NOTÍCIAS

Os Afro Sambas: A magia negra de Baden e Vinicius ganha reprensagem 50 anos depois

Rapper Rodrigo Brandão escreve sobre o álbum clássico como convidado da Billboard Brasil

por Rodrigo Brandão em 01/11/2016

Taí um disco que salvou minha vida. Foi o primeiro passo, ainda que 100% na intuitiva, rumo ao caminho do AXÉ.

Achei Os Afro Sambas fascinantes antes mesmo de ouvir, e pouco tempo depois de invocar, um vinil veio me visitar. Soava ainda melhor do que eu imaginava! Viciei naquele punhado de pérolas  espirituais dum jeito, que se fosse crack tinha me matado. Mesmo em meio a toda criatividade que rolava no rap daquele 2001, por um período e tanto, ninguém mais tinha vez na vitrola.

Lembro do dia que o saudoso Sabotage chegou no meu mocó com o Tejo Damasceno, do Instituto, e, no decorrer de uma tarde haxixada, esses sons se repetiram e repetiram a ponto de inspirar o Maestro Do Canão a contar de quando nosso pai Oxóssi veio salvar o gueto superstar da inanição num hospital público, durante sua infância. Para maiores detalhes, indico o documentário do Ivan 13P.

De volta ao motivo dessas linhas: em 1966, o produtor Roberto Quartin, então à frente do selo Forma, resolveu, por divina intervenção, reunir em um LP temático certa série de sambas até então inéditos, compostos por Baden Powell & Vinícius De Moraes quatro anos antes, durante um famoso internato regado a doses brutais de whisky escocês, em que o totem do violão inclusive se mudou para a casa do cara que versou sobre a Garota De Ipanema.

Em comum, o combo de temas tinha influência africana forte, sendo meia-dúzia delas dedicadas diretamente às entidades. Após Os Afro Sambas, a música brasileira jamais seria a mesma.

É verdade que a macumba sempre esteve presente em tudo quanto é fase do cancioneiro nacional, e tanto a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura quanto o maestro Moacir Santos já vinham fundando alicerces nesse sentido. O fato do último, que tinha lançado no ano anterior o seminal Coisas pela mesma gravadora, ter sido professor do Baden tampouco é coincidência.

Mas a notícia de um ex-diplomata endossando o batuque, junto a um dos mais conceituados violonistas do país, capaz de concertos de Debussy e o escambau, quando a fé na magia negra era marginal (e muito!), foi no mínimo chocante.

Reza a lenda que a brisa do genial autor e instrumentista único veio da associação que percebeu entre o canto gregoriano que estudava com Moacir e as cantigas de terreiro, que ouviu primeiro com Vinícius, no disco Sambas de Roda & Candomblés da Bahia, e na sequência conheceu de perto durante uma temporada em Salvador.

Saíram melodias maravilhosas, que inspiraram o caneta de ouro De Moraes a buscar seu mais concentrado extrato d'alma, e levar a lírica ao ponto de fusão com a música, potencializando o poder de ambas a níveis de fenômeno da Natureza.

Mesmo em versões sem vocal, registradas por Baden mais adiante em sua carreira, antes de renegá-los até o fim da vida, ou nas tantas interpretações de outros músicos, a gente ouve as palavras do poeta, sejam 'cantadas' por algum dos instrumentos, ou apenas ecoando peito adentro.

Ciente do ouro que tinha em suas mãos, Quartin convocou o maestro Guerra Peixe para assinar os arranjos e regências e o Quarteto Em Cy pras vocalizações. O disco leva o troféu pela primeira gravação em que se misturaram os atabaques típicos do candomblé com a percussão de samba e os instrumentos mais comuns, como baixo, bateria, violão, flauta e sax.

A dupla de artistas, por sua vez, fez questão de acrescentar um verniz de espontaneidade à gravação, até para se manterem fiéis à atmosfera dos rituais de culto aos Orixás: montaram um coro de amigos e amores, cujo cantar cotidiano, sem ambição profissional, trouxe um toque de perfeita imperfeição que sem dúvida soma na catiça nunca dantes conjurada ou depois replicada.

