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Pierre Henry: Da experimentação eletrônica à trilha da animação Futurama

Músico e produtor Paulo Beto explica para a Billboard Brasil a importância da obra do francês que morreu na última semana

por Paulo Beto em 09/07/2017

No último dia 5 de junho de 2017 perdemos um dos nomes mais importantes da música experimental, Pierre Henry. Ele esteve no centro de uma grande revolução musical mundial que surgiu na França chamada Musique Concrète ou, no nosso idioma, Música Concreta.

Como um grande fã de psicodelia eletrônica sessentista, sempre me influenciei e me inspirei em seus trabalhos que dialogavam com o mundo pop. Quando conheci sua obra “Les Jerks Électroniques De La Messe Pour Le Temps Présent Et Musiques Croncrétes por Maurice Béjart (1967)” brinquei: vou dedicar a minha vida pra divulgar isso.

Vários trabalhos reconheço essa influência, especialmente o meu álbum Anvil Machine ou nessa minha performance utilizando o mesmo sintetizador que ele também usava, o EMS SYNTHI A:

Na RTF (Radiodiffusion Télévision Française), Pierre trabalhou no estúdio Club dÉssai fundado por Pierre Schäffer, seu parceiro, de 1949 a 1958. As pesquisas sonoras ali desenvolvidas tinham como ponto de partida a linha de pensamento que remonta os anos 1910 com o Manifesto Futurista da Música de Luigi Russolo, que anunciava uma nova era em que a música seria construída por ruídos. Dessa forma, ele previa o que se iniciaria em Paris no fim dos anos 1940 e mais tarde se tornaria popular com a invenção do sampler.

Mas que ferramentas eram usadas por Pierre Henry nessa época para manipular o ruído?

O microfone, que foi inventado por Thomas Edison em 1876, e o gravador. 

Inicialmente, a mídia para gravação eram os discos de cera (técnica mais rudimentar) e posteriormente os gravadores de fita magnética, ambos baseados em ciclos e velocidade de reprodução.

Observou-se que a mudança da velocidade da reprodução alterava a tonalidade e, quando usados de forma mais radical, poderiam transformar o som para resultados nunca antes ouvidos.

Sem dizer que os sons captados poderiam ser editados de forma intelectual de composição por meio de colagens e sobreposições 

O termo Música Concreta veio de um desafio proposto pelo teatrólogo Antonin Artaud questionando: o que seria o equivalente a Poesia Concreta na música?

Em meio a essa explosão de descobertas sonoras e filosóficas, estava lá Pierre Henry, que de uma maneira muito pessoal contribuiu com toda a estética.

Bem, você pode imaginar que esse conceito musical até hoje é questionado pelos tradicionalistas e foi execrado em sua época e precisou de muita defesa no meio acadêmico.

Como desafio, Henry, sob influência do compositor Oliver Messiaen, do qual foi aluno, adaptou para orquestração e escrita tradicional sua obra Concreta, em parceria com Schäffer, "Symphonie pour un Homme Seul (1950)".

Em contrapartida, a juventude moderna psicodélica europeia abraçou essas ideias musicais. Seus trabalhos começaram a chegar ao grande público por meio de suas parcerias com cineastas, a citar o curta Astrologie ou Le Miroir de la Vie (1952), do diretor Jean Grémilion, e coreógrafos importantes como Maurice Béjart, onde, em parceria com o maetro compositor de trilhas sonoras e arranjador Michel Colombier, que também trabalhou com Serge Gainsbourg, criou a obra “Les Jerks Électroniques De La Messe Pour Le Temps Présent Et Musiques Croncrétes por Maurice Béjart (1967)". Dessa obra saiu o tema "Psyché Rock”, que além ter sido remixada por Fatboy Slim, virou inspiração para o tema principal da animação de Matt Groening, "Futurama".

Henry não se fechou aos conceitos e as técnicas desenvolvidas na Música Concreta, mas de forma natural e sempre libertária, abraçou os recursos eletrônicos em sua música, e dessa forma tanto criou obras conceituais quanto interagiu muito com o rock, a disco e, posteriormente, com o techno. A obra de Henry faz parte da matriz de muitos estilos musicais que temos hoje em dia. Da ideia do sampler ao krautrock e rock experimental.

Conversando com o amigo, engenheiro acústico, professor na Unicamp e compositor de música eletroacustica José Augusto Mannis, que conheceu pessoalmente e foi aluno de Henry quando fez o curso de verão do Centre Acanthes na França, perguntei o que ele poderia dizer sobre o gênio que não se encontra nos livros e textos acadêmicos. Nas palavras de Mannis:

"Ele sempre me pareceu introspectivo e se expressava de maneira muito assertiva. Era como um urso: um manto suave e doce até o momento em que era provocado. Ficava longe das querelas musicais e institucionais. Montou seu próprio estúdio e fazia suas obras e concertos sem ter que dar satisfação a ninguém”.

Uma coisa que achei muito interessante e pertinente que Mannis me disse numa conversa informal é que Frank Zappa seria o representante simétrico de Henry.

Tenho muitos discos dele e os ouço sempre. Comprei tudo que pude encontrar, de LPs originais da época a CDs e relançamentos.

São até hoje discos muito inspiradores e que eu amo ter como referência musical. Tenho também um documentário em DVD chamado “The Art Of Sounds” dirigido por Franck Mallet e Eric Darmon, que pode ser assistido completo no YouTube:

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Paulo Beto é produtor e músico, conhecido pelo projeto Anvil FX, entre outros.

