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Os bastidores do fim da premiação musical mais importante da Alemanha

Rappers com letras antissemitas foram premiados e causaram uma onda de protestos

por Maestro Billy em 27/04/2018

Na Alemanha não existe censura. Tá lá na Constituição. É proibido proibir previamente qualquer coisa.

Mas, mesmo assim, algumas coisas são proibidas por lei.

Um exemplo? Dizer que o Holocausto não aconteceu. Outro exemplo? Desenhar suásticas ou qualquer outro símbolo nazista.

Fora que, além da lei, tem a opinião pública, que é o que também conta muito por aqui. Suas atitudes perante a sociedade são muito mais julgadas e analisadas pela própria sociedade do que pelo governo ou pelas leis.

Mais uma informação antes de contar sobre a treta:

Atualmente existe uma onda antissemita surgindo mais uma vez. Não pelo lado dos alemães, mas do lado dos muçulmanos. Isso ficou claro semana passada, quando um garoto muçulmano de descendência árabe chicoteou com um cinto dois meninos judeus em plena luz do dia aqui em Berlin.

Fora mais um monte de outros casos que aparecem diariamente nos noticiários.

Dito tudo isso, vamos à treta. Tretíssima. Das grandes.

O Prêmio Echo é uma espécie de Grammy aqui da Alemanha. Eles premiam anualmente os melhores da música, seja pelas vendas, pela qualidade do trabalho ou pelo conjunto da obra.

Um prêmio super reconhecido e buscado, é um "atestado" de que seu trabalho artístico é muito bom e vale ser apreciado (como todo prêmio deveria ser).

Na última premiação semana retrasada, a dupla de rappers Kollegah e Farid Bang levou o prêmio de melhor álbum de hip-hop. Só que aí que começa o problema...

No álbum deles tem uma música que contém a seguinte frase: "Meu corpo é tão bombado quanto o corpo de um prisioneiro de Auschwitz".

E tem outra música que diz: "Vou criar um outro Holocausto, atirando meu Molotov".

Sim. Auschwitz, o campo de concentração mais conhecido de todos os tempos, onde morreram cerca de 2,5 milhões de judeus e outros desafetos de Hitler.

Sim. Holocausto. Uma das palavras que mais envergonha todo e qualquer alemão (e todo e qualquer ser humano que tenha um mínimo de empatia).

Um pouco antes da dupla subir ao palco para receber o prêmio, o cantor do Die Toten Hose (a banda de rock mais famosa daqui), já sabendo que eles ganhariam e já sabendo das letras das músicas, foi lá também receber seu prêmio Echo.

Só que no discurso de "aceitação" do prêmio ele disse: "Isso passa do limite do aceitável, quando letras incluem insultos misóginos, homofóbicos, de extrema-direita e antissemitas". E se recusou a receber o prêmio.

A galera toda que também ganhou o prêmio em outras categorias começou a devolvê-lo como forma de protesto. Até gente que ganhou anos atrás fez isso.

Daniel Baremboim, um dos maestros mais renomados do mundo, devolveu todos os prêmios que ele ganhou.

O mesmo fizeram o criador da capa do Revolver dos Beatles, Klaus Voorman, e o cantor de rock Marius Müller-Westernhagen, que devolveu todos os sete dele, ganhos desde 1990...

Mais resultado da treta?

Uma onda de protestos da sociedade sobre o viés antissemita da dupla, a gravadora BMG pedindo milhões de desculpas, a dupla pedindo desculpas e dizendo que não era a intenção... e o Prêmio Echo acabou. 

Ano que vem não tem mais. 

Fim. 

Nunca mais...

Simples assim.

Nem vou colocar música do Kollegah & Farid Bang aqui. 

Acho melhor a gente ouvir uma do Die Toten Hose (que aliás é uma banda sensacional), que fala sobre amizade, união e como podemos viver juntos em harmonia.

“Tage wie diese” (dias como estes):

Tudo de bom,

Billy.

--------------------------

Maestro Billy é produtor musical e DJ. Duas décadas tentando tocar a música certa na hora certa para o público certo. Escreve para a Billboard Brasil direto da Alemanha.

