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O rap e a eterna briga para ficar de vez sob os holofotes

por Marcos Lauro em 21/07/2015

“O rap de hoje é como um pedaço de goma. A pessoa mastiga até que todo o sabor vá embora e não sobre nenhum valor nutritivo. É apenas diversão para a boca. E então você está pronto para a próxima goma. É o consumo em massa de nada”. Quem disse isso foi um dos caras mais respeitados da história do rap, Chali 2na, um dos fundadores do igualmente respeitado grupo Jurassic 5, na luta desde 1993.

A entrevista foi para o site jamfeed, publicada no último dia 15 de julho. Essa fala bate de frente com as últimas notícias. O Spotify disse que o rap é o gênero mais ouvido no mundo. Por 16 semanas consecutivas, um rap ocupou a primeira posição do Hot 100 (“See You Again”, com Whiz Khalifa e Charlie Puth). Outros três artistas estão hoje no top 10. Sem contar Kendrick Lamar, convidado por Taylor Swift, a mulher mais influente do pop de hoje, para participar do hit “Bad Blood”.

Como pode o rap estar tão presente assim nas paradas e ao mesmo tempo receber críticas tão pesadas de gente respeitada como Chali 2na. Sim, pode. Essa é a eterna luta entre a popularização e a relevância. Quando se aumenta o número de opções dentro de um gênero musical, é comum aparecerem músicas e artistas que conseguem bons números, alcançam a massa, mas que não apresentam tanta profundidade no som. A produção se torna algo mecânico, quase matemático, e passa a obedecer fórmulas. Se chega ao ponto de confundir artistas e não conseguir diferenciar mais quem é quem de tão uniforme que fica o som.

Aqui no Brasil vivemos um momento parecido, apesar do gênero mal aparecer em nosso Brasil Hot 100. Artistas consagrados acabam sendo criticados por fãs mais “xiitas” por abrirem mais o leque e tentarem falar com outros públicos. Os Racionais MC's atraíram críticas com Cores e Valores, seu mais recente disco. Até a duração do disco (32 minutos) foi alvo de comentários negativos. Edi Rock, um dos integrantes do grupo, também foi alvo quando participou do programa Caldeirão do Huck. Alguns artistas mais jovens, como Projota, também não conseguem a simpatia desse público mais conservador do rap.

Tanto aqui no Brasil quanto fora, é um momento decisivo para o estilo. O público conservador sempre vai reclamar e a massa sempre vai querer ser mais abastecida desse tipo de som. Enquanto uma parcela dos artistas, seja por falta de habilidade comercial ou por desejo, vai continuar dialogando com o público exclusivamente do rap, outra parcela vai ter que carregar o gênero para a galera, o grande público, e segurar o rap no topo das paradas. E isso, para alguns (como o Chali 2na, lá em cima), pode ser considerado como um racha no rap. Cabe a cada artista decidir em qual lado ele quer ficar. E decidir se quer dar bola para a torcida ou não.

Como disse Erasmo Carlos para a Billboard Brasil quando perguntado sobre a Jovem Guarda, movimento cultural brasileiro que já tem 50 anos: "O próprio público escraviza, ele não deixa você evoluir, não quer. Ele quer você um jovem fake". E esse é o desafio: não se deixar escravizar por uma minoria que prega o conservadorismo e que não deixa o som evoluir. A bola está com o rap.

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Saudade
Eduardo Costa
3
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
RANKING COMPLETO
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O rap e a eterna briga para ficar de vez sob os holofotes

por Marcos Lauro em 21/07/2015

“O rap de hoje é como um pedaço de goma. A pessoa mastiga até que todo o sabor vá embora e não sobre nenhum valor nutritivo. É apenas diversão para a boca. E então você está pronto para a próxima goma. É o consumo em massa de nada”. Quem disse isso foi um dos caras mais respeitados da história do rap, Chali 2na, um dos fundadores do igualmente respeitado grupo Jurassic 5, na luta desde 1993.

A entrevista foi para o site jamfeed, publicada no último dia 15 de julho. Essa fala bate de frente com as últimas notícias. O Spotify disse que o rap é o gênero mais ouvido no mundo. Por 16 semanas consecutivas, um rap ocupou a primeira posição do Hot 100 (“See You Again”, com Whiz Khalifa e Charlie Puth). Outros três artistas estão hoje no top 10. Sem contar Kendrick Lamar, convidado por Taylor Swift, a mulher mais influente do pop de hoje, para participar do hit “Bad Blood”.

Como pode o rap estar tão presente assim nas paradas e ao mesmo tempo receber críticas tão pesadas de gente respeitada como Chali 2na. Sim, pode. Essa é a eterna luta entre a popularização e a relevância. Quando se aumenta o número de opções dentro de um gênero musical, é comum aparecerem músicas e artistas que conseguem bons números, alcançam a massa, mas que não apresentam tanta profundidade no som. A produção se torna algo mecânico, quase matemático, e passa a obedecer fórmulas. Se chega ao ponto de confundir artistas e não conseguir diferenciar mais quem é quem de tão uniforme que fica o som.

Aqui no Brasil vivemos um momento parecido, apesar do gênero mal aparecer em nosso Brasil Hot 100. Artistas consagrados acabam sendo criticados por fãs mais “xiitas” por abrirem mais o leque e tentarem falar com outros públicos. Os Racionais MC's atraíram críticas com Cores e Valores, seu mais recente disco. Até a duração do disco (32 minutos) foi alvo de comentários negativos. Edi Rock, um dos integrantes do grupo, também foi alvo quando participou do programa Caldeirão do Huck. Alguns artistas mais jovens, como Projota, também não conseguem a simpatia desse público mais conservador do rap.

Tanto aqui no Brasil quanto fora, é um momento decisivo para o estilo. O público conservador sempre vai reclamar e a massa sempre vai querer ser mais abastecida desse tipo de som. Enquanto uma parcela dos artistas, seja por falta de habilidade comercial ou por desejo, vai continuar dialogando com o público exclusivamente do rap, outra parcela vai ter que carregar o gênero para a galera, o grande público, e segurar o rap no topo das paradas. E isso, para alguns (como o Chali 2na, lá em cima), pode ser considerado como um racha no rap. Cabe a cada artista decidir em qual lado ele quer ficar. E decidir se quer dar bola para a torcida ou não.

Como disse Erasmo Carlos para a Billboard Brasil quando perguntado sobre a Jovem Guarda, movimento cultural brasileiro que já tem 50 anos: "O próprio público escraviza, ele não deixa você evoluir, não quer. Ele quer você um jovem fake". E esse é o desafio: não se deixar escravizar por uma minoria que prega o conservadorismo e que não deixa o som evoluir. A bola está com o rap.