NOTÍCIAS

Opinião - Ditônica

por em 09/04/2013
p
or André Kassu
Tem do preto e tem do branco Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, você precisava conversar com um bom vendedor em uma excelente loja de discos para saber o que estava acontecendo no mundo da música. Era uma época inglória. A informação não circulava. Até a pornografi a era difícil de ser alcançada. Na falta de acesso, qualquer seção Fórum da revista Ele & Ela já alegrava. Uma Nádia Lippi trazia felicidade. Edições de carnaval eram disputadas a tapa. Hoje, tudo está à mão. A geração criada à base de melancia cortadinha e sem semente, de iogurte grego light e embalada pelo Redtube desconhece a dificuldade. Nasceu sabendo o que é download e fist fucking. São meninos que cresceram sem a densidade de uma Cláudia Ohana. Para eles, o caminho já está liso e depilado. Boa música pode ser descoberta em ridículos cliques. Se antes um vendedor se fazia necessário, hoje precisamos de um bom fornecedor. O que me leva a uma lenda urbana carioca do traficante do asfalto que codificava as drogas como música. Nesse dialeto antiescuta, cocaína virava Hermeto Pascoal. Maconha era James Brown. O diálogo era mais ou menos assim: – Aí, tô querendo aquele disco do Hermeto emprestado. Rola? – Mermão, tu quer o compacto ou o LP todo? – Manda o compacto, pra eu sacar o som. Tem James Brown? – Tem, mas tá mirrado. Amanhã chega a coleção completa. – Fechou. Escuta: por que Hermeto e não Sivuca? – Sivuca é de injetar. É outra parada. O bom fornecedor tem todos os sons na mão em alta qualidade. Separados por pastinhas e alinhado por estilos. Ele não mistura as coisas e conhece bem cada cliente. Em uma sociedade na qual todo mundo faz download, mas não admite, o fornecedor é um intermediário necessário entre a música e a sensação de consciência limpa. É a Lei Bill Clinton de ausência de culpa: eu baixo música, mas não trago. Recentemente, eu perdi um fornecedor do bom. Por questões de segurança, não posso revelar o nome. Trata-se de um sujeito da mais alta estirpe, todo trabalhado na fofurice e no bom gosto musical. Um conhecedor, fuçador dos blogs gringos, um cara absolutamente generoso. O morro anunciava as drogas com fogos? Meu trafi cante dava tiros de comemoração pelo iChat. A janelinha piscava e eu sabia que tinha uma parada boa chegando. Lee Fields apareceu assim, de repente. Como quem não quer nada. Alabama Shakes também. Ben Howard, que tem mais nome de jogador da NBA do que outra coisa, chegou embalado e avaliado. Quando eu viciava em um som, ele mudava para outro. Sabia tratar um cliente, esse rapaz. Um belo dia, ele resolveu partir. Foi para um morro distante. Na ânsia de não decepcionar os clientes, trocou as pastinhas por míseros links do YouTube. Não é a mesma coisa. Não dá a mesma onda. Os clientes fiéis caminham a esmo pelos corredores como morto-vivos da Cracolândia. Sem rumo, sem norte, sem fone. É desolador. Para quem um dia recebeu um Charles Bradley novinho, é difícil ter que controlar os tremores da abstinência com arquivos de baixa qualidade. Até o Arcade Fire novo ficou impossível. Ninguém tomou a boca, e encontrar boa música virou um martírio novamente. Saio batendo nas telas em volta. Vago pelo compartilhamento do iTunes. Até diria que flano, se flanar não fosse um verbo tão hipster. São tempos difíceis. O fornecedor deveria ter como obrigação deixar um sucessor legítimo. Eu até poderia recorrer a outros dois camaradas, mas eles andam tão ferrados de trabalho que não fazem mais download. Que mundo é esse, Senhor? Cadê o MP3 nosso de cada dia? Lá se vão quatro meses sem um iChat animador. Não me venha com gifs e tumblrs. Não tente me enganar com álbum em stream da Norah Jones com o Billie Joe! Eu quero as minhas músicas da boa. Quero tudo destilado, filtrado e destrinchado. Virei um menino mimado. Este texto é um SOS para esse ex-fornecedor desalmado. Tem gente estrebuchando no chão por culpa sua. Comprando gift card pelo eBay. Sabe lá o que é isso? Tenha dó... Dê algum jeito de estancar esse sofrimento ao meu redor. Volte os olhos para o seu rebanho abandonado. Sinto, mas você não me dá alternativa a não ser revelar a sua fraqueza. Para quem tem um produto de fazer inveja ao Walter White, Almeidinha é um nome nada intimidador.  
  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Saudade
Eduardo Costa
3
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Opinião - Ditônica

