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“Os jovens eram mais radicais na minha época”, diz Gal Costa

por em 28/05/2015
Por Marcos Lauro
Gal é uma cantora que gosta de arriscar. Com uma história ímpar na música brasileira, ela soube mudar os rumos da sua carreira de acordo com sua vontade e em vez de perder público, somou. Se no disco anterior, Recanto, Gal usou e abusou da música eletrônica, em Estratosférica ela se volta para o rock e sonoridades dançantes. A Billboard Brasil conversou com Gal Costa sobre o disco, os caminhos percorridos pela cantora e sobre a juventude de hoje x a dos anos 1970. Logo no comecinho do disco aparecem duas músicas de compositores pernambucanos (“Jabitacá”, de Lira, Junio Barreto e Bactéria, e “Estratosférica”, de Junio Barreto, Pupillo – com a Céu como parceira). Isso foi proposital? Não olhei pra isso. Eu olho pra canção, pra letra, se eu gosto ou não. “Estratosférica” eu encomendei. A gente estava fazendo as bases e queria algo com ritmo dançante. Pupillo [baterista da Nação Zumbi] falou que ia fazer e trouxe no dia seguinte. Quando gravamos as bases, Kassin disse que estava ouvindo uns sopros do Lincoln Olivetti, procurou ele e acabou sendo o último arranjo do Olivetti [o produtor morreu último dia 13 de janeiro]. “Jabitacá” fala de um lugar de Pernambuco e eu gravei porque achei bonita, mas não intencionalmente. A ideia do disco não é nem fazer uma continuação do Recanto, mas manter os jovens ligados ao meu trabalho. Na minha carreira houve grandes saltos e rupturas, mudanças e renovações de públicos e Recanto foi assim. Para esse, queria algo arrojado, ousado, mas mais palatável, não tão radical. E o disco ficou com esse gosto, esse frescor. Ele tem uma atmosfera das “Gals” que eu fui ao longo desses anos. Mas você acha que o Recanto foi uma experiência muito radical? Eu já tive tantos saltos radicais na vida. A fase tropicalista para o Cantar foi algo radical, radicalíssimo. Fui do rock para um disco belíssimo, que não foi entendido na época mas hoje é cultuado Quando eu fiz o Gal Tropical também foi um corte radicalíssimo na forma de me vestir, de cantar. E agora no Recanto também. Mas são momentos que acho importantes, enriquecem a minha carreira. Todos os artistas têm que passar por isso. Li coisas como “A Gal está tentando alcançar o público jovem”... então, não é exatamente isso. O público veio a mim. Espontaneamente. Eu só fui ao encontro dele. E no disco tem isso também, compositores jovens ao lado de Tom Zé, Milton, Caetano... Que também são compositores jovens! De alma e cabeça jovem. E é a primeira vez que você grava Guilherme Arantes, né [na faixa “Vou Buscar Você Pra Mim”]? Eu gosto muito dele, sempre tive vontade de gravar, mas nunca houve a oportunidade. E estava falando com Kassin por telefone e ele contou que estava indo ao show do Guilherme Arantes. Eu disse que gostava muito dele e o Kassin se ofereceu para pedir uma música. Falei pra ele pedir e aconteceu. O Kassin, pelo jeito, conseguiu costurar vários encontros para o disco. Sim, ele e o Marcus Preto [diretor artístico do disco]. O Marcus juntou o Criolo e o Milton para os shows que eles fizeram. Ele foi atrás do repertório também, ouvimos muita coisa juntos. Já o Kassin fez os encontros no estúdio, chamou os músicos, me trouxe a música do Lincoln Olivetti e do Rogê [“Muita Sorte”], muita coisa. Ter uma música num disco da Gal é meio que uma Seleção Brasileira, é estar num grupo seleto de compositores. Você sente esse peso, o que eles falam pra você? Eu ainda não estive com nenhum pessoalmente, mas vejo o que eles escrevem no Facebook. Sei que o Arthur Nogueira [parceiro de Antonio Cícero em “Sem Medo Nem Esperança”] e que a Mallu Magalhães escreveram... eu sei da importância pros compositores mais novos, mas isso também é bom pra mim. É bacana quando eu leio um texto da Mallu dizendo que é minha fã e que colecionava fotos e discos. É comovente poder retribuir isso. E nesse momento da minha vida é legal gravar esses jovens que se referenciam no meu trabalho, no tropicalismo... acho bacana, generoso, bonito. E são talentosos, não estou fazendo nenhum favor. A Mallu é a mais jovem do disco. Como conheceu o trabalho dela? Eu a vi cantar... acho que ela está muito melhor, está amadurecendo, cada dia melhor. E ela fez essa música [“Quando Você Olha Pra Ela”] que a gente levou pra um clima Jorge Benjor. E a voz feminina hoje, está bem representada no Brasil? Está sim. Tem ótimas cantoras e