários artistas super legais fazendo esse trabalho, abrindo as portas para outros também. Eu fiz o mais difícil porque lá fora a concorrência é muito maior, tem gente de todos os lugares atrás do mesmo sonho com muita competência, a qualidade é outra. Aqui, se você se destacar e conseguir alguém que acredite e invista em você, dá certo. Tem muita gente que desiste do sonho. Tem que ter paciência. O Rodrigo Santoro, por exemplo, agora está bombando em Hollywood. Mas há quanto tempo ele não está lá fora tentando?

E as pessoas ficaram com pé atrás no começo, né?

Sim, criticaram. Eu não entendo. As pessoas consomem toda a cultura americana e quando alguém vai lá para fora, é criticada. Por quê? A gente não pode concorrer? Tem muitas pessoas talentosas no Brasil, não só na música, e por que não podemos nos igualar? O brasileiro precisa parar de se diminuir ou criticar aqueles que tentam ir para lá.

Depois que seu contrato em Los Angeles deu errado, o que você fez para conseguir se manter e ir atrás do seu sonho na música?

Como eu já dançava, tinha alguns contatos na dança. Eu só tinha mil dólares e meus pais disseram que se eu decidisse ficar por lá, eles não poderiam me ajudar. Falei com alguns estúdios de dança, tive oportunidades por causa do meu currículo. Daí, comecei a fazer os contatos na música: conheci produtores, ia para estúdios gravar faixas. A música não dá retorno de um dia para o outro, ainda mais se você não é conhecido ou se não vai escrever para alguém conhecido. A dança que me segurou. Assinei com uma agência de dança, lá você precisa ter uma representação para pegar trabalhos bons. Dancei para Becky G, Kanye West, que eu vim para o SWU aqui no Brasil, Cee Lo Green, Pharrell Williams.

Seu foco era lançar suas músicas para o público brasileiro?

Meu single "Don't Touch It" eu fiz versão em inglês e português, focada aqui porque estava abrindo o mercado. As pessoas não estão acostumadas a me ver cantando em português porque meus outros dois singles foram lançados só em inglês. Tenho outras letras escritas em português que quero gravar, acho que gera uma identificação. Em inglês, consigo atingir mais gente.

A sonoridade mais latina está na moda agora e muitos artistas do pop e também do hip hop estão fazendo parcerias e trazendo toques latinos para seus singles. Como é para você, como brasileira, ver esse sucesso lá fora?

Eu adoro músicas latinas, mas gosto mais do dancehall jamaicano. Até fiz uma nova música que tem uma pegada de dancehall, em parceria com um artista jamaicano que entrou em contato comigo. Pegamos um produtor da Jamaica, cada um escreveu sua parte. Será meu próximo single.

Pretende trazer um pouquinho do Brasil para as suas músicas e suas coreografias?

Sim. No meu single “FOH F#*! Outta Here”, tem berimbau. Eu quis trazer algo de diferente e incorporar no beat, acrescentar nossas raízes de uma forma que combinasse na música. Normalmente, quando tem algo novo, dão uma pausa na música para dar destaque nisso. Eu quis fazer tudo junto. Tenho várias outras ideias.

Recentemente, você esteve na turnê do Snoop Dogg. Conta um pouquinho sobre essa experiência.

É super tranquilo trabalhar com o Snoop, ele é sossegado. Maconha o dia inteiro [risos]. Não só ele, todo mundo da banda. Eu nem fumo, mas sinto o cheiro de tabela [risos]. É bem legal porque os músicos dele trabalham com outros artistas grandes. É um aprendizado, me conecto com essas pessoas, mostro meu trabalho. Ele não para, emenda uma turnê na outra.

Tem alguma história com algum famoso que te marcou?

Nunca esqueço de quando trabalhei com o Ne-Yo. Ele fez parceria com uma cantora do Oriente Médio e participei da gravação do clipe. Eles estavam gravando a cena deles e eu estava pronta, esperando minha vez, olhando meu celular. Eu adoro o Ne-Yo, fiquei olhando eles lá e pensei "a gente trabalha com quem admira e nem tem oportunidade de conversar". Estava com a cabeça baixa, olhando para o celular e alguém se aproximou. Era ele. Se apresentou e começou a puxar assunto comigo. Eu achei muito humilde. Tinham outras dançarinas lá, mas eu acredito que pensei e atraí isso.

Do que você mais sente falta do Brasil, tirando família e amigos?

Da coxinha e do pastel [risos]. Tem um lugar em Los Angeles que vende, mas não é tão boa, então eu tive que aprender a fazer! Meus amigos brasileiros aprovaram [risos].

Veja "Don't Touch It":