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O pop não elege ninguém

Candidatos apoiados por artistas populares perderam suas últimas eleições. O que isso quer dizer?

por Marcos Lauro em 09/11/2016

Pra quem não lembra, aqui no Brasil existia uma ação de marketing (só pra usar um termo atual e descolado) chamada showmício, que funcionava assim: o candidato contratava shows de artistas muito populares e dividia o palco com essas atrações. Vez ou outra pegava o microfone para falar (pouco) sobre seus planos para o governo e (muito) sobre a alegria de estar ali com todos aqueles artistas, apoiadores, correligionários e, claro, eleitores. Artistas também rasgavam elogios para o políticos - afinal, seus cachês estavam servindo pra isso. A prática foi proibida na reforma eleitoral de 2006.

Os marqueteiros acreditavam que colar a imagem de um político a um artista popular atraía votos. Movidos pela paixão, os fãs não contestariam seu ídolos na hora do voto. "Se meu cantor favorito disse que esse candidato é bom, votarei nele", era o pensamento corrente. Pois bem. Uma década depois, chegamos à conclusão de que, se um dia isso funcionou, o efeito passou.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Gregorio Duvivier e Wagner Moura, só pra citar alguns dos nomes mais populares, apoiaram o candidato Marcelo Freixo na última eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Não deu. Marcelo Crivella, sem o apoio da classe artística tida como relevante (por quem?), levou.

Em São Paulo, aconteceu o mesmo. Praticamente as mesmas figuras do Rio, adicionadas a Emicida, Criolo e vários outros, declararam apoio a Fernando Haddad. Não deu também, e com requintes de crueldade: uma derrota ainda no primeiro turno para o empresário/não-político João Doria Jr.

Na madrugada dessa quarta-feira (09/11), outro empresário/não-político, Donald Trump, levou a eleição dos Estados Unidos. Sua concorrente, Hillary Clinton, teve a seu lado Lady Gaga, Madonna, Demi Lovato, Katy Perry e Beyoncé, entre outros. Ou seja, o pop em peso. Além de representantes do rap, como Chance The Rapper e Snoopy Dogg, e do rock, como Bruce Springsteen. Não adiantou. Os Estados Unidos, naquele sistema eleitoral que ninguém entende, não elegeu o pop.

REPUBLICANOS X DEMOCRATAS: A MÚSICA NAS ELEIÇÕES DOS EUA EM 2016

É claro que não é culpa do pop. O momento histórico é favorável a uma onda conservadora e isso deve se arrastar por uns anos. Mas esses exemplos serviram para mostrar que, na hora da decisão, a classe artística não tem mais influência. As pessoas têm seus anseios e isso é maior do que a mensagem que uma Lady Gaga da vida quer transmitir - mesmo que não haja muita coerência nisso.

Talvez essa tendência tenha algo de bom, mesmo que agora não possamos enxergar. Afinal, votar em alguém só porque a Katy Perry mandou, sem questionar, também tem seus efeitos negativos. Na democracia, as pessoas pensam, questionam e, inclusive, aceitam derrotas.

Então, Beyoncé, a verdade é uma só: pouca gente quer saber o que você pensa sobre política. É duro, pode doer, mas é isso.

Quando sai o próximo disco?

 
 
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Candidatos apoiados por artistas populares perderam suas últimas eleições. O que isso quer dizer?

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Pra quem não lembra, aqui no Brasil existia uma ação de marketing (só pra usar um termo atual e descolado) chamada showmício, que funcionava assim: o candidato contratava shows de artistas muito populares e dividia o palco com essas atrações. Vez ou outra pegava o microfone para falar (pouco) sobre seus planos para o governo e (muito) sobre a alegria de estar ali com todos aqueles artistas, apoiadores, correligionários e, claro, eleitores. Artistas também rasgavam elogios para o políticos - afinal, seus cachês estavam servindo pra isso. A prática foi proibida na reforma eleitoral de 2006.

Os marqueteiros acreditavam que colar a imagem de um político a um artista popular atraía votos. Movidos pela paixão, os fãs não contestariam seu ídolos na hora do voto. "Se meu cantor favorito disse que esse candidato é bom, votarei nele", era o pensamento corrente. Pois bem. Uma década depois, chegamos à conclusão de que, se um dia isso funcionou, o efeito passou.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Gregorio Duvivier e Wagner Moura, só pra citar alguns dos nomes mais populares, apoiaram o candidato Marcelo Freixo na última eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Não deu. Marcelo Crivella, sem o apoio da classe artística tida como relevante (por quem?), levou.

Em São Paulo, aconteceu o mesmo. Praticamente as mesmas figuras do Rio, adicionadas a Emicida, Criolo e vários outros, declararam apoio a Fernando Haddad. Não deu também, e com requintes de crueldade: uma derrota ainda no primeiro turno para o empresário/não-político João Doria Jr.

Na madrugada dessa quarta-feira (09/11), outro empresário/não-político, Donald Trump, levou a eleição dos Estados Unidos. Sua concorrente, Hillary Clinton, teve a seu lado Lady Gaga, Madonna, Demi Lovato, Katy Perry e Beyoncé, entre outros. Ou seja, o pop em peso. Além de representantes do rap, como Chance The Rapper e Snoopy Dogg, e do rock, como Bruce Springsteen. Não adiantou. Os Estados Unidos, naquele sistema eleitoral que ninguém entende, não elegeu o pop.

REPUBLICANOS X DEMOCRATAS: A MÚSICA NAS ELEIÇÕES DOS EUA EM 2016

É claro que não é culpa do pop. O momento histórico é favorável a uma onda conservadora e isso deve se arrastar por uns anos. Mas esses exemplos serviram para mostrar que, na hora da decisão, a classe artística não tem mais influência. As pessoas têm seus anseios e isso é maior do que a mensagem que uma Lady Gaga da vida quer transmitir - mesmo que não haja muita coerência nisso.

Talvez essa tendência tenha algo de bom, mesmo que agora não possamos enxergar. Afinal, votar em alguém só porque a Katy Perry mandou, sem questionar, também tem seus efeitos negativos. Na democracia, as pessoas pensam, questionam e, inclusive, aceitam derrotas.

Então, Beyoncé, a verdade é uma só: pouca gente quer saber o que você pensa sobre política. É duro, pode doer, mas é isso.

Quando sai o próximo disco?