Destaque pra eterna musa Betty Faria, respondendo aos chamados graves daquele que seria conhecido como O Branco Mais Negro Do Brasil, na abertura do álbum, a arrasa-quarteirão Canto De Ossanha, que seria regravada por cantoras do grau de Elis Regina e Astrud Gilberto, músicos virtuosos como a harpista Dorothy Ashby e o nosso Raul De Souza, e até o grupo de rap Jurassic 5.

Difícil dizer qual o melhor momento dessa safra, e na real nem é o caso, mas algumas outras faixas também seguem motivando abordagens interessantes, desde a ancestral Elizeth Cardoso (Canto Do Caboclo Pedra Preta) à atual Nação Zumbi (Canto De Xangô), passando pela norte-americana Mia Doi-Todd (Canto De Iemanjá).

Assim, não é exagero dizer que toda a música de macumba feita fora dos terreiros desde então, remete a esse monolito, seja de forma intencional ou inconsciente.

Por tudo isso, a primeira reprensagem do LP desde a tiragem original, marcando os 50 anos de lançamento, é motivo de celebração.

Então, fecho o ritual aqui com um convite aos maiores homenageados pra que se juntem a nós nessa festa, parafraseando Gilberto Gil, outra pessoa-chave em tão sagrado universo:

"Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré
Todo o pessoal
Manda descer pra ver (...)
Iansã, Iemanjá, chama Xangô
Oxossi também
Manda descer pra ver"

Bença!

--------------------------

Rodrigo Brandão, vulgo Gorila Urbano, faz música com caneta, papel e microfone desde a virada do XXI. MC oficial da Zulu Nation, atualmente integra, ao lado do DJ Prince Paul, do músico Don Newkirk e da vocalista Ladybug Mecca, o grupo BROOKZILL!, que acaba de lançar o disco Throwback To The Future, pela Tommy Boy Records.
  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Saudade
Eduardo Costa
3
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

Os Afro Sambas: A magia negra de Baden e Vinicius ganha reprensagem 50 anos depois

Rapper Rodrigo Brandão escreve sobre o álbum clássico como convidado da Billboard Brasil

por Rodrigo Brandão em 01/11/2016

Taí um disco que salvou minha vida. Foi o primeiro passo, ainda que 100% na intuitiva, rumo ao caminho do AXÉ.

Achei Os Afro Sambas fascinantes antes mesmo de ouvir, e pouco tempo depois de invocar, um vinil veio me visitar. Soava ainda melhor do que eu imaginava! Viciei naquele punhado de pérolas  espirituais dum jeito, que se fosse crack tinha me matado. Mesmo em meio a toda criatividade que rolava no rap daquele 2001, por um período e tanto, ninguém mais tinha vez na vitrola.

Lembro do dia que o saudoso Sabotage chegou no meu mocó com o Tejo Damasceno, do Instituto, e, no decorrer de uma tarde haxixada, esses sons se repetiram e repetiram a ponto de inspirar o Maestro Do Canão a contar de quando nosso pai Oxóssi veio salvar o gueto superstar da inanição num hospital público, durante sua infância. Para maiores detalhes, indico o documentário do Ivan 13P.

De volta ao motivo dessas linhas: em 1966, o produtor Roberto Quartin, então à frente do selo Forma, resolveu, por divina intervenção, reunir em um LP temático certa série de sambas até então inéditos, compostos por Baden Powell & Vinícius De Moraes quatro anos antes, durante um famoso internato regado a doses brutais de whisky escocês, em que o totem do violão inclusive se mudou para a casa do cara que versou sobre a Garota De Ipanema.

Em comum, o combo de temas tinha influência africana forte, sendo meia-dúzia delas dedicadas diretamente às entidades. Após Os Afro Sambas, a música brasileira jamais seria a mesma.