compositoras. A minha figura e a minha carreira ser tão rica se deram pelo fato de eu ter passado por vários momentos da história do Brasil. Minha figura mudou muito. Cabelo curtinho, depois black power, irreverente, depois voltei a me vestir de forma mais “normal”, comecei a usar salto alto, roupas mais comuns... então o que eu faço agora tem tudo a ver com a minha história. As mulheres se referenciam em mim porque tem uma riqueza de emblemas e de momentos. E é bacana eu ter gravado Marisa Monte, que espontaneamente me mandou uma música, a própria Mallu, Thalma de Freitas... eu nunca gravei tanta mulher como nesse disco [risos]. E você que já passou por todas essas fases, acha que a nossa sociedade anda muito conservadora? Eu acho que as pessoas, de uma maneira geral, são conservadoras, né? Até mesmo a juventude de hoje é mais conservadora do que a da minha época. Até na postura, na maneira de se vestir. Na minha época tinha os hippies... mas era muito uma linguagem daquele momento, né? Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Woodstock... aquilo tudo refletia no mundo inteiro. Hoje é diferente, embora essa coisa esteja voltando. Mas ainda acho que os jovens eram mais radicais. Seu disco sai no formato digital, CD e vinil. Como você ouve música? Olha, eu não tenho toca-discos em casa. Eu fui burra, dei meus vinis todos quando apareceu o CD. Eu tinha os meus discos, tinha muita coisa. Agora tenho que voltar a comprar. Mas hoje eu ouço mesmo o que eu compro pela internet. Ouço num bom fone de ouvido. Adoro ouvir música assim. E você acha que dá pra medir o sucesso hoje? Claro que tocar no rádio ainda é importante. Mas hoje a repercussão online, imediata, é um termômetro. Você vê as pessoas comentando. Hoje todo mundo é crítico! Já li vários fãs que escreveram sobre meu disco. Algumas críticas boas até, outras nem tanto. E é ótimo pra saber como as pessoas reagem e todo mundo tem a liberdade pra escrever e dizer o que pensa. Então soma tudo: toca no rádio, aparece na TV e está na internet. E os shows do novo disco? Estamos começando a ensaiar agora para agosto. https://open.spotify.com/album/35wNcTbUyx2jaAILzJbzeo
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    EUA
1
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
2
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
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“Os jovens eram mais radicais na minha época”, diz Gal Costa

por em 28/05/2015
Por Marcos Lauro
Gal é uma cantora que gosta de arriscar. Com uma história ímpar na música brasileira, ela soube mudar os rumos da sua carreira de acordo com sua vontade e em vez de perder público, somou. Se no disco anterior, Recanto, Gal usou e abusou da música eletrônica, em Estratosférica ela se volta para o rock e sonoridades dançantes. A Billboard Brasil conversou com Gal Costa sobre o disco, os caminhos percorridos pela cantora e sobre a juventude de hoje x a dos anos 1970. Logo no comecinho do disco aparecem duas músicas de compositores pernambucanos (“Jabitacá”, de Lira, Junio Barreto e Bactéria, e “Estratosférica”, de Junio Barreto, Pupillo – com a Céu como parceira). Isso foi proposital? Não olhei pra isso. Eu olho pra canção, pra letra, se eu gosto ou não. “Estratosférica” eu encomendei. A gente estava fazendo as bases e queria algo com ritmo dançante. Pupillo [baterista da Nação Zumbi] falou que ia fazer e trouxe no dia seguinte. Quando gravamos as bases, Kassin disse que estava ouvindo uns sopros do Lincoln Olivetti, procurou ele e acabou sendo o último arranjo do Olivetti [o produtor morreu último dia 13 de janeiro]. “Jabitacá” fala de um lugar de Pernambuco e eu gravei porque achei bonita, mas não intencionalmente. A ideia do disco não é nem fazer uma continuação do Recanto, mas manter os jovens ligados ao meu trabalho. Na minha carreira houve grandes saltos e rupturas, mudanças e renovações de públicos e Recanto foi assim. Para esse, queria algo arrojado, ousado, mas mais palatável, não tão radical. E o disco ficou com esse gosto, esse frescor. Ele tem uma atmosfera das “Gals” que eu fui ao longo desses anos. Mas você acha que o Recanto foi uma experiência muito radical? Eu já tive tantos saltos radicais na vida. A fase tropicalista para o Cantar foi algo radical, radicalíssimo. Fui do rock para um disco belíssimo, que não foi entendido na época mas hoje é cultuado Quando eu fiz o Gal Tropical também foi um corte radicalíssimo na forma de me vestir, de cantar. E agora no