NOTÍCIAS

Opinião - O túnel acabou. Agora é hora dos óculos escuros

por em 09/04/2013
Depo
is de quase 15 anos de uma infatigável transição, reconversão e, para os inúmeros e sádicos profetas do apocalipse de plantão, crise, a nova indústria fonográfica viu a luz. Não uma, mas centenas, milhares de feixes de luz – ainda que tímidas oportunidades radiantes, cambaleantes como mamíferos recém-nascidos, rastejantes em busca de novas felicidades, surpresas, convictos de novas tetas, novas táticas. O inédito, de novo. Velocidade de video game na retina desatinada de excitantes modelos de ilimitados negócios possíveis, alguns ainda imaginários. Essa volta a ser a indústria do tudo é possível, por que não? Primeiro, vamos retificar: a indústria ficou para trás, para o século passado. Parece que foi ontem, mas já faz uma eternidade. Amnésia às vezes faz bem, é libertadora. Indústria tem fábrica. Ou tinha. Agora são novos operários virtuais, virais. Saíram do túnel agências e balcões de negócios, promotores de eventos, usinas de licenciamento, provedores de conteúdo audiovisual, hubs de distribuição, administradores de direitos, coletores de public performance, direitos conexos, bombas de gasolina digital, coaching de novos artistas, seguidores de artistas estabelecidos. Estonteantes 360 graus, como um polvo cibernético novamente poderoso. Toda a perplexidade desses anos de treva e trava foi transferida para o jornalismo, a televisão, a publicidade, o cinema e uma lista grande de negócios que ainda nem perceberam que os ciclos agora são frenéticos, energéticos como esses anabolizantes que encontramos nas farmácias de qualquer esquina. O clube agora pertence a quem se move rápido, não necessariamente ao gigante. Ele até tem mais músculos, mais vagão no seu trem, mas o clube é de quem toma posições, os adeptos do ‘sim’ e do ‘não’ objetivos, instantâneos, por SMS ou WhatsApp. Quem tem mais catálogo sai na frente. Quem tem pouco pode voar mais rápido. Finalmente, com anos de justificado atraso, desembarcam no Brasil quase todas as plataformas digitais de streaming, com destaque absoluto para o sueco Spotify e um Naspter retrofitado, com DNA da nacional Sonora e da espanhola Telefónica em suas veias. Se somam aos valentes serviços já em atividade, como Deezer, Rdio, Rare, Music Unlimited (da Sony), Move (da Tim)... Por justiça, tenho que destacar o Ideiasmusick (Imusicacorp) e seus malucos do bem, que partiram na frente, visionários que muitas vezes pagaram o pato por estarem à frente de um tempo que parecia não chegar nunca, com um modelo nacional que nos servia solitariamente até então, e agora ganha novas e expatriadas companhias. Mereceriam um prêmio, se a gente ainda tivesse memória. Desculpe, mas o Brasil não é o país do futuro. Somos do entulho, do atalho; às vezes, andamos de galho em galho, lesmas lerdas, numa realidade tributária hostil, cheia de lodo, com ineficiências claras de lado a lado. Tem que ser herói para investir aqui, apesar de um tudo que muda muito devagar, a passos de um gigante que, lamento muito reconhecer, não acorda nem quando a gente vai pras ruas e grita muito alto. Ninguém acredita mais em promessas, em projetos mirabolantes que não saem do papel público, amarelo de tanta mentira superfaturada. A infraestrutura da hipocrisia nacional é sofisticada; sempre digo que o Brasil tem que ser reinterpretado a cada segundo, um dizer: só é pirata quem quer. Tem coisa mais antiga do que consumir produto adulterado (ou mesmo ser pirata), quando o original bate à sua porta, abundante, farto, acessível como uma conta de luz ou gás? Quem ainda finge não entender que por trás de tanta oferta há uma cadeia produtiva imensa, profissional, de produtores, músicos, artistas, estúdios (ainda que domésticos), que precisa ser remunerada como qualquer um – até mesmo você, que finge não entender isso. A gente sempre cobra ética dos outros: o paywall adotado pelos jornais que o diga... Não existe negócio sustentável sem remuneração, sem rentabilidade, que pode até vir pela monetização do database, mas tem que vir de algum lugar (da bolsa de valores e seu circo de exercício constante de cidadania e tirania empresarial. Como alguém já disse, o Brasil não é para amadores. Voltando ao profissional otimismo responsável: estas plataformas digitais se somam