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“Perdi aquele tio mais chegado, sabe?”, diz André Christovam sobre B.B. King

por em 15/05/2015
E
m depoimento a Marcos Lauro
Eu soube da morte do B.B. King às 3h13. Estourou lá nos Estados Unidos por volta das 3h. Eu me lembro de cada segundo com o B.B King. E eu torci para esse sofrimento acabar logo. Ele me disse uma vez: "Deus nos dá até os 70 anos. O que a gente vive além disso é extra. Que ele me permita viver meus últimos momentos na estrada". E eu dava bronca nele. Perguntava: ‘Quantos shows você tá fazendo por ano?”. Ele me dizia: ‘Ah, 150...”. Pô, é mais do que qualquer músico jovem de blues. “Pega leve, “B.B. King!”. Na estrada ele sempre estava bem. Em casa, não. Eu falava pra ele pegar umas temporadas em qualquer cassino de Las Vegas, pra ficar uma coisa mais estável e tal... mas ele não queria. Ele queria a estrada. A primeira vez em que ouvi B.B. King foi em 1972, 1973. Meu professor de guitarra morou em Chicago. Era raro ter discos aqui... do B.B. King, então, nem vinha o disco pro Brasil. Ele me trouxe "Sweet Little Angel", gravada do rádio, e disse pra eu tirar na minha guitarra. Eu me encantei com aquilo. Aquilo era uma outra verdade. Tinha uma profundidade que os outros estavam tentando alcançar... mas ele já tinha essa assinatura, essa marca. Quando ele veio pro Brasil em 1980, eu enlouqueci. Fui a todos os shows, tinha ingresso pra tudo... e o som da guitarra ao vivo era melhor ainda. Eu cresci na Pompeia com Luiz Carlini [guitarrista da Tutti Frutti, entre outras bandas]e o  Sergio Dias [Os Mutantes], pô! Mas eu nunca tinha ouvido aquilo. Ao término de um dos shows ele não foi pro hotel. Eu tinha 20 anos e um amigo falsificou uma credencial pra eu entrar no backstage. E ele me recebeu com muito carinho. Me deu palheta, pôster, conversamos. Quando eu estava indo embora, ouvi um "onde você vai? Senta aqui!". Ele me convidou pro segundo show do dia. Para esse eu não tinha ingresso, mas ele me deu. Vi o show na primeira fila e a TV Cultura filmou. A câmera me mostra me dando um tapa na cara de tão ensandecido que eu estava. Eunão estava acreditando naquilo. Todo mundo brinca comigo até hoje por causa disso. Tempos depois fui pra Los Angeles. Ele me apresentou o Muddy Waters, Big Mama Thornton e pegou meus contatos. Em 1986 ele voltou pro Brasil. A partir desse momento, ele ficou amigo mesmo, próximo. Fiquei com ele durante toda a turnê. Eu tinha terminado com minha namorada na época e ele sentou comigo, me falou sobre como lidar com as mulheres na estrada. “Você sempre me diz que não tem como me pagar por tudo que eu te ensinei. Eu te digo: cuide bem dos seus. Se cuide bem. Tudo o que você fizer de bom pra você e pra sua música voltará pra mim”, ele me disse num dia. Em 1988, eu parei a gravação do meu disco pra acompanha-lo na turnê. Ele pediu. E estar com ele era muito divertido. Ele me contava podres do Eric Clapton... conversa de show, hotel, avião, sabe? E tem passagens absurdas. Num voo, o piloto trocou de lugar comigo no avião pra ficar do lado do B.B. King. Eu fui pra cabine e o piloto no meu lugar, na primeira fileira. B.B. King era o último bluesman vivo, da primeira geração. Tem ainda o Buddy Guy. Mas ele mesmo diz que B.B. mudou a sua vida. Perdi um parente. Aquele tio mais chegado, sabe? Eu não tinha a intenção de ficar tão triste com sua morte. Mas é a primeira vez na minha vida, desde que o conheço, em que ele não está aí. A última vez em que estivemos juntos por um longo tempo foi em 2004. Em cada noite ele convidou alguém pra abrir. Foi o Nuno Mindelis em um, eu no outro, o Marcos Ottaviano também... A gente fez uma matéria pra um jornal em que ele recebeu Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues, Jair Oliveira... foi uma mistura de entrevista, bate papo e show. Meu filho ficou no chão, tinha 2, 3 anos, e eu era o tradutor. B.B. deu uma palheta pro Daniel, que começou a tocar na barriga, sabe? Imitando e tal. Foi marcante. E o B.B. sempre perguntava do Daniel, queria saber como estava... Não dá pra dizer o tamanho da perda. Eu estava preocupado com a passagem dele...  e fico com os olhos cheios de lágrimas. Só tenho coisas boas pra contar. Ele era só doação. Nunca vi ninguém ficar na fila depois de um show sem ser atendido. Chegamos a atender 80 pessoas depois de um show. E a banda esperava, era uma família. O prazer de estar ali com ele tirava o cansaço. ----------------------------------- André Christovam é guitarrista, considerado um dos pais do blues no Brasil. Morre, aos 89 anos, a lenda do blues B.B. King De catador de algodão a lenda do Blues; conheça a trajetória de B. B. King Saiba como foi um dos últimos shows de B. B. King no Brasil “Eu sempre pensei que B.B. King fosse morrer no palco. O palco cura”, diz Nuno Mindelis
