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Os Titãs (ainda querem) criar desordem

por em 16/10/2015
P
or Marcos Lauro
Um ano depois de lançar o disco de inéditas Nheengatu, os Titãs colocaram na praça o DVD Nheengatu Ao Vivo. Além das músicas do trabalho mais recente, alguns clássicos se juntaram ao repertório para reforçar a característica questionadora: a primeira música, “Fardado”, que também abre o CD, fala sobre a violência policial contra manifestantes – canção inspirada pelos eventos de 2013 em todo o país. Um desses clássicos presentes no DVD é “Desordem”, que praticamente dialoga com “Fardado”. O grupo, com 33 anos de estrada, ainda se esforça para levantar assuntos e tocar em feridas. Nesse sentido, sim, criar desordem. A Billboard Brasil conversou com Paulo Miklos e Branco Mello sobre esse “novo” Titãs (com quatro integrantes da formação original e um baterista convidado) e sobre seu repertório. Vocês vêm de uma turnê que comemorava o aniversário do disco Cabeça Dinossauro e só tinha clássicos. Agora, no Nheengatu Ao Vivo, tem as músicas novas, com um ou outro clássico no meio. Pra uma banda que já está há tanto tempo na estrada, como funciona esse diálogo de tocar clássicos ou coisas novas para o público? Paulo Miklos: Ah, nós sempre damos ênfase pras músicas novas. Pelo menos nesse primeiro momento, de lançamento, a gente tem ânsia de mostrar o que é novo, tem expectativa pelo impacto causado por elas e sempre forçamos a mão um pouco [risos]. A gente vai sempre pro excesso, melhor errar pra mais. São 33 anos de história, então podemos compor um setlist pra equilibrar. Mas o foco é sempre música nova. Traz vigor, um tônus novo, uma demonstração de vigor artístico, novas possibilidades etc. Isso tudo é vital pra gente. E o DVD é uma amostra disso. Inclusive a gente evitou tocar as músicas do Cabeça Dinossauro porque acabamos de trabalhar com ele. E foi difícil, porque é considerado um clássico. Branco Mello: E até que foi bem tranquilo, natural. O repertório do Neengatu é bem coeso e a gente teve tempo de amadurecer as músicas. Entre o Cabeça... e a gravação do Nheengatu, a gente fez uma turnê chamada Titãs Inédito, em que a gente tocava dez músicas – que já eram do Nheengatu. Ou seja, as músicas já tiveram uma vivência na estrada. Depois a gente compôs mais quatro e fechou o disco. No DVD entrou “Televisão”, “Lugar Nenhum”, “Massacre”... Foi um bom leque de opções. E escolhemos bem, modéstia à parte [risos]. E um DVD ao vivo com 33 anos de história? Qual a função dele nesse momento? De reforçar o repertório novo, mostrar que a banda ainda é potente no palco...? Miklos: Acho que é um pouco de tudo isso, sem dúvida. E a formação da banda é nova também, né? O DVD é uma prova disso: a formação nova está madura e a gente alcançou algo que foi planejado e batalhado, desde o [disco] Sacos Plásticos. A gente vinha num processo de se apoderar do que era nosso mesmo, assumir instrumentos, trazer novos arranjos, novas soluções. Então hoje eu tô na guitarra, o Branco Mello tá no baixo... E a gente está firme assim, já com as características dos Titãs. A gente deve avançar, mas a banda tem uma personalidade que independe dos integrantes. O que a gente consegue juntos é algo muito potente e já tem uma característica própria. No YouTube tem muitos vídeos antigos dos Titãs, da época do Fábrica do Som [programa da TV Cultura gravado no SESC Pompeia no começo dos anos 1980]. O que o Titãs desses vídeos tem em comum com o Titãs de hoje? Miklos: Eu acho que são os mesmos caras e a essência permanece. Essa coisa de buscar soluções surpreendentes... Essa coisa de usarmos as máscaras a essa altura [da carreira]. É algo que está em função do repertório novo, não é de graça. Naquele momento era a mesma atitude: o revezamento, todo mundo cantando, trocando de instrumentos... Isso ficou como uma característica. Hoje somos em quatro, mais o baterista convidado, Mario Fabre, que também se consolidou, a gente faz um trabalho de criação. O Mario entendeu perfeitamente e fez um caminho com a gente nos últimos três anos. Está sintonizadíssimo! Quando eu vejo essas imagens [antigas], eu percebo que está tudo ali. O que a gente é hoje já estava lá. Mello: Ali é o DNA mesmo, quando a gente estava se descobrindo: imagem, arranjos, linguagem etc. São influências muito diferentes entre nós. Esse momento de estreia, em 1982, tem esse significado e que a gente carrega até hoje. E a gente fez uma temporada de duas semanas no SESC Pompeia antes de gravar o DVD, tudo lotado. E foi