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3
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Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
Aquela Pessoa
Henrique & Juliano
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Pierre Henry: Da experimentação eletrônica à trilha da animação Futurama

Músico e produtor Paulo Beto explica para a Billboard Brasil a importância da obra do francês que morreu na última semana

por Paulo Beto em 09/07/2017

No último dia 5 de junho de 2017 perdemos um dos nomes mais importantes da música experimental, Pierre Henry. Ele esteve no centro de uma grande revolução musical mundial que surgiu na França chamada Musique Concrète ou, no nosso idioma, Música Concreta.

Como um grande fã de psicodelia eletrônica sessentista, sempre me influenciei e me inspirei em seus trabalhos que dialogavam com o mundo pop. Quando conheci sua obra “Les Jerks Électroniques De La Messe Pour Le Temps Présent Et Musiques Croncrétes por Maurice Béjart (1967)” brinquei: vou dedicar a minha vida pra divulgar isso.

Vários trabalhos reconheço essa influência, especialmente o meu álbum Anvil Machine ou nessa minha performance utilizando o mesmo sintetizador que ele também usava, o EMS SYNTHI A:

Na RTF (Radiodiffusion Télévision Française), Pierre trabalhou no estúdio Club dÉssai fundado por Pierre Schäffer, seu parceiro, de 1949 a 1958. As pesquisas sonoras ali desenvolvidas tinham como ponto de partida a linha de pensamento que remonta os anos 1910 com o Manifesto Futurista da Música de Luigi Russolo, que anunciava uma nova era em que a música seria construída por ruídos. Dessa forma, ele previa o que se iniciaria em Paris no fim dos anos 1940 e mais tarde se tornaria popular com a invenção do sampler.

Mas que ferramentas eram usadas por Pierre Henry nessa época para manipular o ruído?

O microfone, que foi inventado por Thomas Edison em 1876, e o gravador. 

Inicialmente, a mídia para gravação eram os discos de cera (técnica mais rudimentar) e posteriormente os gravadores de fita magnética, ambos baseados em ciclos e velocidade de reprodução.

Observou-se que a mudança da velocidade da reprodução alterava a tonalidade e, quando usados de forma mais radical, poderiam transformar o som para resultados nunca antes ouvidos.

Sem dizer que os sons captados poderiam ser editados de forma intelectual de composição por meio de colagens e sobreposições 

O termo Música Concreta veio de um desafio proposto pelo teatrólogo Antonin Artaud questionando: o que seria o equivalente a Poesia Concreta na música?

Em meio a essa explosão de descobertas sonoras e filosóficas, estava lá Pierre Henry, que de uma maneira muito pessoal contribuiu com toda a estética.

Bem, você pode imaginar que esse conceito musical até hoje é questionado pelos tradicionalistas e foi execrado em sua época e precisou de muita defesa no meio acadêmico.

Como desafio, Henry, sob influência do compositor Oliver Messiaen, do qual foi aluno, adaptou para orquestração e escrita tradicional sua obra Concreta, em parceria com Schäffer, "Symphonie pour un Homme Seul (1950)".

Em contrapartida, a juventude moderna psicodélica europeia abraçou essas ideias musicais. Seus trabalhos começaram a chegar ao grande público por meio de suas parcerias com cineastas, a citar o curta Astrologie ou Le Miroir de la Vie (1952), do diretor Jean Grémilion, e coreógrafos importantes como Maurice Béjart, onde, em parceria com o maetro compositor de trilhas sonoras e arranjador Michel Colombier, que também trabalhou com Serge Gainsbourg, criou a obra “Les Jerks Électroniques De La Messe Pour Le Temps Présent Et Musiques Croncrétes por Maurice Béjart (1967)". Dessa obra saiu o tema "Psyché Rock”, que além ter sido remixada por Fatboy Slim, virou inspiração para o tema principal da animação de Matt Groening, "Futurama".

Henry não se fechou aos conceitos e as técnicas desenvolvidas na Música Concreta, mas de forma natural e sempre libertária, abraçou os recursos eletrônicos em sua música, e dessa forma tanto criou obras conceituais quanto interagiu muito com o rock, a disco e, posteriormente, com o techno. A obra de Henry faz parte da matriz de muitos estilos musicais que temos hoje em dia. Da ideia do sampler ao krautrock e rock experimental.

Conversando com o amigo, engenheiro acústico, professor na Unicamp e compositor de música eletroacustica José Augusto Mannis, que conheceu pessoalmente e foi aluno de Henry quando fez o curso de verão do Centre Acanthes na França, perguntei o que ele poderia dizer sobre o gênio que não se encontra nos livros e textos acadêmicos. Nas palavras de Mannis:

"Ele sempre me pareceu introspectivo e se expressava de maneira muito assertiva. Era como um urso: um manto suave e doce até o momento em que era provocado. Ficava longe das querelas musicais e institucionais. Montou seu próprio estúdio e fazia suas obras e concertos sem ter que dar satisfação a ninguém”.

Uma coisa que achei muito interessante e pertinente que Mannis me disse numa conversa informal é que Frank Zappa seria o representante simétrico de Henry.

Tenho muitos discos dele e os ouço sempre. Comprei tudo que pude encontrar, de LPs originais da época a CDs e relançamentos.

São até hoje discos muito inspiradores e que eu amo ter como referência musical. Tenho também um documentário em DVD chamado “The Art Of Sounds” dirigido por Franck Mallet e Eric Darmon, que pode ser assistido completo no YouTube:

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Paulo Beto é produtor e músico, conhecido pelo projeto Anvil FX, entre outros.