 

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Gusttavo Lima
4
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Henrique & Juliano
5
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Maiara & Maraisa
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Os bastidores do fim da premiação musical mais importante da Alemanha

Rappers com letras antissemitas foram premiados e causaram uma onda de protestos

por Maestro Billy em 27/04/2018

Na Alemanha não existe censura. Tá lá na Constituição. É proibido proibir previamente qualquer coisa.

Mas, mesmo assim, algumas coisas são proibidas por lei.

Um exemplo? Dizer que o Holocausto não aconteceu. Outro exemplo? Desenhar suásticas ou qualquer outro símbolo nazista.

Fora que, além da lei, tem a opinião pública, que é o que também conta muito por aqui. Suas atitudes perante a sociedade são muito mais julgadas e analisadas pela própria sociedade do que pelo governo ou pelas leis.

Mais uma informação antes de contar sobre a treta:

Atualmente existe uma onda antissemita surgindo mais uma vez. Não pelo lado dos alemães, mas do lado dos muçulmanos. Isso ficou claro semana passada, quando um garoto muçulmano de descendência árabe chicoteou com um cinto dois meninos judeus em plena luz do dia aqui em Berlin.

Fora mais um monte de outros casos que aparecem diariamente nos noticiários.

Dito tudo isso, vamos à treta. Tretíssima. Das grandes.

O Prêmio Echo é uma espécie de Grammy aqui da Alemanha. Eles premiam anualmente os melhores da música, seja pelas vendas, pela qualidade do trabalho ou pelo conjunto da obra.

Um prêmio super reconhecido e buscado, é um "atestado" de que seu trabalho artístico é muito bom e vale ser apreciado (como todo prêmio deveria ser).

Na última premiação semana retrasada, a dupla de rappers Kollegah e Farid Bang levou o prêmio de melhor álbum de hip-hop. Só que aí que começa o problema...

No álbum deles tem uma música que contém a seguinte frase: "Meu corpo é tão bombado quanto o corpo de um prisioneiro de Auschwitz".

E tem outra música que diz: "Vou criar um outro Holocausto, atirando meu Molotov".

Sim. Auschwitz, o campo de concentração mais conhecido de todos os tempos, onde morreram cerca de 2,5 milhões de judeus e outros desafetos de Hitler.

Sim. Holocausto. Uma das palavras que mais envergonha todo e qualquer alemão (e todo e qualquer ser humano que tenha um mínimo de empatia).

Um pouco antes da dupla subir ao palco para receber o prêmio, o cantor do Die Toten Hose (a banda de rock mais famosa daqui), já sabendo que eles ganhariam e já sabendo das letras das músicas, foi lá também receber seu prêmio Echo.

Só que no discurso de "aceitação" do prêmio ele disse: "Isso passa do limite do aceitável, quando letras incluem insultos misóginos, homofóbicos, de extrema-direita e antissemitas". E se recusou a receber o prêmio.

A galera toda que também ganhou o prêmio em outras categorias começou a devolvê-lo como forma de protesto. Até gente que ganhou anos atrás fez isso.

Daniel Baremboim, um dos maestros mais renomados do mundo, devolveu todos os prêmios que ele ganhou.

O mesmo fizeram o criador da capa do Revolver dos Beatles, Klaus Voorman, e o cantor de rock Marius Müller-Westernhagen, que devolveu todos os sete dele, ganhos desde 1990...

Mais resultado da treta?

Uma onda de protestos da sociedade sobre o viés antissemita da dupla, a gravadora BMG pedindo milhões de desculpas, a dupla pedindo desculpas e dizendo que não era a intenção... e o Prêmio Echo acabou. 

Ano que vem não tem mais. 

Fim. 

Nunca mais...

Simples assim.

Nem vou colocar música do Kollegah & Farid Bang aqui. 

Acho melhor a gente ouvir uma do Die Toten Hose (que aliás é uma banda sensacional), que fala sobre amizade, união e como podemos viver juntos em harmonia.

“Tage wie diese” (dias como estes):

Tudo de bom,

Billy.

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Maestro Billy é produtor musical e DJ. Duas décadas tentando tocar a música certa na hora certa para o público certo. Escreve para a Billboard Brasil direto da Alemanha.