muito legal, somos aquilo ali ainda. Só que, claro, com a experiência e a bagagem. A gente já não dá mais tanta cabeçada... O repertório do DVD é forte nas letras. Você acha que o termo “música de protesto” está desgastado? Miklos: Eu acho que talvez esteja. Mas pra gente é mais do que isso, é estar posicionado e tocar nos assuntos. A gente trata de temas como a violência contra a mulher, pedofilia, violência policial contra manifestantes... “Fardado” abre o DVD e o disco. Aí no DVD a gente foi fazer esse exercício que você falou, sobre buscar o passado. Então tem “Massacre”, “Pela Paz” e “Desordem”, por exemplo, que têm uma ligação muito forte com esse disco. Elas estão no DVD, misturadas com as músicas novas. A gente sempre procurou fazer uma crônica do nosso tempo, um questionamento, levantar assuntos e achar o ponto certo. Mello: Não sei se esse rótulo cabe pra gente, nunca pensei nesse sentido. A gente faz uma música que questiona, com temas difíceis, mas não é apenas protesto. Propõe coisas. Eu vou pensar a respeito desse termo [risos]. A gente toca em feridas que são difíceis de serem faladas. E o que você tem sentido do público? Há algum tempo houve uma polêmica entre a banda e a plateia de um show [em agosto, Miklos teria interrompido uma apresentação em Cuiabá depois de ouvir “Fora, Dilma!” da plateia]... Miklos: O retorno é fantástico. Agora a gente está vivendo esse momento polarizado, meio que inflado também pela mídia desde a última eleição, e aí ficou essa cultura do ódio. Virou uma paixão futebolística. E isso faz um mal tremendo para a discussão com argumentos, aprofundada. Será que a gente tem pensamentos diferentes mesmo? Existe esquerda, direita, ultra-direita... Está tudo aí. Mas até que ponto a gente tem isso claro? O que é uma atitude à direita? Então temos que discutir, mas com qualidade. Quando a coisa fica Fla x Flu, ninguém se aproxima e chega às soluções. Mello: Os Titãs como banda não têm partido. Mas as manifestações acontecem nos shows, isso é corriqueiro. Nem acho que tenha sido um incidente, acho que a internet deu uma aumentada. Eu mesmo, que estava no palco, mal reparei na hora. É normal. As pessoas conhecem os Titãs, sabem que a gente fala coisas no palco. Cada um interpreta do jeito que quiser.
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Os Titãs (ainda querem) criar desordem

por em 16/10/2015
P
or Marcos Lauro
Um ano depois de lançar o disco de inéditas Nheengatu, os Titãs colocaram na praça o DVD Nheengatu Ao Vivo. Além das músicas do trabalho mais recente, alguns clássicos se juntaram ao repertório para reforçar a característica questionadora: a primeira música, “Fardado”, que também abre o CD, fala sobre a violência policial contra manifestantes – canção inspirada pelos eventos de 2013 em todo o país. Um desses clássicos presentes no DVD é “Desordem”, que praticamente dialoga com “Fardado”. O grupo, com 33 anos de estrada, ainda se esforça para levantar assuntos e tocar em feridas. Nesse sentido, sim, criar desordem. A Billboard Brasil conversou com Paulo Miklos e Branco Mello sobre esse “novo” Titãs (com quatro integrantes da formação original e um baterista convidado) e sobre seu repertório. Vocês vêm de uma turnê que comemorava o aniversário do disco Cabeça Dinossauro e só tinha clássicos. Agora, no Nheengatu Ao Vivo, tem as músicas novas, com um ou outro clássico no meio. Pra uma banda que já está há tanto tempo na estrada, como funciona esse diálogo de tocar clássicos ou coisas novas para o público? Paulo Miklos: Ah, nós sempre damos ênfase pras músicas novas. Pelo menos nesse primeiro momento, de lançamento, a gente tem ânsia de mostrar o que é novo, tem expectativa pelo impacto causado por elas e sempre forçamos a mão um pouco [risos]. A gente vai sempre pro excesso, melhor errar pra mais. São 33 anos de história, então podemos compor um setlist pra equilibrar. Mas o foco é sempre música nova. Traz vigor, um tônus novo, uma demonstração de vigor artístico, novas possibilidades etc. Isso tudo é vital pra gente. E o DVD é uma amostra disso. Inclusive a gente evitou tocar as músicas do Cabeça Dinossauro porque acabamos de trabalhar com ele. E foi difícil, porque é considerado um clássico. Branco Mello: E até que foi bem tranquilo, natural. O repertório do Neengatu é bem coeso e a gente teve tempo de amadurecer as músicas. Entre o Cabeça... e a gravação do Nheengatu, a gente fez uma turnê chamada Titãs Inédito, em que a gente tocava dez músicas – que já eram do Nheengatu. Ou seja, as músicas já tiveram uma