ao iTunes, distribuidor musical de longe número 1 do Brasil (sim, senhor, entre mercado físico e digital, na frente dos supermercados, lojas especializadas e de departamentos), repetindo, ainda que tardiamente, o que acontece em outros mercados internacionais. Com uma intrigante diferença: o que impede a Apple de cobrar em reais, em adotar nossa moeda de uma vez por todas, e de estabelecer seu cartão nos pontos de venda, como acontece em todos os outros lugares? Isso certamente calibraria muito mais seu potencial e o consumo de downloads, modelo já ameaçado pelo streaming imparável, cômodo e de fácil acesso proposto pelos newcomers e pela já anunciada entrada do YouTube nesta modalidade. Vamos comemorar!!! Já podemos dizer que o mercado digital está entre nós, ao alcance dos nossos dedos. Estamos no Primeiro Mundo, afinal de contas, e ainda somos emergentes (até quando?). Nunca foi tão fácil consumir música legal no Brasil. Agora finalmente podemos mutantes percepções, por exemplo). Para continuar na onda positiva, chegou a nova PEC da música, prometendo desonerar todo o exército de impostos que envolve o setor no Brasil (sim, é uma lei nacionalista, de proteção exclusiva ao repertório nacional). Isso vai beneficiar e muito o mercado independente e o universo digital. @2014 #promete. Passamos anos, bobos da corte, respondendo aos amigos como nosso negócio era frágil, sem barreira tecnológica de entrada, o que turbinava nossa debilidade neste novo mundo multifacetado e dinamitado pela curiosidade em êxtase de um consumidor cortejado por todos e tudo à sua volta. Pelo som ao seu redor. Todo um coletivo ficou órfão, e uma minoria sobreviveu ao caos educativo da permanente transformação em ação. O momento agora é outro, talvez, por pouco tempo, mas daqui pra frente será assim, sim. Esse desafio agora faz parte do DNA incorporado pelo negócio, já safo, já descolado de estar desolado, já refém da urgência, senha da sobrevivência. Aliada à batalha pela melhoria de nossa estreita banda larga nas oportunas, mas perigosas discussões da neutralidade do Marco Civil da internet pelo governo e representantes das telcos, a galopante inclusão digital é um fator adicional para um potencial cenário de crescimento do negócio musical digital. O completamente gratuito é bom, mas não tem graça pra quem produz. Estamos cansados de jogar na segunda divisão. Temos no Brasil um elenco jovem de artistas pedindo passagem do Oiapoque ao Chuí, nos grandes centros e nas pequenas cidades. Essas vozes vão muito além do muito bem realizado The Voice, da TV Globo. O anonimato para um artista é uma cela, uma prisão da qual poucos se libertam, ainda que apenas provisoriamente. As ferramentas digitais, as redes sociais, são um alento de breve combustão se não seguidas por um real desenvolvimento, amparado pela cumplicidade de poucos, por palcos onde se apresentar, e consequente público para provar de verdade este talento. Políticas culturais são bem-vindas, leis Rouanet também, mas sempre quando não atoladas no pântano do que é oficial e cínico favorecimento. O mercado só quer saber do que pode dar certo, o público também. Por isso, o digital é cada vez mais importante. O laboratório do fracasso vale a pena pra quem sonha com o sucesso. Mas sem falsas ilusões, pois, no digital, falar é muito fácil, o difícil continua sendo ser ouvido. Por isso, mais do que nunca, mais do que esperar, a hora é de fazer, “do it yourself”, convencendo quem você pode, mesmo que seja a milhas e milhas de distância. E, como dizem Gil e o G7 da música brasileira, procure saber, agora... por Marcelo Castello Branco, CEO na MCB Entertainment, Marcelo Castello Branco é um dos principais executivos brasileiros na área de música e entretenimento. Membro do Board of directors do Latin Grammy, consultor internacional de plataformas digitais, como a brasileira QUEREMOS, e professor convidado da Fundação Getúlio Vargas, foi chairman da EMI Music Brasil, South America e Central America, atuou como presidente da Universal Music da Península Ibérica, da Universal Music Cone Sul, da PolyGram Brasil e da PolyGram no Chile. Entre 1999 e 2001, foi presidente da ABPd (Associação Brasileira de Produtores de discos), braço brasileiro da IFPI. Contato: mcb@billboard.br.com
  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