por em 09/04/2013
p
or André Kassu
Tem do preto e tem do branco Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, você precisava conversar com um bom vendedor em uma excelente loja de discos para saber o que estava acontecendo no mundo da música. Era uma época inglória. A informação não circulava. Até a pornografi a era difícil de ser alcançada. Na falta de acesso, qualquer seção Fórum da revista Ele & Ela já alegrava. Uma Nádia Lippi trazia felicidade. Edições de carnaval eram disputadas a tapa. Hoje, tudo está à mão. A geração criada à base de melancia cortadinha e sem semente, de iogurte grego light e embalada pelo Redtube desconhece a dificuldade. Nasceu sabendo o que é download e fist fucking. São meninos que cresceram sem a densidade de uma Cláudia Ohana. Para eles, o caminho já está liso e depilado. Boa música pode ser descoberta em ridículos cliques. Se antes um vendedor se fazia necessário, hoje precisamos de um bom fornecedor. O que me leva a uma lenda urbana carioca do traficante do asfalto que codificava as drogas como música. Nesse dialeto antiescuta, cocaína virava Hermeto Pascoal. Maconha era James Brown. O diálogo era mais ou menos assim: – Aí, tô querendo aquele disco do Hermeto emprestado. Rola? – Mermão, tu quer o compacto ou o LP todo? – Manda o compacto, pra eu sacar o som. Tem James Brown? – Tem, mas tá mirrado. Amanhã chega a coleção completa. – Fechou. Escuta: por que Hermeto e não Sivuca? – Sivuca é de injetar. É outra parada. O bom fornecedor tem todos os sons na mão em alta qualidade. Separados por pastinhas e alinhado por estilos. Ele não mistura as coisas e conhece bem cada cliente. Em uma sociedade na qual todo mundo faz download, mas não admite, o fornecedor é um intermediário necessário entre a música e a sensação de consciência limpa. É a Lei Bill Clinton de ausência de culpa: eu baixo música, mas não trago. Recentemente, eu perdi um fornecedor do bom. Por questões de segurança, não posso revelar o nome. Trata-se de um sujeito da mais alta estirpe, todo trabalhado na fofurice e no bom gosto musical. Um conhecedor, fuçador dos blogs gringos, um cara absolutamente generoso. O morro anunciava as drogas com fogos? Meu trafi cante dava tiros de comemoração pelo iChat. A janelinha piscava e eu sabia que tinha uma parada boa chegando. Lee Fields apareceu assim, de repente. Como quem não quer nada. Alabama Shakes também. Ben Howard, que tem mais nome de jogador da NBA do que outra coisa, chegou embalado e avaliado. Quando eu viciava em um som, ele mudava para outro. Sabia tratar um cliente, esse rapaz. Um belo dia, ele resolveu partir. Foi para um morro distante. Na ânsia de não decepcionar os clientes, trocou as pastinhas por míseros links do YouTube. Não é a mesma coisa. Não dá a mesma onda. Os clientes fiéis caminham a esmo pelos corredores como morto-vivos da Cracolândia. Sem rumo, sem norte, sem fone. É desolador. Para quem um dia recebeu um Charles Bradley novinho, é difícil ter que controlar os tremores da abstinência com arquivos de baixa qualidade. Até o Arcade Fire novo ficou impossível. Ninguém tomou a boca, e encontrar boa música virou um martírio novamente. Saio batendo nas telas em volta. Vago pelo compartilhamento do iTunes. Até diria que flano, se flanar não fosse um verbo tão hipster. São tempos difíceis. O fornecedor deveria ter como obrigação deixar um sucessor legítimo. Eu até poderia recorrer a outros dois camaradas, mas eles andam tão ferrados de trabalho que não fazem mais download. Que mundo é esse, Senhor? Cadê o MP3 nosso de cada dia? Lá se vão quatro meses sem um iChat animador. Não me venha com gifs e tumblrs. Não tente me enganar com álbum em stream da Norah Jones com o Billie Joe! Eu quero as minhas músicas da boa. Quero tudo destilado, filtrado e destrinchado. Virei um menino mimado. Este texto é um SOS para esse ex-fornecedor desalmado. Tem gente estrebuchando no chão por culpa sua. Comprando gift card pelo eBay. Sabe lá o que é isso? Tenha dó... Dê algum jeito de estancar esse sofrimento ao meu redor. Volte os olhos para o seu rebanho abandonado. Sinto, mas você não me dá alternativa a não ser revelar a sua fraqueza. Para quem tem um produto de fazer inveja ao Walter White, Almeidinha é um nome nada intimidador.