vivência na estrada. Depois a gente compôs mais quatro e fechou o disco. No DVD entrou “Televisão”, “Lugar Nenhum”, “Massacre”... Foi um bom leque de opções. E escolhemos bem, modéstia à parte [risos]. E um DVD ao vivo com 33 anos de história? Qual a função dele nesse momento? De reforçar o repertório novo, mostrar que a banda ainda é potente no palco...? Miklos: Acho que é um pouco de tudo isso, sem dúvida. E a formação da banda é nova também, né? O DVD é uma prova disso: a formação nova está madura e a gente alcançou algo que foi planejado e batalhado, desde o [disco] Sacos Plásticos. A gente vinha num processo de se apoderar do que era nosso mesmo, assumir instrumentos, trazer novos arranjos, novas soluções. Então hoje eu tô na guitarra, o Branco Mello tá no baixo... E a gente está firme assim, já com as características dos Titãs. A gente deve avançar, mas a banda tem uma personalidade que independe dos integrantes. O que a gente consegue juntos é algo muito potente e já tem uma característica própria. No YouTube tem muitos vídeos antigos dos Titãs, da época do Fábrica do Som [programa da TV Cultura gravado no SESC Pompeia no começo dos anos 1980]. O que o Titãs desses vídeos tem em comum com o Titãs de hoje? Miklos: Eu acho que são os mesmos caras e a essência permanece. Essa coisa de buscar soluções surpreendentes... Essa coisa de usarmos as máscaras a essa altura [da carreira]. É algo que está em função do repertório novo, não é de graça. Naquele momento era a mesma atitude: o revezamento, todo mundo cantando, trocando de instrumentos... Isso ficou como uma característica. Hoje somos em quatro, mais o baterista convidado, Mario Fabre, que também se consolidou, a gente faz um trabalho de criação. O Mario entendeu perfeitamente e fez um caminho com a gente nos últimos três anos. Está sintonizadíssimo! Quando eu vejo essas imagens [antigas], eu percebo que está tudo ali. O que a gente é hoje já estava lá. Mello: Ali é o DNA mesmo, quando a gente estava se descobrindo: imagem, arranjos, linguagem etc. São influências muito diferentes entre nós. Esse momento de estreia, em 1982, tem esse significado e que a gente carrega até hoje. E a gente fez uma temporada de duas semanas no SESC Pompeia antes de gravar o DVD, tudo lotado. E foi muito legal, somos aquilo ali ainda. Só que, claro, com a experiência e a bagagem. A gente já não dá mais tanta cabeçada... O repertório do DVD é forte nas letras. Você acha que o termo “música de protesto” está desgastado? Miklos: Eu acho que talvez esteja. Mas pra gente é mais do que isso, é estar posicionado e tocar nos assuntos. A gente trata de temas como a violência contra a mulher, pedofilia, violência policial contra manifestantes... “Fardado” abre o DVD e o disco. Aí no DVD a gente foi fazer esse exercício que você falou, sobre buscar o passado. Então tem “Massacre”, “Pela Paz” e “Desordem”, por exemplo, que têm uma ligação muito forte com esse disco. Elas estão no DVD, misturadas com as músicas novas. A gente sempre procurou fazer uma crônica do nosso tempo, um questionamento, levantar assuntos e achar o ponto certo. Mello: Não sei se esse rótulo cabe pra gente, nunca pensei nesse sentido. A gente faz uma música que questiona, com temas difíceis, mas não é apenas protesto. Propõe coisas. Eu vou pensar a respeito desse termo [risos]. A gente toca em feridas que são difíceis de serem faladas. E o que você tem sentido do público? Há algum tempo houve uma polêmica entre a banda e a plateia de um show [em agosto, Miklos teria interrompido uma apresentação em Cuiabá depois de ouvir “Fora, Dilma!” da plateia]... Miklos: O retorno é fantástico. Agora a gente está vivendo esse momento polarizado, meio que inflado também pela mídia desde a última eleição, e aí ficou essa cultura do ódio. Virou uma paixão futebolística. E isso faz um mal tremendo para a discussão com argumentos, aprofundada. Será que a gente tem pensamentos diferentes mesmo? Existe esquerda, direita, ultra-direita... Está tudo aí. Mas até que ponto a gente tem isso claro? O que é uma atitude à direita? Então temos que discutir, mas com qualidade. Quando a coisa fica Fla x Flu, ninguém se aproxima e chega às soluções. Mello: Os Titãs como banda não têm partido. Mas as manifestações acontecem nos shows, isso é corriqueiro. Nem acho que tenha sido um incidente, acho que a internet deu uma aumentada. Eu mesmo, que estava no palco, mal reparei na hora. É normal. As pessoas conhecem os Titãs, sabem que a gente fala coisas no palco. Cada um interpreta do jeito que quiser.