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Por quê, depois de Elis Regina, nada mais foi como antes?

por em 08/05/2015
Juli
o Maria Elis Regina - Nada Será Como Antes Master Books Por Lucas Borges Teixeira Teorizar Elis Regina seria uma bobagem. Classificá-la seria tão clichê e inútil quanto chamá-la de "inclassificável". De personalidade forte, controversa e cheia de particularidades, a gaúcha era muito mais do que a maior cantora da história do país. É exatamente por isso que chega em boa hora - no ano em que completaria 70 anos - a biografia Elis Regina - Nada Será Como Antes (Ed. Master Books), do jornalista Julio Maria, d'O Estado de S. Paulo. Narrado de forma cronológica, o livro esmiúça a vida da cantora ano a ano, caso a caso, disco a disco. Elis passou por este planeta como um pequeno e bravo tornado. Embora tenha morrido jovem, aos 36 anos, sua vida foi intensa: aos 20, já apresentava um dos programas de TV de maior sucesso no país. Ela fugia tanto do clichê que não pode se dizer que teve uma trajetória cheia de altos e baixos. Pelo contrário, esteve mais para constante ascensão. Nascida no Rio Grande do Sul, Elis penou para se tornar a estrela como é vista hoje. Sem ter muita voz no repertório dos primeiros discos, a cantora renegou-os para sempre. Mas, dos sucessos de "Upa, Neguinho" e "Arrastão", no meio dos anos 60, para frente, não teve mais volta: ela estaria entre as principais figuras do país até a sua morte. Os altos e baixos ficavam por conta de sua vida pessoal. Adepta aos exageros, a cantora vivia todos os seus momentos com a intensidade que se dedicava ao palco. Depois de um casamento conturbado e marcado por traições com Ronaldo Bôscoli, pai do seu primeiro filho e um de seus maiores produtores, Elis teve um relacionamento duradouro e também frutífero musicalmente com Cesar Camargo Mariano, pai de dois outros filhos. Tudo na vida da baixinha girava em torno da música e de seu sucesso. Tudo era extremo: quem ela amava, cuidava e protegia, mas de quem ela não gostava... Sem tomar partido ou moralizar, o autor narra de forma neutra os principais episódios da vida de Elis. Insegura e possessiva, ela não aceitava muito bem o sucesso alheio (especialmente feminino) e fazia o que podia para enfrentar as "concorrentes". Ela teve desavenças com quase todos os nomes femininos famosos da música nacional: Maysa, Nara Leão, Nana Caymmi, Beth Carvalho... Algumas vezes por pura briga de ego, outras por motivos inexplicáveis: ao ver que uma jovem cantora chamada Claudia poderia chamar atenção quando ela estava no auge da TV com O Fino da Bossa, Elis a humilhou em rede nacional, o que fez com que caísse no esquecimento. Muitas vezes, era difícil saber se era arrogância ou apenas falta de sensibilidade com o ego alheio, mas o fato é que Elis Regina não se importava em pisar nos calos quando a assunto era música. Seja ao pedir para o Cartola (!) corrigir erros de português em sua música, para que ela pudesse gravar, ou na hora de inflar o peito e regravar músicas já conhecidas na voz de outras cantoras "para mostrar como se faz". Pouco importa: o país parava para ouvir o que Elis Regina viesse a apresentar. Ter uma música gravada por ela era o sonho e a glória para qualquer jovem compositor da época. Não à toa, ela faria sucesso com versões de todos os grandes compositores da música brasileira até então: Tom, Chico, Gil, Caetano, Roberto Carlos, Edu Lobo, Caymmi, Milton e por aí vai. Também seria ela a madrinha de diversos nomes conhecidos hoje, como Jair Rodrigues, Ivan Lins, João Bosco, Fagner e Belchior. A obra não morde nem assopra: relata. A entrada da cantora no vício da cocaína, algo que abominou a vida inteira, mas que levou à sua morte, no início de 1982, é tratada com clareza. Durante os shows e gravações de "Trem Azul", a cantora apresentava-se visivelmente abalada pelo uso do pó. Também com serenidade foi tratada as idas e vindas da cantora com a ditadura militar. Hoje símbolo da anistia com "O Bêbado E A Equilibrista", Elis já chegou a tocar em um programa promovido pelo regime. Não por gosto, mas por medo. Julio Maria não foge das polêmicas, algo particularmente raro em biografias e cinebiografias tupiniquins. Mas não é nelas que o livro se apoia, muito pelo contrário: aí mora a complexidade e grandeza da obra. Fica claro o trabalho incessante do jornalista, que conseguiu descobrir até o nome do taxista que levou a cantora ao hospital no dia de sua morte, e do escritor, que transformou toda a história em um bloco de mais de 400 páginas narrado como um romance. A riqueza de detalhes e a forma intensa como os fatos são apresentados não trazem o peso que outros trabalhos do gênero carregam - é uma lição para quem pensa começar a escrever. Reconhecida internacionalmente, a figura da gaúcha finalmente encontrou uma obra que a retratasse como um todo. A biografia mostra que, praticamente durante duas décadas, a música brasileira girou em torno de Elis Regina. Daí, inclusive, a força do título, tirado de uma linda música de Milton Nascimento: depois que a gauchinha ganhou os holofotes, nada mais foi como antes.