É verdade que a macumba sempre esteve presente em tudo quanto é fase do cancioneiro nacional, e tanto a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura quanto o maestro Moacir Santos já vinham fundando alicerces nesse sentido. O fato do último, que tinha lançado no ano anterior o seminal Coisas pela mesma gravadora, ter sido professor do Baden tampouco é coincidência.

Mas a notícia de um ex-diplomata endossando o batuque, junto a um dos mais conceituados violonistas do país, capaz de concertos de Debussy e o escambau, quando a fé na magia negra era marginal (e muito!), foi no mínimo chocante.

Reza a lenda que a brisa do genial autor e instrumentista único veio da associação que percebeu entre o canto gregoriano que estudava com Moacir e as cantigas de terreiro, que ouviu primeiro com Vinícius, no disco Sambas de Roda & Candomblés da Bahia, e na sequência conheceu de perto durante uma temporada em Salvador.

Saíram melodias maravilhosas, que inspiraram o caneta de ouro De Moraes a buscar seu mais concentrado extrato d'alma, e levar a lírica ao ponto de fusão com a música, potencializando o poder de ambas a níveis de fenômeno da Natureza.

Mesmo em versões sem vocal, registradas por Baden mais adiante em sua carreira, antes de renegá-los até o fim da vida, ou nas tantas interpretações de outros músicos, a gente ouve as palavras do poeta, sejam 'cantadas' por algum dos instrumentos, ou apenas ecoando peito adentro.

Ciente do ouro que tinha em suas mãos, Quartin convocou o maestro Guerra Peixe para assinar os arranjos e regências e o Quarteto Em Cy pras vocalizações. O disco leva o troféu pela primeira gravação em que se misturaram os atabaques típicos do candomblé com a percussão de samba e os instrumentos mais comuns, como baixo, bateria, violão, flauta e sax.

A dupla de artistas, por sua vez, fez questão de acrescentar um verniz de espontaneidade à gravação, até para se manterem fiéis à atmosfera dos rituais de culto aos Orixás: montaram um coro de amigos e amores, cujo cantar cotidiano, sem ambição profissional, trouxe um toque de perfeita imperfeição que sem dúvida soma na catiça nunca dantes conjurada ou depois replicada.

Destaque pra eterna musa Betty Faria, respondendo aos chamados graves daquele que seria conhecido como O Branco Mais Negro Do Brasil, na abertura do álbum, a arrasa-quarteirão Canto De Ossanha, que seria regravada por cantoras do grau de Elis Regina e Astrud Gilberto, músicos virtuosos como a harpista Dorothy Ashby e o nosso Raul De Souza, e até o grupo de rap Jurassic 5.

Difícil dizer qual o melhor momento dessa safra, e na real nem é o caso, mas algumas outras faixas também seguem motivando abordagens interessantes, desde a ancestral Elizeth Cardoso (Canto Do Caboclo Pedra Preta) à atual Nação Zumbi (Canto De Xangô), passando pela norte-americana Mia Doi-Todd (Canto De Iemanjá).

Assim, não é exagero dizer que toda a música de macumba feita fora dos terreiros desde então, remete a esse monolito, seja de forma intencional ou inconsciente.

Por tudo isso, a primeira reprensagem do LP desde a tiragem original, marcando os 50 anos de lançamento, é motivo de celebração.

Então, fecho o ritual aqui com um convite aos maiores homenageados pra que se juntem a nós nessa festa, parafraseando Gilberto Gil, outra pessoa-chave em tão sagrado universo:

"Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré
Todo o pessoal
Manda descer pra ver (...)
Iansã, Iemanjá, chama Xangô
Oxossi também
Manda descer pra ver"

Bença!

--------------------------

Rodrigo Brandão, vulgo Gorila Urbano, faz música com caneta, papel e microfone desde a virada do XXI. MC oficial da Zulu Nation, atualmente integra, ao lado do DJ Prince Paul, do músico Don Newkirk e da vocalista Ladybug Mecca, o grupo BROOKZILL!, que acaba de lançar o disco Throwback To The Future, pela Tommy Boy Records.