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“Perdi aquele tio mais chegado, sabe?”, diz André Christovam sobre B.B. King

por em 15/05/2015
E
m depoimento a Marcos Lauro
Eu soube da morte do B.B. King às 3h13. Estourou lá nos Estados Unidos por volta das 3h. Eu me lembro de cada segundo com o B.B King. E eu torci para esse sofrimento acabar logo. Ele me disse uma vez: "Deus nos dá até os 70 anos. O que a gente vive além disso é extra. Que ele me permita viver meus últimos momentos na estrada". E eu dava bronca nele. Perguntava: ‘Quantos shows você tá fazendo por ano?”. Ele me dizia: ‘Ah, 150...”. Pô, é mais do que qualquer músico jovem de blues. “Pega leve, “B.B. King!”. Na estrada ele sempre estava bem. Em casa, não. Eu falava pra ele pegar umas temporadas em qualquer cassino de Las Vegas, pra ficar uma coisa mais estável e tal... mas ele não queria. Ele queria a estrada. A primeira vez em que ouvi B.B. King foi em 1972, 1973. Meu professor de guitarra morou em Chicago. Era raro ter discos aqui... do B.B. King, então, nem vinha o disco pro Brasil. Ele me trouxe "Sweet Little Angel", gravada do rádio, e disse pra eu tirar na minha guitarra. Eu me encantei com aquilo. Aquilo era uma outra verdade. Tinha uma profundidade que os outros estavam tentando alcançar... mas ele já tinha essa assinatura, essa marca. Quando ele veio pro Brasil em 1980, eu enlouqueci. Fui a todos os shows, tinha ingresso pra tudo... e o som da guitarra ao vivo era melhor ainda. Eu cresci na Pompeia com Luiz Carlini [guitarrista da Tutti Frutti, entre outras bandas]e o  Sergio Dias [Os Mutantes], pô! Mas eu nunca tinha ouvido aquilo. Ao término de um dos shows ele não foi pro hotel. Eu tinha 20 anos e um amigo falsificou uma credencial pra eu entrar no backstage. E ele me recebeu com muito carinho. Me deu palheta, pôster, conversamos. Quando eu estava indo embora, ouvi um "onde você vai? Senta aqui!". Ele me convidou pro segundo show do dia. Para esse eu não tinha ingresso, mas ele me deu. Vi o show na primeira fila e a TV Cultura filmou. A câmera me mostra me dando um tapa na cara de tão ensandecido que eu estava. Eunão estava acreditando naquilo. Todo mundo brinca comigo até hoje por causa disso. Tempos depois fui pra Los Angeles. Ele me apresentou o Muddy Waters, Big Mama Thornton e pegou meus contatos. Em 1986 ele voltou pro Brasil. A partir desse momento, ele ficou amigo mesmo, próximo. Fiquei com ele durante toda a turnê. Eu tinha terminado com minha namorada na época e ele sentou comigo, me falou sobre como lidar com as mulheres na estrada. “Você sempre me diz que não tem como me pagar por tudo que eu te ensinei. Eu te digo: cuide bem dos seus. Se cuide bem. Tudo o que você fizer de bom pra você e pra sua música voltará pra mim”, ele me disse num dia. Em 1988, eu parei a gravação do meu disco pra acompanha-lo na turnê. Ele pediu. E estar com ele era muito divertido. Ele me contava podres do Eric Clapton... conversa de show, hotel, avião, sabe? E tem passagens absurdas. Num voo, o piloto trocou de lugar comigo no avião pra ficar do lado do B.B. King. Eu fui pra cabine e o piloto no meu lugar, na primeira fileira. B.B. King era o último bluesman vivo, da primeira geração. Tem ainda o Buddy Guy. Mas ele mesmo diz que B.B. mudou a sua vida. Perdi um parente. Aquele tio mais chegado, sabe? Eu não tinha a intenção de ficar tão triste com sua morte. Mas é a primeira vez na minha vida, desde que o conheço, em que ele não está aí. A última vez em que estivemos juntos por um longo tempo foi em 2004. Em cada noite ele convidou alguém pra abrir. Foi o Nuno Mindelis em um, eu no outro, o Marcos Ottaviano também... A gente fez uma matéria pra um jornal em que ele recebeu Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues, Jair Oliveira... foi uma mistura de entrevista, bate papo e show. Meu filho ficou no chão, tinha 2, 3 anos, e eu era o tradutor. B.B. deu uma palheta pro Daniel, que começou a tocar na barriga, sabe? Imitando e tal. Foi marcante. E o B.B. sempre perguntava do Daniel, queria saber como estava... Não dá pra dizer o tamanho da perda. Eu estava preocupado com a passagem dele...  e fico com os olhos cheios de lágrimas. Só tenho coisas boas pra contar. Ele era só doação. Nunca vi ninguém ficar na fila depois de um show sem ser atendido. Chegamos a atender 80 pessoas depois de um show. E a banda esperava, era uma família. O prazer de estar ali com ele tirava o cansaço. ----------------------------------- André Christovam é guitarrista, considerado um dos pais do blues no Brasil. Morre, aos 89 anos, a lenda do blues B.B. King De catador de algodão a lenda do Blues; conheça a trajetória de B. B. King Saiba como foi um dos últimos shows de B. B. King no Brasil “Eu sempre pensei que B.B. King fosse morrer no palco. O palco cura”, diz Nuno Mindelis