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3
Saudade
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4
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5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
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Por quê, depois de Elis Regina, nada mais foi como antes?

por em 08/05/2015
Juli
o Maria Elis Regina - Nada Será Como Antes Master Books Por Lucas Borges Teixeira Teorizar Elis Regina seria uma bobagem. Classificá-la seria tão clichê e inútil quanto chamá-la de "inclassificável". De personalidade forte, controversa e cheia de particularidades, a gaúcha era muito mais do que a maior cantora da história do país. É exatamente por isso que chega em boa hora - no ano em que completaria 70 anos - a biografia Elis Regina - Nada Será Como Antes (Ed. Master Books), do jornalista Julio Maria, d'O Estado de S. Paulo. Narrado de forma cronológica, o livro esmiúça a vida da cantora ano a ano, caso a caso, disco a disco. Elis passou por este planeta como um pequeno e bravo tornado. Embora tenha morrido jovem, aos 36 anos, sua vida foi intensa: aos 20, já apresentava um dos programas de TV de maior sucesso no país. Ela fugia tanto do clichê que não pode se dizer que teve uma trajetória cheia de altos e baixos. Pelo contrário, esteve mais para constante ascensão. Nascida no Rio Grande do Sul, Elis penou para se tornar a estrela como é vista hoje. Sem ter muita voz no repertório dos primeiros discos, a cantora renegou-os para sempre. Mas, dos sucessos de "Upa, Neguinho" e "Arrastão", no meio dos anos 60, para frente, não teve mais volta: ela estaria entre as principais figuras do país até a sua morte. Os altos e baixos ficavam por conta de sua vida pessoal. Adepta aos exageros, a cantora vivia todos os seus momentos com a intensidade que se dedicava ao palco. Depois de um casamento conturbado e marcado por traições com Ronaldo Bôscoli, pai do seu primeiro filho e um de seus maiores produtores, Elis teve um relacionamento duradouro e também frutífero musicalmente com Cesar Camargo Mariano, pai de dois outros filhos. Tudo na vida da baixinha girava em torno da música e de seu sucesso. Tudo era extremo: quem ela amava, cuidava e protegia, mas de quem ela não gostava... Sem tomar partido ou moralizar, o autor narra de forma neutra os principais episódios da vida de Elis. Insegura e possessiva, ela não aceitava muito bem o sucesso alheio (especialmente feminino) e fazia o que podia para enfrentar as "concorrentes". Ela teve desavenças com quase todos os nomes femininos famosos da música nacional: Maysa, Nara Leão, Nana Caymmi, Beth Carvalho... Algumas vezes por pura briga de ego, outras por motivos inexplicáveis: ao ver que uma jovem cantora chamada Claudia poderia chamar atenção quando ela estava no auge da TV com O Fino da Bossa, Elis a humilhou em rede nacional, o que fez com que caísse no esquecimento. Muitas vezes, era difícil saber se era arrogância ou apenas falta de sensibilidade com o ego alheio, mas o fato é que Elis Regina não se importava em pisar nos calos quando a assunto era música. Seja ao pedir para o Cartola (!) corrigir erros de português em sua música, para que ela pudesse gravar, ou na hora de inflar o peito e regravar músicas já conhecidas na voz de outras cantoras "para mostrar como se faz". Pouco importa: o país parava para ouvir o que Elis Regina viesse a apresentar. Ter uma música gravada por ela era o sonho e a glória para qualquer jovem compositor da época. Não à toa, ela faria sucesso com versões de todos os grandes compositores da música brasileira até então: Tom, Chico, Gil, Caetano, Roberto Carlos, Edu Lobo, Caymmi, Milton e por aí vai. Também seria ela a madrinha de diversos nomes conhecidos hoje, como Jair Rodrigues, Ivan Lins, João Bosco, Fagner e Belchior. A obra não morde nem assopra: relata. A entrada da cantora no vício da cocaína, algo que abominou a vida inteira, mas que levou à sua morte, no início de 1982, é tratada com clareza. Durante os shows e gravações de "Trem Azul", a cantora apresentava-se visivelmente abalada pelo uso do pó. Também com serenidade foi tratada as idas e vindas da cantora com a ditadura militar. Hoje símbolo da anistia com "O Bêbado E A Equilibrista", Elis já chegou a tocar em um programa promovido pelo regime. Não por gosto, mas por medo. Julio Maria não foge das polêmicas, algo particularmente raro em biografias e cinebiografias tupiniquins. Mas não é nelas que o livro se apoia, muito pelo contrário: aí mora a complexidade e grandeza da obra. Fica claro o trabalho incessante do jornalista, que conseguiu descobrir até o nome do taxista que levou a cantora ao hospital no dia de sua morte, e do escritor, que transformou toda a história em um bloco de mais de 400 páginas narrado como um romance. A riqueza de detalhes e a forma intensa como os fatos são apresentados não trazem o peso que outros trabalhos do gênero carregam - é uma lição para quem pensa começar a escrever. Reconhecida internacionalmente, a figura da gaúcha finalmente encontrou uma obra que a retratasse como um todo. A biografia mostra que, praticamente durante duas décadas, a música brasileira girou em torno de Elis Regina. Daí, inclusive, a força do título, tirado de uma linda música de Milton Nascimento: depois que a gauchinha ganhou os holofotes, nada mais foi como antes.