Recanto também. Mas são momentos que acho importantes, enriquecem a minha carreira. Todos os artistas têm que passar por isso. Li coisas como “A Gal está tentando alcançar o público jovem”... então, não é exatamente isso. O público veio a mim. Espontaneamente. Eu só fui ao encontro dele. E no disco tem isso também, compositores jovens ao lado de Tom Zé, Milton, Caetano... Que também são compositores jovens! De alma e cabeça jovem. E é a primeira vez que você grava Guilherme Arantes, né [na faixa “Vou Buscar Você Pra Mim”]? Eu gosto muito dele, sempre tive vontade de gravar, mas nunca houve a oportunidade. E estava falando com Kassin por telefone e ele contou que estava indo ao show do Guilherme Arantes. Eu disse que gostava muito dele e o Kassin se ofereceu para pedir uma música. Falei pra ele pedir e aconteceu. O Kassin, pelo jeito, conseguiu costurar vários encontros para o disco. Sim, ele e o Marcus Preto [diretor artístico do disco]. O Marcus juntou o Criolo e o Milton para os shows que eles fizeram. Ele foi atrás do repertório também, ouvimos muita coisa juntos. Já o Kassin fez os encontros no estúdio, chamou os músicos, me trouxe a música do Lincoln Olivetti e do Rogê [“Muita Sorte”], muita coisa. Ter uma música num disco da Gal é meio que uma Seleção Brasileira, é estar num grupo seleto de compositores. Você sente esse peso, o que eles falam pra você? Eu ainda não estive com nenhum pessoalmente, mas vejo o que eles escrevem no Facebook. Sei que o Arthur Nogueira [parceiro de Antonio Cícero em “Sem Medo Nem Esperança”] e que a Mallu Magalhães escreveram... eu sei da importância pros compositores mais novos, mas isso também é bom pra mim. É bacana quando eu leio um texto da Mallu dizendo que é minha fã e que colecionava fotos e discos. É comovente poder retribuir isso. E nesse momento da minha vida é legal gravar esses jovens que se referenciam no meu trabalho, no tropicalismo... acho bacana, generoso, bonito. E são talentosos, não estou fazendo nenhum favor. A Mallu é a mais jovem do disco. Como conheceu o trabalho dela? Eu a vi cantar... acho que ela está muito melhor, está amadurecendo, cada dia melhor. E ela fez essa música [“Quando Você Olha Pra Ela”] que a gente levou pra um clima Jorge Benjor. E a voz feminina hoje, está bem representada no Brasil? Está sim. Tem ótimas cantoras e compositoras. A minha figura e a minha carreira ser tão rica se deram pelo fato de eu ter passado por vários momentos da história do Brasil. Minha figura mudou muito. Cabelo curtinho, depois black power, irreverente, depois voltei a me vestir de forma mais “normal”, comecei a usar salto alto, roupas mais comuns... então o que eu faço agora tem tudo a ver com a minha história. As mulheres se referenciam em mim porque tem uma riqueza de emblemas e de momentos. E é bacana eu ter gravado Marisa Monte, que espontaneamente me mandou uma música, a própria Mallu, Thalma de Freitas... eu nunca gravei tanta mulher como nesse disco [risos]. E você que já passou por todas essas fases, acha que a nossa sociedade anda muito conservadora? Eu acho que as pessoas, de uma maneira geral, são conservadoras, né? Até mesmo a juventude de hoje é mais conservadora do que a da minha época. Até na postura, na maneira de se vestir. Na minha época tinha os hippies... mas era muito uma linguagem daquele momento, né? Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Woodstock... aquilo tudo refletia no mundo inteiro. Hoje é diferente, embora essa coisa esteja voltando. Mas ainda acho que os jovens eram mais radicais. Seu disco sai no formato digital, CD e vinil. Como você ouve música? Olha, eu não tenho toca-discos em casa. Eu fui burra, dei meus vinis todos quando apareceu o CD. Eu tinha os meus discos, tinha muita coisa. Agora tenho que voltar a comprar. Mas hoje eu ouço mesmo o que eu compro pela internet. Ouço num bom fone de ouvido. Adoro ouvir música assim. E você acha que dá pra medir o sucesso hoje? Claro que tocar no rádio ainda é importante. Mas hoje a repercussão online, imediata, é um termômetro. Você vê as pessoas comentando. Hoje todo mundo é crítico! Já li vários fãs que escreveram sobre meu disco. Algumas críticas boas até, outras nem tanto. E é ótimo pra saber como as pessoas reagem e todo mundo tem a liberdade pra escrever e dizer o que pensa. Então soma tudo: toca no rádio, aparece na TV e está na internet. E os shows do novo disco? Estamos começando a ensaiar agora para agosto. https://open.spotify.com/album/35wNcTbUyx2jaAILzJbzeo