2
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Opinião - O túnel acabou. Agora é hora dos óculos escuros

por em 09/04/2013
Depo
is de quase 15 anos de uma infatigável transição, reconversão e, para os inúmeros e sádicos profetas do apocalipse de plantão, crise, a nova indústria fonográfica viu a luz. Não uma, mas centenas, milhares de feixes de luz – ainda que tímidas oportunidades radiantes, cambaleantes como mamíferos recém-nascidos, rastejantes em busca de novas felicidades, surpresas, convictos de novas tetas, novas táticas. O inédito, de novo. Velocidade de video game na retina desatinada de excitantes modelos de ilimitados negócios possíveis, alguns ainda imaginários. Essa volta a ser a indústria do tudo é possível, por que não? Primeiro, vamos retificar: a indústria ficou para trás, para o século passado. Parece que foi ontem, mas já faz uma eternidade. Amnésia às vezes faz bem, é libertadora. Indústria tem fábrica. Ou tinha. Agora são novos operários virtuais, virais. Saíram do túnel agências e balcões de negócios, promotores de eventos, usinas de licenciamento, provedores de conteúdo audiovisual, hubs de distribuição, administradores de direitos, coletores de public performance, direitos conexos, bombas de gasolina digital, coaching de novos artistas, seguidores de artistas estabelecidos. Estonteantes 360 graus, como um polvo cibernético novamente poderoso. Toda a perplexidade desses anos de treva e trava foi transferida para o jornalismo, a televisão, a publicidade, o cinema e uma lista grande de negócios que ainda nem perceberam que os ciclos agora são frenéticos, energéticos como esses anabolizantes que encontramos nas farmácias de qualquer esquina. O clube agora pertence a quem se move rápido, não necessariamente ao gigante. Ele até tem mais músculos, mais vagão no seu trem, mas o clube é de quem toma posições, os adeptos do ‘sim’ e do ‘não’ objetivos, instantâneos, por SMS ou WhatsApp. Quem tem mais catálogo sai na frente. Quem tem pouco pode voar mais rápido. Finalmente, com anos de justificado atraso, desembarcam no Brasil quase todas as plataformas digitais de streaming, com destaque absoluto para o sueco Spotify e um Naspter retrofitado, com DNA da nacional Sonora e da espanhola Telefónica em suas veias. Se somam aos valentes serviços já em atividade, como Deezer, Rdio, Rare, Music Unlimited (da Sony), Move (da Tim)... Por justiça, tenho que destacar o Ideiasmusick (Imusicacorp) e seus malucos do bem, que partiram na frente, visionários que muitas vezes pagaram o pato por estarem à frente de um tempo que parecia não chegar nunca, com um modelo nacional que nos servia solitariamente até então, e agora ganha novas e expatriadas companhias. Mereceriam um prêmio, se a gente ainda tivesse memória. Desculpe, mas o Brasil não é o país do futuro. Somos do entulho, do atalho; às vezes, andamos de galho em galho, lesmas lerdas, numa realidade tributária hostil, cheia de lodo, com ineficiências claras de lado a lado. Tem que ser herói para investir aqui, apesar de um tudo que muda muito devagar, a passos de um gigante que, lamento muito reconhecer, não acorda nem quando a gente vai pras ruas e grita muito alto. Ninguém acredita mais em promessas, em projetos mirabolantes que não saem do papel público, amarelo de tanta mentira superfaturada. A infraestrutura da hipocrisia nacional é sofisticada; sempre digo que o Brasil tem que ser reinterpretado a cada segundo, um dizer: só é pirata quem quer. Tem coisa mais antiga do que consumir produto adulterado (ou mesmo ser pirata), quando o original bate à sua porta, abundante, farto, acessível como uma conta de luz ou gás? Quem ainda finge não entender que por trás de tanta oferta há uma cadeia produtiva imensa, profissional, de produtores, músicos, artistas, estúdios (ainda que domésticos), que precisa ser remunerada como qualquer um – até mesmo você, que finge não entender isso. A gente sempre cobra ética dos outros: o paywall adotado pelos jornais que o diga... Não existe negócio sustentável sem remuneração, sem rentabilidade, que pode até vir pela monetização do database, mas tem que vir de algum lugar (da bolsa de valores e seu circo de exercício constante de cidadania e tirania empresarial. Como alguém já disse, o Brasil não é para amadores. Voltando ao profissional otimismo responsável: estas plataformas digitais se somam ao iTunes, distribuidor musical de longe número 1 do Brasil (sim, senhor, entre mercado físico e digital, na frente dos supermercados, lojas especializadas e de departamentos), repetindo, ainda que tardiamente, o que acontece em outros mercados internacionais. Com uma intrigante diferença: o que impede a Apple de cobrar em reais, em adotar nossa moeda de uma vez por todas, e de estabelecer seu cartão nos pontos de venda, como acontece em todos os outros lugares? Isso certamente calibraria muito mais seu potencial e o consumo de downloads, modelo já ameaçado pelo streaming imparável, cômodo e de fácil acesso proposto pelos newcomers e pela já anunciada entrada do YouTube nesta modalidade. Vamos comemorar!!! Já podemos dizer que o mercado digital está entre nós, ao alcance dos nossos dedos. Estamos no Primeiro Mundo, afinal de contas, e ainda somos emergentes (até quando?). Nunca foi tão fácil consumir música legal no Brasil. Agora finalmente podemos mutantes percepções, por exemplo). Para continuar na onda positiva, chegou a nova PEC da música, prometendo desonerar todo o exército de impostos que envolve o setor no Brasil (sim, é uma lei nacionalista, de proteção exclusiva ao repertório nacional). Isso vai beneficiar e muito o mercado independente e o universo digital. @2014 #promete. Passamos anos, bobos da corte, respondendo aos amigos como nosso negócio era frágil, sem barreira tecnológica de entrada, o que turbinava nossa debilidade neste novo mundo multifacetado e dinamitado pela curiosidade em êxtase de um consumidor cortejado por todos e tudo à sua volta. Pelo som ao seu redor. Todo um coletivo ficou órfão, e uma minoria sobreviveu ao caos educativo da permanente transformação em ação. O momento agora é outro, talvez, por pouco tempo, mas daqui pra frente será assim, sim. Esse desafio agora faz parte do DNA incorporado pelo negócio, já safo, já descolado de estar desolado, já refém da urgência, senha da sobrevivência. Aliada à batalha pela melhoria de nossa estreita banda larga nas oportunas, mas perigosas discussões da neutralidade do Marco Civil da internet pelo governo e representantes das telcos, a galopante inclusão digital é um fator adicional para um potencial cenário de crescimento do negócio musical digital. O completamente gratuito é bom, mas não tem graça pra quem produz. Estamos cansados de jogar na segunda divisão. Temos no Brasil um elenco jovem de artistas pedindo passagem do Oiapoque ao Chuí, nos grandes centros e nas pequenas cidades. Essas vozes vão muito além do muito bem realizado The Voice, da TV Globo. O anonimato para um artista é uma cela, uma prisão da qual poucos se libertam, ainda que apenas provisoriamente. As ferramentas digitais, as redes sociais, são um alento de breve combustão se não seguidas por um real desenvolvimento, amparado pela cumplicidade de poucos, por palcos onde se apresentar, e consequente público para provar de verdade este talento. Políticas culturais são bem-vindas, leis Rouanet também, mas sempre quando não atoladas no pântano do que é oficial e cínico favorecimento. O mercado só quer saber do que pode dar certo, o público também. Por isso, o digital é cada vez mais importante. O laboratório do fracasso vale a pena pra quem sonha com o sucesso. Mas sem falsas ilusões, pois, no digital, falar é muito fácil, o difícil continua sendo ser ouvido. Por isso, mais do que nunca, mais do que esperar, a hora é de fazer, “do it yourself”, convencendo quem você pode, mesmo que seja a milhas e milhas de distância. E, como dizem Gil e o G7 da música brasileira, procure saber, agora... por Marcelo Castello Branco, CEO na MCB Entertainment, Marcelo Castello Branco é um dos principais executivos brasileiros na área de música e entretenimento. Membro do Board of directors do Latin Grammy, consultor internacional de plataformas digitais, como a brasileira QUEREMOS, e professor convidado da Fundação Getúlio Vargas, foi chairman da EMI Music Brasil, South America e Central America, atuou como presidente da Universal Music da Península Ibérica, da Universal Music Cone Sul, da PolyGram Brasil e da PolyGram no Chile. Entre 1999 e 2001, foi presidente da ABPd (Associação Brasileira de Produtores de discos), braço brasileiro da IFPI. Contato: mcb@billboard.br.com